19 outubro 2006

Glossário das mamãs

Ter um bebé com um ano faz-nos descobrir novos canais de televisão, novos bonecos, novas canções, mas, por outro lado, leva-nos numa viagem ao passado, em que revivemos a infância, em que percebemos que temos as letras das mais velhas cantigas todas na memória, em que nos voltamos a envolver nas histórias e na fantasia dos desenhos animados. Nas conversas com os outros e nas leituras dos refúgios dos outros, já percebi que, agora, por causa dos filhos que temos, substituímos os telejornais, os concursos ou mesmo as novelas, por coisas como estas...

As pistas da Blue


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Conheço o Duarte como se fosse meu amigo de longa data. Sim, sei que anda sempre com uma sweat às riscas verdes e com umas calças beges. Mas, uma vez, apanhei o episódio a meio e estranhei o facto de ele estar de calças às riscas verdes e camisola bege. Lá mais para o fim descobri que era o pijama... Danço as coreografias e acompanho as canções: quando chega o correio, quando se descobrem as pistas, quando é a hora do adeus. Estou prestes a arranjar um bloco e uma cadeira de pensar. Só é pena não ter tanto jeito para desenhar...

Abram alas para o Noddy


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Até há bem pouco tempo eu não fazia ideia que o Noddy fosse tão antigo como os livros dos Cinco e, muito menos, que o rapazinho já existisse era eu uma criança.Mas, agora, sei toda a história sobre ele, seus amigos e conhecidos, incluindotodas as aventuras e desventuras do país dos brinquedos. Até sei as canções, o tom da buzina do carro, que o rapaz é tipo a DHL lá do sítio, que é um pouco azarado e que os episódios começam quase todos por "estava um lindo dia no país dos brinquedos". Aqui em casa, o Tigy come a papa na tigela do Noddy, janta no prato do Noddy, tem peluches, carro com buzina e tudo, e mais uma série de objectos com o adorado boneco. Claro que na festa do primeiro aniversário o bolo tinha a cara do Noddy. E estava perfeito!

Ilona


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Diz o papá Beguinho que o Tigy, com poucos meses, já reagia às canções desta menina francesa que passavam no MCM. Actualmente, não há outra coisa que se ouça cá em casa.Na verdade, o dvd está sempre dentro do leitor e não há melhor para acabar com uma birra... Dá direito a um quarto de hora de sossego, com o Tigy bem sentadinho no sofá, completamente hipnotizado a olhar para os videoclips. Só desejamos que editem as restantes canções em dvd, assim com bonecos bem coloridos e tudo! É que estas canções já não conseguimos mesmo ouvir...


Da Floribella às Doce Mania, da Lilly aos Parabéns aVocê do Panda, dos anúncios aos genéricos dos programas, qualquer música faz o Tigy balançar o corpo, fectindo as pernas ao ritmo dos sons. Vê-lo de rosto sorridente e olhar traquina, dançando com todo o entusiasmo, faz de mim a mãe mais feliz do mundo e, enquanto dura a música, prolongam-se os traços da minha felicidade.

08 outubro 2006

1,2,3 Nem uma colher de cada vez


De boca de leão bem aberta, o Tigy comilão aprovava qualquer receita, aceitava qualquer menu. Agora, de boca bem fechada, o Tigy rejeita quase tudo o que preparamos para ele.

A comida é, nos últimos dias, mais um objecto de brincadeiras. Sente a textura, prova e, por fim, atira fora. À sua volta, cadeira e chão, acabam fiéis depositários de tudo o que começou no prato para acabar no lixo.

Depois, na hora de dormir, com o estômago desaconchegado, o sono é instável e interrompido. Valem as papas pela manhã, um pouco de fruta, os iogurtes e as malvadas bolachas.
Folheia-se o livro "1,2,3 Uma Colher De Cada Vez", em busca da receita milagrosa, tenta-se uma ou outra coisa. E, sem sucesso garantido, as primeiras colheradas entusiasmadas acabam em birras e desmotivação.

