29 dezembro 2012

20 coisas que eu quero que o meu filho
saiba até ao Natal até ao final do ano

#13

Há pouco tempo atrás o meu ex-marido e pai do Tiago publicou numa rede social um texto sobre mim, ou para mim. Uma espécie de agradecimento ou de reconhecimento por ter tentado - ou conseguido - ajudá-lo numa dificuldade que passava - ou numa das dificuldades rotativas do dia-a-dia de todos nós. O texto foi muito comentado, "gostado" e aprovado e desde pessoas minhas amigas a pessoas nossas amigas muitos foram os que me falaram daquelas palavras, acrescentando a comoção que lhes tinha causado e como ficavam felizes por as coisas serem como são.
A mim, o texto completamente inesperado, apenas reforçou aquilo que de mais genuíno penso acerca de ser Pai e Mãe de um filho sem se ser um casal. Coisa que só se pode saber depois de o ser.
O Tiago diz, orgulhosamente, que o Pai e a Mãe são amigos e a criança feliz e extrovertida que todos conhecem começa nessa certeza para acabar na forma natural como ele, desde sempre, convive com as idas para casa do Pai e as vindas para casa da Mãe, e vice-versa.
O Tiago com certeza adivinha as conversas de meias-horas que o Pai e a Mãe têm ao telefone, trocando histórias que se passam com ele, rindo das suas "tiradas" engraçadas ou inventando estratégias para lidar com as coisas mais complicadas.
O Tiago sabe que eu sou bem-vinda a qualquer hora a casa do Pai como ele é bem-vindo na minha, até porque ambas são casas dele.

Num dia destes durante o banho matinal o Tiago disse-me: "Mãe, tenho tantas saudades do Pai..." e pouca coisa me fez sentir melhor na vida do que dizer-lhe "Mas hoje é dia de ires para o Pai!" numa entoação animada que acompanhou a forma como ele abriu os olhos e confirmou: "A sério?".

O Tiago aprendeu a ser feliz sem ter o Pai e a Mãe na mesma casa. E nós dois aprendemos a sermos amigos, arrumando o passado onde ele deve estar e reconstruindo-nos enquanto Pai e Mãe de um mesmo filho. Como toda a gente sabe, um filho não faz parte de um casamento, faz sim parte de uma família. E, quando essa família se altera porque um casamento acaba, mudam sentimentos, moradas, estados, rotinas, mas não muda a falta que cada um faz, com a sua personalidade, com os seus trunfos e com as suas fragilidades.

As saudades que o Tiago traz minhas quando chega da casa do Pai são proporcionais às saudades que leva dele quando daqui sai. Tal e qual como a atenção, a admiração e o amor incondicional que recebe dos dois lados, das duas pessoas mais importantes que ele tem no Mundo e que coloca sempre no mesmo degrau, lembrando-nos ele, tão naturalmente, onde está o verdadeiro sentido de ser e viver em família.











28 dezembro 2012

20 coisas que eu quero que o meu filho
saiba até ao Natal até ao final do ano

#12





há sempre um sítio pra fugir, se queres saber
um sítio onde podes descansar.
há sempre alguém pra te agarrar,
pra te esconder.
se vais cair eu vou-te ver antes da dança,
antes da fuga, eu sei-te ver.
antes do tempo te mudar eu vou saber,
antes da névoa te vestir e te levar,
há um sítio onde o escuro não chegou pra onde podes ir,
um rio pra libertar.
 há sempre alguém pra te salvar,
se queres saber, se queres sentir a todo o gás.
há sempre alguém pra te dizer
se vais cair pra te travar e adormecer.
antes do dia, antes da luta, eu sei-te ver.
antes da noite te sarar eu vou saber,
antes da chuva te romper e te lavar,
há um sítio onde a estrada te deixou
por onde tens que ir
se te queres libertar.
 e tudo o que for por bem,
tudo o que der razão pelo ponto vai ligar.
tudo te vai unir,
tudo se faz canção,
no caminho de voltar, no caminho de voltar.
 há sempre paz noutro lugar, entre nuvens,
um sítio onde podes perceber que há sempre alguém para te ver,
em segredo, te descobrir e renovar, e renovar.
te descobrir e renovar.
te descobrir e renovar.
te descobrir e renovar.

