30 dezembro 2010
Uma canção e uma história
#A retrospectiva
Ironicamente, enquanto a minha vida mudava, eu olhava para trás, ou olhava para dentro, e procurava por entre tantos sons, o ritmo certo para as 20 questões.
Em oito meses foram 20 as respostas, numa tentativa sempre frustrada de encontrar a melhor banda sonora para a mais complicada das histórias, que é sempre a nossa.
Então, daqui até lá atrás:
Ouvi Regina Spektor em “Us” e mostrei porque um ano pode começar quando nós decidirmos. A música do último ano, banda-sonora de um filme viciante, toque definido no telemóvel, som contagiante no ouvido.
Ouvi Julie Andrews na minha parte preferida do filme “Música no Coração”, quando todos juntos falam das suas coisas favoritas. Uma canção que só me pode fazer rir e lembrar como coisas tão pequeninas podem preencher os maiores vazios e como são precisamente essas as melhores coisas da vida.
Ouvi Donna Maria numa versão de “Bem-vindo ao Passado”, um original dos GNR, carregado de despedidas e de amarguras, de pecados e arrependimentos, num sincopado ritmo que chega a ser tenebroso. Falei então de um tema complicado, negro, sempre ignorado como se não existisse. Simples de mais para mim.
Ouvi Adriana Calcanhotto na mais repetidas das suas canções, num encadeamento saboroso de frases que adoçaram uma das fases mais tranquilas da minha vida. Agora, usei-a para falar do meu casamento, de como também ele teve tudo isso, todo esse doce e suave e completo, e como o mais certo é guardar sempre o que houve de bom.
Ouvi Diana Krall na mais perfeita das canções, um dos meus maiores vícios, uma das músicas que considero minhas, coladas à pele. E com ela falei da tristeza, da ferida que sangra e nunca se cura, numa espécie de marca ou modo de vida, como se a tivesse adoptado como tatuagem a marcar o corpo, como traço de personalidade a tingir o pensamento, como decisão de futuro, como parte do destino. Mesmo que doa...
Ouvi Smiths na mais fantástica das suas canções. Aquela que tem a frase "to die by your side is just an heavenly way to die" (Morria para ouvir isto...). Coisa em que só se acredita quando estamos rodeados de felicidade e não nos lembramos que, mesmo a mais perfeita das histórias, pode não acabar com “e viveram felizes para sempre”.
Ouvi My Chemical Romance em gritos de raiva e angústia, o tema certo para momentos de zanga, apropriada para os dias em que vivemos zangados com o mundo, do acordar até ao adormecer.
Ouvi Tiago Bettencourt com a canção "O jogo" uma das predilectas do meu álbum preferido "O Jardim". Dele era capaz de roubar uma frase de cada música, como se ela fosse feita especialmente para mim, e depois construir várias histórias ou juntar todas numa só. Na verdadeira. Aquela que é tão minha que eu não sei mesmo largar.
Ouvi Carlos do Carmo com a "Estrela da Tarde", uma letra profundamente bem escrita, como quase já não se faz, da autoria de Ary dos Santos, e que me descreve. A mim e a este confuso ziguezague que não deixa saber se, afinal, "tu és a alegria ou se és a tristeza".
Ouvi Placebo em várias faixas a rodar em alto volume, tons elevados que ninguém esperaria que eu gostasse. Ou talvez nem todos os ninguéns.
Ouvi GNR um dos meus grupos preferidos da adolescência e, com “Sub16”, lembrei como era uma miúda destemida, confiante, sonhadora e irreal nesses tempos. Mas feliz.
Ouvi Sara Tavares com o seu "Ponto de luz", uma música suave e delicada, uma peça preciosa, um ponto de equilíbrio, o som ideal para adormecer tranquilamente.
Ouvi Cher e "Strong enough", uma canção para dançar, cheia de energia, que me fez falar de como nunca somos suficientemente fortes, ou suficientemente perfeitos, e como entre aprender e merecer, se vai acertando.
