23 março 2010

Problemas: antes e depois



Se há pessoa que me marcou na vida foi ele. Era um rapaz da minha idade, um colega da minha turma, um adolescente com manias de adulto, um estudante com jeito para filosofias. Era o mais estranho de todos: tão distante quanto caloroso, tão arrogante quanto inteligente. Era um miúdo simples pleno de ideias grandiosas e, aos 15-16-17 anos, as ideias são sempre maiores que nós mas cabem nos nossos tamanhos, dentro de dias gigantes cheios de horas que, agora, passado o resto da vida, voam.
Então, o meu amigo dos tempos de secundário tinha uma forma particular de ver os problemas - aquelas tempestades da juventude vividas com a intensidade da idade - e tinha, ainda, uma expressão muito sua de reagir às adversidades alheias. No seu tom descontraído soltava um "Isso daqui a um mês já não tem importância nenhuma...".
Aquela frase tão repetida naqueles tempos fazia tanto sentido para mim. Porque era mesmo isso: o maior dos dramas vivido e sentido e sofrido num dia, passado um mês parecia ridículo e minúsculo, provocava até um certo sorriso quando lembrado, como se estivesse lá para trás num passado distante. E estava mesmo.

Hoje, os problemas já não se diluem assim tão depressa, já não se olham passado um mês, ou dois, ou três, ou muitos mais, com qualquer espécie de sorriso. Os problemas dos meus 30 anos são coisas que ficam, são coisas que se repetem, são coisas com tanto sentido hoje como no ano que passou, como no ano que virá. Os problemas dos adultos são feitos de rancores e de angústias, de complicações teimosas e questões quase sem solução. E assim não passam num mês. E assim não passam nunca mais.

Por isso hoje me lembrei dele. Da frase dele que repito tantas, mas tantas, vezes para mim mesma. Como se ela ainda tivesse sentido, como se ela ainda fosse possível.



28 fevereiro 2010

A guardar




Do filme "Paris je t'aime" (2006)
“Loin du 16ème”, de Walter Salles e Daniela Thomas
com Catalina Sandino Moreno




Forte. Intenso. Comovente.

22 fevereiro 2010

Saber de mim?

Ainda sonho com os 3 minutos finais disto




Vou cantarolando assim no banho


Só mais uma volta

Tiago Bettencourt & MANTHA | Vídeos de Música do MySpace



Disfarço um sorriso parvo nos melhores momentos disto

´


E vi o novo filme da minha vida

20 fevereiro 2010

O dia em que passei a acreditar em ti




Ao fim do dia, no despe e veste da roupa da rua para a roupa de casa, o Tigy insistia que no dia seguinte era preciso levar fato-de-treino para a escola. Entre o braço na manga certa e cada meia no seu pé, a Beguinha repetia que não era dia de ginástica e que, então, umas calças e uma camisola seriam as peças certas para a manhã que aí vinha.

Na pressa das manhãs dos dias da semana, no despe e veste da roupa de dormir para a roupa da escola, o Tigy estranhou as calças azuis e a camisa quadriculada que escolhi para ele e mais surpreendido ficou com os sapatos de atacas em vez das sapatilhas. Do pequeno-almoço para o "anda veste o casaco que está frio", ele lá disse uma ou outra vez que era mesmo verdade e que, naquele dia, era preciso levar fato-de-treino. A Beguinha explicou que a professora não tinha dito nada disso e que não havia ginástica naquele dia. A Beguinha disse essas coisas colocando no tom de voz aquela expressão irritante do "então, mas eu vou agora acreditar numa coisa que tu dizes, quando mais ninguém me deu tal recado?". No entanto, deixando uma réstea de dúvida que deve ser coisa que nasce nas mães quando começam a ouvir os filhos, enfiei as calças de fato-de-treino num saco e ele acompanhou o Tigy até à escola.

Na chegada à porta da sala de aula e perante a pergunta "Mas hoje era para trazer fato-de-treino?" a educadora mostrou-se orgulhosa do Tigy ter sido dos poucos que levou o recado direitinho até casa e eu, a Beguinha, fiquei angustiada por ter sido a mamã que não acreditou no recado do filho. O pequeno pedaço de crença estava dentro do saco, metade do fato-de-treino, metade da dúvida, as calças que se vestiram enquanto o Tigy perguntava "porque é que vocês não acreditaram em mim?".


16 fevereiro 2010

Foi então

que ela disse, enquanto balançava os braços:

"Tens de ser como os ramos das árvores: sempre no mesmo sítio mas a balançarem conforme o vento; sempre tu, mas deixando-te ir... Ou então sê como os rios: quando encontram uma pedra, não páram. Contornam-na e avançam."

E eu permaneci em silêncio. A balançar a cabeça.

19 janeiro 2010

Eu ainda vou



Para contrariar a facilidade com que se olha para trás. Para reforçar a faculdade de viver o que está presente. Para acreditar na possibilidade de que para a frente há muito caminho.


