30 maio 2010

Uma canção e uma história #5

Uma canção que me lembra alguém



Às vezes a voz volta. Como um sopro. Como um fantasma do passado. E justifica muita coisa: o que eu era e como me tornei, o que eu queria ser e o que a vida fez de mim. Tudo ganha, assim, sentido. Ou sentidos.
O mundo mostra-se um círculo fechado, perfeito, com causa-efeito, com acção-reacção, com meios que levam a fins. Então, quando a voz volta e eu a deixo entrar, quando o sopro sopra e eu o deixo soprar, quando o fantasma aparece e eu o deixo ficar, eu sou outra coisa diferente e a minha história do passado é a história da minha vida. Uma em que eu e ele até eramos mesmo iguais, em que estar comigo era estar com ele, em que escrever para ele era um encontro com o melhor de mim, em que o vivido era o imaginado, em que o imaginado era o sentido, em que o sentido era coisa disforme, irracional, perigosa.

Há uma história dentro desta música que me lembra mais de mim do que dele. Mais do que fui do que do que sou. Ainda mais do que queria ser do que no que me tornei.
Porque enquanto aquela era a minha história, aquela era a minha pessoa e aquele era o sentido da minha vida, o mundo mantinha-se redondo, realmente perfeito. E eu era feliz. Dentro de uma mentira feia.
Foi dentro desse tempo que fiz as maiores loucuras. Que me ultrapassei. Que dei mais de mim do que tudo o que tinha. Foi dentro desse tempo que descobri os piores caminhos a seguir para a felicidade. Foi dentro desse tempo que aprendi que momentos felizes não dão histórias felizes e que pessoas especiais não dão vidas especiais.

Quando a voz volta e traz o sopro e traz o fantasma e traz todas as histórias e traz aquela que eu fui enquanto me achava a miúda mais feliz do mundo eu consigo sentir, de novo, aquilo tudo, aquela força que eu tinha e perdi, aquela vontade que eu perseguia e esqueci, aquela certeza que eu sentia e que, num momento, acabou.

Deixo calar-se a voz, dissolver-se o sopro, desvanecer-se o fantasmo, apagarem-se as histórias e solto a pessoa. Mais eu do que ele. Mais nós diferentes do que qualquer coisa de iguais.

3 comentários:

Sombr|A|rredia disse...

passado

o que é o passado? Para mim é o presente lembrado

BlueAngel disse...

Eu não sei esta história está relacionada com uma que me contaste um dia. Eu sei que estou a adorar as descrições e as lembranças e as estórias que cada canção te traz. :-)

S. disse...

"Disseram amor
Sem se perceberem
(...)
Entre o céu e o nada
Foram morrendo aos poucos"

A voz há-de sempre voltar...