Ouvi Caetano Veloso com os seus "Sonhos" a canção que me faz lembrar um momento bonito, inteiramente só meu, nunca partilhado, nunca confessado. Um momento ideal de que consigo ter muitas saudades.
Ouvi Rui Veloso e as "Regras da Sensatez", o tema que me faz lembrar o lugar que é este blogue, o tema para anunciar uma mudança grande na minha vida, para memorizar que voltar ao lugar onde se foi feliz pode trazer um alto preço a pagar.
Ouvi Pedro Abrunhosa e "Eu e tu somos iguais", a música que imediatamente me lembra uma pessoa, ele próprio, o autor, o intérprete, aquele que um dia conheci e me mudou para sempre. Nem ele nem eu saberemos algum dia quanto.
Ouvi Mariza e "Duas lágrimas de orvalho". Uma canção que me põe triste. Profundamente triste. Triste de verdade, que chega a doer no peito enquanto ela canta. Triste mesmo.
Ouvi Sérgio Godinho e "O Primeiro dia", a música que me faz feliz ao lembrar uma das amigas de sempre, com quem partilhei as mais fabulosas das idades e as primeiras aventuras. Inesquecível.
Ouvi Delfins e "Aquele inverno", uma canção que soa bem e que vem lá de trás, de tempos bons, mas que podia ser mais qualquer coisa.
Ouvi Mafalda Veiga. Como é que uma canção que diz "há sempre uma maneira de recomeçar o que se quiser" não pode ser uma das favoritas de sempre?
E nunca precisei tanto de acreditar nisso.
Venham novos 20 desafios. Estes souberam-me tão bem...
29 dezembro 2010
Uma canção e uma história #20
Um ano começa a qualquer altura. Em qualquer data.
Pode ir de um 29 a outro 29 em vez de um 31 a outro 31.
Um ano começa quando recomeça a escola ou quando se muda de casa ou quando se troca a roupa da cama entre flanela e algodão. Um ano começa quando abrimos um livro ou descobrimos um filme que nos muda para sempre. Um ano começa quando ouvimos o maior de todos os conselhos e o seguimos. Quando cortamos o cabelo ou até o pintamos de outra cor. Aí sim. Pode começar um ano.
Um ano começa quando começa a canção. E o ano dura enquanto ela durar também...
Um ano pode começar em dia nenhum. Ou pode nunca começar sequer.
Um ano começa no último dia de praia já no fim do Verão ou na primeira chuva depois do calor. Pode ir de Abril a Maio, com início num dia qualquer, a meio de uma semana banal. Ou então abrir em Fevereiro onde um ano inteiro pode caber dentro de um mês tão curto.
Um ano começa em dia de aniversário, quando mudamos de idade e até acreditamos que isso muda mais alguma coisa. Um ano inteiro pode começar ali: no segundo em que se sopram as velas e ao ritmo das palmas se festeja um ano novo, se pedem 12 desejos ao cortar as fatias e se esquecem os mesmos 12 enquanto se distribuem os pratos e abrem duas ou três prendas.
Um ano começa numa noite ao deitar, quando se contam dívidas e favores em vez de carneiros, quando se listam afazeres e tralhas do supermercado que ficam sempre por comprar.
Um ano começa quando se veste um casaco antigo e descobrimos que ainda nos fica bem e nos bolsos encontramos bilhetes de cinema a que fomos há tantos anos, ver filmes de que já nem sabemos o fim. Aí acaba um ano qualquer lá para trás para começar um outro.
Um ano começa quando nasce um filho ou no preciso instante em que toca o telefone e não sabemos quem é. Um ano começa com uma conta por pagar ou com 60 cêntimos para um café.
Um ano começa quando chega alguém.
Um ano pode começar ao jantar, entre a sopa e a sobremesa, entre o copo de água e o copo de vinho, vazio.
