28 novembro 2010

Coisas a dois




A caixa das bolas, fitas e luzes estava no sótão e foi o Tigy que a arrastou escada abaixo, enquanto eu trazia a árvore e mais um ou outro saco. Escolhemos o canto da sala, o inverso de sempre para ser diferente, e espalhámos pelo chão tudo o que encontrámos. Num instante, o Tigy tinha preenchido os ramos da árvore de Natal de bolas e bonecos, perguntando sempre "As bolas vermelhas não estão muito perto umas das outras, pois não?".
Com a estrela na mão, empoleirou-se no banco para a colocar bem lá no cimo e foi ele quem apagou todas as lâmpadas do tecto antes de eu ligar as luzes da árvore e ficarmos os dois, em silêncio, a vê-las piscar.

Nunca tínhamos feito a árvore assim: os dois, ele a comandar as operações muito mais do que eu, ele de máquina fotográfica na mão a fazer a reportagem, disparando ao acaso, ele a arrumar os sacos para dentro do caixote e a observar o resultado final com ar orgulhoso: "A nossa árvore ficou muito bonita, Mãe".
Vê-lo tão atarefado, num desembaraçado agir de gente grande. Como ontem à noite quando quase adormecido ao meu lado disse: "Eu preocupo-me muito contigo, Mãe. Não quero que te aconteça nada...", para depois me apertar o pescoço com uma força exagerada que lhe vem não sei de onde. Vê-lo tão consciente, num instinto protector como nunca teve.

O resto da tarde fui observando como ele, de vez em quando, desviava os olhos da televisão para olhar para a árvore, fazendo-o duas e três vezes de seguida. Misteriosamente.
Mais à noite estranhei o silêncio na sala e encontrei-o no sofá, de comando na mão, a ver o Benfica, comentando logo que me viu "O Fábio Coentrão está magoado...". Por momentos, temi que me pedisse uma cerveja em vez das bolachas de sempre.

Há qualquer coisa de extraordinário no Tigy nestes dias: a forma como me pega a mão enquanto subimos as escadas para eu não cair, os beijos lambuzados muito repetidos, a frase desta manhã logo ao acordar: "Mãe és tão doce, que pareces uma gelatina", o toque delicado com que me tapa os pés com a manta quando estamos deitados no sofá e a desfaçatez quando pega no comando da televisão, desliga-a e ordena: "Vá. Vamos para a cama".



Ps. Leio sempre os textos alto antes de os publicar. Apanhada a murmurar qualquer coisa olhando para o computador, o Tigy perguntou: "O que estás a ler?". Li-lhe o texto e ele foi sorrindo de olhos muito abertos, para no fim dizer: "Eu acho que esse sou eu".


4 comentários:

BlueAngel disse...

Espectáculo o teu Tiggy e doce a forma como te protege. E claro adorei a preocupação com o Fábio Coentrão; o Tiggy já conhece o Gui? ;-) beijocas larocas com amizade :-)

O Leão da Montanha disse...

Legal os seus textos!!!!!!


abraços e fique com Deus

scorpiowoman disse...

O Tigy está a crescer e a tornar-se um rapazinho ainda mais espectacular, lindo, doce e muito protector.
Amei o texto e a ilustração.
Foste a minha segunda paragem depois de quase uma semana sem net :-).
Beijinhos***

Anónimo disse...

Rasga, os teus textos são do melhor. Até dão vontade de chorar tamanha é a sinceridade neles contida. É sempre um prazer passar por aqui ;)

Pedro