19 janeiro 2010

Eu ainda vou



Para contrariar a facilidade com que se olha para trás. Para reforçar a faculdade de viver o que está presente. Para acreditar na possibilidade de que para a frente há muito caminho.


Depois DISTO o melhor é mesmo pensar assim:


Eu ainda vou publicar um livro.
Eu ainda vou fazer novos amigos.
Eu ainda vou aprender a cozinhar.
Eu ainda vou saber passar a ferro uma camisa.
Eu ainda vou andar de teleférico de olhos abertos.
Eu ainda vou a Nova Iorque.
Eu ainda vou ter outro filho.
Eu ainda vou sentir-me valorizada e respeitada e estimada também.
Eu ainda vou viver de coincidências.
Eu ainda vou acreditar em alguém.
Eu ainda vou comprar 50 livros de uma só vez.
Eu ainda vou ter uma noite tranquila, sem nada (mesmo nada) a pesar dentro da cabeça.
Eu ainda vou voltar a ser muito feliz.
Eu ainda vou ter uma cadela e chamar-lhe Mafalda.
Eu ainda vou ver um porco a andar de bicicleta.
Eu ainda vou perceber a piada de uma bebedeira.
Eu ainda vou ter uma grande surpresa.
Eu ainda vou entrar no cinema sozinha.
Eu ainda vou adormecer agarrada ao filhote muitas e muitas noites.
Eu ainda vou arranjar um grande motivo para saltar da cama de manhã.
Eu ainda vou ser embalada para adormecer.
Eu ainda vou adormecer na cama dos meus papás.
Eu ainda vou ouvir muitas vezes o filhote a chamar-me fofinha.
Eu ainda vou esquecer umas quantas ideias más.
Eu ainda vou insistir nas minhas melhores ideias.
Eu ainda vou escrever um poema.
Eu ainda vou subir a um palco.
Eu ainda vou confessar muitas verdades.
Eu ainda vou ter muita sorte na vida.
Eu ainda vou passar um ano de férias a viajar pelo mundo.
Eu ainda vou dançar uma noite inteira.
Eu ainda vou ser capaz.
Eu ainda vou cantar para alguém.
Eu ainda vou rir até não aguentar mais.
Eu ainda vou perdoar.
Eu ainda vou conseguir.
Eu ainda vou provar caracóis.
Eu ainda vou inventar alguma coisa especial.
Eu ainda vou ser eu por alguns anos.
Eu ainda vou valer a pena.
Eu ainda vou plantar uma árvore.
Eu ainda vou pintar o cabelo de uma cor esquisita.
Eu ainda vou correr atrás.
Eu ainda vou gritar em cima de uma montanha.
Eu ainda vou ter força.
Eu ainda vou ter fé.


29 dezembro 2009

Balanço de 2009 feito a dia 29
e em 9 pontos sem ponta de lógica




1 - O Tigy está um rapazinho. Com vontades e manias que são só dele: no prato a carne tem de estar bem longe da massa e bacalhau é coisa que ele não gosta... mesmo.
Um ano apenas deu-lhe centenas de ideias próprias, já fala inglês e conhece os números até 10. Nunca pediu um irmão mas pede todos os dias um cão. Eu ora sou a "mãe má" ora a "mãe muito querida". Ele, para mim, é uma questão de sobrevivência.

2 - Metendo um ano inteiro num conjunto de dias felizes: juntava tudo dentro da tenda e lá íamos acampar. Nós três e as abelhas, o frio à noite, o escaldão na praia, os livros, o fogareiro a fumegar e aquele silêncio, escuro e tranquilo.

3 - Se houve descoberta boa em 2009 é que não há nada como encher a banheira até cima e mergulhar com o Tigy. Quando saímos juntos daquela nuvem de vapor, não há mau dia que ainda resista.

4 - Num único ano houve tempo para todas as avarias: cá em casa, nós e os electrodomésticos estivemos em guerra!

5 - No entanto, no mesmo ano, houve pouco tempo para estreitar nos braços as pessoas. Aquelas pessoas. As que interessam. As que ficam. As que espreitam na janela num domingo de manhã ou surgem ao cruzar de uma esquina num qualquer centro comercial. As que encontramos por acasos da vida quando o acaso faz por nós o que não fazemos por nós mesmos.

6 - Uma lição do ano: ganhar muitas vezes anula o sabor da vitória, contudo na derrota seguinte o sabor quer-se de volta.

7 - Um ano de fado, de vozes de mulheres a cantar amarguras. Novas paixões para suavizar uma paixão maior. E estes nomes: Cristina Branco, Carminho, Ana Moura, Mafalda Arnauth, Amália.

8 - Um ano de grandes livros: "Cem anos de solidão" 332 páginas; "O Mar, o Mar" 520 páginas; "Os homens que odeiam as mulheres" 544 páginas; "A rapariga que sonhava com uma lata de gasolina e um fósforo" 616 páginas; "A rainha no palácio das correntes de ar" 720 páginas; "As vinhas da ira" 604 páginas...

9 - E quase tantos vícios quanto os dias que o ano teve: a minha PSP e o meu canto do sofá, os episódios que se sucedem de mundos à parte nos quais vivo... em parte, os sugus, as castanhas assadas, as revistas em pilhas gigantes escondidas num canto da sala, os cortes e recortes, o caderninho escrevinhado em todas as direcções, as conversas ao telefone com a mana, o tempo frente a este ecrã e mil ideias a fervilhar na cabeça com histórias que (ainda) não escrevi.


