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05 dezembro 2013
Uma carta para... #5
a minha Sobrinha
Maria,
No dia em que tu nasceste eu estava longe e mesmo os telefonemas constantes não me fizeram deixar de sentir a distância. Na verdade, acho que naquele dia – como nunca – senti isso mesmo: a distância. Uma lonjura física, geográfica, capaz de se tornar emocional e quase saber a solidão.
Conheci-te e descobri-te nas nossas cumplicidades: nos amigos imaginários que partilhas comigo, quando era eu que tinha a tua idade e passava horas a brincar com pessoas transparentes. Vejo-me nos teus jogos de menina, feitos de cozinhas em miniatura, de roupas de bonecas que se vestem ao contrário, dos cabelos de plástico que se cortam muito tortos, acabando com as franjas numa tesourada. Lembro-me nas aulas que dás: tu a professora e as bonecas a turma, a aprenderem letras e números, a fazerem testes fictícios, com certos e errados, elogios e raspanetes.
Criei contigo, nestes 6 anos de tia e sobrinha, rituais que preservamos tão nossos: as pipocas à noite nas férias de verão no Algarve; a tua mão pequenina, de dedos muito fininhos, enlaçada na minha quando vamos com o balde buscar água ao mar; o açúcar da bola de berlim a encher-te a cara, a misturar-se com a areia, a colar-se às bochechas, às mãos, às pernas, ao corpo todo; o modo como ris, em gargalhadas soluçadas e dizes "ai... ai..." no final.
Tornei-me tia depois de ser mãe, certa de que sabia bem de que era feita tal coisa, de ser algo para alguém nosso, do nosso sangue, a parte melhor do melhor que tenho, a minha irmã. Só depois percebi, e aprendi, que ser tua tia, que tu seres a minha única sobrinha, é outra coisa. Entre nós duas há, apenas, espaço para estar tudo bem, para sermos ambas meninas e ambas tranquilas, sonhadoras e imaginativas, perdidas em brincadeiras solitárias de famílias que inventamos e de histórias que quase vivemos, como nossas.
Tu, do alto dos teus 6 anos, especialmente quando usas os teus sapatos de salto, que fazem barulho como as senhoras grandes, pintas a cara com brilhantes e usas a tua coroa de princesa, ensinaste-me a pertencer. A pertencer sem pedirem nada em troca, sem testes, sem ser esperado ou expectável que te ensine alguma coisa, que te molde, que te guie. Contigo, não preciso de estar “à altura”, por eu ser adulta e tu criança, para poder ficar, simplesmente, à tua altura. Ser pequena como dantes, fechada no quarto sozinha, a viver muitos dias diferentes lá dentro, ou antes, com tantas ideias dispersas dentro da cabeça a borbulhar e os olhos bem abertos para saber o que se passa, quase sem falar.
Tu danças. Giras sobre ti própria como eu fazia. Tu apresentas espetáculos frente ao sofá da sala. Seguras o microfone, abres os braços e cantas. Como eu fiz.
Penso muitas vezes, numa atitude talvez infantil, que à medida que vais crescendo te vais parecendo mais comigo. Imagino que vais gostar de livros, de escrever, de ver filmes e séries, de inventar histórias e ficar dentro delas, inconsequentemente. E penso até que as coisas que não fiz e que me escaparam, em alguma idade, podem vir a ser tuas. Numa tentativa egoísta de colocar nas tuas pernas, no teu futuro, o que poderia ter sido e não fui.
Mas, na verdade, o que eu quero é isto: quando cresceres, quando mudares, gostes do que gostares, sejas o que quiseres, não deixes que a tua imaginação mande mais do que a verdade, não deixes que aquilo que viveres, com gente transparente, nas histórias da tua cabeça, te arranhe a pele, te fira por dentro.
E que eu, um dia, ou dia a dia, ou de idade em idade, saiba estar “à altura” de te explicar em que momento as ilusões ganham um “de” antes de tudo. Que eu, adulta e tu criança, adolescente, jovem, mulher, te saiba mostrar o melhor dos sonhos que somos, sabendo bem até onde podem eles crescer, até onde os podemos deixar permanecer, antes de se transformarem nas marcas que trazemos na vida.
Parabéns Maria.
Da tua tia.
26 janeiro 2012
Uma carta para...#4
o meu Pai
Pai
No meu quarto de estudante, onde vivi sete anos partilhando a casa com amigas para a vida, tinha uma parede cheia de poemas, frases e pedaços de canções, em folhas A4 que coloria com bonecos e colava frente à cama e à secretária para decorar. Substitutos originais, e até bem mais valiosos, dos quadros proibidos, pelos furos dos pregos numa parede arrendada.
