12 janeiro 2006

O corredor


O corredor é longo e recto. Parece desenhado de propósito, para que a "Sala dos Bebés" fique no seu final e as mamãs, de coração apertado e garganta seca, possam testar os seus próprios limites: cada manhã conseguem ir mais além sem virar a cabeça para trás... cada dia está lá, mais ao longe, o bebé ao colo da educadora. Cada dia mais longe.

Cumprida quase uma semana de creche o Tigy, segundo uma das educadoras, tem fortes probabilidades de passar de ano. Eu, a mãe, confesso que fiquei feliz com tal prognóstico e, por instantes, até esqueci como tem sido estranho andar na rua, entrar nas lojas, conduzir, estacionar, sem a companhia dele.

Na noite anterior ao primeiro dia dormi pouco e mal. Sentia-me mais ansiosa do que triste, talvez mais curiosa do que medrosa... No meio das insónias, revivi as noites mal dormidas de quando era criança e, no dia a seguir, havia vacinas ou análises. Qual menina com medo da agulha, levei a tralha, o marido, o bebé e aquelas duas primeiras horas do Tigy na creche foram compridas e insossas. À medida que se sucedem os dias, sinto o tempo a voltar ao ritmo certo, a ameaçar travar nos cinco minutos que me separam de casa à creche e a saltar incontroladamente quando voltamos, os dois, para a nossa sala, para as nossas coisas, para o nosso Refúgio de Felicidade.

Sim. Tem corrido bem. Ele come a sopa toda. Não tem ficado a gritar. Não o tenho encontrado a chorar. Sim. Tem corrido bem. Vem com a fralda lavada. Vejo-o receber beijinhos. A sala está quente. As pessoas são simpáticas. Sim. É verdade. Tem corrido mesmo bem. Mas trocava este "bem" por mais uns dias da vida que tínhamos.

05 janeiro 2006

Sobra amanhã


Amanhã é o nosso último dia juntos, a sós. O último da nossa rotina destes meses, desde que nos conhecemos. Uma rotina que contruímos à escala do nosso conhecimento, ao pulsar do teu crescimento, à medida das minhas próprias rotinas. Amanhã termina um ciclo que teve tanto de bonito como de feliz e é por isso que custa encerrá-lo.
Não quero descrever de que banalidades terei saudades... do nosso acordar a partilhar a cama, dos meus almoços de queijo, banana e goibada e das cólicas que tiveste depois, da ginástica que fazes com os braços e as pernas mesmo quando estás prestes a adormecer, dos primeiros sorrisos, das actuais gargalhadas, da chegada do carteiro, das idas ao supermercado, à lavandaria, à farmácia, aos correios, da hora dos Morangos com Açúcar e das danças ao colo ao som dos DZRT, da chegada do pai... não. Não quero lembrar. Terei muito tempo para isso. Na próxima semana. Na seguinte. Nas outras todas também.
Sei que estes foram dos meses mais bem passados que tive, quem sabe que terei... Sei que ter-te, trazer-te, descobrir-te, tem sido uma experiência saboreada e intensa. Sei que dentro dos nossos dias um pouco iguais existiram sempre momentos singulares, feito do inesperado da tua presença. Sei que nada mudará no que sinto por ti, sei que nada mudará no que sentes por mim... Só não sei como é que te vou deixar lá sem ficar também...

31 dezembro 2005

Um ano CHEIO


Último dia do ano. Bebé ainda dorme. Marido perdido entre fumo, jornais e canais de notícias da tv. Bom momento para ouvir o Chico Buarque e para pensar em 2005!

Há anos assim em que acontece tudo e em que, às páginas tantas, nem sabemos bem do que gostámos mais, do que queremos eternizar, do que nos marcou definitivamente... e apetece viver tudo outra vez.

O ano começou com um formigueiro na barriga que fez tremer, que fez desabar tudo o que são prioridades e planos, tudo o que são metas e etapas... e, no fim, nada disso tinha qualquer importância! O formigueiro chama-se Tiago e veio revolucionar, por completo, o que eu era e o que queria para mim. Várias pessoas me diziam que só se sabe o que é amar depois de ter um filho. Eu duvidei. Eu angustiei-me por não ter sentido um-não-sei-o-quê novo logo na primeira noite de maternidade. Eu assustei-me quando dei por isto dentro do peito, que se alastra pela cabeça, pelos ouvidos, pela boca, pelas pernas, pelas mãos... pelo corpo todo. E confesso: é um amor que sufoca por ser tão grande, por se querer ser tão perfeito e estar tão junto que acaba a doer!

