21 janeiro 2015
A Minha Crónica na Lx4KIDS #9
Pouco Mais de Cinco Minutos
Nas viagens do dia-a-dia somos só os dois. Os dois e as mochilas, as lancheiras, os casacos, o equipamento do futebol, um saco disto ou daquilo. Somos nós dois e a pressa da manhã. Somos nós dois e as saudades da tarde. Somos nós, pouco mais de cinco minutos de percurso, o rádio desligado e as conversas que acontecem no carro… e ficam no carro.
As viagens casa-escola e escola-casa são espaços a dois que eu e o Tiago sugamos diariamente, apesar dos escassos minutos que elas duram. Há muito que inventámos um joguinho só nosso para o final da tarde, em que cada um, à chegada, diz três coisas sobre o seu dia. Normalmente, o Tiago destaca o que almoçou, uma brincadeira especial do recreio da manhã e um golo marcado no intervalo do almoço. No entanto, os dias dele não são todos iguais! O Tiago traz muitas histórias, relata conversas completas com uma amiga já no final da tarde, recupera situações da sala de aula e explica, tim-tim por tim-tim, os recados da professora.
Dou por mim tantas vezes, no caminho trabalho-escola, a inventar coisas fantásticas sobre o meu dia para as minhas três escolhas, negando ao Tiago como os dias dos adultos podem ser assustadoramente rotineiros.
No carro, entre um cruzamento e a espera do semáforo avermelhado, damos a mão que ele não larga quando cai o verde, observamo-nos pelo espelho retrovisor fazendo caretas e piscares de olhos e matamos saudades em olhares cúmplices.
De manhã falamos do cabelo desalinhado, de como nos vamos deitar mais cedo nessa noite e de planos divertidos para o fim de semana, contando sempre os minutos que faltam para o primeiro toque. Ali, quando se fecha a tarde, com a nossa casa como destino, desligo o rádio por completo e quero ouvi-lo. Encho-o de perguntas repetidas, se teve frio, se gostou do almoço, se tem trabalhos, como se um dia de escola tivesse sido uma longa e distante viagem, cheia de aventuras e perigos.
Foi numa destas viagens que contei ao Tiago que, naquela noite, tinha o texto da Lx4Kids para escrever e ele quis logo saber o tema. Relatei-lhe algo sobre semelhanças e diferenças entre nós dois e ele procurou exemplos. Assim, lembrou que ambos gostamos de adormecer com a botija de água quente, que apreciamos chili, que adoramos ver televisão deitados no sofá tapadinhos com uma manta… Porém, o Tiago não gostou das diferenças que encontrei entre nós. Lembrei que quando tinha a idade dele era daquelas meninas com os cadernos da escola sempre impecáveis, com palavras a várias cores e os títulos sublinhados com ondinhas. O Tiago nem me deixou terminar… Percebendo logo que o meu texto iria contar dos seus tpc’s dobrados e vincados, amarrotados tantas vezes no fundo da mochila, disputou argumentos e justificações para eu não fazer de tal injustiça o tema da crónica.
Com o carro estacionado e a chegada a casa, aquela viagem tinha falado de nós mas tinha apagado, na minha cabeça, o meu texto: “Mãe desculpa ter estragado o teu texto, mas não quero que contes isso sobre mim… Porque não escreves sobre as nossas conversas no carro?”
Quando as palavras não saem, quando as ideias não se transformam em frases, quando o que se escreve não traduz o que se pensa… remoem-se os pensamentos dias a fio e enfrenta-se o pânico da folha, ou melhor, do ecrã em branco. Ou então, trocam-se consolos e conselhos numa próxima viagem de carro a dois. Pouco mais de cinco minutos de percurso.
in Lx4kids Janeiro 2015
07 janeiro 2015
04 janeiro 2015
JANEIRO é o mês ideal para...
enfrentar...
