23 julho 2010

Ele, o sorriso, a mala da roupa e os brinquedos


Ía com um sorriso. Com a mala cheia de roupa e os brinquedos preferidos.
E para mim poderia ser este o momento para pôr tudo em causa. As opções tomadas. A confiança entregue sem retorno. Os passos dados sem um destino certo.
Vê-lo sair assim, como se saísse de mim outra vez, como se me o arrancassem mas para o levarem para longe e não para o depositarem nos meus braços como quando o vi pela primeira vez.
Há uma violência enorme nesta ida, nestes tempos que chegam e que parecem a eternidade e mais além. Chegam como um castigo, como um aviso, como a paga mais cruel para os meus maiores erros. E tudo isto teria sentido se eu aceitasse este dia como um ajuste de contas da vida para comigo, como a pena justa para o pior crime. Então, eu entenderia a distância, a solidão, até este sentimento permanente de falha, de perda, de culpa.

Só que ele vai com um sorriso. Com a roupa que me ajudou a escolher e os brinquedos que mais falta lhe fazem.
E eu fico entregue a mim. Só a mim. Pela primeira vez numa vida inteira.
Vendo-me como a pior das companhias, sem entender bem que fazer comigo mesma para vencer o tempo.
Então, as horas que faltavam para tanta coisa passam a sobrar para coisa nenhuma. Então, o medo que se teve que isto um dia ainda doesse mais, passa a ser o medo que isto não pare de doer nunca. Então, a certeza que se tinha de que se viveu o que se sentiu, passa a ser a certeza que para se ser feliz num momento se pode ficar infeliz para a vida inteira.

E ele lá foi com o seu sorriso. A mala pesada com quase toda a roupa que tem e os brinquedos mais giros que ajudou a juntar.
E eu aceito o momento sem pôr nada em causa. Repito as minhas certezas.
Guardo-me comigo no melhor que podem ter as saudades. Renovo o mais forte dos meus sentimentos para me segurar. Acredito que esta é a vida que eu fiz por merecer. Entendo que a vivia toda outra vez e revivo-a mesmo, aqui por dentro.

E depois ele vai voltar. Trará o sorriso, a mala com a roupa, os brinquedos que gosta.
E eu estarei à espera. E tudo, dentro de mim, continuará imperturbável. A maior das certezas dentro do mais sincero dos sentimentos. Apesar da dor, apesar da culpa.




Ilustração - Paulo Galindro

8 comentários:

Anónimo disse...

Força! Supera mais esta prova. Tu consegues!

Anónimo disse...

Ía com um sorriso...
A expectativa de viver numa nova casa, as férias com o pai... faziam-no sorrir.
Sentada no sofá, o Tigy deu-me um beijo e perguntou-me:
_ Avó, quando eu vier do pai, ainda cá estás?

Tentando esconder as lágrimas que me escorriam pelo rosto,desgastado e sofrido,respondi-lhe que não.
Fitou-me com aquele olhar perspicaz e disse-me
_DESCULPAS-ME, avó?
E partiu com a bebé e o macaquinho.

Testemunho da avó NILDE

R disse...

Falta 1hora e meia para a minha filha chegar. 6 meses depois, consigo saber melhor o que fazer com o tempo vazio. Tempo que gasto a fazer coisas que me tiravam tempo com ela.
Dói muito, mas a dor ... o tempo atenua sempre.
beijo

BlueAngel disse...

Tempo que saberás aproveitar com as tuas coisas, as de que gostas desde sempre. Tempo contigo nunca é tempo perdido, é sempre tempo ganho. E disso eu sei porque guardo sempre com carinho todos os tempos que passo contigo. :-) beijocas larocas com amizade

Anónimo disse...

Andreia, o Tiago e' um doce...[pelo que descreve a tua mae no comentario acima.] beijinhos, rita ramos

A.A. disse...

Andreia: acredito que essa seja a batalha mais difícil de ultrapassar. É pelo medo de enfrentar essa dura ausência que muita gente adia as decisões inevitáveis. E esse adiamento só agrava o sofrimento porque essa decisão inevitável acaba sempre por chegar.
Felizmente nunca passei por isso, sonho nunca vir a passar, mas lido no dia-a-dia com muita gente que passa.
E uma coisa te posso garantir: como tudo na vida é uma questão de hábito.
Vai doer-te sempre, vais sentir a falta do Tiggy sempre, vais contar os minutos que faltam para ele voltar sempre mas também vais saber sempre que ele volta para ti com enorme saudade e o desejo imenso de abraçar a sua MÃE!
Pelo que ouvi dizer sempre foste uma mulher de luta, certo?

Anónimo disse...

Olá
Deve ser muito dificil vê-lo partir, mas sabes que vai voltar, vai feliz.
Sabes que é o melhor para ele.
Tens de ter força, e sei que tens quem te apoie.
Até me escorreu uma lágrima pelo rosto ao ler o testemunho da avó NILDE.
Beijinho e mt mt força.
Gena Queirós

paula disse...

sabe beguinha, alimentamo-nos do sorriso deles, descansamos no sorriso deles, vivemos no sorriso deles. eles vão sorrindo, com o tempo, regressarão sorrindo.
e esse tempo que fica para si, far-lhe-á bem, quando conseguir ajustar-se a ele, aceitá-lo.