13 abril 2008

Sonhos de plasticina




Não há nada melhor para diminuir uma dor do que sentir outra maior. Assim como não há forma mais fácil de nos sentirmos maiores quando olhamos e temos, ao nosso lado, alguém mais pequeno. As dificuldades da vida giram em torno disto: do que sentimos e do que os outros sentem, de como a nossa dor é maior do que a dor do outro que não podemos entender e até de como é sempre mais fácil viver os problemas que não são nossos.

À escala dos seus dois anos e meio, a grande dificuldade actual da vida do Tigy é conseguir fazer xixi e cocó apenas no bacio. Nestas duas semanas de grande esforço, os quatro a cinco pares de calças diários (a que se juntam cuecas, meias e por vezes sapatos) foram diminuindo até ao dia em que as calças que o levaram para a escola foram aquelas que o trouxeram. E, assim, a recompensa há muito acordada foi entregue e o Tigy passou a ter em casa plasticina de várias cores para brincar.
Por agora, ainda vão sofrendo, de quando em vez, o sofá, os tapetes, os chinelos da mamã, mas cada xixi ou cocó no sítio correcto merece uma onda de aplausos e beijinhos que supera os anteriores deslizes.

Olhá-lo de pernas despidas, com os joelhos juntos, sentado no bacio em plena sala de estar, esforçando-se por conseguir fazer um pingo que seja que mereça os nossos elogios, tem sido o momento certo para me ajoelhar ao seu lado, olhando os seus olhos tão vivos, e fingindo fazer a força que ele precisa, sentir as dificuldades da minha vida quase tão valiosas como aquilo que se vê, no fundo do bacio, quando o meu filho dele se levanta.

Aquela sensação de que as grandes dores que trazemos podem realmente ser tão inúteis até pode passar no minuto seguinte, enquanto lavo o bacio e o recoloco no canto da sala... Mas se ela voltar, dentro de instantes, quem sabe se não ficará?

A dificuldade do meu filho em deixar as fraldas foi (quase) ultrapassada em pouco mais de duas semanas. As dificuldades que tenho em ultrapassar-me a mim mesma, em fazer mais por mim e pelos dias que tenho, pode demorar mais, pode a força ser mais exigente, mas, no final de tudo, exigirei a recompensa. E eu sempre quis experimentar moldar sonhos de plasticina...

10 março 2008

Dados lançados




...e, na mesa, calha 5 de um lado e mais 2 do outro. São 7 as frases a escrever, em tom de desafio, vindo de um Sótão de Ideias. Eram 7 coisas sobre mim, tantas quantas as maravilhas do mundo, os dias da semana ou os anões da Branca de Neve! Número igual às notas musicais e às cores do arco-íris! Precisamente a mesma quantidade de pecados mortais e de virtudes humanas.

A começar pelas VIRTUDES:

1 Tenho ESPERANÇA que o meu filho seja no dia de hoje muito mais feliz do que fui, sou ou serei em toda a minha vida.

2 Dizem da minha FORTALEZA coisas que não trago comigo, que procuro na pele ou por dentro das veias e que falha tanto. Mas começo a acreditar que, nestas coisas, o parecê-lo tem muito do sê-lo...

3 Não sei o que é isso da PRUDÊNCIA. Não sei se a tenho, se a consigo entender. Até porque os meus actos mais imprudentes deram-me as melhores razões para querer, pelo menos, aprender a ideia.

4 Sobre o AMOR escreve-se muito, lê-se demais, pensa-se pouco, sente-se sempre. Dele não sei a verdade nem a mentira, não sei se gosto dele sequer, porque é teimoso, porque não sai cá de dentro, porque quando se ouve na voz ou no olhar se mascara. Ele manda em nós e em toda a nossa vida e acaba por ser uma coisa estúpida e complicada desfeita num abraço simples dado por uns braços pequeninos.

