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28 novembro 2013
Coisas da tolerância
O auge da irracionalidade aparece quando começa um jogo de futebol, ou se calhar quando acaba. Especialmente, quando perdemos. Ou pior ainda: quando os outros, os inimigos, a cor adversária, o centro de todas as nossas frustrações, ganham. Aí sim! A irracionalidade aparece. Serve-se do nosso corpo e dos nossos argumentos para se fazer ouvir.
Vivi durante muito tempo o poder da irracionalidade futebolística, habituada a ser de um clube que ganha muito, e centrando raivas num outro mais unânime. Até nisso o Tiago me tornou mais tolerante. Quando olho para ele, “benfiquista até morrer”, sempre a sofrer, a elogiar os jogadores dos outros, os treinadores dos outros, as vitórias dos outros, mas a saborear tudo o que é seu, vejo, ali, em metro e pouco de gente, uma grande ironia da vida.
Como se tudo o que mais desejássemos acontecesse, precisamente, no seu contrário, num despique metafórico entre o que o mundo nos dá e até onde conseguimos ir.
Porque ser mãe é muito voltar atrás e repensar tudo outra vez, é deixar as certezas absolutas por tentativas diárias e acertos constantes, é trocar obrigações por cedências, é dizer “pronto, desta vez pode ser” mas o “desta vez” ser um “quase sempre”.
Ser mãe tornou-me ainda mais descrente do “é assim porque é assim e será sempre assim”, para me fazer uma seguidora fiel do “hoje tentamos desta maneira”.
Educar – e que dificuldade tenho em dizer que faço isso, que sou capaz disso - é um jogo de equilíbrios e não um jogo de forças. É um constante apelo à capacidade de negociação. É um combate intenso com mais tréguas que assaltos. Mas é, acima de tudo, uma relação de iguais e de respeito.
Porque, na vida, como no futebol, lá por eu ser do Porto e o Tiago do Benfica, os meus gostos não têm de estar refletidos nas convicções dele. Lá por não marcarmos na mesma baliza, não quer dizer que não joguemos para o mesmo lado e que não festejemos juntos. Entre mim, a mãe, e ele, o filho, há dois papéis mas não tem de haver dois lados.
Portanto, há 8 anos, não acreditaria que iria à loja da Adidas escolher camisolas oficiais do Benfica para oferecer ao Tiago, que iria sorrir (por dentro) quando ele grita “golo”, que iria levá-lo uma semana inteira ao Estádio da Luz para o campo de férias e ainda responder, com um sorriso, às “saudações benfiquistas” dos monitores. E fazer tudo isso, agora, não me faz menos adepta do clube a que pertenço, nem menos convicta do que acredito, nem mais fraca enquanto pessoa ou sequer mais forte enquanto mãe. Faz-me apenas real. Real e mais tolerante. Certa de que o Tiago, por ser meu filho, não tem de ser a minha cópia, nem o meu reflexo. Tem de ser como é. Porque é tudo isso que eu admiro nele: o meu contrário, o meu melhor. Mesmo torcendo pelos outros.
Ilustração
06 agosto 2013
Coisas das saudades
As saudades cheiram a espuma do banho. Têm a cor da tua pele, da marca dos calções da praia a meio da coxa. Sabem a bolachas com pepitas de chocolate espalhadas no sofá, entre as almofadas da sala, nas juntas dos mosaicos do chão.
As minhas saudades são feitas de abraços, de beijos lambuzados pelas tuas bochechas e pelas tuas mãos - pequeninas, redondas, morenas. As saudades cantarolam comigo os genéricos dos programas que vês no teu canal da tv.
Fazem-me rir com algumas frases disparatadas. Apertam o peito numa falta sem fim. Lembram momentos maus, de confitos e ralhetes, de birras e choros.
As saudades tornam-me refém dos castigos, das palavras erradas nos momentos incertos. As saudades chegam e minam tudo ao redor. Pesam no silêncio. Nos ombros ou no colo. Falam baixinho junto ao ouvido. Fazem cócegas no pescoço. Ficam.
As saudades de hoje querem-te bem. A aproveitar os dias como se fossem únicos. A viajar comigo mesmo longe, deste lado do mar.
As saudades amanhã serão piores. Falarão mais alto, soprando-me nos cabelos e abrindo-me os olhos à força.
Não há nada pior do que temer as saudades. Não as deixar chegar... não as dizer.