Um ano começa na época de saldos ou quando perdemos uma chave e não a encontramos mais. Um ano começa com um caderno novo, sem linhas, a cheirar a papel e de capa sem vincos.
Um ano pode começar ao mesmo tempo que se abre uma gaveta ou a porta de casa ou o envelope de uma carta registada com aviso de recepção.
Um ano começa quando alguém parte. E é para sempre.
Um ano começa quando nós quisermos, quando nós o fizermos. Acontecer.
O meu até pode começar hoje. E o teu?
23 dezembro 2010
Uma canção e uma história #19
tardes à lareira - os meus cães - as primeiras páginas de um livro novo - vestidos - revistas - tulipas - kit kat - chuva - silêncio - bolo de chocolate - abraços fechados - escrever - dormir - os minutos finais de um filme trágico - poemas - remexer em caixotes antigos - canções em repeat - fotografias felizes - bacalhau com natas - prendas fora da data - telefonemas inesperados - coincidências - rimas - cartas no correio - pés quentes ao adormecer - o dia seguinte - o meu clube campeão - sites de ilustradores - almofadas - banhos de espuma - vinho do Porto - lanches com os amigos - sorrisos de desconhecidos na rua - rir com vontade - arrumar papéis - coca-cola - citações - árvores - conversas ao acaso - alguns segundos sem lentes de contacto - nuvens - compras a sós - ter a certeza - elásticos para o cabelo - massas - pão quente com muito miolo - gente à chegada - mãos - palcos - bica escaldada - estar em casa - iogurte com morangos - episódios de seguida das séries da televisão - almoços em família - listas - fado - entrevistas - conduzir - a minha irmã - Lisboa com rio - olhar - segredos - blogues diferentes - gavetas - acertar - chocapic - flutuar no mar - aplausos - agendas - pipocas - a minha sobrinha - canetas - preguiça - palavras inteiras - acreditar - o meu filho -
"these are a few of my favorite things"
16 dezembro 2010
Uma canção e uma história #18*
Eu não tenho medo de morrer, nem medo da morte em geral. Nem sinto por ela existir qualquer tipo de pena ou rancor ou pressa estúpida em deixar tudo feito ou tudo dito antes que ela chegue.
Aceito. Entendo. E na verdade, vejo-a mais como uma recompensa do que como um castigo. Tem de ser muito melhor do que estar vivo, porque isso é que custa, isso é que dói...
Morrer tem de ser dar uma tarefa por terminada e não a punição certa para os piores crimes.
Tem de ser o princípio de uma liberdade total e não o final de um conjunto bonito de bons motivos para viver (os quais esquecemos todos os dias). Tem de ser uma coisa leve, daí o suspiro, tem de ser coisa fácil, daí o total desprendimento do corpo e dos sentidos, o fim da consciência, o fim da memória, o fim da razão.
A partir dali, nada se lembra, nada mais nos fere, nada mais importa.
Eu não tenho medo de morrer e também não acredito que voltemos transformados no que quer que seja, muito menos para fazer tudo o que não fizemos dentro da vida que temos.
Mas todos os dias tenho medo do que sinto, tenho medo que cada vez a ferida esteja maior e mais aberta e mais profunda. E que viver fique para sempre isto: uma sobrevivência inerte e insípida.
Eu não tenho mesmo medo de morrer. Mas tenho raiva à simples sobrevivência. E quando viver se transforma nisso mesmo, viver não é nada.
*Sem querer chocar ninguém, nem assustar, nem aterrorizar sequer. Por favor.
10 dezembro 2010
Uma canção e uma história #17
A melhor forma de andar em frente é guardar só o que o passado tem de bom.
Não sei se esta teoria tem fundamento, não sei se a conseguirei cumprir algum dia, mas só o facto de a escrever, de a deixar aqui bem explícita, bem visível, é um bom começo. Então, o meu casamento também teve isso: um bom começo, vários começos bons. Teve um filho que é o melhor começo de todos. Teve dez anos de uma vida partilhada, de sentimentos misturados e de coisas que se deram e se receberam. E muito do que o meu casamento teve de bom está na melodia carinhosa e cor-de-rosa desta canção.
