30 maio 2011

Olha

imagina as coisas como uma telenovela:
quando a história acaba os personagens desaparecem.
Depois, os atores têm duas hipóteses de futuro:
ou surgem na telenovela seguinte, com outro papel, com outra importância;
ou, simplesmente, terminam ali a carreira
e, mais dia menos dia,
quando nos cruzarmos com eles na rua,
já nem os reconheceremos entre a multidão.

Para mim, o mundo é mesmo assim:
quando a história acaba,
as personagens acabam também
e o que fica dos episódios passados
são lembranças certas no tempo em que estão:
lá atrás.

Porque o que realmente interessa é tudo o que está por acontecer
na telenovela seguinte.

24 maio 2011

Saber de mim?

Hoje publico:


Ou
um FURTO, como este
ou
uma CONSTATAÇÃO como esta

Há pessoas más.

ou
um 2/3 DO MEU CÉREBRO SÃO LETRAS DE CANÇÕES do género desta

Tão bom pudesse o tempo parar E voltar-se a preencher o vazio É tão duro aprender que na vida Nada se repete, nada se promete E é tudo tão fugaz e tão breve

ou
um GOSTO NÃO GOSTO assim

Gosto da minha vida.
Não gosto da vida dos outros.

ou
uma PESQUISA completa da diferença entre entender e aceitar

entender (ê) - Conjugar
(latim intendo, -ere, estender, pretender, estar atento)
v. tr.
1. Apossar-se do sentido de (o que ouvimos ou lemos).
2. Ser de opinião; julgar.
v. intr.
3. Ser entendedor.
4. Superintender.
5. Infrm. Contender, armar rixas.
v. pron.
6. Compreender-se (a si mesmo).
7. Referir-se; ser concernente.
8. Estar de acordo (duas ou mais pessoas).
9. Combinar.
s. m.
10. Maneira de pensar ou de ver. = entendimento, juízo, parecer, opinião


aceitar - Conjugar
v. tr.
1. Receber o que é oferecido.
2. Estar conforme com.
3. Admitir.
4. Receber com agrado.
5. Obrigar-se a pagar (uma letra).


ou um exemplo de EXPRESSÕES (IN)FELIZES

Calma


ou esta REGRA DE SOBREVIVÊNCIA

Quando não se tem a certeza do caminho,
mais vale seguir em frente.



Ou
então publico tudo.

Ou
então não publico nada.

13 maio 2011

Olha

o momento perfeito da vida é quando sentimos falta de um comando:
para carregar no pause e ficar tudo assim,
tal e qual como está.
Os dias dentro destes dias,
as pessoas nos seus lugares,
o clima com esta temperatura,
as taxas de juro nos valores actuais.

Nada aumentar.

Nada diminuir.

Nada começar.

Nada acabar.

O mundo em estado de pausa.
Tal e qual como está.

09 maio 2011

Eu hoje respondo assim

Acredito que um dia...
vou concretizar um dos meus maiores sonhos.

A melhor coisa que podem dizer de mim é...
que mereço tudo o que de melhor a vida tem para me dar.

E a pior?
Que mereço o pior que já me aconteceu.

Se encontrasse uma mala com um milhão de euros...
abria um negócio só meu.

De entre as coisas que me causam medo contam-se...
as pessoas invejosas.

A primeira coisa que faço de manhã é...
abrir a cortina e ver o tempo.

A última SMS que enviei foi...
a melhor das respostas à melhor de todas as mensagens.

Ao sábado à noite é provável que me encontrem...
em casa a ver um filme.

E agora apetecia-me dizer isto:
Há sempre um dia certo para tudo. Até para falhar.




RSF | Beguinha
Inquérito da revista Blitz - Abril 2011

08 maio 2011

Uma escolha e uma história #6

Uma canção




O corpo descobre-se e desdobra-se em vontades e os desejos são coisas puníveis e sujas, capazes de suscitar pecados e crimes. As manobras da cobiça são segredos inconfessáveis, escondem-se entre a vergonha e o medo, debaixo de tapetes ou dentro de gavetas. Para lá das portas e das janelas fechadas o mundo é novo e impenetrável, do lado da rua fica tudo o que é inseguro e errado, disfarçado em movimentos rotineiros e diálogos banais.

