31 outubro 2014

A Minha Crónica na Lx4KIDS #7





Propriedade Privada

Com as coisas da vida, aprendemos a tornar os filhos menos nossos e mais deles próprios. Tornamo-nos mais tolerantes à distância, à ausência, aquilo que eles fazem, vivem, provam, passam a gostar… sem que nós vejamos, sem que nós sejamos parte disso.

Quando o pai e a mãe não vivem na mesma casa, os filhos passam a ter duas rotinas paralelas que se unem nas coisas comuns: a escola, as atividades extra e aquilo que eles são em qualquer lado, em qualquer casa e em qualquer momento, e que não muda com as circunstâncias. A vida de uma criança com duas casas – a do pai e a da mãe – é feita de adaptações quotidianas que vão muito além das rotinas. Se há coisa que identifica o ser criança é o querer tudo, querer muito e querer já. Quando o pai e a mãe são pais mas não são um casal, a primeira coisa que uma criança aprende é que querer muito e querer já nem sempre é querer tudo. Então entendem que na casa do pai querem tudo do pai: a comida que ele faz melhor, a brincadeira preferida a dois, os abraços mais apertados daqueles braços; enquanto na casa da mãe querem tudo da mãe: a comida preferida, outras brincadeiras escolhidas a dois e outros braços para iguais abraços.

Ser mãe, e pai, tem muito de possessividade. Os filhos são nossos, nascem nossos, querem-se nossos e tudo o que fazem e os sítios que vão são escolhidos, decididos e autorizados por nós. Então, ser mãe, e pai, de uma criança que tem duas casas exige uma reaprendizagem total dessa história da possessividade. Os filhos passam a ser posse de dois e não de um casal. Os filhos são “meus” e “teus”, sem deixarem de ser “nossos”. E é então que a mãe e o pai aprendem que podem querer muito e querer já, mas isso não significa que possam querer tudo. O “tudo” começa e acaba na casa de cada um. O segredo para que a criança tenha sim duas casas mas não duas vidas chama-se equilíbrio. O equilíbrio que é mantido e promovido pelos pais, deixando que o filho seja do pai e seja da mãe, que desfrute do pai e desfrute da mãe, que seja feliz com um e seja feliz com outro, que seja castigado por um e seja castigado por outro, sem nunca, mas nunca, deixar de ser como é.

Os pais que são pais e que também são um casal passam, muitas vezes, ao lado de tamanha questão. A vida dos filhos é gerida debaixo de olho e os pais atuam como uma equipa coordenada – assim deveria ser. Contudo, isso nem sempre lhes mostra o quanto é importante destrinçar entre o filho ser nosso e o filho ser ele mesmo. Às vezes o problema é mesmo esse: os pais esquecerem que mais do que seus filhos os filhos são eles próprios, são pessoas à parte, não são extensões em ponto pequeno.

Se há aprendizagem que os pais separados têm obrigatoriamente de fazer é a de dividir o mais importante que têm na vida: o tempo que passam com os filhos.
Por outro lado, essa aprendizagem também não pode ser ignorada por todos os pais, em geral, em qualquer condição: saberem distinguir onde começa o “meu” filho e acaba o “ser alguém”, saber dar asas e ensinar a voar, saber o que se quer muito, para já e para sempre. Numa noção exata de que os filhos, sem deixarem de ser tão nossos, podem ser felizes sem nós vermos, desde que ao fim do dia, terminado o fim de semana ou feito o regresso a casa, partilhem essa felicidade connosco e tornem a vida deles, sem nós, aprendizagens dos dois.



in Lx4kids Novembro 2014

27 outubro 2014

Tiago

Mãe que é mãe diz e escreve coisas como esta. Mas eu sou a Mãe do Tiago e, por isso, este blogue há mais de 9 anos que lhe é inteiramente dedicado e as minhas palavras fluem, naturalmente, para ele.

O meu filho tem 9 anos mas tem muita história na vida dele. Eu tenho um orgulho imenso naquilo que ele é, mesmo quando ele me irrita, me enerva, me faz sentir desesperada, por ser teimoso e teimoso e tão teimoso, redobrar o mau feitio e desafiar-me até aos limites da paciência.
Por outro lado, num balanço que balança, o Tiago sabe conversar, dizer coisas refletidas, relatar-me aventuras dos recreios e da sala de aula, tem opiniões e decisões só dele e transforma-se, a cada dia, num ser humano único, feito da matéria que têm as pessoas especiais.

