22 novembro 2010

Para mim, o que é a felicidade?*





Um dia encontrei a felicidade numas botas. Foram as primeiras botas com salto que tive na vida, de cano alto e com atilhos. Uma moda dos meus 15 anos que mudou, por completo, a perspectiva do meu corpo e da minha adolescência. Usavam-se com meias pelos joelhos e saias curtas e saíram da montra da loja para os meus pés e dos meus pés para a montra da loja, até que um ou dois dias depois a caixa surgiu lá por casa, numa das incontáveis surpresas que os meus pais já me fizeram na vida. Nesse tempo das botas com atilhos, que todas as manhãs atava cada vez com mais perícia, ainda gostava mais de mim do que de quem quer que fosse e ainda suspirava por paixões de infância das que, naturalmente, se diluem com o tempo.

Um dia vi a felicidade num caixote cheio de autocolocantes dos CTT, fechado com fita-cola castanha por todos os lados e entregue no balcão da mercearia dos meus avós, numa manhã em que não havia escola. Lá dentro algumas dezenas de livros, no valor de vinte contos, o prémio recebido por uma história inventada para um concurso de uma editora conhecida. Ganhei o concurso com umas simples linhas de texto e chegaram os livros para a estante, alguns deles, ainda hoje, estão por ler.

Um dia experimentei a felicidade ao ver a luz do estúdio acender o vermelho e o microfone aberto. Naquelas horas de sábado a rádio era o meu infinito e para lá daquelas paredes insonorizadas não existia rua, nem clima, nem fome, nem réstea de qualquer espécie de dúvida. O mundo estava todo ali, entre as frases, na pressão dos botões, na rapidez com que as horas se iam, nas músicas que se ouviam pouco diferentes das de agora, na completa certeza de que não havia tempo para hesitar, nem para falhar.

Um dia ganhei a felicidade num boneco com pilinha. A prenda que eu mais queria naquele aniversário. Sim, um boneco mesmo. Completamente de plástico, sem cabelo, com o umbigo saliente enfaixado como um recém-nascido do antigamente. Fazia naquele dia uns 7 ou 8 anos de idade e ainda hoje consigo lembrar a caixa de cartão meia-azulada com o boneco ao centro protegido por um plástico.

Um dia conheci a felicidade nos olhos de um cão. Há anos que juntava dinheiro para o comprar e, quando ligaram da loja para o ir buscar, fiz a viagem de ida a imaginar o meu cachorro de pêlo branco e felpudo, para depois fazer a viagem de volta com um cão preto e enjoado que vomitou por completo, o carro do meu pai. Para ele compus autênticas canções de amor durante a infância e com ele tive conversas intermináveis nas tardes que passávamos só os dois durante as férias de Verão.

Um dia toquei a felicidade dentro da minha barriga, quando me soube grávida e me tornei mãe. Agarrei a felicidade nos meus braços, olhando-o enquanto dormia, olhando-o enquanto acordava, olhando-o enquanto adormecia, descobrindo-lhe os traços e os gestos no mais profundo encantamento, que dura até hoje, até este momento em que dorme, imperturbável, ao meu lado.


Um dia achei que a felicidade era aquilo. Uma pessoa, um desejo, uma história. Era aquilo tudo dentro de tudo o que ainda não conhecia da vida. Ali estava a causa e a consequência. Ali estava o princípio de mim e o fim de tudo o resto. E os dias que ficaram para trás eram os dias antes da felicidade e os dias que viriam seriam, apenas, os dias dela. Se a felicidade não estivesse ali não estaria em lugar nenhum. Se a felicidade não sobrevivesse assim, não restaria sonho, nem capacidade, nem qualquer verdade, que sustentasse o que quer que fosse. Se a felicidade entregue não fosse a felicidade recebida, então a felicidade não era nada.
Um dia, que é um dia como hoje, aprendi que já não sei responder a perguntas que juntam felicidade e o verbo ser conjugado no presente. A felicidade ficou lá para trás.
Acabou ali com um ou outro acaba aqui.





* A pergunta está feita na caixa de comentários há alguns textos anteriores e merecia mesmo resposta. Obrigada por ela à Felicidade Sem Fim, autora do blogue O Lado Bom das Vidas.


3 comentários:

Anónimo disse...

Eu bem queria comentar. Mas após ler o teu texto não arranjo palavras apropriadas para o fazer. E, por receio de estragar o que está escrito, opto plo silêncio que (li em qualquer lado) fica sempre bem...

Pedro

scorpiowoman disse...

Podes não conseguir juntar a palavra felicidade e o verbo ser conjugado no presente numa frase, neste momento, agora, hoje, amanhã... Porém, o futuro a Deus (e a nós pertence) e tenho para mim, com aquelas certezas que nos nascem do coração, que saberás ainda fazê-lo lindamente num futuro quiçá próximo. Beijinhos grandes***

ML disse...

Eu lembro-me das tuas botas (e das minhas) e, no tempo dessas botas havia uma Andreia: Decidida, Certeira e Convencida dos seus actos. Procura-a, ela de certeza que ainda deve estar dentro de ti!
Empina o nariz amiga, vive a vida como se fosse o primeiro dia do resto da tua vida!
(Se quiseres vou a tua casa fazer sandes de queijo no microondas e falamos...!)