5 Se houvesse JUSTIÇA fazíamos os dias diferentes, sempre melhores para nós e para os outros - aqueles que valem mesmo a pena. E isso seria até ser justo para connosco e para cada momento.

6 Parece que a TEMPERANÇA é ser moderado ou ter a capacidade de moderar: eu modero demais. Calo. Guardo. Escondo. Segredo. Sussurro. Engulo. Castigo-me. Aperto. E, no fim de tudo, seco por dentro.

7 Se há coisa que me faz acordar cada manhã é a FÉ de que um dias tudo estará diferente e que esse diferente será melhor.

E a acabar nos PECADOS:

1 A minha VAIDADE começa e acaba na roupa com os tons menos contrastantes possíveis e com a capacidade dos meus cabelos de estarem quase-quase lisos.

2 A AVAREZA era uma das minhas grandes características de criança. Qual Tio Patinhas amealhava todas as moedinhas que encontrava. Crescer também é isto: não encontrar moedinhas para amealhar.

3 Eu sou má. Eu tenho sentimentos maus. Como este da IRA, do desejo de vingança, da cólera, da raiva. Eu sou humana.

4 Se existisse uma palavra que me descrevesse seria esta: PREGUIÇA. Eu adoro a minha preguiça: a sesta com a manta no sofá, as manhãs na cama, o não-fazer-absolutamente-nada. Eu luto contra a minha preguiça: contra as sestas no sofá enquanto o monte de roupa por lavar cresce; contra as manhãs na cama enquanto o Tigy exige papa, brincadeiras e atenção; contra o não-fazer-absolutamente-nada quando o mundo inteiro espera que eu faça alguma coisa.

5 A felicidade tem qualquer coisa a ver com a LUXÚRIA e, se calhar, por causa disso mesmo é que é pecado. Porque até parece que é proibido ser feliz, ou pelo menos tentar, ou pelo menos parecer, ou pelo menos do menos pensar que isso é possível.

6 Eu tenho INVEJA das pessoas felizes.

7 E se há GULA no mundo que ela se dobre e desdobre em dias felizes para mim. Para nós. Mesmo.


Acabo por contar muito mais do que 7, muito mais do que 7X2, mais linhas do que as pensadas ou ponderadas. Talvez acabe por contar coisas a mais, até, sobre mim. E sobre tudo isto.

05 março 2008

Estas doze palavras

Vindo DAQUI
Indo para


Houve um dia em que tudo mudou.
E mudar parecia a melhor coisa do mundo, porque iria transformar a melhor coisa da minha vida, dentro da melhor coisa que eramos nós.
Tempos depois, houve outro dia em que tudo voltou a mudar.
E esse mudar era a pior coisa do mundo, porque iria roubar a melhor coisa da minha vida, arrancada da melhor coisa que eramos nós.
E hoje houve outro dia em que juntei doze palavras todas seguidas, que soltas e desordenadas até parece que não querem dizer nada... mas ditas, só para ti, em doze linhas ou nas que forem precisas, escritas, quem sabe, em doze minutos ou pouco mais, querem dizer tudo.

Este tudo, que muda, que junta a nossa vida, que dá sentido ao nós, que dita a rotação do nosso mundo, que é um nada que um dia é o pior e logo no outro o melhor de sempre.

20 fevereiro 2008

Palavras favoritas


Há uma coisa fabulosa em ter um filho: sentir o tempo passar. Assusta mas traz tantas e tão diferentes descobertas. A última conquista cá de casa está nas pequenas frases que o Tigy vai soltando quando menos se espera. Sim, é fantástico! O meu filho conversa comigo.
As palavras são cada dia mais perceptíveis e correctas e não há nada mais reconciliador com a vida do que rir e brincar com uma criança de dois anos e meio. Principalmente quando essa criança é a nossa.

Antes que o Tigy perca o seu dicionário engraçado, cheio de palavras por ele imaginadas, quero guardar aqui as minhas expressões favoritas. As dele. Ditas pela voz dele. Acompanhadas por aquele olhar que vem de mim.