Desta vez, sem ânimo para grandes palavras, peço-vos ajuda.
O que fazer?

21 setembro 2006

Aquele abrigo





Chovia torrencialmente. Eu, a caminho do trabalho por uma das estradas mais movimentadas do país, ainda trazia nos ouvidos o choro do Tigy, deixado na creche minutos antes. Na rádio iam falando do temporal, das centenas de pedidos de ajuda aos bombeiros durante a noite, dos acidentes, do trânsito e, também, das melhorias previstas para o início da tarde. Dentro do carro, rodeada da água que escorregava pelos vidros, maldizia a fila, as obras, a pressa da manhã. Aquele avançar a compasso permitia observar as pessoas a atravessarem a passagem pedonal aérea, mesmo à minha frente. Dei por mim a pensar que talvez devesse ser coberta, para não terem de correr de chapéu aberto e tanta tralha ao ombro, na urgência de apanhar o próximo comboio... Até que, por entre tantos corpos encolhidos pela chuva, um chamou a minha atenção. Uma senhora atravessava com um bebé pequenino ao colo, sem chapéu, mas com o "filho" bem abrigado com um casaco impermeável, munido de capuz. Fiquei a observar o seu percurso: o passo rápido, depois o cuidado extremo ao descer as escadas íngremes e, ainda por cima, provisórias, assemelhando-se a andaimes. Agarrava o "filho" sabendo que nenhum deslize poderia acontecer. Chegada a "terra", continuou a sua caminhada, já de costas, deixando eu, progressivamente, de ver o bebé e depois ela própria.
A fila de carros lá foi avançando, a chuva diminuindo, o dia correndo, mas aquela senhora ficou sempre comigo. A partir de hoje, ela andará no meu carro e o seu bebé ocupará metade da cadeira do Tigy, disposta no banco de trás e cheia de posições diversas, de cintos de segurança e de conforto. Eles dois andarão comigo para que eu não esqueça que me queixo muito para o tanto que tenho.

30 agosto 2006

Ficar com o tempo






Ao chegar a casa, depois do trabalho, tenho por estes dias as boas vindas do Beguinho e um sossego inquietante de uma casa sem Tigy. Agosto guardou para mim uma mistura de surpresas e acontecimentos, sem sabor definido ou rosto descoberto. Os dias de férias, entre a praia e o campo num Portugal que ainda só alguns descobriram. As festas de família, com casamentos, baptizados, bodas de ouro e aniversários. O regresso ao trabalho quase sem colegas, de sala vazia mas muito para fazer. A distância do Tigy que com os avós dá os primeiros passos e aprende as primeiras gracinhas. A estranheza de um mundo interior um pouco perdido de objectivos e, especialmente, de fortes vontades.
Talvez por tudo isto, ou simplesmente pela falta que, às vezes, nos faz a rotina, Agosto tem sido um mês gigantesco, com muitos dias dentro de outros dias, com muitos minutos semelhantes a horas e muitas tardes que mais parecem semanas completas. E, quando o tempo cresce sem medida, deixa muito espaço para saudades e para o passado entrar repentinamente pela porta ou por uma janela qualquer, ou então, entrar mesmo para dentro de nós... e ficar.

No meu passado cabe um ano inteiro em que vi e senti o meu bebé a soltar-se da minha barriga para o mundo, da minha vida para a dele. O Tigy, com um ano completo, já percorre a casa com os seus próprios joelhos e as palmas das mãos, já caminha na rua apenas por uma mão. O Tigy com um ano completo deixou as sopinhas sem sal e quer descobrir afinal o que costumamos ter nos nossos pratos. O Tigy com um ano completo carrega no nosso nariz para ouvir "trimmm", bate palminhas quando pedimos e diz "xau xau" quando é para ir embora. Porque o Tigy com um ano completo é cada vez menos um bebé.

No meu passado cabem muitos meses de Agosto cheios de tempo, mas nunca nenhum teve o sabor amargo a saudade que este mês tem.

