23 abril 2009

Quais os 10 livros que mudaram a tua vida?




Neste que é o Dia Mundial do Livro, não fui desafiada mas senti-me. Gosto desta ideia e já pensei e repensei na resposta a dar a tamanha questão: "Quais os 10 livros que mudaram a tua vida?".
Isto dos livros mudarem vidas tem alguma coisa que se lhe diga... porque as palavras que os outros escrevem, contando histórias que outros viveram, podem dar-nos novos rumos e ensinar-nos muitas lições, mas o resto - que é a mudança, a decisão, o tiro no escuro ou o tiro acertado - já fica nas nossas mãos. Mesmo os livros, mesmo as vidas imaginadas por quem os escreve, mesmo os personagens que não são ninguém mas parecem tanta gente, não poderão fazer nada por nós, nem viver a nossa vida e escolher caminhos, diariamente, para que ela prossiga.
Assim, aqui ficam os livros que, podem não ter mudado a minha vida, mas ajudaram-me a escolher as mudanças que fui desejando para ela. E isto acontece hoje, como aconteceu no meu passado e como quero que aconteça, desesperadamente, no meu futuro.

1
"Lote 12 - 2º frente"
de Alice Vieira

Foi um dos primeiros livros que li na vida. Um livro enorme para a idade, cheio de letras e sem bonecos. Comprei-o porque um excerto no livro de Português do 5º ou 6º ano suscitou a minha atenção e quis saber mais, conhecer toda a história. A partir dele, passei a ler todos os livros da autora e a desejar para mim muito do que aquelas personagens viviam e sentiam. A passagem de criança a adolescente fez-se ao sabor das palavras da Alice Vieira e olhar hoje para a estante onde todos os livros dela figuram, de lombada colorida e sugestiva, transporta-me até um tempo do passado onde me sentia capaz de comandar todos os sonhos e de enfrentar todas as dificuldades.

2
"O vento assobiando nas gruas"
de Lídia Jorge

Era capaz de jurar que a conheço. A ela, a Milene do livro. Depois da história, fechado o livro, encaixado na prateleira junto aos outros da mesma autora, ficou ela, comigo, como uma amiga, uma prima, uma vizinha talvez. Para ela, inventei um rosto, um modo de andar que não sei bem imitar, um gesto até de mexer no cabelo e de piscar os olhos. De um livro como este posso lembrar já poucos momentos, apenas uma ou outra passagem mais marcada, mas vinda de um livro como este ganhei uma pessoa, que saiu da tinta de cada caracter para imprimir, na minha cabeça, a sua forma tão própria de viver a vida.

3
"Pobby e Dingan"
de Ben Rice

Um livro pequenino e discreto que fala daqueles segredos que guardamos connosco e que jamais se revelam. Ou talvez não seja assim. Revelam-se quando percebemos que o nosso segredo pode ser o segredo de tanta gente. Ao longo da minha vida tive sempre comigo um mundo de amigos que só eu via e que me acompanhavam na rua, em casa, na escola. Um universo à parte. Um lugar paralelo. Comigo, da infância para a adolescência, da adolescência para o resto que se tem seguido, têm andado uns certos Pobby e Dingan que, por muito desfasados no tempo que sejam, valem quase tudo por quase nada. E venha quem diga que são apenas retratos da minha imaginação!

4
"Um amor feliz"
de David Mourão-Ferreira

Lia-o todos os anos. Ou duas vezes ao ano. Quem sabe mais. Devorando sempre cada página como se fosse a primeira vez. Saboreando as palavras e até as virgulas entre elas e cada ponto final. Se não existissem tantos livros. Tantos e tão bons livros. Sim, era isso. Lia este sempre. Sempre. Vezes sem fim.

5
"Como água para chocolate"
de Laura Esquivel
Gosto do título. Gosto, especialmente, de quantas histórias se podiam escrever com um titulo assim. Mas lá dentro, desta que é a história conhecida, há uma vida inteira tão sofrida, tão pouco doce para um título de chocolate e nada insípida para a palavra água. Há um pouco de Tita comigo desde que a conheci neste livro e há uns momentos muito específicos em que até desconfio que ela sou eu ou eu sou mesmo ela.

