
No dia em que me descobri grávida senti a vida cair-me aos pés. Como se tudo o que tivesse vivido até aquele dia terminasse ali. Aquele é o tipo de coisa que só acontece aos outros e a mim, a 4 meses de entrar na igreja vestida de noiva, é que não podia acontecer mesmo.
Lembro-me bem de uma sensação que nasceu em segundos, um peso estranho na barriga como se ela já refugiasse um bebé prestes a nascer e não poucos gramas de um susto revelado há instantes. Por alguns dias ignorei tudo isso: a sensação centrada na barriga, o que dali iria nascer, o mundo completamente novo que se poderia abrir aos meus olhos. Durante esses dias concentrei todos os pensamentos em mim e desafiei o destino ou as lições da vida para inventar culpas e atribuir responsabilidades. Acabavam ali todos os sonhos criados anos a fio. Morria naquele instante um percurso certinho e rectilíneo desejado e seguido, sem grandes desvios. Para mim, por aqueles dias, perderam-se todos os ideais de sonhos tornados verdade e objectivos pelos quais se lutam durante semanas ou meses e se festejam quando realizados. O futuro não era nada daquilo e havia que inventar novos rumos para dar à história.
Houve quem me dissesse (alguém que sabia do que falava) que devia fazer uma espécie de luto, uma despedida do percurso de vida que sonhara para mim. Depois disso conseguiria aceitar, entender e ser feliz dentro de uma nova realidade. Esse dia, do meu luto, deixou-me trancada comigo mesmo, num diálogo sem palavras e quase sem movimentos. Talvez quando saísse dali, de pazes feitas com a vida, soubesse reconstruir os sonhos e fazer de um acaso a melhor conquista de sempre.
Passados 3 anos desses tempos vejo os dias seguintes como uma corrida de alta velocidade: das lágrimas resta pouco mais de uma névoa, seguiram-se os melhores meses de sempre, aqueles em que me senti sempre acompanhada de uma força e de uma vida que nunca experimentara antes e talvez não venha a sentir mais. E agora as birras de um Tigy de 2 anos e meio, que descontrolam os meus nervos e sugam tanta energia, fazem-me recordar os primeiros dias dele abrigado dentro de mim. Os tais em que me zanguei com o meu corpo e desejei dar passos atrás para poder seguir com a vida tão planeada para a frente. As birras do Tigy que são próprias da idade, que todas as crianças têm, que mais dia, menos dia passam quase sem darmos por isso. As birras do Tigy que não toleram "nãos" ou esperas. As birras do Tigy que me diminuem por dentro e me deixam as fraquezas à vista. As birras do Tigy que hoje me lembraram de tudo isto e me dão vontade de lhe pedir muitas vezes "desculpa" enquanto o vejo deitado e já adormecido. Se ele me desculpar talvez tudo ganhe sentido.