Popó (Noddy) Pípi (Ruca) Pá (macaco de peluche) bacha (bolacha) Patita (Pateta) Pita (Mickey) Pupo (Lobo) "nã tem pilha" (quando os brinquedos não funcionam) "qué papo" (Nestum) "caca" (chocolate) Pai Tau (Pai Natal) "a minha bebé" (fralda) "o pé" (pé e sapato) Tita (ouriço de peluche) miau (gato) "bói a perna" (dói a perna) "tóia" (chora) "é dia" (Bom dia) "de nada" (quando ouve obrigado) "dá a mão" (ao adormecer) "pacha" (pasta dos dentes) "pó do Pai e o pó da Mãe (o carro do Pai e o carro da Mãe)...

mas as nossas preferidas: "Mamã" e "Papá", ditas perfeitamente e com sabor a ternura.

12 fevereiro 2008

Voltar atrás


No dia em que me descobri grávida senti a vida cair-me aos pés. Como se tudo o que tivesse vivido até aquele dia terminasse ali. Aquele é o tipo de coisa que só acontece aos outros e a mim, a 4 meses de entrar na igreja vestida de noiva, é que não podia acontecer mesmo.

Lembro-me bem de uma sensação que nasceu em segundos, um peso estranho na barriga como se ela já refugiasse um bebé prestes a nascer e não poucos gramas de um susto revelado há instantes. Por alguns dias ignorei tudo isso: a sensação centrada na barriga, o que dali iria nascer, o mundo completamente novo que se poderia abrir aos meus olhos. Durante esses dias concentrei todos os pensamentos em mim e desafiei o destino ou as lições da vida para inventar culpas e atribuir responsabilidades. Acabavam ali todos os sonhos criados anos a fio. Morria naquele instante um percurso certinho e rectilíneo desejado e seguido, sem grandes desvios. Para mim, por aqueles dias, perderam-se todos os ideais de sonhos tornados verdade e objectivos pelos quais se lutam durante semanas ou meses e se festejam quando realizados. O futuro não era nada daquilo e havia que inventar novos rumos para dar à história.

Houve quem me dissesse (alguém que sabia do que falava) que devia fazer uma espécie de luto, uma despedida do percurso de vida que sonhara para mim. Depois disso conseguiria aceitar, entender e ser feliz dentro de uma nova realidade. Esse dia, do meu luto, deixou-me trancada comigo mesmo, num diálogo sem palavras e quase sem movimentos. Talvez quando saísse dali, de pazes feitas com a vida, soubesse reconstruir os sonhos e fazer de um acaso a melhor conquista de sempre.

Passados 3 anos desses tempos vejo os dias seguintes como uma corrida de alta velocidade: das lágrimas resta pouco mais de uma névoa, seguiram-se os melhores meses de sempre, aqueles em que me senti sempre acompanhada de uma força e de uma vida que nunca experimentara antes e talvez não venha a sentir mais. E agora as birras de um Tigy de 2 anos e meio, que descontrolam os meus nervos e sugam tanta energia, fazem-me recordar os primeiros dias dele abrigado dentro de mim. Os tais em que me zanguei com o meu corpo e desejei dar passos atrás para poder seguir com a vida tão planeada para a frente. As birras do Tigy que são próprias da idade, que todas as crianças têm, que mais dia, menos dia passam quase sem darmos por isso. As birras do Tigy que não toleram "nãos" ou esperas. As birras do Tigy que me diminuem por dentro e me deixam as fraquezas à vista. As birras do Tigy que hoje me lembraram de tudo isto e me dão vontade de lhe pedir muitas vezes "desculpa" enquanto o vejo deitado e já adormecido. Se ele me desculpar talvez tudo ganhe sentido.

03 fevereiro 2008

Cuidar de nós



Manter um nome para manter um espírito, uma ideia que nasceu quando a barriga trazia uma surpresa e os dias cumpriam um ritmo desconhecido. Fazer dos refúgios novos espaços para sonhos nunca desfeitos, para ideias persistentes, para sentimentos que mudam mas não se extinguem, para regressos de tempos que, afinal, nunca partiram.