Depois, quando voares, quando voltares, as saudades serão lembrança e as saudades serão vontade... de as matar.
Ilustração
21 fevereiro 2013
Coisas da gripe
Quando era criança e ficava doente era uma semana inteira no quarto, com cheiro a pijama, a cobertores, a xarope e a calor de cama sem ser feita nem refeita.
A minha Mãe fazia-me engolir os comprimidos esmigalhados em leite bem quente, adoçado com mel, e tirava-me a febre antes de sair para ir dar aulas.
Naquelas semanas eu ficava sozinha, fechada no quarto, embrulhada na cama, com a televisão e um ou outro livro. A mercearia dos meus avós ficava por baixo da casa onde vivíamos e, perto da hora de almoço, subiam a escada com o tabuleiro com um prato cheio para eu recusar.
Se há coisa que nunca esquecerei desse tempo era dos programas de culinária e foi nesses períodos que apanhei uma embirração especial à Filipa Vacondeus que, todos os dias, tinha restos de arroz, restos de carne ou restos de peixe, para fazer uma qualquer receita.
Aquelas semanas de gripe eram uma pausa do mundo.
Longe da escola, das colegas, ouvindo o barulho dos camiões na estrada mesmo do outro lado da janela, sem os ver. Cada dia que passava o corpo se tornava mais pesado, mais disforme e o cheiro do estar doente empestava o quarto inteiro.
Imaginava muitas vezes o mundo a mover-se, lá fora: a professora a escrever no quadro sem eu estar, as colegas de dedo no ar sem eu estar, os trabalhos de casa marcados sem eu os fazer, o recreio, barulhento e repleto, mesmo sem mim. Imaginava os almoços no refeitório e a mesa onde me costumava sentar e imaginava o trajeto de volta a casa, os carros para um lado e para o outro, e eu sentada no banco de trás.
Eu sabia que lá fora estava tudo exatamente igual sem mim: as pessoas a viverem as suas vidas, a minha Mãe a dar aulas, o meu Pai a dar aulas, a minha irmã a ter aulas, a mercearia dos meus avós cheia de gente, as colegas ora na sala ora no recreio, ora a chegarem à escola ora a irem para casa, e eu deitada na cama, a ver a Filipa Vacondeus cozinhar só com restos.
Passada a gripe, despido o pijama e tomado o primeiro banho, voltar à escola era encontrar tudo nos seus lugares. O mundo inteiro a andar para a frente. As pessoas nas suas próprias vidas. E eu apressava-me a acompanhar-lhes os passos, como se nem tivesse estado ausente, a fazer os trabalhos em atraso, a saber quantas páginas dos livros avançaram e a mudar de mesa no refeitório caso o meu lugar tivesse sido ocupado. Nada tinha deixado de acontecer por eu não estar. E tudo o que eu não tivesse visto, ouvido ou aprendido, não era comigo.
Esta semana o Tiago adoeceu.
Uma gripe.
Nestes dias em casa, os dois com cheiro a pijama, a cobertores, a xarope e a sofá sem ser feito nem refeito, respondi-lhe muitas vezes a perguntas do género: "Mãe se eu estivesse agora na escola o que é que eu estava a fazer?".
Não posso deixar de imaginar que ele, entre o Disney Channel e o Canal Panda, entre a PSP e uma sesta, entre uma bolacha e uma ida à casa de banho, sabe que lá fora está tudo exatamente igual sem ele: o mundo inteiro a andar para a frente, as pessoas a viverem as suas vidas, os amigos ora na sala, ora no recreio, os carros de um lado para o outro, o Pai a trabalhar, a chuva a molhar a estrada.
Mas também não posso deixar de lembrar que, tal qual como quando era eu a criança e ficava doente, nada deixa de acontecer por eu não estar, por eu estar aqui... doente com ele, doente por ele, enquanto o mundo lá fora anda para a frente, enquanto as pessoas lá fora vivem as suas próprias vidas.
Ilustração
20 março 2012
Coisas da primavera
As primeiras recordações felizes que tenho de Lisboa chegam-me da primavera. Destes cheiros mais aromáticos que transformam a cidade e da forma mais saltitante que vejo na pressa do movimento das pernas das pessoas que enchem ruas e outros lugares.
