31 dezembro 2010

De 1 a 10
o melhor e o pior de 2010





1 – O Tigy já tem um dente a abanar, diz “portanto”, “entretanto” e “ó mãe desculpa lá...” no início de cada frase, pergunta de cinco em cinco minutos que idade é que eu tenho e acredita no Pai Natal, na Fada dos Dentes e até – imagine-se! - que o Benfica é o maior.

2 - Divorciei-me. Ou quase.

3 – Consegui saber uma coisa com mais de uma dezena de anos de atraso. E agora não sei bem onde arrumar isso.

4 – O meu blogue nunca teve tantas visitas, tantos textos e tão poucos segredos.

5 – Li o “Museu da inocência” e comecei a construir o meu.

6 - Vi “500 days of Summer” e nunca mais pensei noutra coisa.

7 – Apaixonei-me definitivamente pelo Dexter (mas ele não me quer).

8 – Descobri, na pele, o verdadeiro significado do ditado popular: “Quando o mar bate na rocha quem se lixa é o mexilhão”.

9 – Já sei ir sozinha a concertos, ao cinema, ao hipermercado, ao médico, ao ecoponto, ao jardim, ao museu, ao café, a festas de aniversário ou de natal, casamentos e baptizados. E, afinal, nunca estive tão bem acompanhada.

10 – Sobrevivi. E dizem que isso é bom.





Ilustração - Claudia Degliuomini

30 dezembro 2010

Uma canção e uma história
#A retrospectiva

Eram 20 os desafios num desafio só: escolher músicas para momentos, para estados de alma, para reacções ou para recordações.

Ironicamente, enquanto a minha vida mudava, eu olhava para trás, ou olhava para dentro, e procurava por entre tantos sons, o ritmo certo para as 20 questões.

Em oito meses foram 20 as respostas, numa tentativa sempre frustrada de encontrar a melhor banda sonora para a mais complicada das histórias, que é sempre a nossa.

Então, daqui até lá atrás:

Ouvi Regina Spektor em “Us” e mostrei porque um ano pode começar quando nós decidirmos. A música do último ano, banda-sonora de um filme viciante, toque definido no telemóvel, som contagiante no ouvido.

Ouvi Julie Andrews na minha parte preferida do filme “Música no Coração”, quando todos juntos falam das suas coisas favoritas. Uma canção que só me pode fazer rir e lembrar como coisas tão pequeninas podem preencher os maiores vazios e como são precisamente essas as melhores coisas da vida.

Ouvi Donna Maria numa versão de “Bem-vindo ao Passado”, um original dos GNR, carregado de despedidas e de amarguras, de pecados e arrependimentos, num sincopado ritmo que chega a ser tenebroso. Falei então de um tema complicado, negro, sempre ignorado como se não existisse. Simples de mais para mim.

Ouvi Adriana Calcanhotto na mais repetidas das suas canções, num encadeamento saboroso de frases que adoçaram uma das fases mais tranquilas da minha vida. Agora, usei-a para falar do meu casamento, de como também ele teve tudo isso, todo esse doce e suave e completo, e como o mais certo é guardar sempre o que houve de bom.

Ouvi Diana Krall na mais perfeita das canções, um dos meus maiores vícios, uma das músicas que considero minhas, coladas à pele. E com ela falei da tristeza, da ferida que sangra e nunca se cura, numa espécie de marca ou modo de vida, como se a tivesse adoptado como tatuagem a marcar o corpo, como traço de personalidade a tingir o pensamento, como decisão de futuro, como parte do destino. Mesmo que doa...

Ouvi Smiths na mais fantástica das suas canções. Aquela que tem a frase "to die by your side is just an heavenly way to die" (Morria para ouvir isto...). Coisa em que só se acredita quando estamos rodeados de felicidade e não nos lembramos que, mesmo a mais perfeita das histórias, pode não acabar com “e viveram felizes para sempre”.

Ouvi My Chemical Romance em gritos de raiva e angústia, o tema certo para momentos de zanga, apropriada para os dias em que vivemos zangados com o mundo, do acordar até ao adormecer.

Ouvi Tiago Bettencourt com a canção "O jogo" uma das predilectas do meu álbum preferido "O Jardim". Dele era capaz de roubar uma frase de cada música, como se ela fosse feita especialmente para mim, e depois construir várias histórias ou juntar todas numa só. Na verdadeira. Aquela que é tão minha que eu não sei mesmo largar.

