11 janeiro 2011

Uma carta para... #2

a minha paixão.

Tigy,
Quando não estás na nossa casa, há um sossego pesado e escuro que torna tudo estranho e incompleto. Aos poucos, especialmente ao longo destes últimos quatro meses, construímos uma rotina muito nossa, feita de uma cumplicidade que nunca antes tínhamos criado.
Dizem-me, de todos os lados, que "estás melhor", "mais crescido", "mais calmo" e "mais feliz". E estás mesmo. Estamos os dois e este viver a par que inventámos juntos. Dizem, ainda, que é muito mérito meu e, pela primeira vez na vida, eu concordo. Eu sei que é mesmo verdade. Eu sei que te tenho feito um menino feliz e que tu, finalmente, me fazes sentir mãe. Uma verdadeira mãe. Mesmo que, tantas vezes, até pareça que tu é que tomas conta de mim e não o contrário.
Todos os dias, no caminho entre a escola e a nossa casa, fazemos o "plano", como assim chamamos ao encadeamento de lanche - banho - pijama - jantar - brincar - histórias - cama, com uma ou outra novidade conforme os dias. Falamos ainda do que fica para os fins-de-semana, do que há para comprar no supermercado, do que temos de arrumar em casa e dos sítios a ir em dias próximos. E nunca te esqueces de nada do que falamos.
Contas-me coisas da escola e perguntas coisas da "minha", querendo saber se há cromos novos na caderneta da bola enquanto escondes no bolso um ou outro que trocaste com os amigos e que "Ainda não temos, mãe".
Às vezes perguntas o que eu almocei e insistes que é dia de ginástica: "Vai mãe, é só um bocadinho...".
Comprámos uma toalha nova para os nossos jantares, feita do tamanho do canto da mesa que ocupamos os dois, frente a frente, e as vaquinhas desenhadas no tecido estão estrategicamente a olhar ora para mim, ora para ti, enquanto comemos e falamos, enquanto te vigio e enquanto me dizes, quase todos os dias, "Está delicioso, mãe".
És a melhor das companhias para lanchar. Pedes sempre o mesmo na pastelaria: um café e um pão com farinha, zangando-te quando eu traduzo, para o outro lado do balcão, que é um garoto e um pão sem nada ("Não é sem nada, mãe, é com farinha!").
Falas muito antes de adormecer quando dormimos juntos, perguntas e mais perguntas, e jogamos jogos feitos à medida das minhas insónias e da tua energia. Jogos com regras complexas, que só nós entendemos, e que tu, invariavelmente, ganhas. Normalmente acaba tudo em gargalhadas e em maratonas de cócegas que eu não sei controlar e tu não sabes resistir. Ouvir-te rir, mas rir muito, com todo o tamanho da vontade, faz-me rir também, dessa forma descontrolada que baralha os lençóis da cama e mistura as almofadas.
Aprendemos a dividir o comando da televisão, o espaço do sofá e as prateleiras da estante: entre as minhas coisas e as tuas, entre os meus programas e os teus, entre a minha necessidade de silêncio e a tua sede de atenção. Fazemos acordos e apertamos a mão, combinamos horas e intercalamos cedências, repetimos verdades ("Tigy sabes uma coisa?", pergunto eu, "Ah já sei que vais dizer que me adoras...") e somos surpreendidos por declarações sérias: "Mãe, eu amo-te".
És cada dia mais responsável, mais entregue, mais simpático, mais generoso, mais sensível, mais obediente, mais compreensivo e mais perspicaz: "Mãe tens o nariz vermelho..." e eu respondo "A mãe está constipada...",  "Mãe não mintas, constipado é quando fazemos atchim...".
E nem vale a pena esconder mais nada. Apenas abraçar-te e saber que o mundo inteiro está ali a respirar contigo e que só isso importa.


A falta que me fazes quando não estás é proporcional ao bem que te faz o de vez em quando me deixares, o de vez em quando não ter de inventar histórias por ter o nariz vermelho... como agora.


Da tua
Mãe

8 comentários:

BlueAngel disse...

tenho o nariz vermelho e não estou constipada. Sempre soube que ias ser uma excelente mamã. Vi-o no brilho dos teus olhos quando me disseste que estavas grávida e esse momento é inesquecível para mim. :-) beijocas larocas azuladas com muita amizade.

scorpiowoman disse...

E numa noite de algum trabalho e insónias... a emoção feita das tuas palavras lidas.
Um abraço bem apertado para ti e muitos beijinhos para ambos! Nunca te esqueças disto: És Mãe com M e o Tigy um menino cheio de sorte por te ter! ***

Anónimo disse...

Continuas a ser uma MULHER e uma MÃE muito especiais.Fico muito feliz por saber que, entre ti e o TIGY, há uma grande cumplicidade. Gosto quando ele diz que é o teu namorado, ao mesmo tempo que te enche de beijos e te quer proteger como se fosse ele o chefe da casa.
Ele é um menino com um coração de ouro e tu és o baú onde é guardado esse tesouro.
Amo-vos muito.

Your mother

Anónimo disse...

lindos, os dois, mae e filho
beijinho, rita r

Anónimo disse...

Adorei a tua carta, fazes-me lembrar o meu dia a dia com o meu Gui. Não há nada melhor que os nossos filhos, são os nossos tesouros, a nossa companhia. Nunca duvides, és uma GRANDE MULHER e uma SUPER MÃE. Agora sou eu que tenho o nariz vermelho. Beijinhos :)))) Gena

João Miguel Henriques disse...

Que bonito, amiga :) Penso muito em vocês aqui de longe. Fiquei muito feliz ao ler esta carta. Não vou repetir o que com certeza já sabes: és uma mãe extraordinária e o teu filho é um príncipe cheio de sorte. Beijinhos :)

Anónimo disse...

Sem qualquer tipo de dúvidas os teus textos são do melhor que existe...
Será que só eu é que vejo...
Onde estão as editoras...
Tens o dom da escrita o dom de ser mulher mas não á dom maior que seres mãe do Tiggy.

beijinhos grandes,
Continua adoro-te ouvir-te.

Anónimo disse...

E eis que se me dá um nó apertado na garganta ao ler-te. E abro muito os olhos e fecho as mãos com força para evitar chorar.
Um dia, quando for grande, gostava de saber escrever como tu ;)
Pedro