Na maior parte dos dias, eu não sei dizer ao Tiago, em palavras ou mesmo em gestos, o quanto gosto dele, o quanto sou dele, o quanto preciso dele.
Na maior parte dos dias, o Tiago também não sabe entender tudo isso.
O Tiago tem crescido muito e tem aprendido com as coisas que a vida dele, que é a nossa vida, o obrigam a reaprender.

Mesmo quando não estou à espera, o meu filho cresce muitos anos num instante, supera-se, faz-me sentir a pessoa mais abençoada por tê-lo na minha vida, por ela lhe pertencer.

Ontem o Tiago perguntou o que era um saquinho azul brilhante que vinha, ao seu lado, no banco do carro. Eu olhei para ele e disse-lhe que, há minutos, tinha recebido aquele presente e mostrei-lhe o anel no meu dedo. Ele sorriu muito e perguntou, com a resposta no olhar: “O que é que isso quer dizer?”. Respondi-lhe: “Quer dizer que a mãe vai casar...”. O Tiago abriu muito os olhos, franzindo a testa, e com um sorriso enorme, mas também um pouco envergonhado, deu-me um abraço. Agarrou-me o pescoço com força ali no carro, separados pelos bancos, apertados entre eles, presos naquele momento que nunca esquecerei.
Ali naquela reação tão dele, tão sincera, tão oportuna, o Tiago justificou tudo, como se o mundo finalmente girasse no sentido certo, lembrou-me porque é que o tenho na minha vida, porque é que ele é o melhor de mim, porque é que ele é realmente um filho especial. O meu filho.
Por ele tudo vale(u) a pena e toda a felicidade que soube cultivar na minha vida, que deixei germinar e que hoje me faz completa e serena, não é mérito meu. É mérito dos dois.




13 outubro 2014

Equilíbrio

Por um lado,
chovia torrencialmente quando o despertador tocou e o escuro que vi na janela sabia mesmo a segunda-feira. O carro estava estacionado no fim da rua, as mochilas pesadas e não havia mãos nem braços para chapéus de chuva, casacos e o filho arrastado para o carro, para a escola, para o começar da semana. O dia foi lento, cinzento, quebrado, calado. Havia trânsito no regresso a casa. Uma hora e meia de um caminho de vinte minutos.

Por outro lado,
acabei de tirar um bolo quentinho, redondo e doce do forno. A casa cheira a lar, está cheia e tranquila. Partilham-se segredos ao ouvido. O Tiago no sofá pede-me para ler um livro novo. Voltam as mantas para os joelhos, as pantufas nos pés e desdobram-se os abraços antes de adormecer.

29 setembro 2014

O Tiago com 9 anos, 1 mês e 13 dias
em 9 pontos:

1. Disse há uns dias que roubar é ser como o Ricardo Salgado.
2. O auge da sua semana é quando o deixo levar dinheiro e ir almoçar ao bar.
3. Fala no chat do facebook com amigos e amigas da escola, escondendo o ecrã para que eu não leia a conversa.
4. Tem um coração recortado e pintado de vermelho guardado na bolsa exterior da mochila da escola.
5. Tudo na vida dele começa e acaba no futebol.
6. Toma banho sozinho, encostando a porta e repetindo muitas vezes que não precisa de ajuda para nada.
7. Levou um casaco novo para a escola – um simples casaco tipo fato-de-treino, vermelho e branco com molas – e a primeira coisa que me disse ao final do dia foi: “Mãe, este casaco fez mega-sucesso. Quero trazê-lo todos os dias.” E assim tem sido.
8. Pediu-me uma mesada.
9. Sabe que escrevo coisas sobre ele e diz que detesta. Mas adora.

21 setembro 2014

A Minha Crónica na Lx4KIDS #6


E agora o que é que eu faço? 