(Tiago Bettencourt)

22 dezembro 2012

20 coisas que eu quero que o meu filho saiba até ao Natal

#11



(CLICAR NA IMAGEM PARA LER)


*
Do maravilhoso livro (como todos) da Editora Planeta Tangerina: "Coração de Mãe" escrito por Isabel Minhós Martins e ilustrado por Bernardo Carvalho.

21 dezembro 2012

20 coisas que eu quero que o meu filho saiba até ao Natal

#10


O Tiago desde muito cedo que adormece sozinho, no seu quarto, acompanhado de alguns peluches e do candeeiro aceso. Já aconteceu por diversas vezes ir espreitá-lo, uma hora depois, e ele estar deitado, a olhar para o teto, mas sossegadinho, lá com os seus pensamentos.

Nas noites mais complicadas chama-me algumas vezes e há muito tempo que lhe digo isto:
"O segredo para adormecer é fechar os olhos e pensar em coisas boas".
Ele acha sempre graça e desmente o meu truque infalível com “Não é nada, Mãe”.
Mas eu acho que ele, a seguir, põe em prática o meu plano.

Nos últimos anos arranjei um outro truque só meu, não para a hora de deitar mas sim para aquele instante em que, a custo, empurro as pernas para fora da cama.
Nesse instante murmuro sempre, para mim, que algo maravilhoso pode acontecer naquele dia.
E não é que, de quando em vez, acontece mesmo?

Partindo daquele pressuposto de que pensamentos bons atraem coisas boas e que pensamentos maus atraem coisas piores, não há impulso matinal mais positivo do que imaginar que aquele pode ser “o” dia, que mais tarde, quando ali voltarmos para dormir, tudo pode estar diferente, tudo pode estar ainda melhor.

É isso que vou ensinar agora ao Tiago, o truque da manhã que diz:





* Acredita sempre que algo maravilhoso está prestes a acontecer

20 dezembro 2012

20 coisas que eu quero que o meu filho saiba até ao Natal

#9

Ontem, depois da reunião de final do trimestre do Tiago - com boas notas e bons prenúncios para o resto do ano - fui até uma Instituição de Solidariedade Social passar algum tempo com as crianças, numa iniciativa natalícia que se espera repetida por 2013 adiante.

As crianças, as instalações, as pessoas, nada têm a ver com a escola onde o Tiago anda: escassos 4 ou 5 quilómetros de distância conseguem transformar-se em centenas em diferenças sociais e culturais.
Há na mesma cidade escolas diferentes para crianças que se querem iguais.

Ali, crianças que mal completaram uma dezena de anos de vida, rodeiam as suas conversas de considerações adultas e tudo o que dizem começa e acaba em conotações sexuais, sobre as façanhas da escola ou a orientação dos colegas. A desvalorização do ser criança é algo que, ultimamente, me tem ocupado o pensamento, em coisas que vejo, que ouço, que sinto. Cada vez as crianças são crianças menos tempo e deixam de o ser mais cedo, num apressar do tempo que não volta mesmo. Como se, para elas, ser criança fosse uma ofensa, fosse um desprestígio.

O Tiago, hoje, não sabe o que é ser g-a-i (como ontem soletrava uma das crianças da escola a que fui, apontando o dedo a um menino do lado), mas com certeza saberá em breve. E, conviva-se bem ou mal com isso, usar uma etiqueta para colar no rosto dos outros não deverá ser a melhor das resoluções futuras.
O Tiago, hoje, também não usa a palavra “sexo” em todos os contextos (numa tentativa triste de parecerem o que não são, dentro de corpos pequenos que se agigantam perante a palavra), como vi ontem, naquelas crianças, mas pode vir a usar.