6
"O mundo de Sofia"
de Jostein Gaarden
Aos 16 anos descobri a Filosofia. Uma ciência do saber cheia de teorias estranhas que, naquela idade, me pareciam as leis elementares da minha Natureza. Uma descoberta como esta chegou-me neste livro, intercalando as aventuras de uma Sofia como eu com os grandes feitos de uns senhores vindos de um mundo para além do meu. Que grande aventura! E que sentido tinha tudo aquilo aos 16 anos... E que sentido ficou para muito depois.

7
"Um"
Richard Bach

Escolher caminhos a seguir é sempre uma tarefa ingrata. Richard Bach convenceu-me que há uma Beguinha paralela que vai vivendo as decisões que eu rejeito. Por causa disso, dou por mim muitas vezes a conversar com ela, sabendo como é a sua vida no caminho à direita, enquanto eu prossigo por este, mais à esquerda. Então, em cada cruzamento, enquanto o sinal está vermelho ou damos prioridade a quem se aproxima pela direita... a Beguinha das opções rejeitadas e a Beguinha das opções tomadas tornam-se apenas uma, não vivem dois caminho mas apenas um.

8
"A Casa e o Cheiro dos Livros"
Maria do Rosário Pedreira
A poesia. Uma poesia nova. Que diz coisas como esta:
"Guarda tu agora o que eu, subitamente, perdi
talvez para sempre ― a casa e o cheiro dos livros,
a suave respiração do tempo, palavras, a verdade,
camas desfeitas algures pela manhã,
o abrigo de um corpo agitado no seu sono."

Bom... sobra pouco para dizer.

9
"Contos"
Ana Teresa Pereira

Uma viagem de férias. Dez dias num país tropical. Eu e este livro. Do sol para a cama gigante antes de adormecer. Da praia para a esplanada. Do sofá da sala de estar para a mesa do canto no bar. Eu e este livro. Eu e o Tom, a Patrícia, a Marisa. Eu e a irrealidade da escrita de Ana Teresa Pereira. Eu dentro do real, dentro do livro, dentro de mim. Eu e este livro.

10
"O Mar, o mar"
Iris Murdoch

Este é o livro do momento. Aquele que me espera na mesa de cabeceira quando vou deitar. Porque os livros que mudaram a minha vida são sempre os do presente e todos os que me esperam. A dobrar o meio do livro, ciente de que a última frase guarda um ponto de interrogação, este "O Mar, o mar" já é coisa que fica, já é coisa que vai.


Ilustração - Eunice Rosado

08 abril 2009

A voz da nossa casa




Naquela primeira cassete que me gravaste já vinha a voz dele. Aquela cassete que rodou e rodou no meu carro meses a fio e que ainda há poucos anos ouviamos de quando em vez nas viagens grandes. Daquela primeira cassete para os dias de hoje mudaram as músicas, tal e qual como mudaram os cenários. Daqueles primeiros meses para estes últimos dias mudaram os planos, tal e qual como mudam sentimentos. Mas do primeiro beijo para o beijo de hoje, dos primeiros tempos para os tempos que correm, as coisas que ficam são eternas e esta voz, ouvida hoje como há 9 anos atrás, é um vínculo, uma certeza, uma coisa nossa que se torna concreta.
Fiz desta voz, como da tua, como da de outros que ouvias e lias e repetias e seguias, uma das minhas. Acreditando que se aproximam pessoas através de diferenças, sabendo que se unem pessoas encontrando semelhanças.
As descobertas foram chegando com o tempo. E o tempo foi sendo, passo a passo, pleno de boas descobertas. Criar raízes num lugar é parecido com solidificar relacionamentos: alisa-se o terreno, escavam-se buracos para erguer alicerces e contrói-se o telhado muito antes de colocar portas e janelas.

Com o tempo reconstruímos paredes, pusemos tijolos onde havia uma janela e fechámos janelas com outros tijolos. Com o tempo fizemos o telhado antes de pintar os tectos. Com o tempo destruímos a casa toda para lhe mudarmos a planta, para lhe alargarmos a área, para fazer a cozinha na sala e o quarto na varanda. Com o tempo juntámos o lixo, limpámos de novo o terreno, ponderámos até construir a casa noutro lugar. E com o mesmo tempo levantámos paredes que mais parecem muros e rasgámos portas para nos tocarmos.

Agora, com a casa em construção dá para olhar para as coisas que ficam: a vista para além do nosso terreno, as árvores que crescem ao redor. E dá também para ouvir esta voz. Esta voz que nos seguiu sempre e que é tão nossa.

