27 abril 2010

A ausência e a amizade



Para a Cândida


Ao longos dos anos deixamos escapar até as pessoas que víamos para sempre ao nosso lado, os nossos maiores amigos de um tempo curto ou mais longo, os nossos maiores cúmplices nos mais diversos crimes. Quando vemos, naturalmente, já não há muito mais a dizer do que o vulgar "Tudo bem?" a que se responde sempre "Tudo" ou a que nem se responde sequer.


Então, de cada vez que reencontramos por aí um ex-melhor-amigo agora convertido a quase-desconhecido, reformulamos tudo o que sabemos sobre a amizade e fazemos de nós outras pessoas dentro de outros sentimentos. O que está para trás fica por lá: os segredos confessados, as lágrimas partilhadas, as gargalhadas em coro, os tempos de silêncio, as conversas mais sofridas e as outras sem nada para lembrar. O que se sentiu por aquela pessoa também ficou perdido algures entre um dia e outro, entre um Inverno e um Verão. O que se sabe daquela pessoa e o que aquela pessoa sabe de nós acaba por diluir-se na crença ridícula que diz "mudámos tanto neste tempo todo...". Assim se justifica o fim da amizade, dizendo ainda que as coisas têm razão enquanto duram, que as histórias sobrevivem num tempo que lhes é atribuído. Assim se prossegue a rua, talvez dizendo baixinho: "Tão amigos que fomos...", como se isso explicasse uma estranha inevitabilidade da vida.



Ao longo dos anos tenho guardado para mim umas quantas pessoas. Não nos vemos durante meses, não nos falamos semanas e semanas seguidas. Já perdemos uns dos outros umas quantas histórias, uns quantos sustos, umas quantas boas novidades até. Mas são os meus melhores amigos, aquelas pessoas que quando nos vemos não mudou nada: continuamos os mesmos de sempre. E são essas pessoas que ficam, são essas as pessoas que a vida não leva porque eu, simplesmente, não deixo. Nem eles. E isso sim justifica tudo.


Perante as mudanças dos dias, perante as voltas do mundo, até a amizade se cultiva, até a amizade se cuida, até a amizade se faz crescer.


A ausência está para a amizade como a prova dos nove para as contas de somar, como a batalha final da guerra mais sangrenta e que tem mesmo de se ganhar, como a faixa escondida de um novo álbum do nosso artista preferido... aquela que faltava mesmo escutar.


1 comentário:

Luis disse...

profundo e sincero, gostei mesmo muito.