Lembrá-la com o seu "avião sem asa" e a "fogueira sem brasa" é admitir, para o futuro, que não se reescrevem decisões, nem se põem em causa opções. Vivem-se com elas. Aceita-se que somos melhores depois do que passou: somos maiores, mais fortes, mais nós.
Lembrá-la não é "retomar o pedaço que falta no meu coração" é dizer a mim mesma que os sentimentos morrem, que as histórias terminam, mas o melhor das pessoas que foram nossas tem de ficar para sempre.
Porque nós continuamos a existir depois de tudo: das tempestades, das falhas, do medo. Mas agora mais seguros, agora mais felizes. A andar em frente guardando só o que o passado tem de bom.
26 outubro 2010
Uma canção e uma história #16
16 outubro 2010
Uma canção e uma história #15
Esta é a típica história de "rapariga conhece rapaz". A rapariga era eu, como eu era dantes. A viver dentro de um mundo pequenino onde cabia o mundo todo, crescendo a acreditar que a felicidade é coisa que se cultiva e que o que é nosso às mãos nos há-de vir parar. Até ao dia em que tudo muda. Esta crença devia-se aos livros que lia sempre com finais felizes, às músicas perfeitamente perfeitas que ouvia repetidamente e às interpretações desafasadas do filme "O Clube dos Poetas Mortos".
08 outubro 2010
Uma canção e uma história #14
Às vezes até já acordamos zangados.
25 setembro 2010
Uma canção e uma história #13
08 setembro 2010
Uma canção e uma história #12
Era a tarde mais longa de todas as tardes
Que me acontecia
Eu esperava por ti, tu não vinhas
Tardavas e eu entardecia
Era tarde, tão tarde, que a boca,
Tardando-lhe o beijo, mordia
Quando à boca da noite surgiste
Na tarde tal rosa tardia
Quando nós nos olhamos tardamos no beijo
Que a boca pedia
E na tarde ficamos unidos ardendo na luz
Que morria
Em nós dois nessa tarde em que tanto
Tardaste o sol amanhecia
Era tarde demais para haver outra noite,
Para haver outro dia.
Meu amor, meu amor
Minha estrela da tarde
Que o luar te amanheça e o meu corpo te guarde.
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza
Se tu és a alegria ou se és a tristeza.
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza.
Foi a noite mais bela de todas as noites
Que me adormeceram
Dos nocturnos silêncios que à noite
De aromas e beijos se encheram
Foi a noite em que os nossos dois
Corpos cansados não adormeceram
E da estrada mais linda da noite
uma festa de fogo fizeram.
Foram noites e noites que numa só noite
Nos aconteceram
Era o dia da noite de todas as noites
Que nos precederam
Era a noite mais clara daqueles
Que à noite amando se deram
E entre os braços da noite de tanto
Se amarem, vivendo morreram.
Meu amor, meu amor
Minha estrela da tarde
Que o luar te amanheça e o meu corpo te guarde.
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza
Se tu és a alegria ou se és a tristeza.
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza.
Eu não sei, meu amor, se o que digo
É ternura, se é riso, se é pranto
É por ti que adormeço e acordo
E acordado recordo no canto
Essa tarde em que tarde surgiste
Dum triste e profundo recanto
Essa noite em que cedo nasceste despida
De mágoa e de espanto.
Meu amor, nunca é tarde nem cedo
Para quem se quer tanto!
