30 dezembro 2013

2014!

Para 2014 tenho um único e grande desejo... mas 12 desafios que, nos próximos 12 meses, irei partilhar aqui quando conseguidos.

Porque
em 2014 vou:

quebrar um mau hábito

aprender uma nova habilidade

assemelhar-me mais a alguém que admiro

visitar um novo lugar

ler um livro há muito prometido

escrever uma carta há muito adiada

provar uma nova comida

ser melhor em qualquer coisa importante

acabar algo há muito começado

realizar um objetivo definido

destralhar

superar-me



Sintam-se desafiados comigo.

23 dezembro 2013

20 coisas que eu quero que o meu filho
saiba até ao Natal até ao final do ano sempre

#19

É muito mais fácil ser infeliz.
A infelicidade não faz sombra aos outros, não lhes faz cócegas nos pés ou nas ideias que têm dentro da cabeça, por poucas ou fracas que sejam, dominadas pela inveja ou pelo desânimo. É bem melhor lamentarmo-nos do que regozijarmo-nos.
É bem mais simples chamar alguém para repartir desilusões e mágoas do que para festejar. É bem mais natural que outros dividam tristezas connosco, se aproximem quando nem tudo corre bem, do que estarem sinceramente ao nosso lado no melhor que nos acontece. Apesar das aparências.

As pessoas chegam-se mais quando estamos imbuídos de infelicidade porque não a levam consigo, porque as ajuda até a darem valor à sua própria vida, ao bem que têm ou que negligenciam. A felicidade dos outros torna-os rancorosos ou nervosos, invejosos ou temerosos: “será que algum dia eu também serei feliz assim?”...
Enquanto a infelicidade não é contagiosa, não passa de mão em mão, entristecendo realmente olhares por onde passa; a felicidade é tudo isso e muito mais. Torna vidas pequeninas em vidas minúsculas, torna remorsos e dores alheias em rastilhos de sofrimento.

Falam muito mais de nós quando inclui “coitadinha” do que quando a frase tem “que bom!”. Até parece que a primeira expressão soa sempre mais sincera do que a segunda, que leva um nervoso miudinho de pequeninas raivas ou grandes invejas.
Sempre recusei a expressão de "os amigos são para as ocasiões". Por acaso sempre achei que a amizade não era coisa exclusiva de momentos maus ou de dificuldades. Sempre a senti transversal à própria vida. Com o tempo, com a idade, com as coisas dos momentos, comecei a ver a frase de outra perspetiva. Acho que há “amigos” que, estranhamente, são mais para as más ocasiões e que se eclipsam nas boas.

Então, o segredo, a difícil missão, o grande desafio, está em saber quem fica de um lado e quem colocamos no outro, quem conta para rir e para, depois, nos encostar no ombro e apertar o corpo. Distinguir bem quem sabe ser tão inteiro e tão verdade quando nos encontra a sofrer, para depois ser exatamente igual quando nos vê bem... tão bem.
Tenho a grande felicidade de conhecer bem as pessoas que tenho, como minhas, as que contam, as que já choraram comigo... chorando mesmo que não lhes tenha visto as lágrimas. São, precisamente as mesmas que, nos dias de hoje, enchem as palavras e os olhos para serem felizes comigo, para engrandecerem o bem que me sinto, para também elas ficarem bem pelo bem que tenho, para elas comigo, a meu lado, serem inteiramente, verdadeiramente, elas próprias. E sermos amigos nas ocasiões. Sejam elas quais forem.

Então, este Natal...



*Rodeia-te daqueles que te ajudam a ser quem és.

20 dezembro 2013

Saber de mim?

Há 20 dias já tinha as prendas de Natal compradas.



Há 12 dias fui ao teatro.



Há 8 dias comecei uma nova série.



Há 2 dias acabei este livro.



E hoje ouvi esta música.


15 dezembro 2013

Fichas de Leitura

Quase-quase a fechar leituras de 2013, aqui fica o registo cronológico, para recordar, referenciar e recomendar.












Autor – Lídia Jorge
Ano de edição - 2011 
Leitura em – Março/Maio 2013 







Lídia Jorge é uma das minhas referências de leitura há dezenas de anos. Leio todos os livros, guardo um ou outro, mais antigo, para ler... sempre em breve. O ritmo de escrita, feito de um coro de vozes que nos acompanham, junto ao ouvido, é uma das marcas com nome próprio. Este livro, mais uma vez, deixa comigo personagens que parecem minhas, de gente que vive ao meu lado.

"Mas nada iria passar-se como eu imaginava. Ao lado da expectativa, a realidade criava o seu próprio programa, há muito que eu sabia que assim era. Também sabia que a parte que nos decepciona pode ser recompensada pela parte que nos surpreende."













Autor – Cândida Pinto
Ano de edição - 2011 
Leitura em – Junho 2013 







A figura de Snu há vários anos que me fascina. Li este livro em poucos fôlegos, fascinada por uma mulher forte e determinada, que se deixou vencer por um grande amor. Este é um daqueles livros que, enquanto se lê, se tem de partilhar com quem temos ao lado, relatando factos e trocando passagens, mostrando fotos e tirando dúvidas. Emocionou-me e espicaçou-me, ao falar também de um mundo que é muito o meu: a edição e os livros.

"E a cada esguicho de lama que saltava do charco agitado pela pedrada de um amor inconsentido, Francisco respondia: Tudo com ela. Nada sem ela. E foi assim até à morte. Morreram ambos na flor da paixão, enlaçados num abraço de chamas." (Palavras de Natália Correia)













Autor – Miguel Sousa Tavares
Ano de edição - 2013
Leitura em – Julho 2013 







Não resisto a um novo livro de Miguel Sousa Tavares e daí ter lido este logo que surgiu nas livrarias. Começa bem... muito bem. Cheio de emoção e de algum mistério. Tem a escrita fluente do autor, lê-se com vício e curiosidade.

"Essa foi a primeira lição que aprendi: o pecado depende do sujeito, não do predicado."















Autor – Ana Zanatti
Ano de edição - 2013
Leitura em – Julho 2013 






Foi a minha estreia com Ana Zanatti. E não será o primeiro e último livro a ler! Confissões de gente com histórias e memórias, com dramas e marcas, com questões e soluções. Uma conversa a várias vozes. Onde também há espaço para a nossa.

"De tanto silêncio, acabámos por dizer tudo. O silêncio é a melhor forma de dizer tudo sem gastar palavras."
















Autor – Nuno Camarneiro
Ano de edição - 2013
Leitura em – Agosto 2013 





 Sempre complicado afirmar tal coisa, mas... arrisco dizer que foi o melhor livro que li em 2013. Primeira vez de Nuno Camarneiro nas minhas leituras e uma história feita das histórias de todos os habitantes de um prédio. O prédio que pode ser de qualquer um, em qualquer ponto do país, em qualquer ano que começa ou que acaba. Gostei mesmo muito. Mesmo.

"Somos todos uns sentimentais e por isso demoramos no que nos dói. Temos choro fácil que dá ou não dá em lágrimas, guardamos as dores cheias de pormenor enquanto as felicidades ficam por ali, confusas, com algumas caras, alguns sons, incertas e vagas. Lembramos os sapatos que calçávamos quando alguém morreu, a hora da notícia, o programa que passava nesse instante e até as vergonhas que pensámos. Folheemos as páginas do riso e pouco encontraremos, algumas frases, momentos caricatos, elementos de uma paisagem. Pouco e mal contado, estávamos distraídos, demasiado ocupados na felicidade para lhe fazermos o retrato. Somos tolos e sentimentais, temos arcas cheias de mágoas que não esquecemos e que abrimos a todo o momento para ver se ainda nos doem, e doem sempre. Descuramos o arquivo do bem que apesar de tudo nos vai acontecendo, somos tolos de lágrimas."















Autor – Kitty Fitzgerald
Ano de edição - 2008
Leitura em – Agosto/Setembro 2013 






Este livro faz parte das minhas "wishlists" há muito tempo e, uma promoção de 2 ou 3 euros, fê-lo voltar comigo para casa e passar para o cimo da pilha de livros para ler. A história, profundamente dramática e negra, toca em feridas profundas de uma sociedade que marginaliza e rotula, quase sem regras.