Liga tv. Muda de canal. Põe mais alto. Muda de canal. Liga o computador. Muda de canal. Liga a consola. Tecla no computador. Volta para a consola. Muda de canal. Põe a tv mais alto. “Mãe vamos jogar Monopólio!”. Espreita o computador. Volta para a consola. Muda de canal.

São as idas e vindas entre os entretenimentos modernos que compõem o cenário cá de casa, nos dias que restam, dentro das férias de verão do Tiago. Quando não dá nada na tv, quando já não há mais nada para procurar na internet, quando já está farto de jogar consola, quando não há ninguém para jogar Monopólio, o Tiago diz desesperado: “E agora o que é que eu faço?”. Esta pergunta junta umas pitadas de tédio a uma boa dose de falta de objetivos. “Vai jogar consola ou vê um filme ou lê um livro ou vai brincar com os Playmobil...” respondo-lhe eu numa ladainha repetida, contando baixinho quantos dias faltam mesmo para começar a escola.

A pergunta não é exclusiva do Tiago, já a ouvi vinda de outras vozes mantendo-se o tom de desespero. A resposta que verdadeiramente me apetece dar é: “Não faças nada!”. Quantos de nós daríamos tudo por um bocadinho de não fazer absolutamente nada?! Uns minutos que fossem dentro de uma semana inteira! Será assim tão complicado estar, apenas e somente, sem fazer nada?
Por outro lado, também já pressenti na pergunta “E agora o que é que eu faço?” uma colherada de responsabilização. Ou melhor, de desresponsabilização. Pensei para mim que, no fundo, o Tiago estava a responsabilizar-me pelo facto de ele estar de férias e não ter nada com que se entreter. Como se me encostasse à parede e avisa-se: “É bom que arranjes imediatamente algo divertido e estimulante para eu ocupar o tempo que tenho.”

Absorvidos e enleados no tempo do imediato, os nossos filhos valem-se pouco de si próprios. Dependem demasiado de nós para tudo: para brincar, para estudar, para escolher, para fazer. Contam connosco ou com um comando e uns quantos botões até para ocuparem o tempo que têm. Para nós, os pais, as férias são dias contados e subtraídos aos escassos 22 que nos dão anualmente. São tempos sonhados e perspetivados, sugados e explorados, como se a nossa sobrevivência dependesse disso. E depende. Quase tanto como os nossos filhos dependem de nós para saberem como ocupar o tempo das férias deles. Três meses inteiros de tempo, possíveis de serem preenchidos com tanto e que acabam desvalorizados em episódios repetidos das séries do Disney ou em jogos de futebol da consola ganhos 10-0 no nível amador.

Enérgico e inquieto, o Tiago não sabe como podem ser maravilhosamente retemperadores uns cinco minutos de... nada. Um tempo de pausa. Como se limpássemos a cabeça, os olhos, os ouvidos ou até o paladar e recomeçássemos de novo. As férias para a gente crescida tem muito disso: o fechar de um ciclo, o recomeço, o renovar de forças ou de vontades. O tempo é já uma joia rara, para ser namorado e desfrutado. Mas, para eles, o tempo é coisa imensa que querem agarrar com as duas mãos, comandar, preencher, viver sofregamente. Faltem dois meses ou dois dias para as férias acabarem, o importante é fazerem alguma coisa com o tempo deles sem suspeitarem que um dia vão desejar, simplesmente, não fazer nada.



in Lx4kids Setembro 2014

23 julho 2014

A Minha Crónica na Lx4KIDS #5



Dormir sem sono

Todas as noites a história repete-se: “Mais 5 minutos, Mãe!”, pede o meu filhote quando já está ultrapassada a hora certa de deitar. Inevitavelmente, recordo-me bem de ser da idade dele e em nada temer aquele momento. Dali para a frente, das 10 da noite para a manhã do dia seguinte, do sofá da sala frente à televisão, para o lusco-fusco do quarto, começava todo um outro mundo para mim, onde tudo, mas mesmo tudo, era possível.