25 março 2009

Uma espécie de falta de apetite



Assim foi durante alguns Verões seguidos: em Julho lá íamos as três para a pensão junto à praia. Eu, a mana e a prima. A porta da pensão fechava às 10 e a dúzia de quartos no corredor comprido eram ocupados pelos mesmos velhotes todos os anos. Eles e nós as três. Uma única casa de banho para o corredor de quartos cheios. Um recado junto à sanita que, em quatro línguas, dizia qualquer coisa sobre poupar água. Aquelas frases em português, inglês, francês e alemão, repetidas por mim até à exaustão, como de uma cantilena se tratassem, foram nos meus 10 ou 11 anos a maneira mais fantástica de me sentir crescida. Isso e passar três semanas com a mana como nossa mãe: minha e da prima.
Daqueles tempos lembro episódios soltos misturados numa rotina com sentido: os pequenos-almoços sempre na mesma pastelaria onde a máquina das pipocas tocava uma música que ainda hoje sei imitar; o caminho até à praia de chapéu, guarda-vento e lancheira às costas; os fins de tarde na praia, com o sol a bater no mar e aquele som do areal quase deserto; e as noites, caminhando numa mesma rua para trás e para a frente, vendo e revendo os mesmos rostos, tomando parte na mesma fila para comer o mesmo doce, todas as noites.
Daqueles tempos podia recordar, simplesmente, o final de dia de cada ano em que, ao regressarmos da praia, a mana parava na cabine telefónica e, colocando algumas moedas, marcava o número da nossa casa e dizia: "Mãe, diz ao Pai para vir visitar a mana porque ela já deixou de comer...".
Passados vinte anos ainda consigo ver o meu Pai a subir a rua estreita e eu a correr para ele, arriscaria dizer a cor da roupa que ele trazia e acrescentar que espécie de força teve aquele abraço. Aos 10 anos a medida da falta que aquela pessoa me fazia via-se pela falta de apetite e colmatava-se com uma simples visita para jantar.
Hoje, vinte anos depois, lembro desta forma uma história tão minha... talvez porque só quisesse ser, agora, aquela menina que não comia com saudades do Pai.


Ilustração - July Macuada

15 março 2009

Crises de Domingo




Ao Domingo era dia de missa e de almoço em casa dos avós. Ao Domingo havia o pequeno-almoço na pastelaria do costume e o café à saída da igreja com as caras de sempre. Ao Domingo as tardes eram compridas com filmes repetidos na tv e anoitecia muito mais depressa do que se desejava.

Dos domingos da minha infância e adolescência trouxe, para o resto da vida, esta estranha sensação de finitude que acorda comigo, a qualquer que seja a hora, e me vai minando o dia por muito bom, por muito cheio, por muito especial, que ele seja. Porque os Domingos têm qualquer coisa de estranho, que os torna os dias mais pequenos da semana e os mais fugazes também... quanto mais os queremos agarrar mais se conseguem escapar.

Lembro bem os finais dos Domigos: os trabalhos de casa mal feitos para refazer; todos os planos desenhados à Sexta alinhados numa nova lista para o fim-de-semana seguinte; e a busca ingrata de razões e soluções para saltar da cama na manhã de Segunda.

Os Domingos de agora começam quando o Tigy começa também. Têm desenhos animados a manhã inteira, alguns que a mamã até já gosta. Têm uma bica do Beguinho que sabe especialmente bem neste dia. Têm uma preguiça saborososa de demorar mais o pijama no corpo, de prolongar mais a água a correr no banho, de hesitar mais na roupa a vestir para a rua. Têm almoços mais demorados, nos avós do Tigy, por casa ou na rua, como se a comida precisasse de ser mais mastigada ou melhor saboreada por ser Domingo. Têm passeios há muito imaginados e que se desejam estender por mais uns quantos dias, como se a um Domingo se sucedesse outro Domingo, e outro, e outro ainda.