escolher, definitivamente, o meu vestido de noiva
recuperar episódios pendentes de "Revenge"
ler Murakami como em todos os Janeiro's dos últimos 5 anos
ir ao teatro ver os melhores
e fechar o mês com a estreia da Gisela João no Coliseu de Lisboa
escolher, definitivamente, o meu vestido de noiva
recuperar episódios pendentes de "Revenge"
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ir ao teatro ver os melhores
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17 dezembro 2014
A Minha Crónica na Lx4KIDS #8
Coisas da Razão
Sei exatamente o momento em que perco a razão. Não é no instante em que elevo a voz, em que as palavras me saem em catadupa, sem controlo, sem conteúdo. Palavras soltas, desconexas e duras. Não. A razão foge quando depois, ao voltar a acalmia, não se pede desculpa. Aí sim, a razão falha por completo.
Mãe e filho zangam-se de vez em quando. Tem mesmo de ser. Digo muitas vezes ao Tiago que só me zango com ele porque o adoro! Senão... não queria saber. Era-me indiferente se ele se porta bem ou mal, se ele é justo ou injusto, se ele é responsável ou irresponsável. Quem ama cuida, quem gosta importa, mas mesmo quem quer bem nem sempre age... bem!
Nos dias piores da nossa história de mãe e filho fazemos as pazes ao deitar. Sentamos na sua cama e, de imediato, o Tiago sabe que livro ir buscar à estante: “Quando a Mãe Grita” de Jutta Bauer. A história do pinguim que se desfaz em pedaços perante um grito da sua mãe é parte integrante do nosso amor, meu e do Tiago. Juntos, acompanhamos a mãe pinguim a reunir os pedaços do seu filho, cosendo-o peça a peça, e reconstruimos ali os nossos corações magoados e estilhaçados. O Tiago não entende isto – nenhum filho entende – mas as zangas doem-nos mais a nós. Somos nós que gritamos, castigamos, impomos limites e regras e, depois, somos nós que sofremos, encolhidos na dúvida persistente entre o que está certo e errado, nesta coisa complicada de educar. Para os filhos, somos donos maquiavélicos das suas vontades. Para nós, somos pais incompreendidos mas empenhados em dar o melhor de nós pelos nossos filhos... incluindo os gritos mais sonantes e as penas mais dramáticas. Ou talvez não. Talvez essas sejam, apenas, as febres do momento, o descontrolo da irritação, o cansaço e o medo. Há sempre uma boa dose de medo a ensombrar isto tudo. Medo de falhar ou de decidir atos sem remendos possíveis. Medo do “remediado está”.
Se há lição que o Tiago me dá, tantas e tantas vezes, é aquela que me diz exatamente o instante em que ele resgata a razão toda para o lado dele. É quando umas horas depois de um momento mau no nosso amor, volvido o período de silêncio, erguidas as tréguas, ele me diz “Desculpa, Mãe”. Com essas duas palavras leva-me tudo: o coração em estilhaços minúsculos, o nervoso miudinho na barriga, a cabeça a zumbir irritantemente, as regras exageradas, os “nunca mais” e o “tem de ser”, o “vais ver” e o “não voltas a”.
“Desculpa, Mãe” e lá me ganha ele outra vez. Por todas as justificações que eu tenha, por todas as falhas que ele repita, por todas as preocupações que eu alimente, por todos os limites que ele ultrapasse, nada resta com a desculpa. Ali, perante tamanha frase, sinto- me pequenina e frágil, uma mãe pinguim que partiu o filho em pedaços com um grito.
“Desculpa, filho” e sossega-se o corpo, arruma-se a cabeça e até parece que enfrentámos o medo, que juntos acabámos com ele de vez. Naquele momento nosso ousamos acreditar que não haverá uma próxima vez, que o nosso amor não guardará mais zangas, que nunca mais eu terei de ser a mãe que impõe e ele o filho que dispõe. Mas, se houver próxima vez, se nos zangarmos porque nos amamos, se eu soltar um grito e ele uma palavra azeda, que seja eu, dessa vez, a ficar com a razão quando, minutos depois, o abraço e lhe ganho com um “Desculpa, filho”.
in Lx4kids Dezembro 2014
31 outubro 2014
A Minha Crónica na Lx4KIDS #7
Propriedade Privada
Com as coisas da vida, aprendemos a tornar os filhos menos nossos e mais deles próprios. Tornamo-nos mais tolerantes à distância, à ausência, aquilo que eles fazem, vivem, provam, passam a gostar… sem que nós vejamos, sem que nós sejamos parte disso.