25 agosto 2006

Renovar


Fazer dos meus refúgios um espaço ainda mais pessoal, onde me abrigo e onde vos recebo, onde faço das histórias um diálogo e dos diálogos boas histórias. Este foi o grande objectivo. Para o concretizar recebi...
o impulso diário do Beguinho,
a ajuda do Rui T. na composição do cabeçalho,
o talento de uma Artífice nas ilustrações da Beguinha e do Tigy,
e ainda a força de todos os que diariamente espreitam este refúgio à espera de novas palavras e, mesmo saíndo sem elas, voltam sempre.

Dedico este renovar ao meu Tigy que enche a minha vida de momentos,
dando-me sempre motivos para sorrir e para escrever.

26 julho 2006

Com amor



Cada vez mais - e sem saber muito bem como nem porquê - os meus dias sucedem-se compostos por coisas que queria fazer e ainda não fiz, por textos que queria escrever e ainda não escrevi, por ideias que queria concretizar e ainda são apenas isso... ideias.
Então, e porque o amor é também de certeza isto, o Beguinho escreveu o que eu tenho adiado sucessivamente, fazendo muito mais pelo meu dia do que todos possam imaginar.

O texto está no seu espaço de "Monstruosidades do Tempo
e da Fortuna"
e está também aqui de seguida...

« Um ano de Beguinha

Foi a 25 de Julho de 2005 que a Beguinha começou o seu blogue. A ideia era contar a história do Tigy e a história do Tigy começava, como todas as histórias de bebés, na barriga da mãe. Há cerca de um mês a Beguinha tinha muitos planos para assinalar a data... Não vou contar nenhum porque tenho esperança que, ainda que tardiamente, a Beguinha possa vir a concretizá-los.

A verdade é que hoje que a data se assinala, a Beguinha (que tem muito mais visitas que esta página no seu Refúgios de Felicidade) não teve tempo para completar a efeméride com tudo o que sonhava poder melhorar e oferecer aos seus leitores.

Uma vez disse-lhe: Ainda tenho de fazer um post sobre a tua blogosfera! É que a blogosfera da Beguinha é feita de partilhas! De mães e pais que sonham um mundo melhor para os seus filhos em vez de nada andarem a discutir através de muito discutirem o tudo que a imprensa agenda.

Feita de mães que abdicam e pais que se esforçam, de famílias que sonham, de homens que ajudam na lida da casa e mulheres que ajudam esses mesmos homens a fazê-lo. Feita também de casais que sonham famílias porque sonham ter filhos e não os conseguem. Feita por pais (aqui no sentido de progenitores) que com menos sorte na vida tiveram filhos com incapacidades inimagináveis e a eles dedicam ternuras descritas por palavras com que contam as pequenas (e grandes) alegrias que sempre nos dão os filhos (como quer que tenham, de nós, vindo ao mundo).

Depois a Beguinha tem palavras para todos eles e elas, tem lágrimas escondidas que se lhe adivinham ao canto dos olhos com os quais lê a vida de tantos outros e tem também o hábito de me contar essas histórias como se fossem de amigos e amigas. Com a preocupação e esperança que dedicamos aos assuntos daqueles que nos são queridos. Por isso a blogosfera da Beguinha não cabe (nem nunca coube) nas teorias dos grandes vultos da blogosfera dita nacional, que não é mais do que reconhecida forma de extrapolar fronteiras e olhar para além do umbigo onde encontram o seu sexo, os seus joelhos e os seus pés.

A blogosfera da Beguinha é como uma família. Dela faço parte porque sou pai do Tigy... Assim, assinalo a data, não com a grande renovação que a Beguinha tinha prevista para o seu espaço na rede blog, mas com o testemunho da mãe extremada e carinhosa que é, da profissional incansável que se demonstra, da mulher atenta e cooperante que se tem revelado. Um blogue é coisa boa, para o Tigy recordar mais tarde! Ele não verá as alterações que a pouco e pouco foste fazendo. A vida segue cá fora, onde a cada dia tens construído melhorias na nossa casa (aqui no sentido de lar). Hoje. Ontem. Há um ano.