Ilustração - Duda Daze

22 novembro 2009

Saber de mim?

Viciei-me, instantaneamente, nisto



Andei a sofrer com isto



isto



e mais isto




E ando fascinada com um isto de sempre

14 novembro 2009

A Maldade


Eu sabia. Sabia que quando aqui voltasse, teria de falar no assunto. Então adiei. E às páginas em branco abertas em princípios de noite, sucederam-se as páginas em branco fechadas antes de dormir.
Sabia que não daria para seguir em frente sem escrever sobre o assunto. Sem o registar aqui como mais um pedaço da história. Da minha. Da dele. Mais da minha do que da dele. Muito mais da minha, na verdade.
E, acima de tudo, eu sabia que teria inúmeras dificuldades para ordenar o pensamento e coordenar as frases, para escolher uma linha que oriente o discurso e seja fiel aos factos.
Então, deixei passar o tempo. Deixei as páginas em branco e guardei o silêncio em forma de protesto.

Contudo, agora, sei que para seguir em frente há que recuar. E deixar esta história escrita, sem poesia, cruamente como merece a verdade, é esse o meu primeiro passo para... avançar.

O Tigy mudou de escola e logo a partir do primeiro dia da nova rotina foi acusado de "agressividade extrema e continuada" para com as restantes crianças. Crianças essas que com ele mudaram para aquela escola e que com ele convivem há 3 anos lectivos. A educadora, essa sim uma personagem nova, comunicou-me, 4 ou 5 horas depois de o conhecer, que ele tinha brincadeiras muito violentas e que batia desmesuradamente nos colegas. O rol de descrições completamente surreais de atitudes do meu filho na escola sucederam-se durante as primeiras semanas de aulas, vindas dos pais dos colegas e por todos os meios.
Olhando o Tigy em casa, com as suas birras e os seus carinhos, com as suas gargalhadas tão sonoras e as suas teimosias, com as suas manias de mimo e a sua perspicácia para aprender um pouco de tudo, oscilei durante tempo demais entre dois cenários que não se conjugavam.
Um dia simplesmente não o levei à escola. Ficámos os dois em casa, a ver os desenhos animados que todas as crianças de 4 anos vêem, a pintar desenhos com as cores que qualquer criança escolhe e a preguiçar por aqui, como devem fazer tantas mães com os seus filhotes de 4 anos. Ao final da tarde os dois, de mãos dadas, entrámos na escola para uma reunião. Eu levava a pergunta "O que se passa?" e trouxe a resposta "Nada assim tão grave como querem fazer parecer".
Uma semana depois a normal reunião de pais transformou-se em 2 horas de total perseguição a mim, entre acusações e especulações infundadas e maldosas. (Perseguição e acusação a mim. Sim. Nunca poderei dizer ao meu filho, que isso iria doer muito mais.)
O que vivi naquela reunião não se deseja a ninguém, especialmente a nenhuma mãe.
O ataque verbal de uns contaminou toda uma sala e mesmo para aquela que ao meu lado perguntava "Mas estão a falar de que criança?" o Tigy passou a ser um menino mau e violento que bate sem conta, peso e medida, sem razão ou contexto, em todos os que lhe aparecem à frente.
Cortando cenas para avançar no tempo: o Tigy é uma criança cheia de energia que reage mal à frustração e se defende nem sempre da maneira correcta, o Tigy foi vítima de violência de adultos que o usaram para fazerem valer as suas contestações perante a escola e os outros, o Tigy é uma criança mimada, carinhosa, divertida, inteligente, mas também, teimosa, birrenta, exagerada, incansável, é, enfim, uma criança de 4 anos.
Mesmo conhecendo-o como ninguém, e tentando sempre que isso valesse acima de tudo, há alturas em que o mais importante é pedir ajuda. Assim foi feito. Recorrendo à pediatra e, por sua indicação, a uma psicóloga, recebemos em algumas semanas um relatório da sua observação, perfeitamente avalizado e independente, que retrata fielmente o filho que tenho em casa, que nasceu da minha barriga e que é, simplesmente, um normal rapazinho de 4 anos de idade.

As atitudes ficam com quem as toma, sempre ouvi dizer. Pelo meu lado, enquanto mãe, tive de passar para a retaguarda para me tornar mais forte, ao seu lado, defendendo-o e protegendo-o desta forma animal que recebemos quando temos um bebé. Pelo meu lado, enquanto Beguinha, fica uma luta diária contra uma sensação de falhanço que teima em perseguir-me, dizendo-me repetidamente que não fui suficientemente capaz para o livrar de qualquer mal. E a luta continua: protegendo-o a ele deste inferno que são os outros, protegendo-me a mim dos pequenos infernos que acendo tantas e tantas vezes cá por dentro.



Ilustração - Mónica Carretero

22 setembro 2009

Se eu fosse...

...um poema:

"entre a saliva e os sonhos há sempre
uma ferida de que não conseguimos
regressar

e uma noite a vida
começa a doer muito
e os espelhos donde as almas partiram
agarram-nos pelos ombros e murmuram
como são terríveis os olhos do amor
quando acordam vazios"


Alice Vieira