"Explico-lhe como pensar no cérebro como se ele existisse dentro de uma grande sala, que tem muitos armários e prateleiras e caixas. E o trabalho é escolher uma caixa, ou prateleira, num lugar distante, e pôr aí todas as preocupações e lembranças. Depois cola-se uma etiqueta de memória nesse sítio, que é dos tempos passados, e que é só para ser aberto por motivos especiais."
















Autor – Fernanda Serrano
Ano de edição - 2013
Leitura em – Setembro 2013 







Li o livro em duas noites e ele nunca mais parou na minha estante. Tem andado de casa em casa, de pessoa em pessoa, de leitura em leitor. Tem tanto de duro como de positivo, tem tanto de emotivo como de feliz, que deve mesmo ser lido.


""Nada é mais importante do que o riso. A tragédia é a coisa mais ridícula que o homem tem, e tenho a certeza de que por mais que os animais sofram eles nunca exibem a sua dor em teatros abertos." São palavras dela (Frida Kahlo), mas podiam ser minhas. É exactamente assim que eu penso. É assim que vivo e foi assim que encarei a doença: sofri, sim, mas rejeitei expor as minhas feridas ao mundo. Não preciso disso. Acho que ninguém precisa."













Autor – Valter Hugo Mãe
Ano de edição - 2011
Leitura em – Setembro/Outubro 2013 









Valter Hugo Mãe é para ser lido depuradamente, sorvendo cada capítulo ou cada palavra. Este livro é uma cruzada pela felicidade, por aquilo que é simples e eterno, que é nosso e para ficar. A paternidade e o amor desprendido ganha, nestas páginas, a sensibilidade do talento de um dos meus autores.


"Quem tem menos medo de sofrer, tem maiores possibilidades de ser feliz."










Autor – David Machado
Ano de edição - 2013
Leitura em – Outubro 2013 










Conhecia David Machado de livros infantis mas aqui a sua escrita ganha nova dimensão. Daniel, a personagem principal, tem um plano de vida, mas as curvas e os contratempos acabam por vencer os objetivos ou, então, alterá-los. Uma história sobre a força que trazemos connosco e que colocamos, ao serviço da nossa felicidade, quando realmente é preciso. Os olhos têm dificuldade em seguir cada linha, querendo avançar tão rápido como as ideias e como as melhores vontades. Gostei muito!

"E, por causa de instantes como estes, o mundo encrava sucessivamente. As pessoas arrastam para todo o lado os seus protocolos pessoais apurados até ao limite do absurdo, os seus hábitos enraizados, as suas personalidades enviesadas, viciadas nas suas próprias lógicas, e ninguém está disposto a dar um passo ao lado, ceder espaço a outras formas de olhar as coisas para depois continuar em frente, mesmo quando a realidade o exige, mesmo quando não existem alternativas, as pessoas preferem ficar paradas só para não terem de dar esse passo ao lado. Imagina onde já podíamos estar. Imagina a humanidade a avançar, como uma onda, sem nunca esmorecer. Imagina."

















Autor - Sándor Márai
Ano de edição - 2012
Leitura em – Novembro 2013 






De Sándor Márai tinha lido o sobejamente aplaudido "As velas ardem até ao fim". "A ilha" é um relato obscuro e intrincado sobre a necessidade de um homem que, aos 50 anos, põe tudo em questão. Assim, procura na solidão o melhor cenário para repensar.


"Começou a compreender que a felicidade não se podia considerar uma propriedade privada que se adquire de um momento para o outro, como uma herança da qual, posteriormente, só é preciso cuidar e evitar que seja roubada ou perca o seu valor. Tinha que a descobrir em cada meia hora, em cada minuto; manifestava-se sem aviso e, em termos gerais, era mais cansativa e irritante do que agradável e tranquilizadora."


11 dezembro 2013

Equilíbrio

Por um lado,
deito o Tiago às 10h20 e lemos na cama dele, uma página a cada um, duas para mim e meia para ele, conforme o cansaço da minha voz ou o peso das pálpebras dele. Lemos dois livros, quando segundo os padrões dele são "pequenos". Lemos 3 ou 4 capítulos de livros maiores, já de gente mais crescida, que deixamos guardado com um marcador para o dia seguinte. Uma rotina diária desde que ele era bebé e queria todas as noites a mesma história do "Boa noite, Ursinho". Agora, na noite de hoje, ficou roído de curiosidade - e ousou mesmo folhear umas páginas de olhar excitado - para saber se o Charlie da Fábrica de Chocolate consegue um bilhete dourado, ou não, para ir conhecer o Willie Wonka.

Por outro lado,
deito-me eu lá para as 11h40 e leio na minha cama, os meus livros. Dois ou três capítulos quando gelam os braços e as pontas dos dedos; oito, nove ou dez, nos dias de menos sono, de menos frio, de um melhor livro ou de um maior vício. Leio livros grandes, os que mais adoro. Leio livros pequenos que guardo durante meses à espera de uma oportunidade. Leio livros bons, dos que deixam saudades. Leio livros "mais-ou-menos", que fluem apressadamente, aspirando o próximo. Agora, na hora de ir deitar, estou como o Tiago adormeceu hoje: roída de curiosidade para saber o que andam a fazer os "homenzinhos" do Millás.


06 dezembro 2013

Por acaso

Por acaso adoro surpresas.
E tenho ideias fantásticas para surpresas que me podiam fazer.

Desde sempre que apelo a festas de anos surpresa, daquelas que saem pessoas de dentro de bolos, confetes coloridos por todo o lado e uma banda a tocar os "parabéns a você" com um coro de gospel.
Por acaso estou a exagerar. Mas adoro ser surpreendida. Mesmo numa altura, ou numa idade, em que até parece que já nada nos surpreende.

Por acaso, como todas as crianças, também vivi aquela fase de procurar as prendas de Natal lá por casa, mal disfarçadas no roupeiro ou debaixo da cama, e espreitar... só um pouquinho, até ver tudo.

Por acaso, o problema disto são as expectativas. Ao esperar-se ser surpreendido, pouca coisa, realmente, nos surpreende. E isso não deve ser nada por acaso.

05 dezembro 2013

Uma carta para... #5


a minha Sobrinha


Maria,

No dia em que tu nasceste eu estava longe e mesmo os telefonemas constantes não me fizeram deixar de sentir a distância. Na verdade, acho que naquele dia – como nunca – senti isso mesmo: a distância. Uma lonjura física, geográfica, capaz de se tornar emocional e quase saber a solidão. 

Conheci-te e descobri-te nas nossas cumplicidades: nos amigos imaginários que partilhas comigo, quando era eu que tinha a tua idade e passava horas a brincar com pessoas transparentes. Vejo-me nos teus jogos de menina, feitos de cozinhas em miniatura, de roupas de bonecas que se vestem ao contrário, dos cabelos de plástico que se cortam muito tortos, acabando com as franjas numa tesourada. Lembro-me nas aulas que dás: tu a professora e as bonecas a turma, a aprenderem letras e números, a fazerem testes fictícios, com certos e errados, elogios e raspanetes. 

Criei contigo, nestes 6 anos de tia e sobrinha, rituais que preservamos tão nossos: as pipocas à noite nas férias de verão no Algarve; a tua mão pequenina, de dedos muito fininhos, enlaçada na minha quando vamos com o balde buscar água ao mar; o açúcar da bola de berlim a encher-te a cara, a misturar-se com a areia, a colar-se às bochechas, às mãos, às pernas, ao corpo todo; o modo como ris, em gargalhadas soluçadas e dizes "ai... ai..." no final.

Tornei-me tia depois de ser mãe, certa de que sabia bem de que era feita tal coisa, de ser algo para alguém nosso, do nosso sangue, a parte melhor do melhor que tenho, a minha irmã. Só depois percebi, e aprendi, que ser tua tia, que tu seres a minha única sobrinha, é outra coisa. Entre nós duas há, apenas, espaço para estar tudo bem, para sermos ambas meninas e ambas tranquilas, sonhadoras e imaginativas, perdidas em brincadeiras solitárias de famílias que inventamos e de histórias que quase vivemos, como nossas. 