Quando acabei o curso e naquela tradição das fitas que a família e os amigos escrevem, a surpresa foi grande ao recuperares um dos retalhos da decoração da minha parede, revestindo-o com uma moral à laia de desejo ou de conselho.
Escreveste, então, numa fita branca, com a tua letra desenhada:
"No teu quarto de estudante li Viver é desenhar sem borracha.
Penso nisto. Todos os dias.
Todos os dias mesmo.
Sem ser e sem querer ser de outra forma.
Os bons desenhos, os bons textos, as melhores vidas, chegam depois de erros, de falhas, de dúvidas, de muitos enganos.
Mas quando até parece que fazia jeito a borracha, lembro da parede do meu quarto de estudante, da frase, da fita e daquilo que lá escreveste e sei que (in)felizmente não se acerta sempre, mas o segredo está em andar para a frente depois disso. Sem apagar absolutamente nada.
14 fevereiro 2011
Uma carta para... #3
A minha Mãe
Mãe,
A idade - a tua e a minha - tem-nos tornado mais amigas e mais parecidas, em tudo o que isso tem de bom e de menos bom, também. Tem-nos feito ver que esta coisa de mãe e filha vai muito além do que uma ensina e a outra aprende, do que uma dá e outra recebe. Esta é uma relação de partilha e de entregas mútuas. E essa tem sido a nossa história ao longo dos trinta anos em que és a minha Mãe. Somos suficientemente iguais para nos compreendermos e suficientemente diferentes para nos admirarmos e os pontos que nos unem são sempre indestrutíveis perante o resto. O resto que é a distância, o tempo, as rotinas, as divergências da vida, as falhas, as decisões, as gerações...
Incrível como me consegues surpreender tantas vezes. Pelas constantes demonstrações de generosidade, pelas batalhas dos outros que assumes como tuas, pela força que, quando era criança, não via em ti e agora invejo e absorvo. O tempo tem-te tornado numa mulher mais completa e mais entregue e eu, enquanto tua filha, só tenho ganho com isso. Pelo exemplo diário de investimento em ti própria, pelo constante passo à frente dado com firmeza mesmo quando parece que já não há caminhos para andar, pela crença vincada que dificuldades podem ser oportunidades e que as mudanças, quando chegam, são sempre para melhor.
As mães são os melhores exemplos, são as melhores conselheiras, são os colos mais seguros que temos. Tu, para mim, tens sido para além disso um espelho de como às maiores provas da vida se deve responder com tenacidade e como quando nada parece faltar há que inventar novos objetivos e novos motivos para avançar.
Muito além das conversas que temos, das opiniões que partilhamos, das histórias de uma e de outra que relatamos, das voltas que damos juntas e dos laços que unimos e apertamos diariamente, mesmo de longe, está um respeito que só tem sentido porque é bilateral: vai de mim para ti, porque és minha Mãe, mas sei e sinto com orgulho, que vai de ti para mim, porque sou tua filha. E o respeito que tenho por ti é feito dessa conquista diária de merecer o orgulho que tens em mim. Apesar de tudo.
Parabéns Mãe.
Da tua filha.
Mãe,
A idade - a tua e a minha - tem-nos tornado mais amigas e mais parecidas, em tudo o que isso tem de bom e de menos bom, também. Tem-nos feito ver que esta coisa de mãe e filha vai muito além do que uma ensina e a outra aprende, do que uma dá e outra recebe. Esta é uma relação de partilha e de entregas mútuas. E essa tem sido a nossa história ao longo dos trinta anos em que és a minha Mãe. Somos suficientemente iguais para nos compreendermos e suficientemente diferentes para nos admirarmos e os pontos que nos unem são sempre indestrutíveis perante o resto. O resto que é a distância, o tempo, as rotinas, as divergências da vida, as falhas, as decisões, as gerações...
Incrível como me consegues surpreender tantas vezes. Pelas constantes demonstrações de generosidade, pelas batalhas dos outros que assumes como tuas, pela força que, quando era criança, não via em ti e agora invejo e absorvo. O tempo tem-te tornado numa mulher mais completa e mais entregue e eu, enquanto tua filha, só tenho ganho com isso. Pelo exemplo diário de investimento em ti própria, pelo constante passo à frente dado com firmeza mesmo quando parece que já não há caminhos para andar, pela crença vincada que dificuldades podem ser oportunidades e que as mudanças, quando chegam, são sempre para melhor.