Quando o pai e a mãe não vivem na mesma casa, os filhos passam a ter duas rotinas paralelas que se unem nas coisas comuns: a escola, as atividades extra e aquilo que eles são em qualquer lado, em qualquer casa e em qualquer momento, e que não muda com as circunstâncias. A vida de uma criança com duas casas – a do pai e a da mãe – é feita de adaptações quotidianas que vão muito além das rotinas. Se há coisa que identifica o ser criança é o querer tudo, querer muito e querer já. Quando o pai e a mãe são pais mas não são um casal, a primeira coisa que uma criança aprende é que querer muito e querer já nem sempre é querer tudo. Então entendem que na casa do pai querem tudo do pai: a comida que ele faz melhor, a brincadeira preferida a dois, os abraços mais apertados daqueles braços; enquanto na casa da mãe querem tudo da mãe: a comida preferida, outras brincadeiras escolhidas a dois e outros braços para iguais abraços.
Ser mãe, e pai, tem muito de possessividade. Os filhos são nossos, nascem nossos, querem-se nossos e tudo o que fazem e os sítios que vão são escolhidos, decididos e autorizados por nós. Então, ser mãe, e pai, de uma criança que tem duas casas exige uma reaprendizagem total dessa história da possessividade. Os filhos passam a ser posse de dois e não de um casal. Os filhos são “meus” e “teus”, sem deixarem de ser “nossos”. E é então que a mãe e o pai aprendem que podem querer muito e querer já, mas isso não significa que possam querer tudo. O “tudo” começa e acaba na casa de cada um. O segredo para que a criança tenha sim duas casas mas não duas vidas chama-se equilíbrio. O equilíbrio que é mantido e promovido pelos pais, deixando que o filho seja do pai e seja da mãe, que desfrute do pai e desfrute da mãe, que seja feliz com um e seja feliz com outro, que seja castigado por um e seja castigado por outro, sem nunca, mas nunca, deixar de ser como é.
Os pais que são pais e que também são um casal passam, muitas vezes, ao lado de tamanha questão. A vida dos filhos é gerida debaixo de olho e os pais atuam como uma equipa coordenada – assim deveria ser. Contudo, isso nem sempre lhes mostra o quanto é importante destrinçar entre o filho ser nosso e o filho ser ele mesmo. Às vezes o problema é mesmo esse: os pais esquecerem que mais do que seus filhos os filhos são eles próprios, são pessoas à parte, não são extensões em ponto pequeno.
Se há aprendizagem que os pais separados têm obrigatoriamente de fazer é a de dividir o mais importante que têm na vida: o tempo que passam com os filhos.
Por outro lado, essa aprendizagem também não pode ser ignorada por todos os pais, em geral, em qualquer condição: saberem distinguir onde começa o “meu” filho e acaba o “ser alguém”, saber dar asas e ensinar a voar, saber o que se quer muito, para já e para sempre. Numa noção exata de que os filhos, sem deixarem de ser tão nossos, podem ser felizes sem nós vermos, desde que ao fim do dia, terminado o fim de semana ou feito o regresso a casa, partilhem essa felicidade connosco e tornem a vida deles, sem nós, aprendizagens dos dois.
in Lx4kids Novembro 2014
27 outubro 2014
Tiago
Mãe que é mãe diz e escreve coisas como esta. Mas eu sou a Mãe do Tiago e, por isso, este blogue há mais de 9 anos que lhe é inteiramente dedicado e as minhas palavras fluem, naturalmente, para ele.
