16 novembro 2010

Uma carta para*... #1

o meu melhor amigo.

Amigo,
Acho que esta é a primeira carta que te escrevo. É mesmo. Na verdade, sempre conversámos muito, até cara a cara. Sem máscaras. Sem desviar o olhar. Muitas vezes a apertar a mão entre palavras de incentivo mútuo. Se te resumisse numa frase seria aquela que me dizes e repetes e insistes: "Vê filmes. Não faças filmes". Como me ri na primeira vez que a ouvi. E como ela ganha sentido no dia dos filmes, nos piores de todos, ou nas conjecturas complicadas que partilho contigo. Aquelas que misturam "serás" com "e se" e com histórias de passados recentes embrulhadas em exemplos de passados bem mais distantes.
Não sei se alguma vez te disse, mas tu também fazes muitos filmes. Com outras personagens, com diferentes cenários, com um guião menos pessimista ou menos derrotista, mas fazes. Eu assisto aos teus filmes na plateia. Arranjo críticas positivas ou negativas para o desenrolar da acção. Procuro nas falas dos teus actores, as falas dos meus. E assim se criam pontos de contacto, numa confiança imensa que ganhámos, um com o outro, ao fim de tantos anos.
Se há coisa que nunca duvido (ou nunca mais duvidarei!) é do quanto gostas de mim e, especialmente, do quanto te preocupas comigo. As mensagens nas horas certas, os telefonemas só para saber se estou "viva", as noites com horas à conversa, o "vê lá... tem cuidado" no momento oportuno, o desafio ("Anda vamos...") quando era mesmo de um que precisava, a companhia... tão simples e fundamental como isso: a companhia. Isso faz de ti a pessoa principal, um dos culpados de eu aqui andar, dia após dia, numa montanha-russa que traduzes mais ou menos assim: "quanto mais forte for o ir abaixo mais depressa vais para cima".
Nem sempre concordamos. Às vezes prefiro não ouvir, não saber, não perceber. Às vezes tu fazes o mesmo. És o emissor das mais complicadas perguntas a que tento responder sem subterfúgios, sem enganos, num diálogo sincero comigo mesma, contigo pelo meio. É quando, literalmente, me abanas e, às vezes, rematas tudo com um "Ai rapariga...". Lá pelo fim, até costumamos rir.
Posso não conseguir arranjar "uma cabeça nova" como às vezes me aconselhas, mas acredita que esta cabecinha ainda vai juntando uns quantos pensamentos bons porque tu existes, porque tu insistes, porque tu mostras e provas e comprovas que estás presente. E nestas coisas da amizade não valem apenas as intenções, vale muito mais os actos, as palavras ditas e os abraços. Obrigada por eles. Espero que os meus te façam sempre tão bem como tu me tens feito, ao longo dos anos que nos conhecemos, mas especialmente nos últimos meses. Tu sabes.


Um beijo.
Beguinha






*Esta é a primeira de uma série de 30 cartas, com destinatários especiais, que irão aparecer por aqui de quando em vez. Sempre adorei escrever cartas e já escrevi muitas: às colegas da escola nas férias do Verão, aos namorados quando os tive à distância, aos amigos quando troquei de cidade, à família, a desconhecidos até pelos mais estranhos motivos. Estas cartas não levam selo nem a minha letra, mas são capazes de levar muito do que não digo e deixo para depois escrever.

3 comentários:

O lado bom... disse...

Bem, não vou fazer um comentário sobre o seu texto mais sim sobre seu blog em geral. Sei que pode achar uma pergunta boba, mais pra mim é sempre interessante ouvir opinião das pessoas, e lendo seus posts, resolvi te perguntar tbm..PRA VOCÊ, OQ É FELICIDADE?

BlueAngel disse...

E esse é verdadeiramente o papel de um melhor amigo e o teu cumpre. Que bom! Fico feliz, muito feliz, porque ele existe e é um dos teus refúgios. beijocas larocas com amizade :-)))

João Miguel Henriques disse...

É sempre bom voltar aqui, amiga. Vou assim sabendo coisas de ti. Adorei o novo visual dos refúgios e fiquei animado :) Besos!