Ary dos Santos
28 agosto 2010
Uma canção e uma história #11
Ou duas canções que ninguém esperaria que eu gostasse
Ou outra canção que ninguém esperaria que eu ouvisse até ao fim sequer
Ou mais uma canção que ninguém esperaria que eu repetisse sem exaustão
Ou uma canção que ninguém adivinharia que eu conhecesse até
Ou uma canção que ninguém iria supor que eu saberia a letra de cor
Ou uma canção que ninguém sabe que é minha
Ou então todas as canções que alguém espera que eu goste
21 agosto 2010
Uma canção e uma história #10
Era feliz enquanto escrevia uma coluna num jornal regional a que chamei "Gritos de Juventude" onde a primeira crónica tinha o título "Adolescentes? Quem? Nós?" e onde falei de coisas como um Dia D, que inventaram na altura para alertar para as drogas; dos quatro canais que havia para ver na televisão; de outras tantas coisas que já nem lembro e cujas folhas de jornal se foram perdendo.
Era feliz todos os sábados de manhã a fazer um programa de rádio meio louco com quatro amigas da mesma idade, cheio da música que ouvíamos e das conversas que tínhamos, tanto no recreio do liceu como aos microfones naquelas duas horas.
Era feliz a dar catequese, explicando coisas que nem eu própria entendia ou até que jamais entenderei.
Era feliz a sós, a encher cadernos de histórias, acreditando que escrevia e que escrever seria sempre o rumo da minha vida.
Era feliz com os outros: os amigos da escola que hoje são adultos como eu, os professores que acreditavam mais em mim do que eu, a família que estava aqui ao meu lado como eu ao seu.
Tinha 16 anos e vivia a mais feliz das idades da minha vida. O futuro era imenso, ilimitado e nele cabiam todos os possíveis.
05 agosto 2010
Uma canção e uma história #9
E o dia acaba tranquilo. Um ponto de equilíbrio.
O silêncio. A casa no escuro. O pensamento tão leve, tão solto, tão meu.
Aceita-se o que de mais negro ficou para trás. Deixa-se lá estar. Sem mexer, nem remexer. Sem segundas intenções ou terceiras interpretações. Sente-se apenas e somente o momento. Uma espécie de vento quente. Cócegas ao de leve, na barriga. Suspiros. Um dos melhores abraços de todos. Segredos ditos ao ouvido. A paz. Um rosto de felicidade.
Tudo ganha sentido. Do vivido ao imaginado. Do que se tem a tudo o que foi negado.
Completamente entregue ao sossego. Ao que de melhor tem a solidão. Um estar só por estar cheia de gente. Por estar cheia de mim por dentro.
E ganha-se esta paz. Esta e outra certeza. O que melhor pode ter a vida. Pouco mais do que isto. Pouco mais do que, finalmente, estar bem. Sentir-me mesmo tão bem.
Até amanhã.
22 julho 2010
Uma canção e uma história #8
Nunca
forte o suficiente. Nunca feliz o bastante. Nunca com tamanha sorte ou todo o azar. Nunca completamente completa ou muito perto de satisfeita.
Como aquele gole de coca-cola que faltava no fundo da lata. Como aquela cena final que devia estar depois da ficha técnica do filme. Como a página seguinte que não existe num livro bom. Como a pessoa que faz falta e é aquela que nunca vai estar.
Sempre
perfeitamente imperfeita. Sempre aquém. Sempre à espera de... Sempre a tentar ou a insistir numa tecla avariada.
Como um caminho que se segue paralelo ao caminho que leva a algum lado. Como a roupa errada para o tempo incerto. Como uma receita estragada que se prova duas vezes. Como um comboio que se apanha no sentido contrário.
Talvez
a aprender. Talvez a merecer. Talvez a acertar desta vez dentro dos erros das escolhas ao lado. Talvez quase lá.
Como o último copo que se lava de uma grande pilha de louça suja. Como a palavra que faltava descobrir na mais complexa das sopas de letras. Como a resposta final que se acerta para o teste merecer 100%. Como um último abraço antes das despedidas.
12 julho 2010
Uma canção e uma história #7
Naquele preciso momento - que com a pressa dos anos se transformou numa mistura de acontecimentos e de antes e depois sem fio que os conduza - nascia a maior certeza de todas e venha quem viver para mudar isso.