Há um tempo do dia para pôr tudo no lugar: acertar o corpo com as suas ambições desmedidas, levá-lo ao comando das emoções, dar-lhe tudo o que ele pede, multiplicar quereres até. E ceder a tentações.
Tudo retilineamente correto. As exigências do tempo dentro de resistências vãs.

03 maio 2011

Por acaso

de tempos a tempos as coisas mudam:
escrevo menos e leio mais
escrevo menos e penso mais
escrevo menos e converso mais
escrevo menos e rio mais
escrevo menos e sou mais feliz.

E não deve ser nada por acaso.

16 abril 2011

Coisas do meu talento






Era uma bailarina minúscula, de saia de tule aos folhos e collants cor-de-rosa, cabelo arrepiado e queixo altivo, sempre na posição certa, de pés em V, colados nos calcanhares, e braços arqueados num gesto delicado. Os anos em que dancei ballet fizeram de mim uma menina feminina e suave, contida e perfeccionista. Residia todo o encanto naquelas manhãs de sábado de mão na barra de madeira e olhar no espelho. Dançar era uma forma de comunicar, era uma linguagem secreta, num diálogo íntimo de uma criança sempre demasiado metida dentro de si própria.
Com os anos, com a idade, com as exigências da escola e as contingência de morar longe dos grandes centros, deixei a dança para outros destinos.


No fim da aula, ela distribuía as cenas para o dia seguinte. Entre retalhos de telenovelas brasileiras e excertos de peças de teatro, os diálogos envolviam discussões ou desabafos, banalidades ou revelações que mudavam a história. Em menos de um ano de curso de representação, eu já tinha dançado com um par numa cena de sedução, já tinha perdido um filho e chorado por isso, já tinha trocado estaladas num momento de fúria e descontrolo, já tinha adormecido e acordado, frente às câmaras, aos professores e aos colegas. Mas, desta vez, a aula envolvia beijos e eu, afundando-me na cadeira, não estiquei o braço para receber as minhas folhas e, naquele instante, desisti de ser atriz.


Enquanto eles falavam, as perguntas sucediam-se na memória, sem rabiscos no papel ou dúvidas que engasgassem as frases. Naqueles segundos, de gravador na mão e entrevistado disponível, eu era a jornalista destemida, sem espaço para hesitações, vergonhas ou embaraços. E corria bem. Saía a pergunta e chegava a resposta. Numa tarde de calor, percorri ruas onde nunca tinha andado para tentar a sorte numa embaixada de um país distante. Lá dentro, levaram-me por túneis e elevadores simulados, até alguém que falando mal qualquer língua que eu entendesse, se recusou a responder a perguntas ou a ouvi-las, até ao fim, sequer. Sem saber regressar sozinha ao portão de saída, segui o caminho labiríntico frustrada pela história que não levava comigo. Uns dias depois, na imprensa concorrente houve alguém que assinava um artigo idêntico, que tinha feito as perguntas até ao fim e que teria percorrido aqueles túneis levando a história até ao portão de saída. Acho que foi aí que percebi, que certo jornalismo vai muito além de fazer perguntas e receber respostas, de imaginar o artigo e fazer a história. E mudei de sonho.


Aos 14 anos escrevi um livro. Sei que a personagem principal se chamava Ana e era uma adolescente como eu. Imprimi tudo e enviei para as editoras que conhecia. Por aquela altura, ganhei alguns concursos pelas coisas que escrevia, mas aquele meu projeto de livro mereceu cartas de agradecimento ou o silêncio apenas. Com o tempo, esses textos perderam-se nas disquetes que hoje já nem funcionam e escrever foi o talento que restou quando deixei de calçar as sapatilhas de pontas e rodopiar em frente do espelho, quando larguei as máscaras e desmarquei os castings, quando arrumei o gravador e fechei os pontos finais. Tudo porque ficava sempre aquém do outro, do lado. Da menina que dançava melhor em toda a classe, da atriz que tão naturalmente beijava como gritava, da jornalista que não tolerava perguntas sem resposta.
E, por cada livro que acabo de ler, por cada escritor que conheço e me desarma, morre um bocadinho do sonho final, para resistir a dúvida:

Todos temos um talento. Onde andará o meu?


Ilustração - Alejandra Karageorgiu

11 abril 2011

2/3 do meu cérebro são letras de canções





"Ser capitã desse mundo Poder rodar sem fronteiras Viver um ano em segundos Não achar sonhos besteira Me encantar com um livro Que fale sobre vaidade Quando mentir for preciso Poder falar a verdade"