15 maio 2010

Dizer que não



Nunca foi coisa que eu soubesse fazer. Nem bem nem mal. Simplesmente nunca soube dizer que não.
Quando via tinha dito que sim ou nem tinha dito nada e, seguindo o princípio de que quem cala consente, o mal estava feito. Aprendi mais depressa a fugir às perguntas para fugir à resposta. À única possível. Ao inevitável não. Quando não sobravam talvez ou "fica para depois".

Senti sempre falta dessa capacidade, da linha ténue que divide uma recusa de uma ofensa. Entendi sempre que dizer que não era fazer mal, era ficar aquém, era afastar alguém, era perder algo ou algum momento. E tudo isso era irrecuperável, um único não conseguiria levar de mim para sempre um tempo inteiro de possibilidades.
Consegui, até, durante anos e anos culpar-me dos dois ou três nãos que disse na vida, colocar neles a causa e o fim de todas as desgraças.

O não indo de mim para qualquer lado era coisa terrível, era bala atirada que me matava por dentro. O não vindo dos outros para a minha vida era atitude sincera, era apenas a resposta acertada.

No último Natal a minha Mãe ofereceu cá para casa o livro "Um bom pai diz não". Ainda não o li. Está guardado na gaveta de baixo, lá no quarto, há vários meses. Não sei se é coisa que se aprenda, não sei se vou a tempo sequer, mas estou a pensar abrir o livro e perdoar-me. Por um não.



Ilustração - Bett

12 maio 2010

Foi então

que ele perguntou:

"Mãe, quando estás a dormir com que é que tu sonhas?"

E eu inventei uma história em que ele e eu dávamos um grande passeio de mãos dadas. Acrescentei que o dia estava ensolarado e brilhante e acabei dizendo que estavamos felizes e sorridentes.

A resposta a ele chegou-lhe. A pergunta anda comigo há meses.

09 maio 2010

A guardar

« - Há dez anos, parti um copo e, quando andava a limpar, enfiou-se-me um estilhaço no polegar. Não o consegui tirar e, por causa dos nervos dessa zona, o médico não lhe quis mexer. Ao longo dos anos, de vez em quando doía, mas nada de especial; e o coropo foi-se sempre protegendo daquele vidro. Formou camadas de pele à volta dele até ficar como uma ervilha. Finalmente, um dia, o corpo rejeitou-o. A ervilha veio à superfície e, com a ajuda de sulfato de magnésio, saltou do meu polegar.
- E é essa a sua explicação para o tipo de realidade que estávamos a falar?
- Os estilhaços de vidro podem entrar no espírito, também - disse, e só a ideia bastou para o deixar nauseado. - Algumas vezes são demasiado dolorosos para serem enfrentados. Empurramo-los para as profundezas da mente. Pensamos que podemos esquecê-los. A nossa mente protege-se deles, embrulhando-os em camadas... ou seja, mentiras. E assim, distanciamo-nos do estilhaço. Até que um dia acontece qualquer coisa e, sem razão especial, vem à superfície da consciência. A diferença entre o mental e o físico está em que não podemos aplicar sulfato de magnésio para trazer o estilhaço do espírito ao consciente.
Ele levantou-se e pôs-se a andar de um lado para o outro da sala. Esses pequenos estilhaços de vidro a virem à superfície despertaram um pequeno terror. Era como se conseguisse senti-los na cabeça, que estalava como... como um campo de gelo. Seria outra analogia física?
- Está assustado, o que é normal. Nada disto é fácil. Exige uma grande coragem. Mas é altamente compensador. A recompensa acabará por ser uma verdadeira paz de espírito e o reinício de todas as possibilidades. »


in Cego de Sevilha, Robert Wilson, página 249



Verdadeiro. Sensato. Sentido.

03 maio 2010

Uma canção e uma história #1

A minha canção favorita



Cada canção tem um momento dentro de um tempo tão nosso. Uma canção é uma banda sonora de um dia, de uma história, de uma pessoa dentro da nossa vida. Uma canção marca uma vivência, eterniza um sentimento, reflecte um pensamento próprio, uma emoção, uma recordação. E então, quando a canção volta, volta tudo com ela: o momento dentro de um tempo diferente, um dia do passado feito coisa presente, uma história antiga que parece de hoje, uma pessoa metida noutra vida e que já nem é nossa, um sentimento apagado, um pensamento esquecido, uma emoção nunca mais experimentada, uma recordação quase-quase acabada.

Então, a canção favorita não existe. A canção favorita é uma para cada um desses momentos, é uma para cada uma dessas história.
Mas depois, há aquela canção que nos persegue, que fala de nós como se nós fossemos ela, que anda connosco e se atravessa nos nossos dias e acaba banda sonora do filme da nossa vida.
Canções favoritas tenho mil e, cada uma, conta uma história e leva uma pessoa... Mas esta diz

"porque há sempre uma maneira de recomeçar
o que se quiser
há sempre uma maneira de mudar
o que não se quer
há sempre uma maneira de recomeçar..."



e isso sabe tão bem ouvir!

27 abril 2010

A ausência e a amizade



Para a Cândida


Ao longos dos anos deixamos escapar até as pessoas que víamos para sempre ao nosso lado, os nossos maiores amigos de um tempo curto ou mais longo, os nossos maiores cúmplices nos mais diversos crimes. Quando vemos, naturalmente, já não há muito mais a dizer do que o vulgar "Tudo bem?" a que se responde sempre "Tudo" ou a que nem se responde sequer.