As mães são os melhores exemplos, são as melhores conselheiras, são os colos mais seguros que temos. Tu, para mim, tens sido para além disso um espelho de como às maiores provas da vida se deve responder com tenacidade e como quando nada parece faltar há que inventar novos objetivos e novos motivos para avançar.
Muito além das conversas que temos, das opiniões que partilhamos, das histórias de uma e de outra que relatamos, das voltas que damos juntas e dos laços que unimos e apertamos diariamente, mesmo de longe, está um respeito que só tem sentido porque é bilateral: vai de mim para ti, porque és minha Mãe, mas sei e sinto com orgulho, que vai de ti para mim, porque sou tua filha. E o respeito que tenho por ti é feito dessa conquista diária de merecer o orgulho que tens em mim. Apesar de tudo.
Parabéns Mãe.
Da tua filha.
11 janeiro 2011
Uma carta para... #2
a minha paixão.
Tigy,
Quando não estás na nossa casa, há um sossego pesado e escuro que torna tudo estranho e incompleto. Aos poucos, especialmente ao longo destes últimos quatro meses, construímos uma rotina muito nossa, feita de uma cumplicidade que nunca antes tínhamos criado.
Dizem-me, de todos os lados, que "estás melhor", "mais crescido", "mais calmo" e "mais feliz". E estás mesmo. Estamos os dois e este viver a par que inventámos juntos. Dizem, ainda, que é muito mérito meu e, pela primeira vez na vida, eu concordo. Eu sei que é mesmo verdade. Eu sei que te tenho feito um menino feliz e que tu, finalmente, me fazes sentir mãe. Uma verdadeira mãe. Mesmo que, tantas vezes, até pareça que tu é que tomas conta de mim e não o contrário.
Todos os dias, no caminho entre a escola e a nossa casa, fazemos o "plano", como assim chamamos ao encadeamento de lanche - banho - pijama - jantar - brincar - histórias - cama, com uma ou outra novidade conforme os dias. Falamos ainda do que fica para os fins-de-semana, do que há para comprar no supermercado, do que temos de arrumar em casa e dos sítios a ir em dias próximos. E nunca te esqueces de nada do que falamos.
Contas-me coisas da escola e perguntas coisas da "minha", querendo saber se há cromos novos na caderneta da bola enquanto escondes no bolso um ou outro que trocaste com os amigos e que "Ainda não temos, mãe".
Às vezes perguntas o que eu almocei e insistes que é dia de ginástica: "Vai mãe, é só um bocadinho...".
Comprámos uma toalha nova para os nossos jantares, feita do tamanho do canto da mesa que ocupamos os dois, frente a frente, e as vaquinhas desenhadas no tecido estão estrategicamente a olhar ora para mim, ora para ti, enquanto comemos e falamos, enquanto te vigio e enquanto me dizes, quase todos os dias, "Está delicioso, mãe".
És a melhor das companhias para lanchar. Pedes sempre o mesmo na pastelaria: um café e um pão com farinha, zangando-te quando eu traduzo, para o outro lado do balcão, que é um garoto e um pão sem nada ("Não é sem nada, mãe, é com farinha!").
Falas muito antes de adormecer quando dormimos juntos, perguntas e mais perguntas, e jogamos jogos feitos à medida das minhas insónias e da tua energia. Jogos com regras complexas, que só nós entendemos, e que tu, invariavelmente, ganhas. Normalmente acaba tudo em gargalhadas e em maratonas de cócegas que eu não sei controlar e tu não sabes resistir. Ouvir-te rir, mas rir muito, com todo o tamanho da vontade, faz-me rir também, dessa forma descontrolada que baralha os lençóis da cama e mistura as almofadas.
Aprendemos a dividir o comando da televisão, o espaço do sofá e as prateleiras da estante: entre as minhas coisas e as tuas, entre os meus programas e os teus, entre a minha necessidade de silêncio e a tua sede de atenção. Fazemos acordos e apertamos a mão, combinamos horas e intercalamos cedências, repetimos verdades ("Tigy sabes uma coisa?", pergunto eu, "Ah já sei que vais dizer que me adoras...") e somos surpreendidos por declarações sérias: "Mãe, eu amo-te".
És cada dia mais responsável, mais entregue, mais simpático, mais generoso, mais sensível, mais obediente, mais compreensivo e mais perspicaz: "Mãe tens o nariz vermelho..." e eu respondo "A mãe está constipada...", "Mãe não mintas, constipado é quando fazemos atchim...".
E nem vale a pena esconder mais nada. Apenas abraçar-te e saber que o mundo inteiro está ali a respirar contigo e que só isso importa.