Foi o momento da descoberta, muito antes da dor, ainda antes do medo. Foi o momento do deslumbramento. Como se a vida me tivesse guardado para aquele instante, para aquele sentimento. Quando nos damos mais do que aquilo que recebemos, quando fazemos de nós parte do outro e do outro tudo o que há em nós.
Foi o momento certo para aprender. Para crescer. Para apressar os dias na pressa de os viver. Para acreditar que nada acontece por acaso e que os acasos são objectivos por planear ou um ou outro sonho inconfessável.
Naquele momento - que agora me parece um tempo - não havia outros que me abalassem ou acidentes que nos atropelassem, não havia margem para erro, não havia dúvidas, nem receios, nem hesitações, nem réstea de passado que nublasse a vista, nem mesmo perspectiva de futuro que entorpecesse o pensamento. Tudo era certo. Constante. Inabalável. Tão firme. Tão eterno. Tão seguro.
E lembrado assim, com tamanha clareza, aquele tempo volta a parecer apenas um momento, ou então, chego a senti-lo um dia, umas horas, escassos minutos ou um ou dois segundos de um olhar.
Foi o momento de todas as verdades, de todos os exageros, de todas as entregas. De uma felicidade imensa, maior do que tudo, maior do que eu. E olhado assim - para trás - e lembrado assim - misturado com tudo o que veio depois - deixa de haver espaço para saudades. Então aparecem as dúvidas. Trocam-se verdades por desconfianças. Substituem-se as melhores dádivas pelas piores entregas. Rejeita-se a felicidade do passado para justificar a crueldade do presente. Apaga-se o que de melhor ficou para trás para acreditar que...
"Amanhã será um novo dia
Certamente eu vou ser mais feliz".
18 junho 2010
Uma canção e uma história #6
Quando inventei o nome deste meu lugar vivia realmente um momento de felicidade refugiada na minha barriga onde crescia o Tigy. Naquele tempo, para mim, havia muito onde procurar razões para sentir a tal da felicidade e vivê-la, plenamente. Então criei não um refúgio de felicidade, mas sim um "Refúgios de Felicidade", no plural.
Este blogue completará em poucas semanas 5 anos, tantos quantos o Tigy fará em poucos meses para a frente e o meu casamento fez em poucos meses para trás.
De lá para cá fui fechando alguns dos refúgios onde buscava a minha felicidade: desiludi-me com alguns livros, cansei-me de alguns discos, perdi-me em alguns episódios das séries de sempre, mudei algumas rotinas, estranhei algumas pessoas, perdi outras tantas, esqueci algumas datas, deixei escapar alguns filmes, neguei alguns passeios, prendi algumas gargalhadas, apaguei alguns textos, escondi algumas verdades, adiei algumas conversas, ocultei alguns factos, não entendi alguns sinais, passei ao lado de bons dias, falhei. Falhei muitas vezes. E os refúgios eram cada vez mais pequenos e escondidos e iam dar todos ao mesmo lugar. O lugar onde vivia toda e qualquer felicidade. Pensava eu.
Cinco anos depois voltar a este meu lugar é ignorar o cabeçalho e morder o lábio onde se esconde a questão: mas, afinal, que felicidade é esta?
Sim. Tive vontade de mudar o nome. Ou de apagar o cabeçalho, de escurecer as cores do fundo, de trocar as palavras do título por coisa que condiga mais comigo. Não era solução original. Tive ainda vontade de trancar este lugar. De apagar. Desaparecer. Também não era coisa que não aconteça por aí todos os dias. Pensei numa pausa. Num tempo sem palavras. Sem novidades. Mas isso faço eu, por aqui, tantas vezes.
Então, decidi ficar. E decidir ficar é sempre muito mais complicado do que partir. Ficar é sempre muito mais pesado do que a tralha que se leva ao sair.