2005 era o meu ano de noiva. Mas de noiva passei a grávida, de grávida a recém-casada, de recém-casada a mãe! No meio de tanto título acabei por não saber bem como fiquei eu... a Beguinha do Beguinho, a filhinha dos papás, a mana mais nova da mana melhor do mundo, a colega dos colegas, a amiga dos amigos. Sei-o agora. Ao terminar o ano. O meu ano. Fiquei melhor, mais completa, mais terra-a-terra, mais apaixonada, mais feliz!

Um ano assim é uma vida inteira em 12 meses. E, a partir de agora, até parece que tudo o que importa aconteceu em 2005. Com uma barriga a crescer, com um casamento fresquinho, com uma barriga vazia e um bebé no colo, com um filho a crescer, com a vida a ganhar novas rotinas - 2005 fez-se de surpresas, fez-se de felicitações, fez-se de pessoas. Pessoas como o Beguinho que é perfeito todos os dias em todos os papéis, como os pais que me dão provas todos os dias do tal sentimento diferente que têm com eles, por também terem filhos, dos amigos que todos os dias querem saber notícias, estar presentes, ser parte de tudo e da mana que esteve comigo em cada dia deste ano tão grande.

Este não pode ser o ano de ninguém, porque ganhei o Tigy, porque ganho o Beguinho constantemente, porque ganho provas de todos os lados, como se elas fossem precisas... Mas se este pudesse ser o ano de alguém seria o ano dela, da minha mana, da minha melhor amiga.

Para 2006 não preciso de um ano tão cheio, não preciso de um ano tão bom... preciso das minhas pessoas e do meu bebé feliz!

22 dezembro 2005

Querido Super Pai Natal



Este ano não te peço nada para mim. Mas peço-te muito para o meu bebé.
Sei que vai ter imensas prendas, vindas da família e dos amigos... Nós - os pais - tivemos até algumas dificuldades em escolher presentes para ele...
Sei que vai ficar com o roupeiro a abarrotar de roupa nova, para não ter de sair à rua despido e reclamar do frio.
Sei que os brinquedos novos vão ser muitos e variados, cheios de músicas repetitivas, de muitas cores e formatos.
Sei que vai receber objectos úteis e outros que nem por isso, sei que vai adormecer a meio do desembrulhar das prendas e sei, também, que não irá saber que é o verdadeiro rei deste Natal.
Entre tantas prendas, o que te peço, a ti Super Pai Natal, é que o meu bebé seja sempre feliz, tenha sempre saúde e um sorriso para mim. E em Natal nenhum te pedi um presente tão valioso!

16 dezembro 2005

Um instante qualquer


Quando não se encontram as palavras do que está por dizer,
quando não se desata o fio dos pensamentos,
quando fica silêncio entre os sons de palavras baralhadas...
Mas - mesmo assim - se quer deixar por escrito
essa turbulência das ideias, procuram-se as frases dos outros,
como neste "INSTANTE" de Sophia de Mello Breyner Andresen.

«Deixai-me limpo
O ar dos quartos
E liso
O branco das paredes
Deixai-me com as coisas
Fundadas no silêncio»


... no dia dos 4 meses do meu Tigy...

08 dezembro 2005

À Distância


Às vezes o mundo parece ainda maior, ainda mais injusto, ainda mais angustiante.
Às vezes a vida ganha traços mais trágicos, mais duros, mais tristes.
Porque as rotinas de uns são a dor de outros. Porque as nossas alegrias não chegam para atenuar as diferenças. Porque as tristezas são sempre deles, dos outros, da distância, da indiferença.

AQUI, nestas simples imagens, estão terríveis verdades, que teimamos em ignorar, em afastar dos nossos dias, dos nossos hábitos, dos nossos Natais! Contra mim falo.