Foi nessas noites que desenhei muitas das histórias que iria viver quando fosse grande, adulta, mulher, independente, profissional, senhora de mim, plena de possibilidades e potencialidades. Ir deitar significava entrar numa outra idade, mais lá para a frente, e decidir, eu mesma, tudo o que iria viver. Aconchegada na cama, de luzes apagadas, voltava cada noite ao ponto onde tinha deixado a história – a minha – no dia anterior, adormecendo sem dar conta, embalada pela magia que tem a imaginação. Aos 8, 9, 10 anos, acreditava que o percurso seria assim: uma linha reta, definida, certinha, um caminho escolhido, consentido, pensado e concretizado, sem grandes curvas, sem maiores desvios. Então, ouvir a minha Mãe anunciar a hora de ir para a cama era um ato instantâneo. Sem adiar, sem passos lentos no corredor, sem lamentos, eu deixava mais um dia de escola, mais um final de tarde de trabalhos de casa, mais um jantar em família, mais um serão perto da TV, para entrar num segredo só meu, onde mandava eu e a minha cabeça, onde crescia 10 anos em poucos segundos.

Noite após noite, o Tiago resiste à ida para a cama com todos os seus argumentos e contestações. Tentando convencer-me que não terá sono absolutamente nenhum na manhã seguinte, jurando até que se irá levantar à minha primeira chamada. Torcendo-lhe a vontade, lá lhe concedo os 5 minutos da praxe e vamos os dois até à sua cama para lermos um capítulo do livro do momento e, depois, nos abraçarmos e beijarmos como se um de nós partisse numa grande viagem. Deixando-o deitado, disposto a adormecer, rodeado de bonecos e com uma luz fraca acesa, saio do quarto sempre a pensar que devia falar-lhe da magia que ele pode descobrir naquele momento, enquanto adormece e não adormece, enquanto o sono não vem e a manhã ainda está longe. Chego mesmo a travar os meus passos e a ponderar voltar atrás, sentar-me na beira da sua cama e relatar-lhe como eu vivi aqueles momentos quando era da idade dele, como eu conseguia ser tão feliz e tão infinita com aquilo que as crianças mais detestam: ir para a cama.
Nunca o fiz. Ainda não o fiz.

Na verdade, no final das contas, quando chega a minha hora de deitar, quando sou eu que pouso na mesa de cabeceira o livro do momento, quando se apagam as luzes e o dia termina, eu faço o caminho inverso, retrocedo 15, 16, 17 anos na idade, procuro as histórias no teto escurecido do quarto, aconchego-me nelas e deixo-me embalar pelo melhor que tem a imaginação. Então, perto muito perto de adormecer, sei que o Tiago não precisa do truque das minhas noites de infância, talvez porque os dias que ele vive são muito melhores do que todos os que eu possa ter imaginado quando tinha a idade dele. Com certeza, porque tudo o que espera o Tiago enquanto está acordado o faz muito mais feliz do que qualquer história criada, empolada, inventada, moldada e, afinal, fechada num tempo impossível, vivida enquanto está deitado na cama sem conseguir dormir. E é assim que eu adormeço tranquila, que eu adormeço feliz, por saber que a vida que o meu filho vive é muito melhor do que qualquer uma que ele tenha guardada, bem trancada, na sua imaginação.

in Lx4kids Julho/Agosto 2014

16 julho 2014

Conversas com ele

Cenário rotineiro, sentados no sofá ao serão. Eu agarrada ao computador e o Tiago vidrado na Psvita. Ambos com um olho, de quando em vez, na Tv.

O Tiago pergunta diariamente:
- Mãe, porque é que tens de trabalhar em casa?

Eu respondo-lhe repetidamente:
- Porque o dinheirinho faz falta, para pagar o colégio, a casa, comida, férias, roupas, as coisas que gostas e que precisamos...

Na noite seguinte, a pergunta voltava.
A minha resposta também.

Há dias mudei a resposta:
- Para ser mais feliz, Tiago. Eu gosto muito dos trabalhos que faço em casa.

 Há vários dias que não me pergunta nada. Encosta-se simplesmente ao meu braço direito, deixando um espaço milimetricamente testado para eu conseguir teclar.

19 junho 2014

A Minha Crónica na Lx4KIDS #4




Um gostar perfeito

O meu filho tem 8 anos e pergunta-me, muitas e muitas vezes, se gosto dele e de quem eu gosto mais. A necessidade que o Tiago tem em testar e hierarquizar sentimentos é proporcional à dificuldade que sinto em colocar-lhe em palavras o quanto o adoro, acima de tudo, acima de todos.