A inocência que vejo diariamente no Tiago – uma autêntica criança de 7 anos como tantas que conheço da escola dele – contrasta com o diálogo malicioso e provocador dos meninos que ontem conheci. Os mesmos que nunca saberão o tempo maravilhoso que perderam imbuídos no melhor que tem a ingenuidade, o “não saber”, o estar simplesmente a ser e a viver como criança. E tudo isso não volta mesmo: o tempo, a inocência, a liberdade, bens vitais que não deviam estar vincados a um bairro, a uma família, a uma escola.

O Tiago, fã convicto desde sempre da história do Peter Pan, entenderá, mais tarde, porque não queria ele crescer, quando recordar com saudade o tempo em que foi criança, em que viveu como criança, em que foi simplesmente pequeno. Todos nós, adultos, perante as contas, as dificuldades, os atritos, as dores de cabeça da rotina, o entendemos também.
Eu, mãe do Tiago, tudo faço para lhe prolongar a infância. Eu, enquanto estranha naquela escola de ontem, apenas posso sorrir enquanto juntos fazemos jardinagem ou jogamos às cartas. E sei que este “apenas” pode ser bastante, pode ser quase tudo. Para que um dia também eles entendam melhor o segredo do Peter Pan.





* Agora entendes porque o Peter Pan não queria crescer.

19 dezembro 2012

20 coisas que eu quero que o meu filho saiba até ao Natal

#8

O Tiago levanta-se de manhã com os meus beijinhos e festinhas no rosto e abre os olhos quando começo a tirar-lhe as calças do pijama, por debaixo do edredão.
Até à hora da saída, sempre a correr para chegar a horas à escola, há banho para tomar, o cabelo para secar, a roupa para vestir, o leite para beber e as bolachas para trincar, num pequeno-almoço apressado a imitar o da Mãe.
Pasmado a olhar para a televisão, o Tiago calça os sapatos, come, procura o casaco e, depois, arrasta-se para o carro. Eu, mesmo atrás dele, enfio-lhe cada manga do casaco em seu braço, carregando-lhe a mochila, o lanche, o saco do judo, a minha mala, o meu almoço, as chaves do carro, da casa, o telemóvel... e, invariavelmente, quando saio do carro junto à escola, reparo que não levei o meu próprio casaco.

Na escola fico a acenar-lhe e a mandar beijinhos, vendo-o subir as escadas em direção à sala, sempre sorridente. E naqueles escassos segundos de volta ao carro já morro de saudades dele.

Ao final do dia, corro do trabalho para a escola, onde o procuro pelo recreio para depois, os dois, encontrarmos a mochila e o casaco que, habitualmente, não estão juntos no mesmo lugar.
No carro ele pergunta coisas do meu dia e eu pergunto coisas do dele, que diariamente incluem ele já não lembrar o que almoçou e eu ter trabalhado muito.
Em casa, quando eu ainda nem pousei a tralha da manhã agora transformada em tralha da tarde, já ele ligou a televisão e se descalçou, atirando o casaco para cima do sofá e pedindo, de imediato, as bolachas do momento.
Até à hora de ir para a cama o Tiago pede o jantar, quer ajuda – ou companhia - com os trabalhos de casa, quer jogar um jogo ou a palavra-passe no computador, quer uma fruta descascada, maçã ou laranja, pera ou banana, e outra logo que eu acabo de me sentar no sofá, quer saber onde está o comando, quer ficar sempre mais 5 minutos depois da hora combinada.

Na cama, por estes dias, quer a botija de água quente junto aos pés e duas histórias lidas e... devagar.

Antes de o deixar deitado, trocamos muitos abraços e deito uns minutos ao seu lado, mas raras são as noites que, antes de dormir, não pede um copinho de água.

Mais tarde, quando o olho tranquilamente adormecido, rodeado de peluches, passa-me frente aos olhos o dia inteiro, em particular todos os raspanetes, insistências, ordens e repetições da mesma frase.
O meu corpo reclama silêncio, sossego, uns minutos apenas.


