10 dezembro 2010

Uma canção e uma história #17

Uma canção do meu casamento




A melhor forma de andar em frente é guardar só o que o passado tem de bom.
Não sei se esta teoria tem fundamento, não sei se a conseguirei cumprir algum dia, mas só o facto de a escrever, de a deixar aqui bem explícita, bem visível, é um bom começo. Então, o meu casamento também teve isso: um bom começo, vários começos bons. Teve um filho que é o melhor começo de todos. Teve dez anos de uma vida partilhada, de sentimentos misturados e de coisas que se deram e se receberam. E muito do que o meu casamento teve de bom está na melodia carinhosa e cor-de-rosa desta canção.
Lembrá-la com o seu "avião sem asa" e a "fogueira sem brasa" é admitir, para o futuro, que não se reescrevem decisões, nem se põem em causa opções. Vivem-se com elas. Aceita-se que somos melhores depois do que passou: somos maiores, mais fortes, mais nós.
Lembrá-la não é "retomar o pedaço que falta no meu coração" é dizer a mim mesma que os sentimentos morrem, que as histórias terminam, mas o melhor das pessoas que foram nossas tem de ficar para sempre.

Porque nós continuamos a existir depois de tudo: das tempestades, das falhas, do medo. Mas agora mais seguros, agora mais felizes. A andar em frente guardando só o que o passado tem de bom.

08 dezembro 2010

Coisas dos outros



Os outros dizem para mudar o corte de cabelo, ir para o ginásio, sair à noite, vestir roupa colorida, ver filmes, telefonar sempre que quiser, aparecer para jantar, comprar tralha, ver montras, mudar os quadros de parede e a mesa de lugar.
Os outros repetem que vai passar, que o tempo trata de tudo, que daqui a um ano já nem me lembro de nada, que não vale a pena, que eu não mereço, que não tem sentido, que é irreal, que é em vão.
Os outros mandam ir ao médico, comer mais, dormir cedo, falar a verdade, não ligar, rir mesmo sem vontade, olhar para o lado, olhar para a frente, pensar no meu filho, pensar só em mim, pensar menos, não pensar sequer.
Os outros acreditam que é uma fase, uma mania, uma teimosia, uma ideia, uma doença, uma crise, uma invenção.
Os outros dão ideias, fazem sugestões, convidam, insistem, incentivam, desvalorizam, dão as respostas certas, dão as mesmas respostas três vezes, listam tudo o que tenho, fazem avisos, pesam o que há e o que falta numa balança viciada.
Os outros acham que devo esquecer, passar à frente, não repetir asneiras, olhar para o lado bom das coisas, acreditar em mim, ver bem como sou, ser mais assim e menos assado, ouvir bem o que dizem, o que repetem, as ordens que dão e tudo o que acham.

Mas isso são os outros e não sou eu.



Gosto Não Gosto

Gosto de pessoas.
Não gosto de toda a gente.

04 dezembro 2010

Coisas da minha cabeça







Se eu não passar por uma certa estrada, que desenha uma curva contra outra e se endireita numa recta com três árvores à esquerda no sentido de casa, não lembro a primeira vez que aquelas árvores falaram comigo. Assim, aquele dia existe mas como se permanecesse congelado dentro dos pensamentos bons e tudo o que se seguiu a isso simplesmente não aconteceu.

Se eu mudar imediatamente a estação de rádio quando tocam aquela ou aquela ou ainda uma ou outra música, elas magicamente desaparecem nas ondas do éter sem entrarem nos meus ouvidos, remexerem nas memórias e trazerem apertos no peito que dificultam o meu respirar.

Se eu não comer nunca mais um certo chocolate, não voltarei a sentir como ele já se desvaneceu com a saliva, açucarando a língua, o céu da boca e desaparecendo pela garganta num prazer guloso, dentro de um momento único. Assim, consigo que o doce de um banal chocolate não azede um resto de dia, uma semana completa ou um mês inteiro.

Se eu não vestir aquela peça de roupa, como umas meias coloridas ou uma camisa com folhos nas mangas e botões, nunca aqueles tecidos tocaram a minha pele, foram apertados ou desapertados, vestidos ou despidos, parte do cenário de um dia ou de um instante, ou existiram sequer. E tudo ou qualquer coisa que aqueles trapos viveram comigo é mera obra da imaginação.

Se eu nunca mais repetir uma palavra, das melhores que se querem ouvir, das piores para se dizerem, das mais fortes para quem dá, das mais arrasadoras para quem as despreza. Se eu juntar essa palavra a um conjunto definido de umas tantas outras, adicionando frases e expressões, piadas e ironias e guardar tudo num espaço intocável e inamovível das recordações. Se a minha voz não voltar à palavra, às outras palavras, às frases e a tudo o resto, aos textos dos melhores momentos, então eles não surgem na cabeça e assim não doem, e assim não morrem. E os momentos ficarão sempre lá, no instante certo em que me fizeram feliz.



Furto*




*Coisas que encontro por aí
e guardo para depois pensar sobre isso