A ler isto

A ver muito disto

E a viciar com isto




Naquela primeira cassete que me gravaste já vinha a voz dele. Aquela cassete que rodou e rodou no meu carro meses a fio e que ainda há poucos anos ouviamos de quando em vez nas viagens grandes. Daquela primeira cassete para os dias de hoje mudaram as músicas, tal e qual como mudaram os cenários. Daqueles primeiros meses para estes últimos dias mudaram os planos, tal e qual como mudam sentimentos. Mas do primeiro beijo para o beijo de hoje, dos primeiros tempos para os tempos que correm, as coisas que ficam são eternas e esta voz, ouvida hoje como há 9 anos atrás, é um vínculo, uma certeza, uma coisa nossa que se torna concreta.
Fiz desta voz, como da tua, como da de outros que ouvias e lias e repetias e seguias, uma das minhas. Acreditando que se aproximam pessoas através de diferenças, sabendo que se unem pessoas encontrando semelhanças.
As descobertas foram chegando com o tempo. E o tempo foi sendo, passo a passo, pleno de boas descobertas. Criar raízes num lugar é parecido com solidificar relacionamentos: alisa-se o terreno, escavam-se buracos para erguer alicerces e contrói-se o telhado muito antes de colocar portas e janelas.
Com o tempo reconstruímos paredes, pusemos tijolos onde havia uma janela e fechámos janelas com outros tijolos. Com o tempo fizemos o telhado antes de pintar os tectos. Com o tempo destruímos a casa toda para lhe mudarmos a planta, para lhe alargarmos a área, para fazer a cozinha na sala e o quarto na varanda. Com o tempo juntámos o lixo, limpámos de novo o terreno, ponderámos até construir a casa noutro lugar. E com o mesmo tempo levantámos paredes que mais parecem muros e rasgámos portas para nos tocarmos.
Agora, com a casa em construção dá para olhar para as coisas que ficam: a vista para além do nosso terreno, as árvores que crescem ao redor. E dá também para ouvir esta voz. Esta voz que nos seguiu sempre e que é tão nossa.