Tu, do alto dos teus 6 anos, especialmente quando usas os teus sapatos de salto, que fazem barulho como as senhoras grandes, pintas a cara com brilhantes e usas a tua coroa de princesa, ensinaste-me a pertencer. A pertencer sem pedirem nada em troca, sem testes, sem ser esperado ou expectável que te ensine alguma coisa, que te molde, que te guie. Contigo, não preciso de estar “à altura”, por eu ser adulta e tu criança, para poder ficar, simplesmente, à tua altura. Ser pequena como dantes, fechada no quarto sozinha, a viver muitos dias diferentes lá dentro, ou antes, com tantas ideias dispersas dentro da cabeça a borbulhar e os olhos bem abertos para saber o que se passa, quase sem falar. 

Tu danças. Giras sobre ti própria como eu fazia. Tu apresentas espetáculos frente ao sofá da sala. Seguras o microfone, abres os braços e cantas. Como eu fiz. 
Penso muitas vezes, numa atitude talvez infantil, que à medida que vais crescendo te vais parecendo mais comigo. Imagino que vais gostar de livros, de escrever, de ver filmes e séries, de inventar histórias e ficar dentro delas, inconsequentemente. E penso até que as coisas que não fiz e que me escaparam, em alguma idade, podem vir a ser tuas. Numa tentativa egoísta de colocar nas tuas pernas, no teu futuro, o que poderia ter sido e não fui. 

Mas, na verdade, o que eu quero é isto: quando cresceres, quando mudares, gostes do que gostares, sejas o que quiseres, não deixes que a tua imaginação mande mais do que a verdade, não deixes que aquilo que viveres, com gente transparente, nas histórias da tua cabeça, te arranhe a pele, te fira por dentro.  
E que eu, um dia, ou dia a dia, ou de idade em idade, saiba estar “à altura” de te explicar em que momento as ilusões ganham um “de” antes de tudo. Que eu, adulta e tu criança, adolescente, jovem, mulher, te saiba mostrar o melhor dos sonhos que somos, sabendo bem até onde podem eles crescer, até onde os podemos deixar permanecer, antes de se transformarem nas marcas que trazemos na vida.

Parabéns Maria.

Da tua tia.

03 dezembro 2013

2/3 do meu cérebro são letras de canções

"Minha alegria, minha amargura / Minha coragem de correr contra a ternura / Minha ousadia, minha aventura / Minha coragem de correr contra a ternura"

02 dezembro 2013

29 novembro 2013

Há 3 coisas que...

adoro nas sextas-feiras:

1. aquela sensação que o fim-de-semana é infinito e nele vai caber tudo o que planeamos e muito mais
2. aquele pensamento manhoso que tudo o que não conseguimos fazer na semana que acaba não virá mal ao mundo que passe para a semana seguinte
3. e porque é o dia perfeito para ouvir e partilhar esta música deliciosa do maravilhoso Cícero Lins

28 novembro 2013

Coisas da tolerância



O auge da irracionalidade aparece quando começa um jogo de futebol, ou se calhar quando acaba. Especialmente, quando perdemos. Ou pior ainda: quando os outros, os inimigos, a cor adversária, o centro de todas as nossas frustrações, ganham. Aí sim! A irracionalidade aparece. Serve-se do nosso corpo e dos nossos argumentos para se fazer ouvir.

Vivi durante muito tempo o poder da irracionalidade futebolística, habituada a ser de um clube que ganha muito, e centrando raivas num outro mais unânime. Até nisso o Tiago me tornou mais tolerante. Quando olho para ele, “benfiquista até morrer”, sempre a sofrer, a elogiar os jogadores dos outros, os treinadores dos outros, as vitórias dos outros, mas a saborear tudo o que é seu, vejo, ali, em metro e pouco de gente, uma grande ironia da vida.
Como se tudo o que mais desejássemos acontecesse, precisamente, no seu contrário, num despique metafórico entre o que o mundo nos dá e até onde conseguimos ir.

Porque ser mãe é muito voltar atrás e repensar tudo outra vez, é deixar as certezas absolutas por tentativas diárias e acertos constantes, é trocar obrigações por cedências, é dizer “pronto, desta vez pode ser” mas o “desta vez” ser um “quase sempre”.

Ser mãe tornou-me ainda mais descrente do “é assim porque é assim e será sempre assim”, para me fazer uma seguidora fiel do “hoje tentamos desta maneira”.
Educar – e que dificuldade tenho em dizer que faço isso, que sou capaz disso - é um jogo de equilíbrios e não um jogo de forças. É um constante apelo à capacidade de negociação. É um combate intenso com mais tréguas que assaltos. Mas é, acima de tudo, uma relação de iguais e de respeito.
Porque, na vida, como no futebol, lá por eu ser do Porto e o Tiago do Benfica, os meus gostos não têm de estar refletidos nas convicções dele. Lá por não marcarmos na mesma baliza, não quer dizer que não joguemos para o mesmo lado e que não festejemos juntos. Entre mim, a mãe, e ele, o filho, há dois papéis mas não tem de haver dois lados.

Portanto, há 8 anos, não acreditaria que iria à loja da Adidas escolher camisolas oficiais do Benfica para oferecer ao Tiago, que iria sorrir (por dentro) quando ele grita “golo”, que iria levá-lo uma semana inteira ao Estádio da Luz para o campo de férias e ainda responder, com um sorriso, às “saudações benfiquistas” dos monitores. E fazer tudo isso, agora, não me faz menos adepta do clube a que pertenço, nem menos convicta do que acredito, nem mais fraca enquanto pessoa ou sequer mais forte enquanto mãe. Faz-me apenas real. Real e mais tolerante. Certa de que o Tiago, por ser meu filho, não tem de ser a minha cópia, nem o meu reflexo. Tem de ser como é. Porque é tudo isso que eu admiro nele: o meu contrário, o meu melhor. Mesmo torcendo pelos outros.


Ilustração

27 novembro 2013

Equilíbrio

Por um lado, 
num puro ato do acaso ou do azar, deixei cair o telemóvel na casa-de-banho, onde numa pirueta acrobática mergulhou num resto de água que descia do bidé para o cano do esgoto. Sim. Morreu. E era o objetozinho-dos-meus-olhos-e-do-meu coração!

Por outro lado, 
hoje tive – até ao momento – 852 visitas a estes refúgios, onde a felicidade está, fica, se guarda e se renova, onde cada um a vê.

25 novembro 2013

20 coisas que eu quero que o meu filho
saiba até ao Natal até ao final do ano sempre

#18

Nunca fui aluna de 5's nem de 100%. Era aluna dos 4, um ou outro 3 e um ou outro 5. Sempre estudei, fiz os trabalhos de casa, tinha os cadernos impecáveis, com sublinhados a várias cores e a letra muito redondinha. Nunca os meus pais foram chamados ao colégio porque me portei mal ou não cumpri as regras. Nunca nenhum professor me pôs de castigo ou escreveu recado para casa. Na comparação direta com a mana, cinco anos mais velha, ela era a rebelde que tirava 5 com facilidade, eu era a certinha que estudava e, por isso, tinha boas notas.
No 9º ano saí do colégio para a escola secundária, onde vivi três dos melhores anos da minha vida. Nunca irei esquecer a turma, os professores, as histórias dos intervalos, a adolescência ao rubro e uma escola grande de mais para uma menina do colégio, que acabou por crescer ali e fazer-se igual aos demais. Estão condensadas naqueles três anos algumas das aprendizagens mais fortes que tenho, das que ficam para sempre, das que ainda fazem rir e chorar quando se lembram. Estão guardadas, naquele lugar, algumas das amizades fundamentais para me fazer hoje como sou, mesmo que muitas delas se tenham diluído com as coisas da vida.

Apesar da idade, da mudança para uma escola onde quase tudo era permitido, mantive-me sempre a tentar o melhor, que por ser o melhor de mim podia não ser o melhor de todos.

Porque esta coisa de ser o melhor é uma das inquietudes presentes lá por casa, num tempo em que o Tiago no 3º ano tem testes durante duas semanas, com listas infindáveis de matéria para estudar e onde o ranking das notas é assunto falado, discutido, pisado e repisado pelos pais no recreio ou no lado de fora do portão, e pelos filhos na sala de aula, à mesa do refeitório ou no carro de volta a casa.