Sou surpreendida, diariamente, com as perguntas mais “assustadoras”, vindas do meu pequeno rapaz. Sentado no sofá, agarrado à consola ou inebriado pela televisão, o Tiago solta coisas como “Mãe, tu gostas de mim?” com a mesma facilidade com que, logo a seguir, me pede umas bolachinhas de chocolate antes do jantar. Para tamanha pergunta, já adotei vários tipos de resposta... A não-resposta: “Ó Tiago, então não sabes que gosto?!”. A resposta insossa: “Gosto. Claro que gosto.” A resposta aflita: “Gosto muito, filho. Olha, gosto muito de ti. Decora bem. Nunca esqueças, está bem?”. A resposta peganhenta, que vem com beijos e abraços exagerados: “Gosto tanto de ti filho. És tudo para mim. Anda cá. Deixa-me encher-te de beijinhos!”. A resposta humorística: “Não, não gosto. Não gosto nada.” A resposta inquisidora: “Porque perguntas? Não sentes que gosto de ti? Não gostas de mim, é?”, entre tantas hipóteses todas repetitivas, infrutíferas e demasiado banais para serem minhas, para serem para ele.
Eu, o Tiago, esta coisa do gostar, a pergunta insistente e a gaguez da resposta têm-me feito pensar na forma como nos damos aos outros, em particular aos filhos. A história dos pais trabalharem muito e não terem tempo para as crianças não encaixa na forma como vejo o relacionamento pais-filhos dos dias de hoje. Os pais, como nunca, se deram tanto à vida dos filhos como acontece agora. A agenda dos filhos acaba por se sobrepor aos afazeres dos pais e, especialmente os fins-de-semana, são determinados pelos jogos de futebol ou as apresentações de ballet dos mais novos, entre festas de aniversário dos colegas da escola e tardes de domingo com trabalhos de casa e revisões para os testes. São os pais que encaixam os seus compromissos nos da criançada e não o contrário. E até parece que o facto de corrermos entre a manhã de sábado e a noite de domingo, levando e trazendo os meninos, preparando as chuteiras e embrulhando prendas com laço e tudo, estudando as medidas de comprimento e os determinantes-artigo, provamos e comprovamos, aos nossos filhos e ao mundo, o quanto gostamos deles, o quanto fazemos tudo por eles, o quanto é impossível que, do nada, um filho nos pergunte: “Mãe, tu gostas de mim?”.
Então, naquele instante, as melhores respostas podem ser substituídas por uma tentativa absurda de justificar amor com factos. Ou noutras vezes, pode restar o silêncio e uma dor pequenina que se agiganta, feita das dúvidas que alimentamos. Na verdade, o problema deste tipo de perguntas que os filhos nos fazem é o medo que temos de estarmos aquém das expectativas. Não das deles! Das nossas. A expectativa que criamos de sermos perfeitos, de estarmos sempre presentes, disponíveis e sermos tudo isso com um sorriso igualmente perfeito. Mesmo que os dias no trabalho não sejam os melhores, que os problemas da rotina não sejam os mais leves, mesmo que o país e a crise e o futebol e a meteorologia não sejam do nosso agrado, exigimo-nos perfeitos, cheios de respostas luminosas para perguntas nubladas. As minhas respostas ao “Mãe, tu gostas de mim?”, por mais variadas e expressivas que sejam, nunca lhe chegam, nunca lhe sobram. Até eu perceber que, mais do que uma dúvida, a questão é afinal um pedido. No fundo, o Tiago não quer saber se eu gosto mesmo dele, ele quer sim que eu lhe diga que gosto, que gosto muito, que gosto sempre, e que lhe diga isso com um sorriso perfeito.


in Lx4Kids Junho 2014

14 junho 2014

Saber de mim?



"Honra tanto esmero, cala o desespero, 
É simples, tudo o que é da vida herdou sentido, 
Tem-te se for tido, sabe ser vivido, 
 Fala-te ao ouvido e nasces tu..."