14 novembro 2013

Conversas com ele


I
- Ah! Mãe! Já demos o sistema reprodutor.
- Ai sim? Então e o que explicou a professora?
- Disse que as meninas têm faringe...


II
- Mãe, tenho dificuldade nas palavras da família em inglês.
- Ah! Então?! É fácil! “Aunt” é tia, “uncle” é tio, “cousin” é primo...
- Oh! Já sei. Vou escrever na mão.
- Ó Tiago. Não podes fazer isso. A professora vê e anula-te o teste.
- Achas?! Copio, depois peço para ir à casa-de-banho e lavo...


III
- Mãe, dás-me 2 euros para comprar um porta-chaves lá na escola?
- Na escola? Mas estão a vender lá coisas?
- Sim, estão lá umas barraquinhas. Hoje até comprei uma bandoleta para a Mariana. Custou 1 euro.
- 1 euro? Mas como é que arranjaste o dinheiro?
- Olha vendi cromos do futebol repetidos a 15 cêntimos...

13 novembro 2013

Olha

Quando me perguntares
“O que queres que te dê pelo Natal?”
não acredites no “não sei...”
e, muito menos, no “nada”.
Não ouças sequer aquilo que disser e repetir,
deixando a frase vaga,
imaginando-a pendurada em montras de lojas, estantes, caixas, sacos de papel ou outras embalagens brilhantes, de tamanhos diversos.
Faz a pergunta outra vez. Não perguntes o que quero ter.
Tenho tudo.
Quero só ser sempre mais. Mais feliz.

07 novembro 2013

De mim comigo

Os anos passam. Da adolescência para os 20, dos 20 para os 30. De miúda a mãe, de estudante a empregada por conta de outrem, dos diários aos blogues, de Aveiro para Lisboa, de uma vida para outra melhor. Muda-se. Mudam-nos. Mas, sempre que isto acontece, o meu dia deixa de ser dia e é coisa estranha, intensa, antiga, que dá cabo de mim. A cidade fora do lugar. A estação do ano no mês errado. O mundo em contramão.

05 novembro 2013

20 coisas que eu quero que o meu filho
saiba até ao Natal até ao final do ano sempre

#17


O meu avô Júlio fez 90 anos. É o único avô que tenho, apesar de às vezes me parecer que ainda ontem tinha os 4. Tenho um pensamento muito presente, muito recente, de conversar na escola com as amigas e dizer, orgulhosamente, que tinha os 4 avós comigo. Devia ter perto de 10 anos, porque foi nessa idade que perdi o meu avô Manuel, pai da minha mãe, de quem guardo memórias muito intensas mas tão triviais.
O meu avô Manuel era pescador e caçador, um homem alto e rigoroso, que não admitia conversas durante a hora do telejornal, que era sagrada. Uma vez o meu avô preparava as canas, linhas e anzóis para mais uma manhã de pesca e não sei como – a minha memória não chega a esse detalhe – um anzol prendeu-se no meu dedo. Às vezes olho para o meu indicador direito e quase juro que vejo lá uma pintinha, a marca desse momento, apesar de já nem saber, na verdade, qual foi o dedo acidentado.
O meu avô tinha muitos cães de caça que soltava ao domingo, já de espingarda no ombro. Os cães do meu avô tinham nomes que eram números, mais precisamente do dia em que tinham nascido ou chegado lá a casa. Havia o 31, o 13... O meu avô morreu muito novo, numa doença tão rápida, que entre aparecer e desaparecer, pareceu um instante, como se ninguém tivesse tido tempo sequer de reagir.