Ontem, enquanto jogava o Fifa14 na PSP, o Tiago disse: “Mãe, tenho medo dos testes”.
Respondi-lhe que, com certeza, nenhum teste lhe ia morder, mas guardei o assunto comigo, visto à luz da minha história, quando era eu que tinha 8 anos, andava no 3º ano e tinha teste na manhã seguinte.
O descomprometimento total face a tamanho desafio está marcado na minha história, enquanto na história do Tiago estão tabelas gigantes de determinantes para memorizar e ainda saber, afinal, se são determinantes artigo, possessivos ou demonstrativos.

Num mundo em que todos querem ser os melhores, o Tiago sente-se frustrado por ter “muito bom” e não ter “excelente” e chegou a chorar, há poucas semanas, por “só” ter tido 96% a Língua Portuguesa.

Num mundo em que todos vemos coartados os sonhos que guardamos anos a fio, o Tiago ouve falar dos números do desemprego no telejornal e diz-me que “quando chegar à minha altura eu acho que também não vou ter emprego...”.

Num mundo em que tudo é apressado, roubado, esticado, condensado, a competição começa com as notas dos testes aos 8 anos e termina onde? E termina como?

Hoje, para o meu filho, tenho mais perguntas que respostas, tenho mais temores das minhas próprias frustrações do que certezas, mas tenho uma ideia clara do que quero que ele saiba e como quero que ele veja uma nota, um teste, um futuro, uma vida:



* Faz o melhor que podes até saberes melhor. Depois, quando souberes melhor, faz melhor.

14 novembro 2013

Conversas com ele


I
- Ah! Mãe! Já demos o sistema reprodutor.
- Ai sim? Então e o que explicou a professora?
- Disse que as meninas têm faringe...


II
- Mãe, tenho dificuldade nas palavras da família em inglês.
- Ah! Então?! É fácil! “Aunt” é tia, “uncle” é tio, “cousin” é primo...
- Oh! Já sei. Vou escrever na mão.
- Ó Tiago. Não podes fazer isso. A professora vê e anula-te o teste.
- Achas?! Copio, depois peço para ir à casa-de-banho e lavo...


III
- Mãe, dás-me 2 euros para comprar um porta-chaves lá na escola?
- Na escola? Mas estão a vender lá coisas?
- Sim, estão lá umas barraquinhas. Hoje até comprei uma bandoleta para a Mariana. Custou 1 euro.
- 1 euro? Mas como é que arranjaste o dinheiro?
- Olha vendi cromos do futebol repetidos a 15 cêntimos...

13 novembro 2013

Olha

Quando me perguntares
“O que queres que te dê pelo Natal?”
não acredites no “não sei...”
e, muito menos, no “nada”.
Não ouças sequer aquilo que disser e repetir,
deixando a frase vaga,
imaginando-a pendurada em montras de lojas, estantes, caixas, sacos de papel ou outras embalagens brilhantes, de tamanhos diversos.
Faz a pergunta outra vez. Não perguntes o que quero ter.
Tenho tudo.
Quero só ser sempre mais. Mais feliz.

07 novembro 2013

De mim comigo

Os anos passam. Da adolescência para os 20, dos 20 para os 30. De miúda a mãe, de estudante a empregada por conta de outrem, dos diários aos blogues, de Aveiro para Lisboa, de uma vida para outra melhor. Muda-se. Mudam-nos. Mas, sempre que isto acontece, o meu dia deixa de ser dia e é coisa estranha, intensa, antiga, que dá cabo de mim. A cidade fora do lugar. A estação do ano no mês errado. O mundo em contramão.

05 novembro 2013

20 coisas que eu quero que o meu filho
saiba até ao Natal até ao final do ano sempre

#17


O meu avô Júlio fez 90 anos. É o único avô que tenho, apesar de às vezes me parecer que ainda ontem tinha os 4. Tenho um pensamento muito presente, muito recente, de conversar na escola com as amigas e dizer, orgulhosamente, que tinha os 4 avós comigo. Devia ter perto de 10 anos, porque foi nessa idade que perdi o meu avô Manuel, pai da minha mãe, de quem guardo memórias muito intensas mas tão triviais.
O meu avô Manuel era pescador e caçador, um homem alto e rigoroso, que não admitia conversas durante a hora do telejornal, que era sagrada. Uma vez o meu avô preparava as canas, linhas e anzóis para mais uma manhã de pesca e não sei como – a minha memória não chega a esse detalhe – um anzol prendeu-se no meu dedo. Às vezes olho para o meu indicador direito e quase juro que vejo lá uma pintinha, a marca desse momento, apesar de já nem saber, na verdade, qual foi o dedo acidentado.
O meu avô tinha muitos cães de caça que soltava ao domingo, já de espingarda no ombro. Os cães do meu avô tinham nomes que eram números, mais precisamente do dia em que tinham nascido ou chegado lá a casa. Havia o 31, o 13... O meu avô morreu muito novo, numa doença tão rápida, que entre aparecer e desaparecer, pareceu um instante, como se ninguém tivesse tido tempo sequer de reagir.

Lembro muito bem da última vez que o vi, no hospital, extremamente magro e debilitado. Lembro de não querer ver, como se soubesse, nos meus 10 anos, que aqueles minutos me iriam marcar para sempre. Como se pedisse à minha memória para não guardar aquela imagem, como se fosse possível substituí-la por outra imagem qualquer, por aquela do anzol preso no meu dedo, por exemplo. Ou pelos passeios de domingo à tarde: os quatro netos no carro do avô e o avô a acelerar nas lombas para dar aquela impressão esquisita no estômago que todos adorávamos. Ou quando o avô dizia que o piquenique para o passeio ia dentro do bolso. Ou quando fomos almoçar fora e todos recebemos os pratos pedidos e a comida do avô nunca chegou a aparecer. Ou quando era inverno e, na hora de deitar, o avô dobrava três ou quatro cobertores muito grossos e nos tapava com eles, quase nos sufocando de tanto peso e tanto calor. Ou mesmo quando o avô ralhava connosco e mostrava o cinto das calças numa tentativa frustrada de ser ameaçador.
Ou, então, substituir aquela imagem pela do baloiço que o avô uma vez fez no pátio, com uma tábua de madeira e duas cordas. Ou pelo cheiro das sopas de leite com pão que o avô jantava muitas vezes. Ou pelos passeios de cicloturismo lá da terra em que o avô ia sempre na sua bicicleta de corrida. Ou pelo som da sua voz que ainda reconheço. Ou, até, pelo carro de capota de plástico que o avô comprou para passear com os netos e fez com ele tão poucos quilómetros... Ou, ainda melhor, pelas notas de 100 escudos azuis com o Bocage a que eu chamava “o homem do telefone” por me parecer que a sua mão, a segurar a cabeça, era de quem falava ao telefone. Notas que não trocava por nenhuma outra que o avô me oferecesse, com o dobro ou o triplo do valor.
Ou trocar aquela imagem por uma outra qualquer, de um qualquer dia, tempo, momento, verdadeiro ou deturpado pela memória, toda e qualquer coisa, menos aquela, do avô no hospital, tão magro, tão fraco, tão pouco o meu avô. Todas as memórias em vez daquela do avô a morrer.

Ontem telefonei ao meu avô Júlio, a dar os parabéns pelos seus 90 anos. Quando desliguei o telemóvel, depois da breve conversa com ele, o Tiago perguntou “O Avô Júlio tem facebook?”. Eu soltei, de imediato, uma gargalhada e o meu filho explicou: “Era para eu lhe dar os parabéns...”.

O meu Avô Júlio, com os seus 90 anos, tem telemóvel, sport tv, ainda conduz de quando em vez, vive sozinho, lê o jornal de notícias todos os dias, tem a caligrafia mais bonita que alguma vez vi e nunca se esquece de dar os parabéns à família, mesmo que este ano até me tenha telefonado um dia antes do meu aniversário. O meu avô tem 90 anos e uma vida cheia de trabalho, mas também de viagens, de vitórias do seu/nosso clube do coração, de histórias e de amigos. E não, não tem facebook. Talvez para o ano o Tiago já lhe escreva os Parabéns no mural, entretanto o que eu quero que o Tiago saiba é que:




* Os netos são a ligação dos avós com o futuro. Os avós são a ligação dos netos com o passado.

