16 dezembro 2010

Uma canção e uma história #18*

Uma canção para o meu funeral




Eu não tenho medo de morrer, nem medo da morte em geral. Nem sinto por ela existir qualquer tipo de pena ou rancor ou pressa estúpida em deixar tudo feito ou tudo dito antes que ela chegue.
Aceito. Entendo. E na verdade, vejo-a mais como uma recompensa do que como um castigo. Tem de ser muito melhor do que estar vivo, porque isso é que custa, isso é que dói...
Morrer tem de ser dar uma tarefa por terminada e não a punição certa para os piores crimes.
Tem de ser o princípio de uma liberdade total e não o final de um conjunto bonito de bons motivos para viver (os quais esquecemos todos os dias). Tem de ser uma coisa leve, daí o suspiro, tem de ser coisa fácil, daí o total desprendimento do corpo e dos sentidos, o fim da consciência, o fim da memória, o fim da razão.
A partir dali, nada se lembra, nada mais nos fere, nada mais importa.

Eu não tenho medo de morrer e também não acredito que voltemos transformados no que quer que seja, muito menos para fazer tudo o que não fizemos dentro da vida que temos.
Mas todos os dias tenho medo do que sinto, tenho medo que cada vez a ferida esteja maior e mais aberta e mais profunda. E que viver fique para sempre isto: uma sobrevivência inerte e insípida.

Eu não tenho mesmo medo de morrer. Mas tenho raiva à simples sobrevivência. E quando viver se transforma nisso mesmo, viver não é nada.



*Sem querer chocar ninguém, nem assustar, nem aterrorizar sequer. Por favor.

13 dezembro 2010

Gosto Não Gosto

"Gosto sobretudo dos meus filhos. Parece lamechas e piegas mas é um grande acontecimento na vida das pessoas.

Gosto muito de estar em casa. Gosto muito de ver televisão. Muito mesmo.

Não gosto de pessoas que têm a mania que são felizes e que estão sempre a rir e a chatear os outros com a sua felicidade, ou com a sua aparente felicidade.

Não gosto de pessoas que usam o adjectivo fantástico por tudo e por nada, ou espectacular. É tudo fantástico e tudo espectacular, a verdade é que nem tudo é fantástico e nem tudo é espectacular, aliás muito pouca coisa é fantástica e espectacular.


Pedro Boucherie Mendes
40 anos
Com frio
No Alta Definição"


Gosto do Pedro Boucherie Mendes.
Não gosto de concordar tanto com o Pedro Boucherie Mendes.

10 dezembro 2010

Uma canção e uma história #17

Uma canção do meu casamento




A melhor forma de andar em frente é guardar só o que o passado tem de bom.
Não sei se esta teoria tem fundamento, não sei se a conseguirei cumprir algum dia, mas só o facto de a escrever, de a deixar aqui bem explícita, bem visível, é um bom começo. Então, o meu casamento também teve isso: um bom começo, vários começos bons. Teve um filho que é o melhor começo de todos. Teve dez anos de uma vida partilhada, de sentimentos misturados e de coisas que se deram e se receberam. E muito do que o meu casamento teve de bom está na melodia carinhosa e cor-de-rosa desta canção.
Lembrá-la com o seu "avião sem asa" e a "fogueira sem brasa" é admitir, para o futuro, que não se reescrevem decisões, nem se põem em causa opções. Vivem-se com elas. Aceita-se que somos melhores depois do que passou: somos maiores, mais fortes, mais nós.
Lembrá-la não é "retomar o pedaço que falta no meu coração" é dizer a mim mesma que os sentimentos morrem, que as histórias terminam, mas o melhor das pessoas que foram nossas tem de ficar para sempre.

Porque nós continuamos a existir depois de tudo: das tempestades, das falhas, do medo. Mas agora mais seguros, agora mais felizes. A andar em frente guardando só o que o passado tem de bom.

08 dezembro 2010

Coisas dos outros



Os outros dizem para mudar o corte de cabelo, ir para o ginásio, sair à noite, vestir roupa colorida, ver filmes, telefonar sempre que quiser, aparecer para jantar, comprar tralha, ver montras, mudar os quadros de parede e a mesa de lugar.
Os outros repetem que vai passar, que o tempo trata de tudo, que daqui a um ano já nem me lembro de nada, que não vale a pena, que eu não mereço, que não tem sentido, que é irreal, que é em vão.
Os outros mandam ir ao médico, comer mais, dormir cedo, falar a verdade, não ligar, rir mesmo sem vontade, olhar para o lado, olhar para a frente, pensar no meu filho, pensar só em mim, pensar menos, não pensar sequer.
Os outros acreditam que é uma fase, uma mania, uma teimosia, uma ideia, uma doença, uma crise, uma invenção.
Os outros dão ideias, fazem sugestões, convidam, insistem, incentivam, desvalorizam, dão as respostas certas, dão as mesmas respostas três vezes, listam tudo o que tenho, fazem avisos, pesam o que há e o que falta numa balança viciada.
Os outros acham que devo esquecer, passar à frente, não repetir asneiras, olhar para o lado bom das coisas, acreditar em mim, ver bem como sou, ser mais assim e menos assado, ouvir bem o que dizem, o que repetem, as ordens que dão e tudo o que acham.

Mas isso são os outros e não sou eu.



Gosto Não Gosto

Gosto de pessoas.
Não gosto de toda a gente.