Um programa de tv
Há um par de anos eu era seguidora fiel, dedicada e vidrada na série Anatomia de Grey e a Izzie Stevens (representada pela atriz Katherina Heighel) era, durante o tempo em que a personagem existiu, a minha preferida.
Essa, como tantas outras coisas, não se explicam, achava eu que aquela era a personagem que mais me dava ou mais de mim tirava.
Lembro perfeitamente da primeira vez que vi a "Anatomia de Grey". Apanhei por acaso na televisão num domingo à tarde e era mesmo o primeiro de todos os episódios. A partir daí adotei aquele hospital e aquelas personagens como uma parte da minha rotina e confundi trechos daquelas vidas misturados em episódios da minha. Guardo, religiosamente, os dvd's com as temporadas que vi e sei citar partes e contar a trama, descrevendo os personagens como se tudo tivesse acontecido aqui e no dia de ontem.
Agora, ao escrever estas palavras, cresce em mim uma vontade avassaladora de recuperar o tempo perdido e ver as dezenas de episódios das últimas temporadas que perdi. Voltando a sentir-me de bata branca e estetoscópio ao pescoço salvando vidas alheias no último segundo.
Só que apesar de ter deixado a série, só que apesar da “Izzie” já nem entrar nela e surgir agora em filmes de qualidade duvidosa que dão em canais generalistas ao domingo à tarde, há um episódio que nunca mais me largará ou que eu nunca mais largarei. Melhor: um pequeno momento de um singelo episódio entre mais de 200 que a série neste momento tem.
Lá pela temporada 3, Izzie perde o seu namorado (paciente que se torna namorado sem nunca saírem do hospital), numa morte trágica que qualquer seguidor da série conhece. Para lidar com o luto – ou para não lidar com o luto – Izzie começa a fazer muffins, tabuleiros e tabuleiros de muffins, dezenas de muffins, centenas de muffins. Muffins que enchem a cozinha, a sala, a casa toda, o hospital, o bar ao lado, que enchem os cenários, os ecrãs e os personagens … de muffins.
Nesse tempo, eu também precisava de lidar com as coisas – eu também precisava de não lidar com as coisas. Então, comecei a fazer bolos. Bolos de chocolate, de laranja, de cenoura. Bolos de fim de semana. Bolos-de-não-lidar-com-as-coisas. Bolos para dispersar o tempo: Procurar a receita. Juntar os ingredientes. Agir. Mexer com a colher de pau. Envolver. Gastar energia. Preparar a forma. Ligar o forno. Lavar a louça. Vigiar a cozedura. Desenformar. Provar.
Os meus bolos encheram tardes de fins de semana, encheram tempo dentro de vazios, encheram amarguras em fatias.
Eu e a Izzie também tivemos o momento em que saímos da cozinha. Desligámos o forno. Parámos de encher os outros com as nossas falhas em fatias ou em pequenos muffins.
Eu e a Izzie soubemos que há um momento para lidar mesmo, definitivamente, francamente, com as coisas. Ela voltou ao hospital, retomou o seu trajeto conforme o guião. Eu aprendi que viver é tomar decisões e que ser feliz é uma escolha só nossa. Eu aprendi a lidar com as coisas sempre, sejam elas quais forem, sem lumes brandos ou falsas esperanças em entidades do acaso. Eu fiquei a saber que isto dos dias é dar e agarrar, é encontrar e recuperar, é esperar sempre o melhor dentro do pior. Então, não há fim de semana em que não faça um bolo.

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