A falta que me fazes quando não estás é proporcional ao bem que te faz o de vez em quando me deixares, o de vez em quando não ter de inventar histórias por ter o nariz vermelho... como agora.
Da tua
Mãe
Tigy,
Quando não estás na nossa casa, há um sossego pesado e escuro que torna tudo estranho e incompleto. Aos poucos, especialmente ao longo destes últimos quatro meses, construímos uma rotina muito nossa, feita de uma cumplicidade que nunca antes tínhamos criado.
Dizem-me, de todos os lados, que "estás melhor", "mais crescido", "mais calmo" e "mais feliz". E estás mesmo. Estamos os dois e este viver a par que inventámos juntos. Dizem, ainda, que é muito mérito meu e, pela primeira vez na vida, eu concordo. Eu sei que é mesmo verdade. Eu sei que te tenho feito um menino feliz e que tu, finalmente, me fazes sentir mãe. Uma verdadeira mãe. Mesmo que, tantas vezes, até pareça que tu é que tomas conta de mim e não o contrário.
Todos os dias, no caminho entre a escola e a nossa casa, fazemos o "plano", como assim chamamos ao encadeamento de lanche - banho - pijama - jantar - brincar - histórias - cama, com uma ou outra novidade conforme os dias. Falamos ainda do que fica para os fins-de-semana, do que há para comprar no supermercado, do que temos de arrumar em casa e dos sítios a ir em dias próximos. E nunca te esqueces de nada do que falamos.
Contas-me coisas da escola e perguntas coisas da "minha", querendo saber se há cromos novos na caderneta da bola enquanto escondes no bolso um ou outro que trocaste com os amigos e que "Ainda não temos, mãe".
Às vezes perguntas o que eu almocei e insistes que é dia de ginástica: "Vai mãe, é só um bocadinho...".
Comprámos uma toalha nova para os nossos jantares, feita do tamanho do canto da mesa que ocupamos os dois, frente a frente, e as vaquinhas desenhadas no tecido estão estrategicamente a olhar ora para mim, ora para ti, enquanto comemos e falamos, enquanto te vigio e enquanto me dizes, quase todos os dias, "Está delicioso, mãe".
És a melhor das companhias para lanchar. Pedes sempre o mesmo na pastelaria: um café e um pão com farinha, zangando-te quando eu traduzo, para o outro lado do balcão, que é um garoto e um pão sem nada ("Não é sem nada, mãe, é com farinha!").
Falas muito antes de adormecer quando dormimos juntos, perguntas e mais perguntas, e jogamos jogos feitos à medida das minhas insónias e da tua energia. Jogos com regras complexas, que só nós entendemos, e que tu, invariavelmente, ganhas. Normalmente acaba tudo em gargalhadas e em maratonas de cócegas que eu não sei controlar e tu não sabes resistir. Ouvir-te rir, mas rir muito, com todo o tamanho da vontade, faz-me rir também, dessa forma descontrolada que baralha os lençóis da cama e mistura as almofadas.
Aprendemos a dividir o comando da televisão, o espaço do sofá e as prateleiras da estante: entre as minhas coisas e as tuas, entre os meus programas e os teus, entre a minha necessidade de silêncio e a tua sede de atenção. Fazemos acordos e apertamos a mão, combinamos horas e intercalamos cedências, repetimos verdades ("Tigy sabes uma coisa?", pergunto eu, "Ah já sei que vais dizer que me adoras...") e somos surpreendidos por declarações sérias: "Mãe, eu amo-te".
És cada dia mais responsável, mais entregue, mais simpático, mais generoso, mais sensível, mais obediente, mais compreensivo e mais perspicaz: "Mãe tens o nariz vermelho..." e eu respondo "A mãe está constipada...", "Mãe não mintas, constipado é quando fazemos atchim...".
E nem vale a pena esconder mais nada. Apenas abraçar-te e saber que o mundo inteiro está ali a respirar contigo e que só isso importa.
A falta que me fazes quando não estás é proporcional ao bem que te faz o de vez em quando me deixares, o de vez em quando não ter de inventar histórias por ter o nariz vermelho... como agora.
Da tua
Mãe
16 novembro 2010
Uma carta para*... #1
o meu melhor amigo.
Amigo,
Acho que esta é a primeira carta que te escrevo. É mesmo. Na verdade, sempre conversámos muito, até cara a cara. Sem máscaras. Sem desviar o olhar. Muitas vezes a apertar a mão entre palavras de incentivo mútuo. Se te resumisse numa frase seria aquela que me dizes e repetes e insistes: "Vê filmes. Não faças filmes". Como me ri na primeira vez que a ouvi. E como ela ganha sentido no dia dos filmes, nos piores de todos, ou nas conjecturas complicadas que partilho contigo. Aquelas que misturam "serás" com "e se" e com histórias de passados recentes embrulhadas em exemplos de passados bem mais distantes.