Ouvi Carlos do Carmo com a "Estrela da Tarde", uma letra profundamente bem escrita, como quase já não se faz, da autoria de Ary dos Santos, e que me descreve. A mim e a este confuso ziguezague que não deixa saber se, afinal, "tu és a alegria ou se és a tristeza".

Ouvi Placebo em várias faixas a rodar em alto volume, tons elevados que ninguém esperaria que eu gostasse. Ou talvez nem todos os ninguéns.

Ouvi GNR um dos meus grupos preferidos da adolescência e, com “Sub16”, lembrei como era uma miúda destemida, confiante, sonhadora e irreal nesses tempos. Mas feliz.

Ouvi Sara Tavares com o seu "Ponto de luz", uma música suave e delicada, uma peça preciosa, um ponto de equilíbrio, o som ideal para adormecer tranquilamente.

Ouvi Cher e "Strong enough", uma canção para dançar, cheia de energia, que me fez falar de como nunca somos suficientemente fortes, ou suficientemente perfeitos, e como entre aprender e merecer, se vai acertando.

Ouvi Caetano Veloso com os seus "Sonhos" a canção que me faz lembrar um momento bonito, inteiramente só meu, nunca partilhado, nunca confessado. Um momento ideal de que consigo ter muitas saudades.

Ouvi Rui Veloso e as "Regras da Sensatez", o tema que me faz lembrar o lugar que é este blogue, o tema para anunciar uma mudança grande na minha vida, para memorizar que voltar ao lugar onde se foi feliz pode trazer um alto preço a pagar.

Ouvi Pedro Abrunhosa e "Eu e tu somos iguais", a música que imediatamente me lembra uma pessoa, ele próprio, o autor, o intérprete, aquele que um dia conheci e me mudou para sempre. Nem ele nem eu saberemos algum dia quanto.

Ouvi Mariza e "Duas lágrimas de orvalho". Uma canção que me põe triste. Profundamente triste. Triste de verdade, que chega a doer no peito enquanto ela canta. Triste mesmo.

Ouvi Sérgio Godinho e "O Primeiro dia", a música que me faz feliz ao lembrar uma das amigas de sempre, com quem partilhei as mais fabulosas das idades e as primeiras aventuras. Inesquecível.

Ouvi Delfins e "Aquele inverno", uma canção que soa bem e que vem lá de trás, de tempos bons, mas que podia ser mais qualquer coisa.

Ouvi Mafalda Veiga. Como é que uma canção que diz "há sempre uma maneira de recomeçar o que se quiser" não pode ser uma das favoritas de sempre?
E nunca precisei tanto de acreditar nisso.


Venham novos 20 desafios. Estes souberam-me tão bem...

29 dezembro 2010

Uma canção e uma história #20

A canção do meu último ano




Um ano começa a qualquer altura. Em qualquer data.
Pode ir de um 29 a outro 29 em vez de um 31 a outro 31.

Um ano começa quando recomeça a escola ou quando se muda de casa ou quando se troca a roupa da cama entre flanela e algodão. Um ano começa quando abrimos um livro ou descobrimos um filme que nos muda para sempre. Um ano começa quando ouvimos o maior de todos os conselhos e o seguimos. Quando cortamos o cabelo ou até o pintamos de outra cor. Aí sim. Pode começar um ano.

Um ano começa quando começa a canção. E o ano dura enquanto ela durar também...
Um ano pode começar em dia nenhum. Ou pode nunca começar sequer.

Um ano começa no último dia de praia já no fim do Verão ou na primeira chuva depois do calor. Pode ir de Abril a Maio, com início num dia qualquer, a meio de uma semana banal. Ou então abrir em Fevereiro onde um ano inteiro pode caber dentro de um mês tão curto.

Um ano começa em dia de aniversário, quando mudamos de idade e até acreditamos que isso muda mais alguma coisa. Um ano inteiro pode começar ali: no segundo em que se sopram as velas e ao ritmo das palmas se festeja um ano novo, se pedem 12 desejos ao cortar as fatias e se esquecem os mesmos 12 enquanto se distribuem os pratos e abrem duas ou três prendas.

Um ano começa numa noite ao deitar, quando se contam dívidas e favores em vez de carneiros, quando se listam afazeres e tralhas do supermercado que ficam sempre por comprar.
Um ano começa quando se veste um casaco antigo e descobrimos que ainda nos fica bem e nos bolsos encontramos bilhetes de cinema a que fomos há tantos anos, ver filmes de que já nem sabemos o fim. Aí acaba um ano qualquer lá para trás para começar um outro.