04 novembro 2013

Se eu fosse

um Comunicado à Imprensa

Os “Refúgios de Felicidade” comemoraram há 3 meses 8 anos de existência. Ao longo deste tempo houve alturas de grande produtividade e de algumas paragens. Passaram-se por épocas tranquilas e por períodos bem negros. Dicotomias e diversidades que sempre pautaram a minha escrita e os meus textos, por aqui.

Este blogue é feito mais da minha imaginação do que da minha vida, confundindo-se uma com a outra e vice-versa. Apesar disso, aqui nunca faltou verdade e mesmo dentro das metáfora existe sempre um pedaço do que sou ou do que mostro ou do que quero ser ou do que tento diariamente. Nunca, em tempo algum, usei este endereço para outro fim que não a escrita simples e despreocupada, numa espécie de compromisso comigo de não deixar de mexer nas palavras e nas ideias. Nunca em tempo algum me escondi, usei máscaras ou disfarces. Arrisco que muito mais de metade dos que me leiam sabem quem sou, mesmo nos tempos em que assinava como Beguinha em vez de AR, iniciais do meu verdadeiro nome. Nunca foi, nem nunca será, minha preocupação esconder a minha identidade ou abafá-la, porque nunca este sítio serviu para ofender alguém, atacar alguém, levantar suspeições sobre alguém. Aqui sempre se falou de tudo encabeçado pelo “eu”, num assumir franco das minhas fragilidades e dos refúgios mais simples da minha felicidade.

Para estes Refúgios tenho sempre muitas ideias, muita vontade e pouca concentração. O tempo a mais ou os dias a menos dispersam-me...
Na história do blogue junta-se a história de vida do meu filho, aos olhos do que sou e do que me tornei. Este espaço será sempre dele e para ele, um diário de bordo, um esconderijo de memórias. Por isso é que continua. Sempre a merecer mais, melhor. Sempre a perguntar quando volto, quando despejo da pasta de rascunhos tantos textos, à primeira vez, impublicáveis. Sem promessas, quase sem regras, sem datas nem horários, sem prazos nem contagens...
Continuamos a cruzar-nos aqui.

06 agosto 2013

Coisas das saudades



As saudades cheiram a espuma do banho. Têm a cor da tua pele, da marca dos calções da praia a meio da coxa. Sabem a bolachas com pepitas de chocolate espalhadas no sofá, entre as almofadas da sala, nas juntas dos mosaicos do chão.

As minhas saudades são feitas de abraços, de beijos lambuzados pelas tuas bochechas e pelas tuas mãos - pequeninas, redondas, morenas. As saudades cantarolam comigo os genéricos dos programas que vês no teu canal da tv.
Fazem-me rir com algumas frases disparatadas. Apertam o peito numa falta sem fim. Lembram momentos maus, de confitos e ralhetes, de birras e choros.

As saudades tornam-me refém dos castigos, das palavras erradas nos momentos incertos. As saudades chegam e minam tudo ao redor. Pesam no silêncio. Nos ombros ou no colo. Falam baixinho junto ao ouvido. Fazem cócegas no pescoço. Ficam.

As saudades de hoje querem-te bem. A aproveitar os dias como se fossem únicos. A viajar comigo mesmo longe, deste lado do mar.
As saudades amanhã serão piores. Falarão mais alto, soprando-me nos cabelos e abrindo-me os olhos à força.

Não há nada pior do que temer as saudades. Não as deixar chegar... não as dizer.
Depois, quando voares, quando voltares, as saudades serão lembrança e as saudades serão vontade... de as matar.


Ilustração

29 julho 2013

O meu filho em 8 pontos
a escassas semanas de ter 8 anos



1. Ao final da tarde, entre a escola e casa, digo-lhe no carro: “Tive saudades tuas durante o dia” e ele diz: “Eu não. Ainda esta manhã te vi!”

2. É doente pelo Benfica. Sabe nomes completos, peso e altura de jogadores da 3ª divisão distrital. Insiste que o golo do Moutinho estava fora de jogo e, com a mania que é o Gabriel Alves da era moderna, diz enquanto joga psp: “Grande auto-golo!”

3. Pergunta-me muitas vezes porque é que de vez em quando tem a pilinha mole e outras vezes... nem por isso.

4. Acha que a Clara de Sousa, no Jornal da Noite, é que determina o tempo que vai estar no dia seguinte, quando “coloca” no mapa sol, chuva, nuvens, etc.

5. Descobriu o youtube e ouve charadas ao governo e canções com piadas futebolísticas, para além de Tony Carreira, José Cid e Tonicha.

6. Dorme rodeado de uns 8 ou 9 bonecos, colocados em redor do corpo e da cabeça, preocupando-se se estão tapados e confortáveis.

7. É mais conhecido no bairro onde vivemos do que o Padre, falando com toda a gente como se fossem velhos amigos.

8. É cada dia mais crescido, mais bonito, mais divertido, mais inesperado e mais meu.



Ilustração

21 junho 2013

Conversas com ele

Tiago joga à bola na sala enquanto faz o relato de cada jogada em altos berros:

- Goooooooooooooolllllllloooooooooooooo do Beeeeeeennnficaaaaaaaaaaaaa!
- Tiago, por favor fala mais baixo. Estou a ficar com dores de cabeça.
- Ah, pois. Se fosse do Porto já não te importavas.

02 maio 2013

Conversas com ele

I
- Sabes Mãe, já não namoro com a Mariana. Acabei tudo. 
- Ai sim?! Então mas como é que lhe disseste?
- Oh! Como não tinha coragem, pedi ao António.
- A sério? Mas devias falar com ela... explicar-lhe. Porque é que já não queres namorar com ela?
- Porque já não gosto dela. Agora quero é ser um homem solteiro e ter tempo para os amigos.

II
- Então, Tiago, agora que já não tens namorada, todos os teus amigos também estão solteiros?
- Não, o António namora com a Mafalda.
- E o Pedro?
- Ah o Pedro não namora com ninguém. Nós achamos que ele é perfeito para a Lara, mas eles têm muitas divergências...

III
- Hoje ao almoço na escola vomitei a alface.
- Então porquê?
- Oh! Estava cheia de marmelada.
- Marmelada?! Acho isso muito estranho... era de que cor?
- Era assim aquele molho branco ou amarelo. Sabes?
- Tiago, não seria maionese?

IV
Na auto-estrada a caminho da casa dos avós:
- Mãe, ainda falta muito?
- Um bocadinho.
- Mãe, ainda falta muito? São quantos quilómetros?
- Ó Tiago falta o que faltar... sei lá... não sou eu que faço as estradas.
- Olha mas devias, que isso de fazer livros não dá dinheiro nenhum.

V
- Mãe, há um menino lá na escola muito estranho...
- Estranho como?
- Bateu na cabeça da Leonor e empurrou a Constança.
- Mas é da tua turma?
- Não, é muito mais velho.
- E porque é que ele fez isso?
- Porque não gosta de ouvir a palavra “chiu”.
- Hã?! Não gosta que o mandem calar?
- Oh sabes o que é?! A professora já nos explicou. Não podemos ligar, porque ele está a passar por uma fase complicada, que é a adolescência.

VI
- Mãe, vamos jogar à verdade ou “concuência”?
- Verdade ou consequência, sim. Onde é que aprendeste isso?
- Vi na televisão. Vá, eu começo. Queres verdade ou “concuência?”
- Verdade.
- Se não namorasses com este barbudo, quem é que escolhias?

09 abril 2013

Conversas com ele

Sei que o meu filho é mesmo melhor a matemática do que a língua portuguesa quando, por exemplo, temos conversas como esta:

- Mãe, fizemos duas fichas de matemática. Em 18 contas adivinha quantas errei?

- 18?! - digo eu a provocá-lo.

- Oh! Achas? Só errei uma.

- Boa! E eram contas de quê?

- Umas eram para subtrair e outras para "aditir".

07 abril 2013

Há 3 coisas que...

detesto no regresso ao trabalho:

1. deitar cedo
2. acordar (muito) cedo
3. ter sono o dia todo

23 março 2013

Fichas de leitura

Atualizações pendentes mas sempre pertinentes. Esquecidas ou negligenciadas durante os meses que passaram, mas publicadas agora para memória futura.