Desde sempre...

Estás de parabéns. »


Obrigada Beguinho. Muito obrigada!

Com amor...

03 julho 2006

Dizer "não"



Um dia inteiro, em casa, com o Tigy pode revelar-se um verdadeiro desgaste. Nesses momentos, acho que até pago uma ninharia de creche e que realmente devia agradecer encarecidamente, às educadoras, a paciência diária que têm com um pestinha de 71 centímetros.

Sentado no chão da sala, com dezenas de brinquedos espalhados por todo o lado, o bebé quer sempre aquilo que ainda não tem: o comando da televisão, os telemóveis, as molduras, o candeeiro de pé, as revistas ou até os chinelos. Depois de muitos "nãos" seguidos, os papás acabam por esquecer as regras, afastar os objectos proibidos e cair exaustos no sofá... a observar. Qual formiga trabalhadora, o Tigy gatinha a 100 à hora pelo ínfimo espaço da sala que lhe está atribuído, o mesmo que definimos com a ajuda de um banco e de almofadas. Daquele rectângulo para a frente os perigos são ainda maiores: o degrau que separa a sala de estar da de jantar, as escadas, o forno, a lareira. Depois, trepa agilmente, agarrando-se com genica a tudo o que encontra. Queda ali queda acolá, o rapaz está cada vez mais imbatível.

Enquanto estava grávida e lia acerca das questões de segurança, quando se tem um bebé em casa, pensava sempre: daqui até ter de me preocupar com isto... Bom, esse "daqui até" transformou-se (sem eu dar conta) no agora e, decididamente, a minha casa, e eu mesma, não estamos preparados. Como é que um espaço tão pequeno encerra tantos perigos?

Sentados no sofá, cansados só de observar a energia do nosso filho, eu e o Beguinho vamos tentando fechar a cara e enfatizar o "Tigy não". Mas quem resiste aquele ar traquina, olhando para nós enquanto a mãozinha, escondida por trás das costas, atira - sorrateiramente - a moldura, que exibe a sua carinha pensativa com poucos dias de vida, para o chão?

13 junho 2006

Uma história dele
(na terceira pessoa)


Antes dele os grandes sorrisos ou as boas gargalhadas soltavam-se por motivos bem diferentes. Uma piada bem contada, uma surpresa original, uma boa notícia, uma outra aventura. Na verdade, não sei identificar com precisão o momento em que alterei os padrões do meu humor e os condicionalismos da minha vida, mas suponho que tenha alguma coisa a ver com ele.
Ou tudo mesmo.
Agora, as grandes alegrias da minha vida revestem-se de uma simplicidade ternurenta, porque são feitas pelo seu franzir do nariz, pelo gesto perigoso de abrir muito a boca para me tentar morder, pela forma carinhosa como me agarra a mão com a dele ou, somente, por uma pequena história relatada pelas educadoras no fim de mais um dia de creche.
E a história que despoletou tudo isto foi esta:

«Ai mãe ele hoje fez uma coisa engraçadíssima! Já andámos aí a contar a toda a gente... Andava aqui a brincar e, de repente, pega na fralda e toca a gatinhar com ela. Encaminha-se para a cadeirinha dele, trepa por ela acima, pondo primeiro os joelhos e dando depois a volta para sentar o rabinho, pega na fralda e lá está ele, pronto para dormir. Nós ficámos a observar aquilo... ele lá tinha sono e como não o tínhamos ainda deitado... olha deitou-se ele sozinho...»

Imaginar o meu filho, a gatinhar sozinho com a sua fralda, sala fora até à cadeira, preparando-se para dormir, sossegadinho, despertou, em mim, naquele momento, uma sensação sufocante de um amor imenso por aquele ser tão pequenino e, ao mesmo tempo, uma raiva angustiante por estar longe e ausente. Talvez por não ter sido eu a observar a cena caricata, a registá-la com detalhe e a relatá-la, agora, na primeira pessoa.