Não sei se alguma vez te disse, mas tu também fazes muitos filmes. Com outras personagens, com diferentes cenários, com um guião menos pessimista ou menos derrotista, mas fazes. Eu assisto aos teus filmes na plateia. Arranjo críticas positivas ou negativas para o desenrolar da acção. Procuro nas falas dos teus actores, as falas dos meus. E assim se criam pontos de contacto, numa confiança imensa que ganhámos, um com o outro, ao fim de tantos anos.
Se há coisa que nunca duvido (ou nunca mais duvidarei!) é do quanto gostas de mim e, especialmente, do quanto te preocupas comigo. As mensagens nas horas certas, os telefonemas só para saber se estou "viva", as noites com horas à conversa, o "vê lá... tem cuidado" no momento oportuno, o desafio ("Anda vamos...") quando era mesmo de um que precisava, a companhia... tão simples e fundamental como isso: a companhia. Isso faz de ti a pessoa principal, um dos culpados de eu aqui andar, dia após dia, numa montanha-russa que traduzes mais ou menos assim: "quanto mais forte for o ir abaixo mais depressa vais para cima".
Amigo,
Acho que esta é a primeira carta que te escrevo. É mesmo. Na verdade, sempre conversámos muito, até cara a cara. Sem máscaras. Sem desviar o olhar. Muitas vezes a apertar a mão entre palavras de incentivo mútuo. Se te resumisse numa frase seria aquela que me dizes e repetes e insistes: "Vê filmes. Não faças filmes". Como me ri na primeira vez que a ouvi. E como ela ganha sentido no dia dos filmes, nos piores de todos, ou nas conjecturas complicadas que partilho contigo. Aquelas que misturam "serás" com "e se" e com histórias de passados recentes embrulhadas em exemplos de passados bem mais distantes.
Não sei se alguma vez te disse, mas tu também fazes muitos filmes. Com outras personagens, com diferentes cenários, com um guião menos pessimista ou menos derrotista, mas fazes. Eu assisto aos teus filmes na plateia. Arranjo críticas positivas ou negativas para o desenrolar da acção. Procuro nas falas dos teus actores, as falas dos meus. E assim se criam pontos de contacto, numa confiança imensa que ganhámos, um com o outro, ao fim de tantos anos.
Se há coisa que nunca duvido (ou nunca mais duvidarei!) é do quanto gostas de mim e, especialmente, do quanto te preocupas comigo. As mensagens nas horas certas, os telefonemas só para saber se estou "viva", as noites com horas à conversa, o "vê lá... tem cuidado" no momento oportuno, o desafio ("Anda vamos...") quando era mesmo de um que precisava, a companhia... tão simples e fundamental como isso: a companhia. Isso faz de ti a pessoa principal, um dos culpados de eu aqui andar, dia após dia, numa montanha-russa que traduzes mais ou menos assim: "quanto mais forte for o ir abaixo mais depressa vais para cima".
Nem sempre concordamos. Às vezes prefiro não ouvir, não saber, não perceber. Às vezes tu fazes o mesmo. És o emissor das mais complicadas perguntas a que tento responder sem subterfúgios, sem enganos, num diálogo sincero comigo mesma, contigo pelo meio. É quando, literalmente, me abanas e, às vezes, rematas tudo com um "Ai rapariga...". Lá pelo fim, até costumamos rir.
Posso não conseguir arranjar "uma cabeça nova" como às vezes me aconselhas, mas acredita que esta cabecinha ainda vai juntando uns quantos pensamentos bons porque tu existes, porque tu insistes, porque tu mostras e provas e comprovas que estás presente. E nestas coisas da amizade não valem apenas as intenções, vale muito mais os actos, as palavras ditas e os abraços. Obrigada por eles. Espero que os meus te façam sempre tão bem como tu me tens feito, ao longo dos anos que nos conhecemos, mas especialmente nos últimos meses. Tu sabes.
Um beijo.
Beguinha
*Esta é a primeira de uma série de 30 cartas, com destinatários especiais, que irão aparecer por aqui de quando em vez. Sempre adorei escrever cartas e já escrevi muitas: às colegas da escola nas férias do Verão, aos namorados quando os tive à distância, aos amigos quando troquei de cidade, à família, a desconhecidos até pelos mais estranhos motivos. Estas cartas não levam selo nem a minha letra, mas são capazes de levar muito do que não digo e deixo para depois escrever.
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