Então, de cada vez que reencontramos por aí um ex-melhor-amigo agora convertido a quase-desconhecido, reformulamos tudo o que sabemos sobre a amizade e fazemos de nós outras pessoas dentro de outros sentimentos. O que está para trás fica por lá: os segredos confessados, as lágrimas partilhadas, as gargalhadas em coro, os tempos de silêncio, as conversas mais sofridas e as outras sem nada para lembrar. O que se sentiu por aquela pessoa também ficou perdido algures entre um dia e outro, entre um Inverno e um Verão. O que se sabe daquela pessoa e o que aquela pessoa sabe de nós acaba por diluir-se na crença ridícula que diz "mudámos tanto neste tempo todo...". Assim se justifica o fim da amizade, dizendo ainda que as coisas têm razão enquanto duram, que as histórias sobrevivem num tempo que lhes é atribuído. Assim se prossegue a rua, talvez dizendo baixinho: "Tão amigos que fomos...", como se isso explicasse uma estranha inevitabilidade da vida.



Ao longo dos anos tenho guardado para mim umas quantas pessoas. Não nos vemos durante meses, não nos falamos semanas e semanas seguidas. Já perdemos uns dos outros umas quantas histórias, uns quantos sustos, umas quantas boas novidades até. Mas são os meus melhores amigos, aquelas pessoas que quando nos vemos não mudou nada: continuamos os mesmos de sempre. E são essas pessoas que ficam, são essas as pessoas que a vida não leva porque eu, simplesmente, não deixo. Nem eles. E isso sim justifica tudo.


Perante as mudanças dos dias, perante as voltas do mundo, até a amizade se cultiva, até a amizade se cuida, até a amizade se faz crescer.


A ausência está para a amizade como a prova dos nove para as contas de somar, como a batalha final da guerra mais sangrenta e que tem mesmo de se ganhar, como a faixa escondida de um novo álbum do nosso artista preferido... aquela que faltava mesmo escutar.


23 abril 2010

Por acaso

até tenho tentado escrever, juntar uma ou duas ideias e fazer um texto que caiba dentro de uma imagem e que leve um pouco mais de mim do que parece.
Por acaso tenho tentado.
Mas não tenho conseguido. E não deve ser por acaso.

28 março 2010

Resposta pronta


O teu telemóvel? Espelhado.
O teu cabelo? Liso.
A tua mãe? Atenta.
O teu pai? Confidente.
A tua comida favorita? Pão.
O teu sonho da última noite? Nublado.
A tua bebida favorita? Cola.
O teu objectivo? Sobreviver.
O lugar onde estás? Dentro.
O teu passatempo? Ler.
O teu medo? Crescer.
Onde te vês daqui a seis anos? Aqui.
Onde estive na última noite? Assim.
Algo que não és? Má.
Bolos? Achocolatados.
Da lista de desejos? Aprender.
Onde cresceste? Mais acima.
Última coisa que fizeste? Falar.
O que tens vestido? Pijama.
A tua tv? Grande.
O teu animal de estimação? Dois.
Amigos? Os melhores.
A tua vida? Esta.
O teu humor? Desigual.
Saudades de alguém? Sempre.
Veículo? Paz.
Algo que não tens vestido? Meias.
A tua loja favorita? Fnac.
A tua cor favorita? Amarelo.
Última vez que riste? Há dias...
Última vez que choraste? Noutros dias...
Melhor amigo? Filho.
Um lugar onde voltarás sempre? Casa.
Facebook? Também.



Ilustração - Gustavo Aimar

23 março 2010

Problemas: antes e depois



Se há pessoa que me marcou na vida foi ele. Era um rapaz da minha idade, um colega da minha turma, um adolescente com manias de adulto, um estudante com jeito para filosofias. Era o mais estranho de todos: tão distante quanto caloroso, tão arrogante quanto inteligente. Era um miúdo simples pleno de ideias grandiosas e, aos 15-16-17 anos, as ideias são sempre maiores que nós mas cabem nos nossos tamanhos, dentro de dias gigantes cheios de horas que, agora, passado o resto da vida, voam.
Então, o meu amigo dos tempos de secundário tinha uma forma particular de ver os problemas - aquelas tempestades da juventude vividas com a intensidade da idade - e tinha, ainda, uma expressão muito sua de reagir às adversidades alheias. No seu tom descontraído soltava um "Isso daqui a um mês já não tem importância nenhuma...".
Aquela frase tão repetida naqueles tempos fazia tanto sentido para mim. Porque era mesmo isso: o maior dos dramas vivido e sentido e sofrido num dia, passado um mês parecia ridículo e minúsculo, provocava até um certo sorriso quando lembrado, como se estivesse lá para trás num passado distante. E estava mesmo.

Hoje, os problemas já não se diluem assim tão depressa, já não se olham passado um mês, ou dois, ou três, ou muitos mais, com qualquer espécie de sorriso. Os problemas dos meus 30 anos são coisas que ficam, são coisas que se repetem, são coisas com tanto sentido hoje como no ano que passou, como no ano que virá. Os problemas dos adultos são feitos de rancores e de angústias, de complicações teimosas e questões quase sem solução. E assim não passam num mês. E assim não passam nunca mais.

Por isso hoje me lembrei dele. Da frase dele que repito tantas, mas tantas, vezes para mim mesma. Como se ela ainda tivesse sentido, como se ela ainda fosse possível.