O meu filho tem 9 anos mas tem muita história na vida dele. Eu tenho um orgulho imenso naquilo que ele é, mesmo quando ele me irrita, me enerva, me faz sentir desesperada, por ser teimoso e teimoso e tão teimoso, redobrar o mau feitio e desafiar-me até aos limites da paciência.
Por outro lado, num balanço que balança, o Tiago sabe conversar, dizer coisas refletidas, relatar-me aventuras dos recreios e da sala de aula, tem opiniões e decisões só dele e transforma-se, a cada dia, num ser humano único, feito da matéria que têm as pessoas especiais.
Na maior parte dos dias, eu não sei dizer ao Tiago, em palavras ou mesmo em gestos, o quanto gosto dele, o quanto sou dele, o quanto preciso dele.
Na maior parte dos dias, o Tiago também não sabe entender tudo isso.
O Tiago tem crescido muito e tem aprendido com as coisas que a vida dele, que é a nossa vida, o obrigam a reaprender.
Mesmo quando não estou à espera, o meu filho cresce muitos anos num instante, supera-se, faz-me sentir a pessoa mais abençoada por tê-lo na minha vida, por ela lhe pertencer.
Ontem o Tiago perguntou o que era um saquinho azul brilhante que vinha, ao seu lado, no banco do carro. Eu olhei para ele e disse-lhe que, há minutos, tinha recebido aquele presente e mostrei-lhe o anel no meu dedo. Ele sorriu muito e perguntou, com a resposta no olhar: “O que é que isso quer dizer?”. Respondi-lhe: “Quer dizer que a mãe vai casar...”. O Tiago abriu muito os olhos, franzindo a testa, e com um sorriso enorme, mas também um pouco envergonhado, deu-me um abraço. Agarrou-me o pescoço com força ali no carro, separados pelos bancos, apertados entre eles, presos naquele momento que nunca esquecerei.
Ali naquela reação tão dele, tão sincera, tão oportuna, o Tiago justificou tudo, como se o mundo finalmente girasse no sentido certo, lembrou-me porque é que o tenho na minha vida, porque é que ele é o melhor de mim, porque é que ele é realmente um filho especial. O meu filho.
Por ele tudo vale(u) a pena e toda a felicidade que soube cultivar na minha vida, que deixei germinar e que hoje me faz completa e serena, não é mérito meu. É mérito dos dois.
O meu filho tem 9 anos mas tem muita história na vida dele. Eu tenho um orgulho imenso naquilo que ele é, mesmo quando ele me irrita, me enerva, me faz sentir desesperada, por ser teimoso e teimoso e tão teimoso, redobrar o mau feitio e desafiar-me até aos limites da paciência.
Por outro lado, num balanço que balança, o Tiago sabe conversar, dizer coisas refletidas, relatar-me aventuras dos recreios e da sala de aula, tem opiniões e decisões só dele e transforma-se, a cada dia, num ser humano único, feito da matéria que têm as pessoas especiais.
Na maior parte dos dias, eu não sei dizer ao Tiago, em palavras ou mesmo em gestos, o quanto gosto dele, o quanto sou dele, o quanto preciso dele.
Na maior parte dos dias, o Tiago também não sabe entender tudo isso.
O Tiago tem crescido muito e tem aprendido com as coisas que a vida dele, que é a nossa vida, o obrigam a reaprender.
Mesmo quando não estou à espera, o meu filho cresce muitos anos num instante, supera-se, faz-me sentir a pessoa mais abençoada por tê-lo na minha vida, por ela lhe pertencer.
Ontem o Tiago perguntou o que era um saquinho azul brilhante que vinha, ao seu lado, no banco do carro. Eu olhei para ele e disse-lhe que, há minutos, tinha recebido aquele presente e mostrei-lhe o anel no meu dedo. Ele sorriu muito e perguntou, com a resposta no olhar: “O que é que isso quer dizer?”. Respondi-lhe: “Quer dizer que a mãe vai casar...”. O Tiago abriu muito os olhos, franzindo a testa, e com um sorriso enorme, mas também um pouco envergonhado, deu-me um abraço. Agarrou-me o pescoço com força ali no carro, separados pelos bancos, apertados entre eles, presos naquele momento que nunca esquecerei.