30 novembro 2005

Serões à lareira


Uma das melhores recordações que tenho da minha infância está no primeiro dia de cada Inverno em que a minha Mãe acendia a lareira. Lembro-me perfeitamente de pensar, no caminho entre o Colégio e a nossa casa, se seria esse o dia em que haveria lume na sala. Depois, ao chegar, passava sempre a mão pela parede, ao subir as escadas - num certo local, quando a lareira ardia, a parede ficava quente. Esta lembrança tão minha, de mochila às costas, de alguma chuva na rua, de um fim de tarde de escola e da mão a deslizar na parede áspera é uma coisa tão simples e ao mesmo tempo tão saborosa! Muitas vezes me desiludi quando senti a parede fria... Quantas vezes sorri ao aperceber-me do calor, porque do outro lado dos tijolos estava a sala numa nova disposição, a do Inverno: os sofás mais perto da lareira, ao redor do calor. E que saudades desses fins de tarde, em que os trabalhos de casa eram feitos no sofá, bem pertinho do lume, e em que se jantava também ali, sopa, torradas, castanhas assadas e tangerinas.
Lembrei-me de tudo isto esta noite, aqui na minha casa tão longe do lugar da minha infância, enquanto o marido ateia o lume e eu reparo nas bochechas vermelhas do meu bebé. Está quente aqui dentro... e está-se tão bem.

22 novembro 2005

O voo do tempo


Ao ouvir hoje as notícias sobre o novo aeroporto da Ota, focalizei as minhas atenções nas datas: lançamento do concurso em 2007; início da construção em 2010; entrada em funcionamento em 2017. 2017? Foi aí que comecei a fazer contas: ora 2017 menos 2005 dá 12... 20 e tal mais e ... pois que... Meu Deus! Conclusão: quando Lisboa tiver um novo aeroporto o Tigy terá 12 anos e eu serei uma mãe quase a chegar aos quarentas. Como se sente a vida toda a passar num instante, depois de umas contas feitas, depois da notícia do dia ouvida e repetida nos telejornais. Nesta minha pressa de viver sempre o que está para chegar, comecei a rabiscar mentalmente um futuro com um filho na pré-adolescência (sabe-se lá quantas mais crianças!) e com mais anos para trás do que para a frente... E não gostei dessa escassez do tempo, sentida nuns segundos, perdida no instante seguinte ao voltar o olhar para o rosto de 3 meses (já?!) do meu bebé, para as promessas do Governo quanto a datas, para esta sensação de liberdade que me dão os meus dias sem horários, sem tarefas, sem exigências. Os meus dias de mãe a tempo inteiro, entregues completamente aos pedidos e silêncios do meu filho.
Daqui até 2017 quero ser mais e melhor por ele, mas também por mim... pelo que a vida me exige, pelos que os meus sonhos me segredam, diariamente. Quando o primeiro avião levantar voo da Ota para o céu, de 2017 para a frente, que presente terei, que passado guardarei? E por onde voará o meu - já não - bebé?

13 novembro 2005

Gritos de dúvidas


Esta tem sido uma semana de gritos... Gritos no sentido real do termo! O Tigy tem passado horas seguidas no seu mais recente entretenimento: gritar. E é aí que o pânico se instala. Primeira reacção é pensar que tem fome, mas quanto mais se aproxima o leite mais alto fica o som. Segunda tentativa: mudança de fralda. Normalmente não há nada a registar e, então, a conclusão é óbvia: quer fazer cocó! Massagens na barriga, embalos em todas as posições, beijinhos e abraços... Sem sucesso.
E os gritos sucedem-se. Bebé cada vez mais vermelho, com as lágrimas a saltarem dos olhos, os braços e as pernas agitados! Pais desesperados entreolham-se sem saberem o que fazer!
Assemelham-se a ataques de pânico ou de desespero e nada, nem ninguém, o consegue calar.
À força das tentativas, o pai tem sido o mais bem sucedido com os passeios pela casa, com o Tigy aos pulinhos. Eu decidi pesquisar...

"Dias depois do nascimento, o bebé – que se encontra perfeitamente bem durante o dia – começa a ter crises de choro ao entardecer, geralmente entre as seis da tarde e as dez horas da noite. Obviamente, esse choro pronunciado e entrecortado gera grande ansiedade e angústia nos papás, pois não sabem a que é devido e também se existe alguma coisa que possam fazer para aliviar o bebé. Mas não devemos desesperar: tem simplesmente cólicas, e a verdade é que, apesar das dores que causam, o bebé não sofre tanto como os seus papás ao ouvi-lo chorar."
in SAPO BEBÉ

Aqui está. Nesta coisa de ser mãe alivia saber que os piores males dos nossos filhos são, afinal, males de todos os filhos da mesma idade. Sabe bem ouvir "é normal", sabe bem ouvir "isso passa", sabe bem acreditar. Mas nesta coisa complexa de ser mãe sabe melhor quando o nosso bebé ri, quando o nosso bebé dorme, quando o nosso bebé sossega, brinca, emana felicidade. Sabe melhor ainda pensar que com o mal de todos os filhos podemos nós bem, não os queremos é para os nossos.