As minhas primeiras primaveras por aqui fizeram-se de descobertas: ultrapassados os meses da chegada, os percursos repetidos nos meses de outono e inverno eram já conhecidos e sem segredos, fazendo-se praticamente de três ou quatro destinos, entre casa e a universidade, entre a universidade e alguns centros comerciais, entre o supermercado da esquina e o regresso ao ponto de partida.
Agora, quando ficou o sol, quando os amigos que se mantém até hoje já eram, naquele tempo, isso mesmo, amigos, quando a cidade ganhava um brilho e uma segurança de estarmos no nosso lugar, havia que alterar rotinas e buscar novidades, deixar que o espaço nos envolvesse e nos desafiasse, permitindo concretizar alguns projetos e estender os dias à proporção da luz.
Lembro, particularmente, as caminhadas em grupo para lanches que se prolongavam, em mesas cheias de rostos e de conversas. Terminavam, invariavelmente, em bancos de jardim onde nos sentávamos desafiando mais a falta de horas do que a falta de assunto.
Naquele tempo os nossos dias eram mesmo assim: sem relógio, sem afazeres intermináveis ou inadiáveis e estudar complementava o tempo sem o roubar. As nossas vidas eram, ainda, séries de acontecimentos imprevisíveis mas todos fantásticos, onde os episódios para a frente eram ainda muito mais do que os que estavam para trás. As ideias pareciam imutáveis e ilimitadas e todos, e cada um de nós, se via invencível e insuperável.
Com os anos, eu e todos os outros ganhámos idade e (alguma) consciência, perdemos certos limites mas lucrámos com saber, trocámos verdades absolutas por conquistas impossíveis de roubar. Tornámo-nos adultos sem o admitirmos e cortámos pedaços do nosso tempo para neles colocar responsabilidades.
Mas a primavera volta, ano a ano. Numa espécie de oportunidade anual para nos renovarmos com a natureza. Numa montra de descobertas e de criações. Num ciclo de vida que leva e traz momentos, verdades e até pessoas. E é nesse reciclar do tempo que se ganham possibilidades, numa tentativa permanente de ainda sermos jovens estudantes que olham, pela primeira vez, a cidade, sugando os dias à medida do sol. À medida do melhor das nossas vontades.
Ilustração - Catalina Estrada
16 abril 2011
Coisas do meu talento
Era uma bailarina minúscula, de saia de tule aos folhos e collants cor-de-rosa, cabelo arrepiado e queixo altivo, sempre na posição certa, de pés em V, colados nos calcanhares, e braços arqueados num gesto delicado. Os anos em que dancei ballet fizeram de mim uma menina feminina e suave, contida e perfeccionista. Residia todo o encanto naquelas manhãs de sábado de mão na barra de madeira e olhar no espelho. Dançar era uma forma de comunicar, era uma linguagem secreta, num diálogo íntimo de uma criança sempre demasiado metida dentro de si própria.
Com os anos, com a idade, com as exigências da escola e as contingência de morar longe dos grandes centros, deixei a dança para outros destinos.
No fim da aula, ela distribuía as cenas para o dia seguinte. Entre retalhos de telenovelas brasileiras e excertos de peças de teatro, os diálogos envolviam discussões ou desabafos, banalidades ou revelações que mudavam a história. Em menos de um ano de curso de representação, eu já tinha dançado com um par numa cena de sedução, já tinha perdido um filho e chorado por isso, já tinha trocado estaladas num momento de fúria e descontrolo, já tinha adormecido e acordado, frente às câmaras, aos professores e aos colegas. Mas, desta vez, a aula envolvia beijos e eu, afundando-me na cadeira, não estiquei o braço para receber as minhas folhas e, naquele instante, desisti de ser atriz.
Enquanto eles falavam, as perguntas sucediam-se na memória, sem rabiscos no papel ou dúvidas que engasgassem as frases. Naqueles segundos, de gravador na mão e entrevistado disponível, eu era a jornalista destemida, sem espaço para hesitações, vergonhas ou embaraços. E corria bem. Saía a pergunta e chegava a resposta. Numa tarde de calor, percorri ruas onde nunca tinha andado para tentar a sorte numa embaixada de um país distante. Lá dentro, levaram-me por túneis e elevadores simulados, até alguém que falando mal qualquer língua que eu entendesse, se recusou a responder a perguntas ou a ouvi-las, até ao fim, sequer. Sem saber regressar sozinha ao portão de saída, segui o caminho labiríntico frustrada pela história que não levava comigo. Uns dias depois, na imprensa concorrente houve alguém que assinava um artigo idêntico, que tinha feito as perguntas até ao fim e que teria percorrido aqueles túneis levando a história até ao portão de saída. Acho que foi aí que percebi, que certo jornalismo vai muito além de fazer perguntas e receber respostas, de imaginar o artigo e fazer a história. E mudei de sonho.