Cinco anos depois. Apenas cinco anos depois e tanta coisa pelo meio, há um casamento que acaba e que era o meu. Há um filho que cresce e que é sempre o melhor de mim. Há um blogue que fica. Com o mesmo cabeçalho sereno, com o mesmo fundo tão limpo, com o mesmo título tão hipócrita.
Esta canção lembra-me, então, este meu lugar. Por muito que ela conte que as regras da sensatez avisam para não voltarmos aos lugares onde fomos felizes este blogue fica. Fica mesmo. Para me lembrar que num lugar qualquer do mundo deve haver mesmo um, apenas um, refúgio de felicidade e que esse refúgio é o meu.
30 maio 2010
Uma canção e uma história #5
Às vezes a voz volta. Como um sopro. Como um fantasma do passado. E justifica muita coisa: o que eu era e como me tornei, o que eu queria ser e o que a vida fez de mim. Tudo ganha, assim, sentido. Ou sentidos.
O mundo mostra-se um círculo fechado, perfeito, com causa-efeito, com acção-reacção, com meios que levam a fins. Então, quando a voz volta e eu a deixo entrar, quando o sopro sopra e eu o deixo soprar, quando o fantasma aparece e eu o deixo ficar, eu sou outra coisa diferente e a minha história do passado é a história da minha vida. Uma em que eu e ele até eramos mesmo iguais, em que estar comigo era estar com ele, em que escrever para ele era um encontro com o melhor de mim, em que o vivido era o imaginado, em que o imaginado era o sentido, em que o sentido era coisa disforme, irracional, perigosa.
Há uma história dentro desta música que me lembra mais de mim do que dele. Mais do que fui do que do que sou. Ainda mais do que queria ser do que no que me tornei.
Porque enquanto aquela era a minha história, aquela era a minha pessoa e aquele era o sentido da minha vida, o mundo mantinha-se redondo, realmente perfeito. E eu era feliz. Dentro de uma mentira feia.
Foi dentro desse tempo que fiz as maiores loucuras. Que me ultrapassei. Que dei mais de mim do que tudo o que tinha. Foi dentro desse tempo que descobri os piores caminhos a seguir para a felicidade. Foi dentro desse tempo que aprendi que momentos felizes não dão histórias felizes e que pessoas especiais não dão vidas especiais.
Quando a voz volta e traz o sopro e traz o fantasma e traz todas as histórias e traz aquela que eu fui enquanto me achava a miúda mais feliz do mundo eu consigo sentir, de novo, aquilo tudo, aquela força que eu tinha e perdi, aquela vontade que eu perseguia e esqueci, aquela certeza que eu sentia e que, num momento, acabou.
Deixo calar-se a voz, dissolver-se o sopro, desvanecer-se o fantasmo, apagarem-se as histórias e solto a pessoa. Mais eu do que ele. Mais nós diferentes do que qualquer coisa de iguais.
23 maio 2010
Uma canção e uma história #4
"Duas lágrimas de orvalho
Caíram nas minha mãos
Quando te afaguei o rosto"
Enquanto ela canta, dói tudo. Por dentro. Não há maior dor que se sinta, não há maior mágoa que se imagine. Não há mesmo traços de felicidade no caminho ou lembranças vagas de momentos bons.
"Pobre de mim pouco valho
Para te acudir na desgraça
Para te valer no desgosto."
Tudo escurece em volta. Enquanto por dentro se acendem luzes das mais duras memórias.
"Porque choras não me dizes
Não é preciso dizê-lo
Não dizes eu adivinho"
O mundo está parado e tranquilo, como se tivesse deixado de rodar. Como se não se passasse mais nada. Como se o que estivesse para trás fosse toda e qualquer verdade, toda e qualquer certeza.
"Os amantes infelizes
Deveriam ter coragem
Para mudar de caminho"
Tudo é, agora, inabalável e intocável. Sem discussão. Sem dúvidas. Sem margem para possibilidades. Nunca em tempo algum será possível recomeçar. Ou perdoar. Ou esquecer. Ou simplesmente superar. E ela canta.