Depois DISTO o melhor é mesmo pensar assim:


Eu ainda vou publicar um livro.
Eu ainda vou fazer novos amigos.
Eu ainda vou aprender a cozinhar.
Eu ainda vou saber passar a ferro uma camisa.
Eu ainda vou andar de teleférico de olhos abertos.
Eu ainda vou a Nova Iorque.
Eu ainda vou ter outro filho.
Eu ainda vou sentir-me valorizada e respeitada e estimada também.
Eu ainda vou viver de coincidências.
Eu ainda vou acreditar em alguém.
Eu ainda vou comprar 50 livros de uma só vez.
Eu ainda vou ter uma noite tranquila, sem nada (mesmo nada) a pesar dentro da cabeça.
Eu ainda vou voltar a ser muito feliz.
Eu ainda vou ter uma cadela e chamar-lhe Mafalda.
Eu ainda vou ver um porco a andar de bicicleta.
Eu ainda vou perceber a piada de uma bebedeira.
Eu ainda vou ter uma grande surpresa.
Eu ainda vou entrar no cinema sozinha.
Eu ainda vou adormecer agarrada ao filhote muitas e muitas noites.
Eu ainda vou arranjar um grande motivo para saltar da cama de manhã.
Eu ainda vou ser embalada para adormecer.
Eu ainda vou adormecer na cama dos meus papás.
Eu ainda vou ouvir muitas vezes o filhote a chamar-me fofinha.
Eu ainda vou esquecer umas quantas ideias más.
Eu ainda vou insistir nas minhas melhores ideias.
Eu ainda vou escrever um poema.
Eu ainda vou subir a um palco.
Eu ainda vou confessar muitas verdades.
Eu ainda vou ter muita sorte na vida.
Eu ainda vou passar um ano de férias a viajar pelo mundo.
Eu ainda vou dançar uma noite inteira.
Eu ainda vou ser capaz.
Eu ainda vou cantar para alguém.
Eu ainda vou rir até não aguentar mais.
Eu ainda vou perdoar.
Eu ainda vou conseguir.
Eu ainda vou provar caracóis.
Eu ainda vou inventar alguma coisa especial.
Eu ainda vou ser eu por alguns anos.
Eu ainda vou valer a pena.
Eu ainda vou plantar uma árvore.
Eu ainda vou pintar o cabelo de uma cor esquisita.
Eu ainda vou correr atrás.
Eu ainda vou gritar em cima de uma montanha.
Eu ainda vou ter força.
Eu ainda vou ter fé.


29 dezembro 2009

Balanço de 2009 feito a dia 29
e em 9 pontos sem ponta de lógica




1 - O Tigy está um rapazinho. Com vontades e manias que são só dele: no prato a carne tem de estar bem longe da massa e bacalhau é coisa que ele não gosta... mesmo.
Um ano apenas deu-lhe centenas de ideias próprias, já fala inglês e conhece os números até 10. Nunca pediu um irmão mas pede todos os dias um cão. Eu ora sou a "mãe má" ora a "mãe muito querida". Ele, para mim, é uma questão de sobrevivência.

2 - Metendo um ano inteiro num conjunto de dias felizes: juntava tudo dentro da tenda e lá íamos acampar. Nós três e as abelhas, o frio à noite, o escaldão na praia, os livros, o fogareiro a fumegar e aquele silêncio, escuro e tranquilo.

3 - Se houve descoberta boa em 2009 é que não há nada como encher a banheira até cima e mergulhar com o Tigy. Quando saímos juntos daquela nuvem de vapor, não há mau dia que ainda resista.

4 - Num único ano houve tempo para todas as avarias: cá em casa, nós e os electrodomésticos estivemos em guerra!

5 - No entanto, no mesmo ano, houve pouco tempo para estreitar nos braços as pessoas. Aquelas pessoas. As que interessam. As que ficam. As que espreitam na janela num domingo de manhã ou surgem ao cruzar de uma esquina num qualquer centro comercial. As que encontramos por acasos da vida quando o acaso faz por nós o que não fazemos por nós mesmos.

6 - Uma lição do ano: ganhar muitas vezes anula o sabor da vitória, contudo na derrota seguinte o sabor quer-se de volta.

7 - Um ano de fado, de vozes de mulheres a cantar amarguras. Novas paixões para suavizar uma paixão maior. E estes nomes: Cristina Branco, Carminho, Ana Moura, Mafalda Arnauth, Amália.

8 - Um ano de grandes livros: "Cem anos de solidão" 332 páginas; "O Mar, o Mar" 520 páginas; "Os homens que odeiam as mulheres" 544 páginas; "A rapariga que sonhava com uma lata de gasolina e um fósforo" 616 páginas; "A rainha no palácio das correntes de ar" 720 páginas; "As vinhas da ira" 604 páginas...

9 - E quase tantos vícios quanto os dias que o ano teve: a minha PSP e o meu canto do sofá, os episódios que se sucedem de mundos à parte nos quais vivo... em parte, os sugus, as castanhas assadas, as revistas em pilhas gigantes escondidas num canto da sala, os cortes e recortes, o caderninho escrevinhado em todas as direcções, as conversas ao telefone com a mana, o tempo frente a este ecrã e mil ideias a fervilhar na cabeça com histórias que (ainda) não escrevi.


Ilustração - Duda Daze