Aos 14 anos escrevi um livro. Sei que a personagem principal se chamava Ana e era uma adolescente como eu. Imprimi tudo e enviei para as editoras que conhecia. Por aquela altura, ganhei alguns concursos pelas coisas que escrevia, mas aquele meu projeto de livro mereceu cartas de agradecimento ou o silêncio apenas. Com o tempo, esses textos perderam-se nas disquetes que hoje já nem funcionam e escrever foi o talento que restou quando deixei de calçar as sapatilhas de pontas e rodopiar em frente do espelho, quando larguei as máscaras e desmarquei os castings, quando arrumei o gravador e fechei os pontos finais. Tudo porque ficava sempre aquém do outro, do lado. Da menina que dançava melhor em toda a classe, da atriz que tão naturalmente beijava como gritava, da jornalista que não tolerava perguntas sem resposta.
E, por cada livro que acabo de ler, por cada escritor que conheço e me desarma, morre um bocadinho do sonho final, para resistir a dúvida:
Todos temos um talento. Onde andará o meu?
Ilustração - Alejandra Karageorgiu
21 março 2011
Coisas que acontecem na vida
Naquele fim de tarde o casaco que tinha ido para a escola não voltou e o Tigy, abrigado com um qualquer dos perdidos e achados, disse no seu tom pesaroso: "Perdi o casaco, Mãe". Num chorrilho de frases-feitas, ataquei o filhote com coisas como "Já é o segundo casaco que perdes este ano", "Ainda comprámos o casaco há tão pouco tempo", "Tens de tomar conta das tuas coisas", "Onde puseste o casaco quando o perdeste", até ser interrompida pelo Tigy que no seu tom afirmativo diz: "Mãe, é a vida", carregando no i e estendendo a última sílaba de todas.
Segurando a imediata vontade de rir, tentei mais um ou outro comentário em forma de reprimenda como "Acho bem que ainda encontres o casaco" ou "Qualquer dia deixo de te comprar casacos e andas ao frio"... mas ele fechou o assunto completando: "Mãe, são coisas que acontecem na vida".
As coisas que acontecem na minha vida também já foram casacos perdidos na escola e raspanetes da Mãe por causa das nódoas na bata. Também já foram brinquedos partidos e a sala desarrumada. Também já foram o jantar espalhado no prato sem ser comido e as horas a mais a ver televisão. As coisas que acontecem na minha vida também já foram testes com notas abaixo da média e trabalhos de casa feitos à última da hora. Mas também já foram os instantes enquanto se procura o nome numa pauta de exames afixada na parede ou se entra numa sala hostil para uma entrevista de emprego.
Há uma espécie de balança que trazemos na mente que vai adaptando o peso dos pratos à medida que as coisas que acontecem na vida vão mudando. Perder um casaco passa a pesar menos quando se tira a primeira negativa num teste e a nota menos boa perde valor quando se chumba mesmo a uma disciplina, assim como tudo isso fica desprovido de qualquer interesse quando não se é escolhido para uma vaga de emprego o que, por sua vez, acaba por não ser nada quando falta trabalho ou falha alguém. Com a idade, com o tempo, há coisas da vida que perdem peso para que outras apareçam e se agigantem.
Alguns problemas deixam de ser problemas quando surgem outros maiores e esta lei de compensações e proporções persegue-nos, ou guia-nos, mesmo que nem nos apercebamos dela.
As coisas que acontecem na minha vida agora nunca teriam o sabor que têm se eu não tivesse experimentado todas as outras que aconteceram antes. As coisas que eu tenho agora a acontecer na minha vida são o resultado desses sucessivos equilíbrios dos pratos da minha balança.
Então, olhar para trás é descobrir que afinal nunca há melhor do que o presente, nunca há melhor do que as coisas que acontecem agora na nossa vida, por muito que sejam casacos perdidos e reencontrados na escola ou dias de calor depois de semanas de chuva.