Lembro muito bem da última vez que o vi, no hospital, extremamente magro e debilitado. Lembro de não querer ver, como se soubesse, nos meus 10 anos, que aqueles minutos me iriam marcar para sempre. Como se pedisse à minha memória para não guardar aquela imagem, como se fosse possível substituí-la por outra imagem qualquer, por aquela do anzol preso no meu dedo, por exemplo. Ou pelos passeios de domingo à tarde: os quatro netos no carro do avô e o avô a acelerar nas lombas para dar aquela impressão esquisita no estômago que todos adorávamos. Ou quando o avô dizia que o piquenique para o passeio ia dentro do bolso. Ou quando fomos almoçar fora e todos recebemos os pratos pedidos e a comida do avô nunca chegou a aparecer. Ou quando era inverno e, na hora de deitar, o avô dobrava três ou quatro cobertores muito grossos e nos tapava com eles, quase nos sufocando de tanto peso e tanto calor. Ou mesmo quando o avô ralhava connosco e mostrava o cinto das calças numa tentativa frustrada de ser ameaçador.
Ou, então, substituir aquela imagem pela do baloiço que o avô uma vez fez no pátio, com uma tábua de madeira e duas cordas. Ou pelo cheiro das sopas de leite com pão que o avô jantava muitas vezes. Ou pelos passeios de cicloturismo lá da terra em que o avô ia sempre na sua bicicleta de corrida. Ou pelo som da sua voz que ainda reconheço. Ou, até, pelo carro de capota de plástico que o avô comprou para passear com os netos e fez com ele tão poucos quilómetros... Ou, ainda melhor, pelas notas de 100 escudos azuis com o Bocage a que eu chamava “o homem do telefone” por me parecer que a sua mão, a segurar a cabeça, era de quem falava ao telefone. Notas que não trocava por nenhuma outra que o avô me oferecesse, com o dobro ou o triplo do valor.
Ou trocar aquela imagem por uma outra qualquer, de um qualquer dia, tempo, momento, verdadeiro ou deturpado pela memória, toda e qualquer coisa, menos aquela, do avô no hospital, tão magro, tão fraco, tão pouco o meu avô. Todas as memórias em vez daquela do avô a morrer.

Ontem telefonei ao meu avô Júlio, a dar os parabéns pelos seus 90 anos. Quando desliguei o telemóvel, depois da breve conversa com ele, o Tiago perguntou “O Avô Júlio tem facebook?”. Eu soltei, de imediato, uma gargalhada e o meu filho explicou: “Era para eu lhe dar os parabéns...”.

O meu Avô Júlio, com os seus 90 anos, tem telemóvel, sport tv, ainda conduz de quando em vez, vive sozinho, lê o jornal de notícias todos os dias, tem a caligrafia mais bonita que alguma vez vi e nunca se esquece de dar os parabéns à família, mesmo que este ano até me tenha telefonado um dia antes do meu aniversário. O meu avô tem 90 anos e uma vida cheia de trabalho, mas também de viagens, de vitórias do seu/nosso clube do coração, de histórias e de amigos. E não, não tem facebook. Talvez para o ano o Tiago já lhe escreva os Parabéns no mural, entretanto o que eu quero que o Tiago saiba é que:




* Os netos são a ligação dos avós com o futuro. Os avós são a ligação dos netos com o passado.

04 novembro 2013

Se eu fosse

um Comunicado à Imprensa

Os “Refúgios de Felicidade” comemoraram há 3 meses 8 anos de existência. Ao longo deste tempo houve alturas de grande produtividade e de algumas paragens. Passaram-se por épocas tranquilas e por períodos bem negros. Dicotomias e diversidades que sempre pautaram a minha escrita e os meus textos, por aqui.

Este blogue é feito mais da minha imaginação do que da minha vida, confundindo-se uma com a outra e vice-versa. Apesar disso, aqui nunca faltou verdade e mesmo dentro das metáfora existe sempre um pedaço do que sou ou do que mostro ou do que quero ser ou do que tento diariamente. Nunca, em tempo algum, usei este endereço para outro fim que não a escrita simples e despreocupada, numa espécie de compromisso comigo de não deixar de mexer nas palavras e nas ideias. Nunca em tempo algum me escondi, usei máscaras ou disfarces. Arrisco que muito mais de metade dos que me leiam sabem quem sou, mesmo nos tempos em que assinava como Beguinha em vez de AR, iniciais do meu verdadeiro nome. Nunca foi, nem nunca será, minha preocupação esconder a minha identidade ou abafá-la, porque nunca este sítio serviu para ofender alguém, atacar alguém, levantar suspeições sobre alguém. Aqui sempre se falou de tudo encabeçado pelo “eu”, num assumir franco das minhas fragilidades e dos refúgios mais simples da minha felicidade.