Amanhã tudo será igual... ou quase.
Se estou cansada? Não. Apenas morro de saudades quando ele não está.

18 dezembro 2012

20 coisas que eu quero que o meu filho saiba até ao Natal

#7


...
Fazer migalhas de oreos no sofá à chegada da escola
Novo episódio do Boa Sorte Charlie
Um cromo novo quando faltam menos de 10 para acabar a caderneta
Uma ida ao Mac Donald's
Fim de semana de sol em casa dos avós
A primeira ida à praia de um verão
Ganhar no Monopólio
Um brinquedo novo
Brincar com o Pai aos castelos, reis e outros heróis
Dormir cedo com a Mãe
Castanhas assadas
Cantar com a Mãe no carro o cd inteiro do Phineas e do Ferb
Ir jogar futebol para o parque
Massa com peixe
Água com picos
Insufláveis
Duas pastilhas elásticas de seguida
Ir ao cinema
Nadar na piscina
Boas notas nos testes
Festas de anos dos amigos da escola
Nova cor no cinto de judo
Banhos de banheira cheia
...

16 dezembro 2012

Conversas com ele

I

- O que estás a fazer Mãe?
- Estou a escrever num site que a mãe tem para ti.
- A sério?
- Sim, não sabias? A mãe já te tinha dito. A mãe escreve coisas para ti há muito tempo, quando ainda estavas na minha barriga...

Depois de um minuto ou dois de silêncio:

- Mãe, mas como é que escrevias para mim se ainda nem sabias quem eu era?

II

A copiar os enunciados dos problemas de Matemática:

- Tiago, essa letra está horrível e deixa ver... isto está cheio de erros. Roseira é com “o” e falta aqui um acento... e isto também está errado...
- Ó Mãe! Isso não interessa! Isto é Matemática não é Língua Portuguesa.

III

- Tiago, queres que escreva um bilhete ou dás tu o recado ao professor de judo?
- Eu digo...
- Então, diz lá como é que vais dizer. Faz de conta que eu sou o professor de judo...
- Ah! Ah! Ah! Isso era giro! Tu nem cinto branco tens, quanto mais...

13 dezembro 2012

20 coisas que eu quero que o meu filho saiba até ao Natal

#4

Há gente que fala de tudo, sobre tudo, que tem opinião sobre tudo e teorias sobre tudo, que são especialistas de tudo sem saberem afinal de grande coisa ou coisa nenhuma.
O que há mais é treinadores de bancada, críticos de sofá, leitores que abominam Saramago sem nunca terem lido um parágrafo escrito por ele. Falar sobre o que se sabe, sobre a capacidade que se tem, é uma virtude de poucos, quase tão rara nos dias que correm como cada um se sentar na cadeira que lhe pertence, sem pesar no colo de ninguém.

Porque não falamos do que sabemos? Porque não criticamos o que conhecemos? Porque não apontamos nos outros só aquilo que não fazemos? Porque não saber mais para, depois, fazer melhor?
* Quanto mais sabes, melhor fazes.

11 dezembro 2012

20 coisas que eu quero que o meu filho saiba até ao Natal

#3

Sempre me lembro de mim a ler, com livros debaixo do braço, com livros no quarto, na mesa junto à cama, misturados na secretária com os manuais e os cadernos da escola. Sempre me lembro de mim a viver a minha vida projetada na vida das personagens dos livros, a querer algumas coisas delas e a querer que elas, às páginas tantas, também tivessem coisas minhas... Numa esquizofrenia própria de um tempo sem limites e sem impossíveis.