Autor – Haruki Murakami 
Ano de edição - 2012 
Leitura em – Março/Abril 2012 







O Livro 1 revelou-me a existência do mundo de 1Q84, um mundo alternativo com duas luas e onde tantas respostas permanecem abertas. Murakami descreve sempre um universo singular, a par da realidade, imitando-a. E é, cada vez mais, um autor dos meus.

"Quando se forma um vazio, algo tem de o preencher. É o que fazemos todos."

"As pessoas precisam de coisas assim para continuar a viver: paisagens mentais com um significado, mesmo que impossível de explicar por palavras. Em parte, a razão por que vivemos prende-se com o termos de arranjar explicações para estas coisas."










Autor – Alice Vieira 
Ano de edição - 2011 
Leitura em - Maio 2012 







Ler Alice Vieira é, para mim, tão natural como a própria leitura. Cresci e tornei-me leitora com os seus livros. Neste seu primeiro romance para “adultos”, seja lá isso o que for, está a sua escrita, singular, mas está também uma história dentro da nossa própria História. Factos recriados ou revividos pela autora de uma forma tão própria, como só dela.

"E pessoas sem medo são difíceis de escravizar."

"Olhei-o bem de frente:
- Fernão Nunes só quer espalhar a verdade.
- A verdade não está ao alcance de todos.
- A verdade não tem dono.
- Aí é que te enganas!
- A verdade está no conhecimento.
- O conhecimento é um perigo.
- Perigo é olharmos para o chão em vez de olharmos para o céu.
- Pelo contrário: só olhando para o chão é que podes evitar os precipícios.
- Só olhando para o céu é que descobres a estrela que nos guia os passos."











Autor – José Riço Direitinho 
Ano de edição - 1994 
Leitura em – Junho 2012 







O autor vem lá de trás, de um tempo adolescente com a tendência para ler livros fora da idade, segundo trâmites que desconheço quem inventou. Daí para aqui, sigo o que escreve, enquanto crítico, mas especialmente o (pouco) que publica. Li, agora, este “Breviário das Más Inclinações” reeditado em 2011 – com uma capa fabulosa – e consigo regressar sempre aquilo que a escrito de Riço Direitinho me dá e me prende: a força do fantástico que está na história do povo, a força da magia, das crenças, das rezas, dos amores infelizes e dos maus-olhados. A história de José de Risso que nasceu com uma folha de carvalho tatuada nas costas e que morre aos 33, lida quase a festejar essa mesma idade, esta mesma idade.

 "Fosse como fosse, há naturezas que são de muita coragem!"









Autor – Mons Kallentoft
Ano de edição - 2012 
Leitura em – Julho/Agosto 2012  







Um livro da Primavera lido no meu Verão. A cheirar a sangue, a intriga, a explosão, a dúvida, a curiosidade. Como os outros 3 de Kallentoft, tetralogia supostamente fechada com este livro, mas que espero repetida em novos livros a abri no futuro. Deixam saudades: as personagens, a intriga nórdica, o completo desenrolar de uma fita embrulhada que queremos ajudar a arrumar.

"Ninguém escapa ao seu destino."











Autor – Katherine Pancol
Ano de edição - 2010 
Leitura em – Setembro/Novembro 2012 






Duas irmãs diferentes, que se usam, que se entendem e desentendem, que se aproximam e afastam. Uma história de realidades de todo o lado, feita de amizade e de mentiras, de gente que é o que não é, de coisas que parecem mas não são. Meses a mais a ler um livro que há muito me chamava mas que custou a entrar e a ficar.

“Joséphine, o que fazem as pessoas de sucesso? Será que são simplesmente bafejadas pela sorte ou têm uma receita?"










Autor – Haruki Murakami
Ano de edição - 2012 
Leitura em – Dezembro 2012/Janeiro 2013 







O terceiro livro de 1Q84 chega com uma personagem nova, a elevar a intriga mas também a desenvencilhar algumas histórias. Fecha, aqui, uma história de um mundo paralelo, onde há mentiras e segredos, mas onde duas pessoas caminham ao encontro, uma da outra, sem o saberem. Apenas sentindo-o. Como dizem as críticas: uma verdade história de amor dos tempos modernos. Inesquecível... porque no meu céu nunca mais deixarão de existir duas luas.

"Precisámos de todo este tempo para compreendermos como nos sentíamos sós."









Autor – Dulce Maria Cardoso
Ano de edição - 2011 
Leitura em – Fevereiro 2012






Ler sobre uma história que ouço em casa, que sei fazer parte da minha família e das minhas pessoas, mas que até nem parece ser minha. A escrita de Dulce Maria Cardoso há muito que me conquistara, noutros livros, noutros cenários, mas este "O Retorno" é perfeito de mais para se ler sem saborear, é vivido de mais para se ler sem nos vermos lá, numa Angola que não conheço mas que ouço descrever, e especialmente num Portugal feito metrópole que ora não parece este, ora está tal e qual como o vejo hoje.
Há muito tempo que um livro não me fazia chorar.

"Um quarto pode ser uma casa e este quarto e esta varanda de onde se vê o mar é a nossa casa."




07 março 2013

Eu hoje respondo assim

Questionário que anda à solta na blogosfera e que eu agarrei assim:

EU... hoje 

Prato favorito: 
Hoje comia bacalhau à brás.

Peça de roupa e acessório:
Vestidos e o meu Watx.

Música favorita: 

Hoje lembrei-me desta


“Dançar na chuva quando a chuva vem...”

Flor:
Tulipas. Quase sempre.

Cor: 
Cinzento. Entre o sim e o não.

Cheiro favorito: 
Um bolo no forno.

Livro favorito:
Hoje digo este, ainda fresco na memória. Cada vez mais rendida à genialidade de Murakami.



Local:
Em casa.

Brincadeira favorita: 
Jogos de memória com o Tiago para adormecer, com regras que inventamos a dois feitas de muitas exceções.

“Quotes” mais importantes para a vida: 
Sigo esta



Bolo favorito:
Bolo brigadeiro!

Maior mentira: 
“Não importa...”
(importa sempre)

Maior traquinice:
Não as ter feito?!

Gelado favorito:
Sundae de chocolate com kit kat.

Profissão que queria ser:
Bem pequena, professora como a mãe.

Defeito de Mãe:
Permissiva... permissiva... permissiva...

Qualidade de Mãe: 
Permissiva, claro.


O meu filho... sempre

Fecho os olhos e a primeira imagem que tenho de ti é...
Pequenino com um barrete azul e rosa, encostado à minha cara. 

Coisas que lhe quero ensinar:
A defender-se dos outros que contaminam a alegria que os dias (ainda) podem ter.

O que guardarias na caixa de recordações do teu filho:
Os meus diários.

Locais onde querias levar o teu filho:
À lua...se ele quisesse.

Coisas que gostas que ele te diga:
Que teve saudades minhas durante o dia de escola.

Coisas que não ias gostar que ele fizesse:
Faz muitas... coisas de 7 anos. Que não faça as mesmas aos 17 ou 27.

O que não gostas de fazer ao teu filho:
Acordá-lo de “madrugada” quando dorme tão profundamente e chove na rua.

Queres muito que o teu filho:
Seja exatamente igual a si próprio, faça sempre aquilo que é melhor para ele, em cada momento, que tenha orgulho em tudo o que conseguir e que todos os dias se lembre de mim.


01 março 2013

Foi então

que as temperaturas desceram e que, à nossa volta, começaram a chegar arrepios. Arrepios de medo, de dúvida, de coisas complicadas que nos atam as mãos e os pés, enleados em problemas de leis ou burocracias que nem entendemos. Arrepios de injustiça ou de indecisão, de desconhecimento ou de cansaço. Arrepios de tudo e ainda de frio. Mas no fim, que até pode ser o fim do dia, o calor dos abraços e das conversas, da companhia e do silêncio, do sossego e da ternura, trazendo arrepios de paz. Arrepios de pele, de borboletas no estômago, de infinito. Arrepios de tudo e ainda arrepios de amor. E as temperaturas sobem e o frio é lá fora, e o frio nem importa e o frio nem se sente...