O que fica do passado é o eterno jogo da comparação de problemas, da importância que eles têm num momento e de como a perdem totalmente um instante depois. Sim Tigy, tu é que tens razão. No final das contas, são apenas coisas da vida. Coisas que acontecem na vida.
Ilustração - Monica Armino
26 janeiro 2011
Coisas do meu humor
Já tive um jogo de computador que jogava, precisamente, quando estava mal humorada. O jogo era um Tetris mas especial: quando se completava uma linha, seguia-se um conjunto de bombas que explodiam algumas das peças acumuladas no fundo. Não recordo já o nome do jogo, mas consigo ouvir ainda o som das bombas a rebentarem.
Já tive uma canção que ouvia, insistentemente, quando estava mal humorada. Alto. Muito alto! Repetidamente. Os sons daquela voz a doerem nos ouvidos, a ganharem formas e a perderem-nas de seguida. Quanto mais alto mais forte, quanto mais vezes mais perigoso e quanto mais insensato mais real.
Já tive um conto que fazia ainda mais sentido quando estava mal humorada. As palavras escritas nos lugares certos, alinhadas num rumo definido, que naqueles momentos assumia um nível de tragédia e terror imenso e gigante, maior do que as páginas, maior do que a história.
Já tive um percurso que fazia, unicamente, quando estava mal humorada. Seguia a pé, em passo sincopado, exagerando na força quando chegava uma ou outra subida. Passava nas passadeiras pela mesma ordem na ida e no regresso e mantinha as mãos nos bolsos e um zumbido nos ouvidos, uma espécie de banda-sonora do caminho.
Já tive uma ou outra razão para estar mal humorada, mas nunca tinha caído nesta estranha sensação de não estar mal humorada por coisa nenhuma mas estar mal humorada por tudo e por nada. Como se procurasse nos outros e na rua e no tempo e no que for, motivos para intensificar esse nervoso miudinho que parece um rastilho... prestes a rebentar. Como se este estado não fosse consequência de nada mas uma fatalidade, um vírus, uma inevitabilidade. Como se eu estar mal humorada não fosse culpa minha, nem fosse culpa da vida, da crise ou da vaga de frio, fosse simplesmente a melhor das desculpas para esconder o medo do vazio. Porque antes mal humorada que coisa nenhuma, antes mal humorada que nada.
08 dezembro 2010
Coisas dos outros
Os outros dizem para mudar o corte de cabelo, ir para o ginásio, sair à noite, vestir roupa colorida, ver filmes, telefonar sempre que quiser, aparecer para jantar, comprar tralha, ver montras, mudar os quadros de parede e a mesa de lugar.
Os outros repetem que vai passar, que o tempo trata de tudo, que daqui a um ano já nem me lembro de nada, que não vale a pena, que eu não mereço, que não tem sentido, que é irreal, que é em vão.
Os outros mandam ir ao médico, comer mais, dormir cedo, falar a verdade, não ligar, rir mesmo sem vontade, olhar para o lado, olhar para a frente, pensar no meu filho, pensar só em mim, pensar menos, não pensar sequer.
Os outros acreditam que é uma fase, uma mania, uma teimosia, uma ideia, uma doença, uma crise, uma invenção.
Os outros dão ideias, fazem sugestões, convidam, insistem, incentivam, desvalorizam, dão as respostas certas, dão as mesmas respostas três vezes, listam tudo o que tenho, fazem avisos, pesam o que há e o que falta numa balança viciada.
Os outros acham que devo esquecer, passar à frente, não repetir asneiras, olhar para o lado bom das coisas, acreditar em mim, ver bem como sou, ser mais assim e menos assado, ouvir bem o que dizem, o que repetem, as ordens que dão e tudo o que acham.
Mas isso são os outros e não sou eu.
04 dezembro 2010
Coisas da minha cabeça

Se eu não passar por uma certa estrada, que desenha uma curva contra outra e se endireita numa recta com três árvores à esquerda no sentido de casa, não lembro a primeira vez que aquelas árvores falaram comigo. Assim, aquele dia existe mas como se permanecesse congelado dentro dos pensamentos bons e tudo o que se seguiu a isso simplesmente não aconteceu.
Se eu mudar imediatamente a estação de rádio quando tocam aquela ou aquela ou ainda uma ou outra música, elas magicamente desaparecem nas ondas do éter sem entrarem nos meus ouvidos, remexerem nas memórias e trazerem apertos no peito que dificultam o meu respirar.