A minha rotina de mãe & filho contempla aqueles minutos em que o Tiago, já debaixo dos cobertores, ouve a história do dia, muitas vezes a mesma da noite anterior, escutada em silêncio como se fosse a primeira vez ou, então, capaz de suscitar a mesma dúvida no mesmo trecho da leitura do dia de antes.
O Tiago sabe que livros eu leio. Conhece-os pela capa, comenta a grossura da lombada, folheia-os muitas vezes, rouba o marcador e coloca na página errada. O Tiago vive os livros à maneira dele e eu vivo com ele aquilo que me pede para lhe ler.

Há poucos dias perguntou se lhe dava 5 euros. Questionei para que precisava do dinheiro e ele contou que queria comprar um livro na feira da escola. Explicou-me o que tinha gostado no livro e acrescentou que havia outro mais barato mas ele gostava era daquele. A falta que aqueles 5 euros me faziam, naquela semana em particular, desvaneceu-se nas noites seguintes, quando juntos lemos a história do Sr. Azulão, que vive debaixo da cama do João, a mesma cama que se vai enchendo de visitantes que viviam escondidos nas gavetas, no roupeiro e até atrás das cortinas do quarto, fazendo com que o João, naquela noite, até durma no chão com a cama dele cheia de amigos desconhecidos.

A história, inesperada para mim e para o Tiago, intrigou-o a ele pelos bichos esquisitos, de nomes engraçados, que o João descobria entre a tralha do seu próprio quarto.
A mim desafiou-me:
Recordando-me de mim, pequena, a descobrir personagens dos livros que lia escondidas comigo entre as estantes e as gavetas do quarto, como amigos íntimos, como cúmplices, como partes reais de uma realidade paralela.
Vendo-me agora, como Mãe, a contagiar o Tiago com o vício dos livros, a passar para ele a magia que têm as histórias e o poder que tem a leitura, a deixá-lo inebriado pelo mundo alternativo que somos capazes de alcançar apenas abrindo um livro.

Noite após noite, os livros têm, devagarinho, passado das minhas mãos para as mãos dele, alternando a minha voz com a dele - ele lê um pedaço e eu leio outro, ele vira uma página e eu viro outra... e, noite após noite, ler será cada vez mais uma coisa dele, para deixar de ser um hábito nosso.

E eu assisto, maravilhada, a tal transformação, apenas desejando que ele com os livros seja relação que permaneça, enquanto eu, Mãe-Leitora, vou lembrando o Tiago que:




* Rapazes que leem são atraentes

07 dezembro 2012

20 coisas que eu quero que o meu filho saiba até ao Natal

#2

CADERNETA DO ALUNO

DE Professora
PARA Encarregada de Educação

O Tiago continua a... O Tiago fez... O Tiago disse... Hoje o Tiago... O Tiago não... O Tiago bla bla bla...
Agradeço que fale com ele.

Tomei conhecimento.
A.R.




* ´Fazer asneiras é normal. Aprende com elas.

06 dezembro 2012

20 coisas que eu quero que o meu filho saiba até ao Natal

#1

Quando me lembro de mim própria, enquanto criança, vejo uma menina fechada, tímida e sonhadora. De poucas falas e muito agarrada aos livros, ao computador, à televisão, às revistas, aos cadernos, às músicas e às ideias.
Sempre fui uma menina bem comportada. Bem comportada de mais, já me disseram desde então...

Ser mãe de um menino “pouco-bem-comportado”, que contesta tudo antes de aceitar, cuja resposta imediata a qualquer ordem é “não”, que tem tanto de teimoso como de ternurento, que tem tanto de divertido quanto a capacidade de “tirar-qualquer-um-do-sério”, é muitas vezes entendido como um teste divino à minha resistência - ou à minha paciência.

O Tiago tem-me ensinado a aceitar a diferença como nenhuma outra lição da vida. Porque a criança que eu fui tem muito pouco, ou quase nada, da criança que o Tiago é. Mas acredito sempre que ele é bem melhor por ser, para fora, tudo o que é, por dentro. Por, ao contrário da criança que fui, exteriorizar, resistir, defender-se acima de todos, fazer por si, duvidar antes de aceitar, pensar antes de repetir qualquer teoria, centrar atenções e marcar a sua diferença, para o bem e para o “menos-bem”.