21 fevereiro 2013

Coisas da gripe




Quando era criança e ficava doente era uma semana inteira no quarto, com cheiro a pijama, a cobertores, a xarope e a calor de cama sem ser feita nem refeita.
A minha Mãe fazia-me engolir os comprimidos esmigalhados em leite bem quente, adoçado com mel, e tirava-me a febre antes de sair para ir dar aulas.
Naquelas semanas eu ficava sozinha, fechada no quarto, embrulhada na cama, com a televisão e um ou outro livro. A mercearia dos meus avós ficava por baixo da casa onde vivíamos e, perto da hora de almoço, subiam a escada com o tabuleiro com um prato cheio para eu recusar.

Se há coisa que nunca esquecerei desse tempo era dos programas de culinária e foi nesses períodos que apanhei uma embirração especial à Filipa Vacondeus que, todos os dias, tinha restos de arroz, restos de carne ou restos de peixe, para fazer uma qualquer receita.

Aquelas semanas de gripe eram uma pausa do mundo.
Longe da escola, das colegas, ouvindo o barulho dos camiões na estrada mesmo do outro lado da janela, sem os ver. Cada dia que passava o corpo se tornava mais pesado, mais disforme e o cheiro do estar doente empestava o quarto inteiro.
Imaginava muitas vezes o mundo a mover-se, lá fora: a professora a escrever no quadro sem eu estar, as colegas de dedo no ar sem eu estar, os trabalhos de casa marcados sem eu os fazer, o recreio, barulhento e repleto, mesmo sem mim. Imaginava os almoços no refeitório e a mesa onde me costumava sentar e imaginava o trajeto de volta a casa, os carros para um lado e para o outro, e eu sentada no banco de trás.

Eu sabia que lá fora estava tudo exatamente igual sem mim: as pessoas a viverem as suas vidas, a minha Mãe a dar aulas, o meu Pai a dar aulas, a minha irmã a ter aulas, a mercearia dos meus avós cheia de gente, as colegas ora na sala ora no recreio, ora a chegarem à escola ora a irem para casa, e eu deitada na cama, a ver a Filipa Vacondeus cozinhar só com restos.

Passada a gripe, despido o pijama e tomado o primeiro banho, voltar à escola era encontrar tudo nos seus lugares. O mundo inteiro a andar para a frente. As pessoas nas suas próprias vidas. E eu apressava-me a acompanhar-lhes os passos, como se nem tivesse estado ausente, a fazer os trabalhos em atraso, a saber quantas páginas dos livros avançaram e a mudar de mesa no refeitório caso o meu lugar tivesse sido ocupado. Nada tinha deixado de acontecer por eu não estar. E tudo o que eu não tivesse visto, ouvido ou aprendido, não era comigo.

Esta semana o Tiago adoeceu.
Uma gripe.
Nestes dias em casa, os dois com cheiro a pijama, a cobertores, a xarope e a sofá sem ser feito nem refeito, respondi-lhe muitas vezes a perguntas do género: "Mãe se eu estivesse agora na escola o que é que eu estava a fazer?".
Não posso deixar de imaginar que ele, entre o Disney Channel e o Canal Panda, entre a PSP e uma sesta, entre uma bolacha e uma ida à casa de banho, sabe que lá fora está tudo exatamente igual sem ele: o mundo inteiro a andar para a frente, as pessoas a viverem as suas vidas, os amigos ora na sala, ora no recreio, os carros de um lado para o outro, o Pai a trabalhar, a chuva a molhar a estrada.

Mas também não posso deixar de lembrar que, tal qual como quando era eu a criança e ficava doente, nada deixa de acontecer por eu não estar, por eu estar aqui... doente com ele, doente por ele, enquanto o mundo lá fora anda para a frente, enquanto as pessoas lá fora vivem as suas próprias vidas.



Ilustração

08 fevereiro 2013

Se eu fosse...

uma declaração de amor

Coisa dos livros, da televisão, do cinema ou das novelas, sempre acreditei em amores para sempre, em histórias completamente avassaladoras, qual seta certeira de um cupido aprumado. Talvez nunca tenha acreditado é que eu, nesta ou noutra vida, tivesse direito a viver uma história assim. Porque amores desses começam em sofrimento para acabarem felizes para sempre. Porque amores assim têm a parte da bruxa com a maçã envenenada ou, então, ao melhor estilo da imaginação da Globo, têm o mundo inteiro, de acasos e consequências, contra o desfecho feliz. E eu nunca me achei assim tão importante, assim tão especial!

Imaginar o futuro, quando pequenos, sonhadores e tão ingénuos, faz-se numa linha reta, perfeitamente definida, sem caminhos alternativos ou entroncamentos sem semáforos. Não há pausas para medos, desvios para dúvidas, marchas-atrás para melhorar o percurso. Não. Há, apenas e simplesmente, uma reta a seguir, a cumprir, e um destino à chegada que isso sim não pensamos qual.

Só que quando começamos a caminhar encontramos estradas que não vimos no mapa, curvas mais apertadas do que esperávamos e encontramos outros que caminham connosco. Então, aprendemos que andar em frente é muitas vezes dar um ou dois passos para o lado e que chegar ao final do percurso não é, simplesmente, seguir a linha reta mas sim percorrer várias estradas, ultrapassar vários obstáculos, perdermo-nos e reencontrarmo-nos, pedirmos ajuda e salvarmo-nos sozinhos, voltar atrás e começar tudo de novo. Até no amor.

Para além das metáforas:
Eu continuo a acreditar em amores para sempre e continuo a achar um desperdício os pobres casais apaixonados que passam 200 e tal episódios de uma novela a sofrerem separados, para depois serem felizes juntos nos escassos 5 minutos da cena final.

Eu continuo a ver que para a ficção, sofrer é condição indispensável para os grandes amores e para as melhores histórias. Mas agora entendo que o que vem facilmente não dura, enquanto o que demora a chegar fica para sempre.

Eu continuo a imaginar percursos para os meus dias, mas agora desenho-lhes lombas e atalhos, desvios e uma ou outra rotunda.

Eu continuo a saber que não sou assim tão importante, que não sou assim tão especial, mas o amor que tenho faz-me ser isso tudo, enquanto me deixa simplesmente ser como sou.


Hoje, 
porque é hoje, amo-te mais do que qualquer outro momento.
Hoje, como em todos os nossos dias,
agradeço-te por me iluminares o olhar
e me fazeres importante e especial,
como sonhei ser, para alguém, desde pequena, desde sempre.
Hoje, porque é mesmo hoje,
declaro-te o quanto és importante e especial, para mim,
o quanto me fazes feliz e completa, segura e mimada, menina e mulher,
o melhor de mim, como nunca, como sempre.




04 fevereiro 2013

Uma escolha e uma história #7


Um programa de tv

Há um par de anos eu era seguidora fiel, dedicada e vidrada na série Anatomia de Grey e a Izzie Stevens (representada pela atriz Katherina Heighel) era, durante o tempo em que a personagem existiu, a minha preferida.
Essa, como tantas outras coisas, não se explicam, achava eu que aquela era a personagem que mais me dava ou mais de mim tirava.

Lembro perfeitamente da primeira vez que vi a "Anatomia de Grey". Apanhei por acaso na televisão num domingo à tarde e era mesmo o primeiro de todos os episódios. A partir daí adotei aquele hospital e aquelas personagens como uma parte da minha rotina e confundi trechos daquelas vidas misturados em episódios da minha. Guardo, religiosamente, os dvd's com as temporadas que vi e sei citar partes e contar a trama, descrevendo os personagens como se tudo tivesse acontecido aqui e no dia de ontem.

Agora, ao escrever estas palavras, cresce em mim uma vontade avassaladora de recuperar o tempo perdido e ver as dezenas de episódios das últimas temporadas que perdi. Voltando a sentir-me de bata branca e estetoscópio ao pescoço salvando vidas alheias no último segundo.

Só que apesar de ter deixado a série, só que apesar da “Izzie” já nem entrar nela e surgir agora em filmes de qualidade duvidosa que dão em canais generalistas ao domingo à tarde, há um episódio que nunca mais me largará ou que eu nunca mais largarei. Melhor: um pequeno momento de um singelo episódio entre mais de 200 que a série neste momento tem.
Lá pela temporada 3, Izzie perde o seu namorado (paciente que se torna namorado sem nunca saírem do hospital), numa morte trágica que qualquer seguidor da série conhece. Para lidar com o luto – ou para não lidar com o luto – Izzie começa a fazer muffins, tabuleiros e tabuleiros de muffins, dezenas de muffins, centenas de muffins. Muffins que enchem a cozinha, a sala, a casa toda, o hospital, o bar ao lado, que enchem os cenários, os ecrãs e os personagens … de muffins.