Se eu não comer nunca mais um certo chocolate, não voltarei a sentir como ele já se desvaneceu com a saliva, açucarando a língua, o céu da boca e desaparecendo pela garganta num prazer guloso, dentro de um momento único. Assim, consigo que o doce de um banal chocolate não azede um resto de dia, uma semana completa ou um mês inteiro.
Se eu não vestir aquela peça de roupa, como umas meias coloridas ou uma camisa com folhos nas mangas e botões, nunca aqueles tecidos tocaram a minha pele, foram apertados ou desapertados, vestidos ou despidos, parte do cenário de um dia ou de um instante, ou existiram sequer. E tudo ou qualquer coisa que aqueles trapos viveram comigo é mera obra da imaginação.
Se eu nunca mais repetir uma palavra, das melhores que se querem ouvir, das piores para se dizerem, das mais fortes para quem dá, das mais arrasadoras para quem as despreza. Se eu juntar essa palavra a um conjunto definido de umas tantas outras, adicionando frases e expressões, piadas e ironias e guardar tudo num espaço intocável e inamovível das recordações. Se a minha voz não voltar à palavra, às outras palavras, às frases e a tudo o resto, aos textos dos melhores momentos, então eles não surgem na cabeça e assim não doem, e assim não morrem. E os momentos ficarão sempre lá, no instante certo em que me fizeram feliz.
30 novembro 2010
Coisas comigo

Lisboa à noite é uma cidade diferente. Especialmente quando chove e quando estamos sós.
O autocarro meio vazio percorreu a cidade sem pressas, mas sem se desviar dos buracos da estrada, acabando por chapinhar nas poças de água com movimentos bruscos. Pelo caminho lembrei-me que aquele foi o primeiro percurso que fiz, rotineiramente, nesta cidade há 13 anos quando aqui cheguei. Era aquele o autocarro que me levava de casa às aulas, das aulas a casa.
A cidade não está muito diferente desse tempo, os prédios da avenida mantêm-se inalterados, talvez um outro tenha mudado de cor. Desapareceram os módulos e agora há um cartão recarregável que nos deixa alternar de autocarro em autocarro durante uma hora sem pagar mais. Há uma alteração no percurso: deixamos de passar junto ao rio, para virar por uma rua lateral e encontrar, de novo, o Tejo mais à frente.
Já naqueles anos fazia viagens assim: a olhar pela janela sem fazer absolutamente mais nada. A olhar Lisboa como se ela conversasse comigo e me contasse segredos sobre o meu futuro e sobre as pessoas que haviam de chegar.
Ontem à noite acertei contas com a cidade: perguntei-lhe pelos planos que tinha, pelas pessoas que prometera, pelas entregas que traria, pelos sucessivos trajectos que percorreria comigo.
Estranhei-lhe o silêncio. Lisboa sempre tinha falado muito...
Quando desci do autocarro, andei alguns metros a pé, sentindo o frio no corpo, e enchi os bolsos de ementas de restaurantes italiano-indianos, de publicidade para concertos e de postais com rostos de fadistas. Nunca agradeci nem declinei. Estava decidida a concordar com a cidade e ter uma noite em silêncio.
O coliseu estava ainda vazio quando subi as escadas, recuando no primeiro degrau da escadaria da esquerda para optar pela da direita, por onde nunca me lembrava de ter passado.
O lugar na plateia era melhor do que o esperado e quando ela entrou no palco não tive vontade de aplaudir nem de cantar, mas apeteceu-me muito abraçá-la. Como se ela, ali em cima, tão altiva e distante, me fosse devolver o que de mais pesado eu tinha perdido. Como se aquele fosse o momento do reencontro. Como se voltar a ouvi-la resolvesse tudo. Me curasse, até.
Como se ela enquanto cantasse me voltasse a fazer acreditar no que trouxe comigo há 13 anos quando cheguei. Como se ela ali tão longe fosse a culpada, fosse a dona da verdade mais cruel, fosse o princípio da história e o final de mim.
E enquanto ela deambulava pelo palco e enquanto a voz dela se ouvia alto demais pela sala e enquanto se propagavam as tosses dos outros e o roçar dos casacos entre o público, eu pensava em pedir-lhe apenas para se calar. Para não me mentir mais. Para levar com ela as memórias que me transtornam por dentro e me enchem a cabeça de dor e de mágoa e de uma solidão funda que já não sei controlar.