Eu posso ter crescido, sofrido, mudado, voltado a crescer, a sofrer e a mudar, até me tornar quem sou hoje. O Tiago nasceu com uma maior capacidade para se defender e distinguir. Cabe-me a mim, entretanto, moldá-lo, ajudá-lo a retrair-se, ensiná-lo a também ele aceitar os outros na sua diferença. Não para que ele não cresça, não sofra e não mude. Mas sim para que ele passe por tudo isso sem deixar de ser quem é. Sem deixar de ser feliz.

Então, até ao Natal, há 20 coisas que eu quero que o meu filho saiba. Coisas que vou escrever e que lhe vou ler, diariamente. Começando por esta:

                                                                                                           
 


* Sê tu próprio

26 novembro 2012

Fado em Mim




Rendida ao Desfado 
de Ana Moura


Sei muito bem o dia em que comecei a gostar de fado. Era verão e choveu. Ia de carro em trabalho, algures numa estrada de curvas e a música começou na rádio e encheu-se de sentidos. Dias a fio não a deixei, no pensamento. Guardando apenas as frases que a memória reteve. Qualquer coisa como

" a chuva ouviu e calou meu segredo à cidade". 

Alguns dias depois, parei na primeira loja que encontrei no percurso trabalho-casa, ao final da tarde, e comprei o álbum. Aquele resto de dia, de calor abrasador e sem pingo de chuva na rua, passei-o deitada na cama a ouvir a faixa 3 do álbum "Fado em mim", de Mariza.
Decorei a letra entre

"as coisas vulgares que há na vida não deixam saudades" 

e

"eis que ela bate no vidro trazendo a saudade", 

mas demorei vários dias até deixar o disco correr do princípio até ao fim.

O fado para mim estava em cassetes com o rosto de Amália Rodrigues que o meu avô materno tinha no carro e que nós odiávamos ouvir durante os passeios de domingo.

O fado para mim começava ali. Naquele álbum, naquela voz, naquele

"fogo do amor sobre a chuva que há instantes morrera". 

O fado a partir dali tornava-se um "fado em mim", para deixar que

"as lembranças que doem ou fazem sorrir" 

tivessem uma banda sonora muito própria.

Daí para a frente, o fado multiplicou-se comigo. Foram chegando as vozes, foram-se desvendando os álbuns, foram aumentando as dores projetadas num sofrimento alheio, da viola ou da guitarra, do fadista ou do compositor.

Ouvido nos piores momentos o fado é coisa que magoa, que intensifica o mal que se rumina, que afunda o silêncio numa solidão demasiado negra. Nos meus dias de agora, voltar ao fado é desconstruí-lo. É roubar-lhe a dor, arrancar-lhe o xaile, guardar-lhe os receios e as dúvidas, esconder-lhe as mágoas e calar-lhe a fatalidade. É quase acender uma vela e iluminar-lhe o negro. É quase limpar-lhe o rosto e abrir-lhe os olhos. É quase ver nascer, ver crescer, um novo fado em mim.



Ilustração - Jessica Grundy

13 novembro 2012

Conversas com ele

I

A passar pelo Palácio de Belém:
- Mãe, isto aqui também é uma escola?
- Não, isso é a casa do Presidente da República.
- Ah! Esse é aquele que nos rouba o dinheiro?

II

- Mãe, "puto" é uma asneira?
- Não. "Puto" não é uma asneira.

Minutos depois.
- Mãe, mas "puto" não é mesmo uma asneira, pois não?
- Não, Tiago. Não é.
- Mas "p**a" já é.

III

- Mãe, nem sabes o que aconteceu hoje na escola. Houve um menino que fez o dedo da asneira!
- O dedo da asneira?! A sério?
- Sim...
- Então e qual é o dedo da asneira?
- É este. - diz enquanto levanta o indicador.