Ali naquela reação tão dele, tão sincera, tão oportuna, o Tiago justificou tudo, como se o mundo finalmente girasse no sentido certo, lembrou-me porque é que o tenho na minha vida, porque é que ele é o melhor de mim, porque é que ele é realmente um filho especial. O meu filho.
Por ele tudo vale(u) a pena e toda a felicidade que soube cultivar na minha vida, que deixei germinar e que hoje me faz completa e serena, não é mérito meu. É mérito dos dois.
13 outubro 2014
Equilíbrio
Por um lado,
chovia torrencialmente quando o despertador tocou e o escuro que vi na janela sabia mesmo a segunda-feira. O carro estava estacionado no fim da rua, as mochilas pesadas e não havia mãos nem braços para chapéus de chuva, casacos e o filho arrastado para o carro, para a escola, para o começar da semana. O dia foi lento, cinzento, quebrado, calado. Havia trânsito no regresso a casa. Uma hora e meia de um caminho de vinte minutos.
Por outro lado,
acabei de tirar um bolo quentinho, redondo e doce do forno. A casa cheira a lar, está cheia e tranquila. Partilham-se segredos ao ouvido. O Tiago no sofá pede-me para ler um livro novo. Voltam as mantas para os joelhos, as pantufas nos pés e desdobram-se os abraços antes de adormecer.
chovia torrencialmente quando o despertador tocou e o escuro que vi na janela sabia mesmo a segunda-feira. O carro estava estacionado no fim da rua, as mochilas pesadas e não havia mãos nem braços para chapéus de chuva, casacos e o filho arrastado para o carro, para a escola, para o começar da semana. O dia foi lento, cinzento, quebrado, calado. Havia trânsito no regresso a casa. Uma hora e meia de um caminho de vinte minutos.
Por outro lado,
acabei de tirar um bolo quentinho, redondo e doce do forno. A casa cheira a lar, está cheia e tranquila. Partilham-se segredos ao ouvido. O Tiago no sofá pede-me para ler um livro novo. Voltam as mantas para os joelhos, as pantufas nos pés e desdobram-se os abraços antes de adormecer.
29 setembro 2014
O Tiago com 9 anos, 1 mês e 13 dias
em 9 pontos:
1. Disse há uns dias que roubar é ser como o Ricardo Salgado.
2. O auge da sua semana é quando o deixo levar dinheiro e ir almoçar ao bar.
3. Fala no chat do facebook com amigos e amigas da escola, escondendo o ecrã para que eu não leia a conversa.
4. Tem um coração recortado e pintado de vermelho guardado na bolsa exterior da mochila da escola.
5. Tudo na vida dele começa e acaba no futebol.
6. Toma banho sozinho, encostando a porta e repetindo muitas vezes que não precisa de ajuda para nada.
7. Levou um casaco novo para a escola – um simples casaco tipo fato-de-treino, vermelho e branco com molas – e a primeira coisa que me disse ao final do dia foi: “Mãe, este casaco fez mega-sucesso. Quero trazê-lo todos os dias.” E assim tem sido.
8. Pediu-me uma mesada.
9. Sabe que escrevo coisas sobre ele e diz que detesta. Mas adora.
2. O auge da sua semana é quando o deixo levar dinheiro e ir almoçar ao bar.
3. Fala no chat do facebook com amigos e amigas da escola, escondendo o ecrã para que eu não leia a conversa.
4. Tem um coração recortado e pintado de vermelho guardado na bolsa exterior da mochila da escola.
5. Tudo na vida dele começa e acaba no futebol.
6. Toma banho sozinho, encostando a porta e repetindo muitas vezes que não precisa de ajuda para nada.
7. Levou um casaco novo para a escola – um simples casaco tipo fato-de-treino, vermelho e branco com molas – e a primeira coisa que me disse ao final do dia foi: “Mãe, este casaco fez mega-sucesso. Quero trazê-lo todos os dias.” E assim tem sido.