Mesmo ela naquele palco, nesta noite, não era a mesma. Ou eu passei a vê-la aos meus olhos?Distorcendo as coisas mais simples, tornando-as num drama? Transformando realidades cíclicas em grandes explicações labirínticas e complicadas? Não sei.
Acho que ali fui apenas para isso: para deixar nela a culpa e a raiva e me sentir mais leve. Acreditando que isso seria mesmo provável ou possível: esvaziar-me de mim e deixar lá ficar. Não trazer de volta no percurso inverso de uma cidade mais chuvosa, mais fria e mais anoitecida do que há duas horas atrás.
Do palco ela falou de solidão e de saudades e eu calei os gritos que tinha levado e as perguntas urgentes para lhe fazer: Porquê? Onde acabou a verdade e começou a ilusão? Em que momento criei eu um mundo à parte, feito de improváveis e cheio de gestos tornados vãos?
Também ela não respondeu. Insistindo em promessas velhas, cujo sentido já matei com o tempo e com o desgosto.
Deixei-a ir embora, sem mágoa. Não lhe exigi mais respostas nem ridicularizei os lamentos. Ficou tudo como dantes. Os culpados na plateia e ela no palco, com as palavras passadas agora gastas, agora hipócritas, agora vazias.
Que fazer com esta noite? Quando ela acaba de vez para voltar a casa vazia, as insónias e os fantasmas? Que fazer com o dia seguinte? Quando se procura no único sentido possível pontos de contacto para o que se viveu, dentro daquela noite, e se encontra, ainda com surpresa, o mais amargo e mais indiferente desprezo? Que fazer depois? Que fazer agora?
28 novembro 2010
Coisas a dois

A caixa das bolas, fitas e luzes estava no sótão e foi o Tigy que a arrastou escada abaixo, enquanto eu trazia a árvore e mais um ou outro saco. Escolhemos o canto da sala, o inverso de sempre para ser diferente, e espalhámos pelo chão tudo o que encontrámos. Num instante, o Tigy tinha preenchido os ramos da árvore de Natal de bolas e bonecos, perguntando sempre "As bolas vermelhas não estão muito perto umas das outras, pois não?".
Com a estrela na mão, empoleirou-se no banco para a colocar bem lá no cimo e foi ele quem apagou todas as lâmpadas do tecto antes de eu ligar as luzes da árvore e ficarmos os dois, em silêncio, a vê-las piscar.
Nunca tínhamos feito a árvore assim: os dois, ele a comandar as operações muito mais do que eu, ele de máquina fotográfica na mão a fazer a reportagem, disparando ao acaso, ele a arrumar os sacos para dentro do caixote e a observar o resultado final com ar orgulhoso: "A nossa árvore ficou muito bonita, Mãe".
Vê-lo tão atarefado, num desembaraçado agir de gente grande. Como ontem à noite quando quase adormecido ao meu lado disse: "Eu preocupo-me muito contigo, Mãe. Não quero que te aconteça nada...", para depois me apertar o pescoço com uma força exagerada que lhe vem não sei de onde. Vê-lo tão consciente, num instinto protector como nunca teve.
O resto da tarde fui observando como ele, de vez em quando, desviava os olhos da televisão para olhar para a árvore, fazendo-o duas e três vezes de seguida. Misteriosamente.
Mais à noite estranhei o silêncio na sala e encontrei-o no sofá, de comando na mão, a ver o Benfica, comentando logo que me viu "O Fábio Coentrão está magoado...". Por momentos, temi que me pedisse uma cerveja em vez das bolachas de sempre.
Há qualquer coisa de extraordinário no Tigy nestes dias: a forma como me pega a mão enquanto subimos as escadas para eu não cair, os beijos lambuzados muito repetidos, a frase desta manhã logo ao acordar: "Mãe és tão doce, que pareces uma gelatina", o toque delicado com que me tapa os pés com a manta quando estamos deitados no sofá e a desfaçatez quando pega no comando da televisão, desliga-a e ordena: "Vá. Vamos para a cama".
Ps. Leio sempre os textos alto antes de os publicar. Apanhada a murmurar qualquer coisa olhando para o computador, o Tigy perguntou: "O que estás a ler?". Li-lhe o texto e ele foi sorrindo de olhos muito abertos, para no fim dizer: "Eu acho que esse sou eu".
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