IV

À saída da ótica de óculos novos na cara:
- Mãe, tens a certeza que os óculos novos são giros?
- São, Tiago. Ficas mais crescido e mesmo na moda!
- Ah... acho bem! É que a Mariana disse que se não gostasse dos óculos novos acabava tudo comigo.

12 novembro 2012

A guardar




"Tal como há dois lado em cada história 
há dois lados em cada pessoa. 
Um que revelamos ao mundo 
e outro que mantemos escondido cá dentro. 

Uma dualidade regida pelo equilíbrio da luz e das trevas. 
Dentro de cada um de nós 
há a capacidade para o bem e para o mal. 
Mas aqueles que conseguem esbater a linha moral divisória 
detêm o verdadeiro poder."

in Revenge
Season 1 Episode 7


Puro entretenimento com gente bonita e uma história feia, de intrigas, invejas e vinganças.
Tal e qual como na vida real.

09 novembro 2012

O som do meu silêncio

Lá pelos meus 13 anos chegou à escola aquela moda das guitarras. Todas as meninas participavam nas aulas de música extracurriculares e andavam de guitarra debaixo do braço nos intervalos.

Quando a pousavam no joelho, invariavelmente, saía esta canção:



A minha inaptidão para a música nunca me fez parte desse grupo, mas mantive-me sempre do outro lado, ficando sentada por perto quando as amigas, as mais e as menos dotadas, tocavam num tom sussurrado “hello darkness my old friend”. Lá por casa descobri até um disco antigo dos pais com a canção original e ela tornou-se parte dos meus dias de palavras e ideias, dentro de um círculo redondo, fechado e finito onde deambulava sozinha.

Por aquela altura eu ouvia ainda menos música em inglês do que nos tempos que se seguiram e, para mim, as palavras da canção praticamente começavam e acabavam no título - o tal som do silêncio que me soava tão bem. Tão inteiro. Tão real. Numa espécie de entendimento cúmplice entre os meus desejos e os meus medos. Entre as minhas ideias e os meus limites.

Criei, então, com o silêncio uma relação de intimidade, encontrando nele o espaço seguro quando manda o barulho. A minha vivência dentro do silêncio veio desses momentos para o resto da minha vida, de uma forma muito intensa e muito presente, numa intimidade palpável feita de livros e de canetas, de cadernos e de folhas, de teclados e de segredos.
Com a idade e as coisas da vida, o silêncio tornou-se um aliado. A melhor resposta para as piores questões, a melhor arma contra o ataque.

Hoje, que até já entendo e absorvo cada frase da canção, continuo deslumbrada com o som que o silêncio faz dentro de mim. E há pouca coisa que preze mais do que a total abstinência de barulho, a íntegra quietude do espaço, a calma desprovida de sons. Vejo-o como um privilégio. Como a minha maior capacidade, como um sigilo de mim comigo, como um pacto individual a preservar, a reclamar, a guardar.

Eu com ele. Ouvindo-o. Tocando-o. Deixando as pessoas conversarem sem falarem, ouvirem sem escutarem, incapazes de perturbarem o meu silêncio... tal e qual como diz a canção.

31 outubro 2012

"No intervalo da vida"




Há uma expressão que adotei há vários anos e que, perante histórias dramáticas e cruéis, histórias da vida de todos nós e de tantos que amamos, me faz então dizê-la: "isso é que são problemas".

Há uns dias fui à apresentação do último livro da minha Grande e Querida Amiga Cláudia Pinto. O livro "No intervalo da vida" conta 20 histórias de gente que viveu, ou vive, isso mesmo: problemas. Pessoas comuns, cheias de sonhos e de projetos, algumas delas que eu própria conheço, e que de um dia para o outro se veem face a face com um diagnóstico, com uma doença, com um problema. Um problema que em nada depende do livre-arbítrio, um problema que lhes condicionou os dias, lhes fragilizou o corpo, lhes devastou a alma.