Para estes Refúgios tenho sempre muitas ideias, muita vontade e pouca concentração. O tempo a mais ou os dias a menos dispersam-me...
Na história do blogue junta-se a história de vida do meu filho, aos olhos do que sou e do que me tornei. Este espaço será sempre dele e para ele, um diário de bordo, um esconderijo de memórias. Por isso é que continua. Sempre a merecer mais, melhor. Sempre a perguntar quando volto, quando despejo da pasta de rascunhos tantos textos, à primeira vez, impublicáveis. Sem promessas, quase sem regras, sem datas nem horários, sem prazos nem contagens...
Continuamos a cruzar-nos aqui.

08 agosto 2013

06 agosto 2013

Coisas das saudades



As saudades cheiram a espuma do banho. Têm a cor da tua pele, da marca dos calções da praia a meio da coxa. Sabem a bolachas com pepitas de chocolate espalhadas no sofá, entre as almofadas da sala, nas juntas dos mosaicos do chão.

As minhas saudades são feitas de abraços, de beijos lambuzados pelas tuas bochechas e pelas tuas mãos - pequeninas, redondas, morenas. As saudades cantarolam comigo os genéricos dos programas que vês no teu canal da tv.
Fazem-me rir com algumas frases disparatadas. Apertam o peito numa falta sem fim. Lembram momentos maus, de confitos e ralhetes, de birras e choros.

As saudades tornam-me refém dos castigos, das palavras erradas nos momentos incertos. As saudades chegam e minam tudo ao redor. Pesam no silêncio. Nos ombros ou no colo. Falam baixinho junto ao ouvido. Fazem cócegas no pescoço. Ficam.

As saudades de hoje querem-te bem. A aproveitar os dias como se fossem únicos. A viajar comigo mesmo longe, deste lado do mar.
As saudades amanhã serão piores. Falarão mais alto, soprando-me nos cabelos e abrindo-me os olhos à força.

Não há nada pior do que temer as saudades. Não as deixar chegar... não as dizer.
Depois, quando voares, quando voltares, as saudades serão lembrança e as saudades serão vontade... de as matar.


Ilustração

29 julho 2013

O meu filho em 8 pontos
a escassas semanas de ter 8 anos



1. Ao final da tarde, entre a escola e casa, digo-lhe no carro: “Tive saudades tuas durante o dia” e ele diz: “Eu não. Ainda esta manhã te vi!”

2. É doente pelo Benfica. Sabe nomes completos, peso e altura de jogadores da 3ª divisão distrital. Insiste que o golo do Moutinho estava fora de jogo e, com a mania que é o Gabriel Alves da era moderna, diz enquanto joga psp: “Grande auto-golo!”

3. Pergunta-me muitas vezes porque é que de vez em quando tem a pilinha mole e outras vezes... nem por isso.

4. Acha que a Clara de Sousa, no Jornal da Noite, é que determina o tempo que vai estar no dia seguinte, quando “coloca” no mapa sol, chuva, nuvens, etc.

5. Descobriu o youtube e ouve charadas ao governo e canções com piadas futebolísticas, para além de Tony Carreira, José Cid e Tonicha.

6. Dorme rodeado de uns 8 ou 9 bonecos, colocados em redor do corpo e da cabeça, preocupando-se se estão tapados e confortáveis.

7. É mais conhecido no bairro onde vivemos do que o Padre, falando com toda a gente como se fossem velhos amigos.

8. É cada dia mais crescido, mais bonito, mais divertido, mais inesperado e mais meu.



Ilustração