Procurei atentamente dentro da loja e encontrei exactamente o que queria: um cesto rectangular enorme, feito de verga mas forrado a tecido às riscas brancas e vermelhas. O saco maior não dava para o transportar e, sem conseguir agarrar as asas convenientemente, levei-o até ao carro e encaixei-o no banco traseiro, mesmo ao lado da cadeira vazia do Tigy.
A hora de almoço fez-se desta missão pós-natal: arranjar um novo poiso para os brinquedos do bebé.
No seu segundo Natal, o Tigy viu-se rodeado de montanhas de papel colorido. Com os embrulhos na mão, agarrava os laços e entretinha-se a colar e descolar a fita-cola dos dedos... Entretanto, a mamã Beguinha abria as prendas e partilhava-as com a família. Ao meu redor, debaixo da cadeira, em cima dos pés, sem colo que albergasse tamanha quantidade de objectos, foram multiplicando-se os brinquedos. Brinquedos de todas as formas e feitios, com sons mais ou menos irritantes, com luzes mais ou menos incandescentes, com maior ou menor funcionalidade ou pedagogia, de todas as marcas e tamanhos, com todos os objectivos ou falta deles...
Enquanto a sala se enchia de caixas vazias, de papel amarrotado, de carros a vaguearem por entre as nossas pernas, de puzzles e legos espalhados por baixo do sofá, de algumas roupas dobradas em cima de uma cadeira, encontrei-me a mim mesma "com-uma-sensação-estranha-sentida-cá-dentro-mas-que-por-muito-que-pense-não-encontro-palavra-capaz-de-traduzir". Sei que tinha uma ponta de tristeza, uma dose grande de incómodo, uma boa parte de culpa. Ao comentário da avó de que tamanha parafernália de brinquedos dava para abrir um bazar, soltei uma frase parecida com "de certeza que existem tantas crianças que não receberam nenhum brinquedo e olha para isto..."
Não me considero um exemplo de solidariedade, perante tantos e grandiosos que vou descobrindo, mas este Natal - talvez culpa da nuvem escura que, nos últimos tempos, me segue para todo o lado, poisada no cimo da minha cabeça - o rasgar dos embrulhos soou a vazio e pouco a encanto.
Chegada eu, o bebé, o pai Beguinho e o cesto a casa, o Tigy encontrou neste último o brinquedo que lhe faltava: alçou a perna e entrou para dentro dele, sentando-se bem confortável de pernas abertas e mãos poisadas, cada uma em sua aba. Ali estava, dentro do enorme cesto de verga, o meu melhor presente. Diário e permanente. Sem precisar de laços ou embrulhos.