Na apresentação muito se falou de como é difícil e penoso ler aquelas páginas. Como se torna arrasador cada testemunho, cada citação. Mas também se ouviu acerca da força que cada protagonista passa daquelas letras para os olhos de quem lê.

O Tiago, que me acompanhou, não deixou de dizer à autora que, se fosse ele, tirava o primeiro "N" do título. Eu, à saída, prometi ler, numa promessa à amiga feito desafio a mim, leitora, perante ela, a escritora.

Pensei sim folhear o livro, saltar entre o prefácio e os agradecimentos, entre a contracapa e uma ou outra ilustração. Foi o que fiz, à noite, já deitada. Adormecido o filho ao meu lado, esquecida a hora que naquela noite até mudava. Madrugada dentro li história a história. E mentiria se dissesse: quase sem notar. Notei sim. Cada uma que passava deixava três coisas: a raiva da injustiça, o medo da proximidade e a cada vez maior relativização dos problemas da (minha) vida.

Chorei muito. Muito mesmo. Como já nem lembrava o que era chorar. Lembrei sim um tempo em que chorava, em que também eu estive num intervalo da minha vida, que pode não ter sido semelhante aos testemunhos de cancro ou de doenças raras da infância que lemos no livro, mas que foi o meu problema, que foi a causa de muito tempo útil e bem desfrutado que já perdi. Nos intervalos dos protagonistas do livro da Cláudia há sempre espaço para enaltecer os profissionais das mais variadas especialidades médicas que acompanharam, ou acompanham, cada um dos casos. Eu também tive quem me ajudasse. Ela, com certeza, nunca saberá quanto, por muito que esse seja o seu trabalho. Porém, eu lembro a cada momento. E quando por vezes, em conversa, me questionam acerca dos psicólogos, da psicoterapia, das consultas, tenho dificuldade em explicar, resumindo com: "comigo resultou". Hoje, que já não a visito há vários meses, confesso as saudades. Mesmo sabendo que não preciso de voltar aquele sofá, mas que a convidava para um café numa tarde destas. Todos os dias, das pequenas agruras às grandes angústias, sei que a forma como reajo, o modo como dou a volta ao que penso e ao que sinto, a fronteira que estabeleço entre a ação e a reação, se deve a tudo o que aprendi com ela, em vários anos de altos e baixos, que ela sempre descrevia como uma espiral, sem retrocessos.

Em tantas histórias escritas pela Cláudia, neste livro tão marcadamente seu, os protagonistas dizem que vencido o intervalo, olham agora os dias, as dificuldades, os obstáculos, as dúvidas, com uma nova perspetiva, aquela que lhes deu a doença: o verdadeiro valor de viver.

Apesar da hora tardia, dos olhos cansados (das lágrimas ou da leitura), de tudo o que de antigo mas meu aquelas histórias foram buscar, não apaguei a luz sem acabar o livro. Preferia sofrer tudo numa noite só. Remexer nos fantasmas e nas cicatrizes numa única vez.

Antes de dormir lembrei-me da frase, lembrei-me de como tantas e tantas (e tantas) pessoas que conheço deviam ter este livro junto à cama, dentro da mala, no carro ou debaixo do braço, para saberem que aquilo é que são problemas. O resto resolve-se.


Obrigada Cláudia.
Muito obrigada.




Ilustração - Josef Engelhart

23 outubro 2012

01 outubro 2012

Eu - a Mãe - pelo Tiago

Peguei na câmara e entrevistei o Tiago.

Estas foram as perguntas:



As respostas chegarão diariamente, durante este mês de outubro.

29 setembro 2012

30 dias de setembro #29


Dia 29 - Uma imagem do que me faz feliz



"Vivo sempre no presente.
O futuro, não o conheço.
O passado, já o não tenho."
(Fernando Pessoa)

27 setembro 2012

26 setembro 2012

30 dias de setembro #26


Dia 26 - Os meus 3 maiores vícios


pão de qualquer tipo e feitio

coca-cola verdadeira


computador, internet, sites, blogues, ...