Nesse tempo, eu também precisava de lidar com as coisas – eu também precisava de não lidar com as coisas. Então, comecei a fazer bolos. Bolos de chocolate, de laranja, de cenoura. Bolos de fim de semana. Bolos-de-não-lidar-com-as-coisas. Bolos para dispersar o tempo: Procurar a receita. Juntar os ingredientes. Agir. Mexer com a colher de pau. Envolver. Gastar energia. Preparar a forma. Ligar o forno. Lavar a louça. Vigiar a cozedura. Desenformar. Provar.

Os meus bolos encheram tardes de fins de semana, encheram tempo dentro de vazios, encheram amarguras em fatias.

Eu e a Izzie também tivemos o momento em que saímos da cozinha. Desligámos o forno. Parámos de encher os outros com as nossas falhas em fatias ou em pequenos muffins.
Eu e a Izzie soubemos que há um momento para lidar mesmo, definitivamente, francamente, com as coisas. Ela voltou ao hospital, retomou o seu trajeto conforme o guião. Eu aprendi que viver é tomar decisões e que ser feliz é uma escolha só nossa. Eu aprendi a lidar com as coisas sempre, sejam elas quais forem, sem lumes brandos ou falsas esperanças em entidades do acaso. Eu fiquei a saber que isto dos dias é dar e agarrar, é encontrar e recuperar, é esperar sempre o melhor dentro do pior. Então, não há fim de semana em que não faça um bolo.


03 fevereiro 2013

Conversas com ele

I

- Mãe, sabes que há animais que sabem que vão ser mortos?
- Hã?! Sabem?
- Sim, então, por exemplo, os patos, para fazer arroz de pato... e as galinhas também para fazer comida.
- Hummm.
- Só as vacas é que não.
- Não sabem?!
- Não. Não são mortas. Senão não davam leite.

II

A ver uns desenhos animados:
- Mãe, eles falam na avó mas a cara da avó nunca aparece...
Eu olho para o ecrã e ele acrescenta:
- Ah! Já sei. Deve estar mal desenhada... então não mostram...

III

- Mãe, quando é tu fazes anos que eu já não me lembro?
- 1 de setembro.
- Ah! Então quer dizer: fazias anos e ias logo para a escola? Era essa a prenda que os teus pais te davam?!

04 janeiro 2013

20 coisas que eu quero que o meu filho
saiba até ao Natal até ao final do ano sempre

#15


Para o Tiago eu sou má porque não lhe dou pacotes inteiros de esparguete cru para ele comer antes do jantar. Sou má porque ganhei ao Uno em vez dele. Sou má porque mudei o canal de televisão após quase 4 horas seguidas de Disney. Sou má porque não lhe compro qualquer coisa que ele definitivamente não precisa. Sou má porque são horas de dormir e só li duas histórias em vez do livro inteiro.

Ontem, ao final da tarde, a história repetida e cansativa do “És má”, como resposta a todos os meus nãos e aos mais variados contratempos que lhe acontecem, esteja eu ou não envolvida, deu lugar a uma conversa séria entre nós dois, colados à lareira ainda a fazer as primeiras brasas.

Na sua maneira muito própria de dialogar, o Tiago manteve-se imperscrutável, fixado no ecrã da televisão, ouvindo-me como se eu não falasse, entendendo-me como se não me ouvisse. Expliquei-lhe, de diversas formas, que ele passar os dias a chamar-me má me deixava muito triste e que, ainda por cima, era muito injusto, porque o tratava bem e fazia tudo para ele estar bem disposto e ele, simplesmente, maltratava-me. Usei de palavras diferentes para dizer sempre o mesmo, exagerando em alguns termos e expressões, repetindo-me exaustivamente. Tudo no mesmo tom calmo e compassado, soletrando as palavras com cuidado para que se tornassem mais fortes, mais percetíveis.
Depois, mostrando no rosto como me sentia ferida e cansada, fui fazer o jantar e mantive-me calada na cozinha, a mexer o tacho do arroz.

Minutos depois o Tiago chamou-me e disse: “Mãe, desculpa. Desculpas?”, insistindo muitas vezes na pergunta, quase a choramingar, enquanto eu o enchia de beijinhos e dizia “Sim. Desculpo sim, claro!”.

O Tiago, no seu modo de ser arisco e inquieto, também para para pensar sobre as coisas que lhe dizem. Pode nem sempre cumprir, pode nem sempre admitir, mas o Tiago tem 7 anos e sabe pedir desculpa, sabe distinguir o que faz de bem e de mal, mesmo quando um lhe convém mais do que o outro. Eu lembro com ele como voltar atrás são passos em frente. Eu aprendo com ele como admitir não é ser vencido. Eu ensino-lhe a ele...


*




* Tem cuidado com as tuas palavras, uma vez ditas, elas apenas podem ser perdoadas, nunca esquecidas.

01 janeiro 2013

20 coisas que eu quero que o meu filho
saiba até ao Natal até ao final do ano sempre

#14


Se há coisa que mesmo aqueles que me conhecem pouco, ou mal, sabem sobre mim é que sou muito calma. A calma nem sempre é uma qualidade. Explodir e extravasar deve ser algo eficaz em certas situações da vida. Eu, para chegar a um limite, percorro muitos caminhos alternativos. Gasto nas tentativas diárias todas as possibilidades. Compreendo quase tudo. Tento, só mais uma vez. Calo-me. Deixo passar.
Tudo inebriada por essa calma, pela minha calma.

Uso-a até à última réstia nas teimosias do Tiago. Até parece que, de vez em quando, o ajudo a esticar a corda em vez de a cortar, de vez. O truque, antes da combustão, é não ouvir. É desviar. Mas por vezes é ceder. Só daquela vez. E de outra ainda. Fazendo de conta, para mim própria, que desconheço a importância do "não" ou a falta que ele lhe faz, para crescer.

Quando se vai a calma, se esgota a última réstia de um depósito extra, quando a corda rebenta e não há espaço para uma última cedência... eu grito. Os gritos doem-me na garganta e cansam-me no final de um dia. O Tiago definitivamente ouve-os. Nós dois, juntos, misturamos o regresso à minha calma com as desculpas dele e prometemos, um ao outro, com juras do coração, da próxima vez cumprirmos o pacto: eu não grito e ele não me faz gritar ou ele obedece e fim de história.

Contudo, nada está previamente escrito, ensaiado e perspetivado. Ser Mãe - como ser Filho - também se faz de tudo isso: de não ouvir e de falar mais alto, de não obedecer e de ser obrigado a tal.

Numa das muitas tentativas de contagiar o Tiago com a minha calma comprámos juntos o livro "Quando a Mãe grita...", uma história amorosa de um Pinguim que se parte em pedaços quando a Mãe grita com ele, fazendo com que ela vá pouco a pouco juntando-lhe as partes e reconstruindo-o.

Sinceramente, não sei quem se desfaz em pedaços mais pequenos quando eu grito: eu ou o Tiago. Mas sei que, quando acontece, corro a buscar o livro e leio-o. Na verdade, o que está acordado é ele fazer parte da leitura de antes de dormir num dia em que a nossa relação de Mãe e Filho não foi das mais bem sucedidas.

Então, o blogue "Mum's the boss" lançou um novo desafio para este janeiro: "Berra-me baixo", parte das suas ideias de parentalidade positiva que eu sigo, admiro e tento cumprir diariamente. O objetivo é esse mesmo: durante um mês treinar o auto-controlo, a voz e a firmeza.

A minha missão começa amanhã, com o regresso do Tiago e prestes a voltar a rotina do escola - trabalho - escola - casa. Um mês inteiro a berrar... baixinho, a apertar laços de uma relação sem ano, sem limites, sem barreiras.

Tiago: cumpre a tua parte.
Eu já estou dentro da minha.





À parte:
Feliz 2013 para todos os que me leem, os mesmos que me enviam mails e comentários por aí pedindo para escrever sempre, para escrever mais. Obrigada por terem ajudado a fazer de 2012 um dos anos mais bem sucedidos dos Refúgios de Felicidade.