Um ano começa quando nasce um filho ou no preciso instante em que toca o telefone e não sabemos quem é. Um ano começa com uma conta por pagar ou com 60 cêntimos para um café.


Um ano começa quando chega alguém.

Um ano pode começar ao jantar, entre a sopa e a sobremesa, entre o copo de água e o copo de vinho, vazio.
Um ano começa na época de saldos ou quando perdemos uma chave e não a encontramos mais. Um ano começa com um caderno novo, sem linhas, a cheirar a papel e de capa sem vincos.
Um ano pode começar ao mesmo tempo que se abre uma gaveta ou a porta de casa ou o envelope de uma carta registada com aviso de recepção.

Um ano começa quando alguém parte. E é para sempre.



Um ano começa quando nós quisermos, quando nós o fizermos. Acontecer.
O meu até pode começar hoje. E o teu?

27 dezembro 2010

Olha

quando o dia tiver acabado
e as pessoas já estiverem deitadas,
- na casa ao lado,
nas casas em frente,
em todas as casas da rua ou mesmo da cidade -
e só tu não conseguires dormir,
lembra-te daquela vez em que desenrolaste palavras por ordem alfabética até adormeceres
e achaste que por saberes um dicionário tão completo nunca te faltaria
o que dizer,
o como dizer,
o a quem dizer. Até.
Lembra-te disso.

26 dezembro 2010

Z de zero



Z de zero. Zero palavras em pânico nas páginas em branco. Zero ideias perdidas enquanto o cursor pisca-pisca...

Z de zizezagues permanentes no pensamento para zarpar daqui.
Z de zelo. De cuidar o melhor que há para valer tudo o resto.
Z de zaragata entre sim e nim, entre mim e plim, entre zás e trás.

Z dentro da zanga, de gente zangada, do mundo zangão. 
Z de zanzar, dali para acolá, de lá para cá, de antes para agora, de depois para nunca mais.

Um z zonzo feito de zumbidos teimosos de coisas que não vão embora. Um zunzum em voltas permanentes que deixam o corpo à toa. Um z grande a desenhar curvas nas zonas mais seguras da memória.


Z de eu e o blogue em estado zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz

24 dezembro 2010

Em paz



Espírito do Natal passado

Os melhores Natais da minha infância foram passados com uma mesa cheia, com os pais, a mana, os primos, os avós, os tios e ainda mais gente que assistia aos teatros e canções que preparávamos para depois do jantar. Nesses Dezembros de muito frio, desembrulhavam-se brinquedos vendo o monte crescer sem parar e acreditando que o Natal seria para sempre assim: um deslumbramento feito de papel de embrulho e laços coloridos.

Espírito do Natal presente

O Tigy acordou-me a perguntar: "É hoje o Natal?" e mesmo o seu entusiasmo não foi suficiente para que eu saltasse, à primeira, da cama. Este Natal tem menos gente, menos prendas, menos tempo dentro dele até, mas tem uma paz, em mim, que há muito não conhecia.

Espírito do Natal futuro

Haverá Natais com e sem Tigy, diminuindo e aumentando a mesa, as prendas e o entusiasmo ao acordar nos dias 24 que se seguirem. Que fique esta paz, numa espécie de contas feitas comigo mesma de um Natal para o outro, num sentimento permanente que poderei ficar para sempre assim - a viver uma certeza verdadeira dentro de um espírito de Natal diário. Porque os Natais passam, as prendas repetem-se, o entusiasmo diminui, mas há coisas que ficam para sempre e não mudam nunca. Mesmo que não voltem, mesmo que na verdade nunca tenham sido nossas... apenas visitas fantasiosas de espíritos de Natal, querendo revelar-nos segundas oportunidades na vida e tornar-nos mais generosos, mais completos e mais tranquilos.
Praticamente em paz.


23 dezembro 2010

Uma canção e uma história #19

Uma canção que me faz rir




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"these are a few of my favorite things"

22 dezembro 2010

A guardar






"No que toca à família, ainda somos todos crianças, no fundo.
Não importa o quão velhos fiquemos,
precisamos sempre de um lugar para chamar de casa.


Porque sem as pessoas que mais amas...
Não consegues evitar
sentir-te sozinho no mundo."



Gossip Girl
Season 3 Episode 6




Estiveram sempre por aqui. Mas, para mim, voltaram hoje.
E nem de propósito...

20 dezembro 2010