8. Pediu-me uma mesada.
9. Sabe que escrevo coisas sobre ele e diz que detesta. Mas adora.
21 setembro 2014
A Minha Crónica na Lx4KIDS #6
E agora o que é que eu faço?
Liga tv. Muda de canal. Põe mais alto. Muda de canal. Liga o computador. Muda de canal. Liga a consola. Tecla no computador. Volta para a consola. Muda de canal. Põe a tv mais alto. “Mãe vamos jogar Monopólio!”. Espreita o computador. Volta para a consola. Muda de canal.
São as idas e vindas entre os entretenimentos modernos que compõem o cenário cá de casa, nos dias que restam, dentro das férias de verão do Tiago. Quando não dá nada na tv, quando já não há mais nada para procurar na internet, quando já está farto de jogar consola, quando não há ninguém para jogar Monopólio, o Tiago diz desesperado: “E agora o que é que eu faço?”. Esta pergunta junta umas pitadas de tédio a uma boa dose de falta de objetivos. “Vai jogar consola ou vê um filme ou lê um livro ou vai brincar com os Playmobil...” respondo-lhe eu numa ladainha repetida, contando baixinho quantos dias faltam mesmo para começar a escola.
A pergunta não é exclusiva do Tiago, já a ouvi vinda de outras vozes mantendo-se o tom de desespero. A resposta que verdadeiramente me apetece dar é: “Não faças nada!”. Quantos de nós daríamos tudo por um bocadinho de não fazer absolutamente nada?! Uns minutos que fossem dentro de uma semana inteira! Será assim tão complicado estar, apenas e somente, sem fazer nada?
Por outro lado, também já pressenti na pergunta “E agora o que é que eu faço?” uma colherada de responsabilização. Ou melhor, de desresponsabilização. Pensei para mim que, no fundo, o Tiago estava a responsabilizar-me pelo facto de ele estar de férias e não ter nada com que se entreter. Como se me encostasse à parede e avisa-se: “É bom que arranjes imediatamente algo divertido e estimulante para eu ocupar o tempo que tenho.”
Absorvidos e enleados no tempo do imediato, os nossos filhos valem-se pouco de si próprios. Dependem demasiado de nós para tudo: para brincar, para estudar, para escolher, para fazer. Contam connosco ou com um comando e uns quantos botões até para ocuparem o tempo que têm. Para nós, os pais, as férias são dias contados e subtraídos aos escassos 22 que nos dão anualmente. São tempos sonhados e perspetivados, sugados e explorados, como se a nossa sobrevivência dependesse disso. E depende. Quase tanto como os nossos filhos dependem de nós para saberem como ocupar o tempo das férias deles. Três meses inteiros de tempo, possíveis de serem preenchidos com tanto e que acabam desvalorizados em episódios repetidos das séries do Disney ou em jogos de futebol da consola ganhos 10-0 no nível amador.
Enérgico e inquieto, o Tiago não sabe como podem ser maravilhosamente retemperadores uns cinco minutos de... nada. Um tempo de pausa. Como se limpássemos a cabeça, os olhos, os ouvidos ou até o paladar e recomeçássemos de novo. As férias para a gente crescida tem muito disso: o fechar de um ciclo, o recomeço, o renovar de forças ou de vontades. O tempo é já uma joia rara, para ser namorado e desfrutado. Mas, para eles, o tempo é coisa imensa que querem agarrar com as duas mãos, comandar, preencher, viver sofregamente. Faltem dois meses ou dois dias para as férias acabarem, o importante é fazerem alguma coisa com o tempo deles sem suspeitarem que um dia vão desejar, simplesmente, não fazer nada.
in Lx4kids Setembro 2014
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