"Por amor damos a alma
Damos corpo damos tudo
Até cansarmos na jornada"
E enquanto ela canta, volta tudo. Diminuem-se as esperas em certezas inúteis. Compreendem-se os azares em esperanças impossíveis. E tudo o resto perde sentido. E tudo o que perde sentido se perde de vez.
"Mas quando a vida se acaba
O que era amor é saudade
E a vida já não é nada."
Então, enquanto a ouço, sangram as piores dores do mundo e abrem-se, de novo, as feridas, que são as maiores falhas da vida e as maiores fragilidades de cada história.
"Se estás a tempo recua
Amordaça o coração
Mata o passado e sorri"
E ouvi-la é sempre sofrer com ela. É deixar entristecer. É ver a dor crescer, crescer tanto até se tornar impossível respirar ou sobreviver ou suportar sequer cada palavra que ela diz.
"Mas se não estás continua
Disse-me isto minha mãe
Ao ver-me chorar por ti."
Mas quando acaba, quando a voz dela se cala, quando as palavras faltam. O mundo volta a girar, voltam desejos de futuros possíveis e esconde-se a ferida enquanto se morde a dor.
19 maio 2010
Uma canção e uma história #3
Qualquer música com a voz do Sérgio Godinho me lembra dela. Da minha amiga. Da minha Luisinho. Daquela menina de olhos tão verdes com quem troquei cartas cheias de poemas e com quem tive as primeiras conversas sobre livros e sobre as dores do crescimento. Foi com a Luisinho que dividi as maiores confidências sobre amores e desamores, sobre certezas e dúvidas, sobre sonhos e desilusões.
Juntas descobrimos livros antigos no sótão da casa dela e encontrámos por lá frases que reunimos em cadernos que partilhávamos de tempos a tempos. Juntas criámos uma sociedade de "Sonhos&Palavras" que jurámos concretizar. Juntas lanchámos sandes de queijo feitas no microondas e decidimos o que iriamos ser quando fossemos grandes: escritoras. Trocámos diários e prendas - Mafalda Veiga para mim, Pearl Jam para ela - fomos a festas e jantares, dissemos pela primeira vez palavras como cumplicidade e eternidade, compridas de mais para a adolescência. Vimo-nos crescer, dar voltas à vida, mudar de cidade. Assistimos à distância fazendo pela proximidade.
Perguntámos uma à outra que seria isso da vida, do mundo, do passado, do amor, do saber, do sentir, do querer. Questionámos coisas como a felicidade e a saudade. Medimos uma à outra a força das nossas vontades e a coragem que sobrava. Fizemos escolhas e chorámos falhas. Lemo-nos. Escrevemo-nos. E, de tempos a tempos, quando nos vemos temos ainda, no máximo, 17 anos e vamos cumprir com tudo o que está combinado. Vivendo sempre o primeiro dia do resto das nossas vidas.
16 maio 2010
Uma canção e uma história #2
Podia ser uma boa música.
Lembra até uma idade tão saudosa de tantas mudanças: aos 14 anos deixei uma vida inteira num colégio só de raparigas para entrar numa escola secundária cheia de desafios e de descobertas. Esta música consegue ser o som de fundo desses meus tempos de adolescente. Quando descobri que o mundo não era assim tão cor-de-rosa como o tinham pintado e soube que a realidade era muito mais apetitosa do que viver dentro das fantasias.
Podia ser mesmo uma boa música. Fez parte do alinhamento de um dos primeiros grandes concertos que vi na vida e ainda hoje recordo como as luzes eram azuis e já nem se sentiam as pernas mas apetecia que aquela noite não acabasse nunca.
Podia ser realmente uma boa música, se alguém me explicasse o que é um "piano selvagem" que, ainda por cima, "nos gela o coração e nos traz a imagem daquele inverno".