E quando anoitece, ao Domingo, o dia parece que não existiu, que foram apenas alguns minutos, um ou outro instante. Até parece que não houve acordar, que não se viram desenhos animados. Chega mesmo a duvidar-se se tomámos a bica da manhã. Por vezes até se cheira o corpo procurando provas do olfacto que denunciem o banho prolongado dos Domingos. E quanto mais anoitece, mais ainda se intensifica a ideia que não houve almoço... esquecemo-nos mesmo de almoçar?! Depois, acreditamos que renunciámos a qualquer passeio! Tantos passeios para dar e hoje, Domingo, não demos passeio nenhum?! Assim, chega a hora de deitar. E é Domingo. E sabe tudo a uma angústia estúpida que o tempo passou e que não se fez nada dele. Então, deita-se a cabeça na almofada, apaga-se a luz do quarto e aí, temos a certeza, mas a certeza absoluta, que nem sequer houve Domingo. E adormeço desconfiada que é só amanhã.


Ilustração - Neal Layton

09 março 2009

Se eu fosse...

..uma bebida, só podia ser esta.




"Hola Aitana, me llamo Josep Mascaró y tengo 102 años. Soy un suertudo. Suerte por haber nacido, como tú, por poder abrazar a mi mujer, por haber conocido a mis amigos, por haberme despedido de ellos, por seguir aquí. Te preguntarás cuál es la razón de venir a conocerte hoy, es que muchos te dirán que a quien se le ocurre llegar en los tiempos que corren, que hay crisis, que no se puede. Esto te hará fuerte, yo he vivido momentos peores que éste, pero al final de lo único que te vas a acordar es de las cosas buenas. No te entretengas en tonterías, que las hay, y vete a buscar lo que te haga feliz que el tiempo corre muy deprisa. He vivido 102 años y te aseguro que lo único que no te va a gustar de la vida, es que te va a parecer demasiado corta. Estás aquí para ser feliz."

01 março 2009

Posso?





Eu sempre fui assim.
Cheia de vontades. Cheia de capacidades. Cheia do melhor de tudo. Cheia de ideias. Cheia de certezas. Mas nunca cheia de mim.

Eu sempre quis parecer assim.
Cheia de força. Cheia de coragem. Cheia de resistência. Cheia de tudo o que torna as pessoas invencíveis. Mas nunca cheguei a vencer-me a mim.

Eu sempre me fechei aqui por dentro.
Cheia de palavras por escrever. Cheia de uma vida inteira que nunca saiu de cadernos trancados em segredos sem chave. Cheia de gente que nunca foi como a inventei. Cheia de histórias que nunca aconteceram como pensei. Mas nunca cheguei a viver nada de mim.

Eu sempre repeti que tudo passa, que tudo se consegue, que vale a pena tentar.
Eu sempre insisti que a vida não pode ser só isto, que o melhor está sempre para chegar.
Eu sempre mostrei o lado mais imperturbável e mais paciente, o lado mais tolerante e mais persistente, o lado mais tranquilo e mais saudável.


Assim, será que por uns dias, escassas semanas, um ou outro mês, posso ser todo e qualquer contrário? Posso?



Ilustração - Marta Chicote


17 fevereiro 2009

Debaixo deste céu



Provavelmente como tantas adolescentes da minha geração, "O Diário de Anne Frank" foi um dos primeiros livros - daqueles mais a sério, com mais páginas, sem bonecos -­ que li. Dele guardei sempre uma frase:

"Enquanto houver este céu azul e sem nuvens não posso estar triste".

Depois das semanas contínuas de chuva, abrir a porta de casa e ter, à minha espera, este céu azul e sem nuvens tem-me lembrado da frase e de uma Beguinha tão criança a ler um livro tão duro, de uma Beguinha tão pequena para uma frase tão grande.

Porque um céu azul e sem nuvens é muito mais do que apenas isso, é uma das mil coisas da vida que, de tão simples, quase não se notam, quase não se falam. Quando tudo o que é grande e imenso falha, sobram as coisas pequenas e simples...

...um pão quente com manteiga

uma canção na rádio daquelas que nunca dão

um primeiro episódio de uma coisa nova na tv

uma mousse de chocolate no fim do jantar

uma última página de um livro intenso

um abraço apertado

um telefonema inesperado

uma cama feita de lavado

uma boa conversa
um almoço em família

um banho de imersão

uma vitória no futebol
uma tarde de chuva à lareira

um beijo ao acordar

uma sesta no sofá

um filme com final feliz

uma gargalhada com vontade...



E é então que vemos que essas coisas pequenas são afinal as únicas que importam.
Na verdade, são as maiores de todas.



Ilustração - Macus Romero