Voltar às páginas em branco para as encher de tudo e ignorar o vazio, saber que haverá sempre palavras, que haverá sempre razões para acreditar, que tudo o que é eterno é desafiante, que tudo o que nos muda nos completa e que voltar atrás é, muitas vezes, mais difícil do que dar passos em frente.


Este é o meu refúgio, o palco onde mascaro os rostos para lhes despir o corpo, para lhes iluminar a alma e vê-la, assim, à transparência. Este é o abrigo do que escrevo entre pedaços da minha história que compõem o todo da minha vida. Aqui vive o Tigy que me transforma todos os dias, que traz à superfície os meus maiores medos e toda a minha fragilidade. No entanto, e só por isso, me faz tentar ser cada vez melhor. Por aqui paira um Beguinho de uma Beguinha, aquele que me encontra na escrita para me sugar os defeitos e me revestir de uma beleza e de uma perfeição que não mereço, que não tenho. E aqui se escondem os traços do que vejo e do que sinto mas demoro a revelar, numa tentativa ingrata de ser quem sou só para mim.


Escrever para ser lida. Escrever para ver crescer o que é a escrita e o que é viver dentro dela. Escrever para saber que as melhores coisas da felicidade se conquistam por dentro. Aqui por dentro do que somos. Cuidar deste lugar como se cuida do nosso maior amor, dos nossos mais fortes sonhos, das nossas pessoas, aquelas que realmente importam, as que justificam tudo e que vieram para ficar. Cuidar deste segredo como se cuida de nós. Abraçando sempre todos e quaisquer acasos ou possibilidades.

05 dezembro 2007

Só por ela




Lembro-me bem do dia em que ela saiu de casa. Não daquele em que arrumou roupas, tachos e almofadas e partiu para outro lugar. Não esse. O dia em que a minha irmã saiu de casa foi aquele em que a vi de chinelos à porta de uma casa que não era a minha, mas só dela. A partir dali os nossos encontros eram as férias e os fins-de-semana e cada vez mais separadas pela distância encurtámos, progressivamente, este sentimento forte e seguro, que não sinto por mais ninguém. Só por ela.

Porque há coisas, instantes da vida, que por muitos pequenos que pareçam colam-se à memória como sinais da pele e voltam quando menos se espera ou então quando se chama o passado para tapar buracos do presente. A minha irmã esteve sempre lá: nas tardes que passávamos a ver filmes alugados no clube de vídeo e chorávamos de tanto rir com comédias de nenhuma qualidade; no quarto partilhado por tantos anos; nas férias na praia e de um escaldão em particular; nas primeiras voltas por Lisboa; nos desatinos da adolescência. E a minha irmã tem estado sempre lá: nos meus primeiros passos na faculdade; nos problemas por tudo e por nada; nos momentos mais difíceis e mais marcantes e nos melhores de todos, nos 9 meses da minha gravidez como na primeira noite com o Tigy ao lado...


Hoje a minha irmã foi mãe. E eu que sempre pensei ser tia muito antes de ser mamã, só queria estar sempre ao lado dela como ela tem estado do meu. Incluindo o dia de hoje, esta noite e este preciso momento.

14 novembro 2007

A verdade acerca do amor




Há uma verdade acerca do amor da qual todos duvidamos quando ouvida das bocas dos outros. É aquela que diz que não há amor como o que se sente pelos filhos. Eu diria, agora, que aquilo que se sente pelos filhos é um sentimento novo e completo, feito do melhor e do mais angustiante que têm todas as coisas realmente importantes. E, então, aquilo que se sente pelos outros, por todos os outros, entra numa espécie de escala de valores, tendo no cimo aquele que saiu de dentro de nós, para deixar, degrau a degrau, os outros, mesmo os fundamentais, cada vez mais abaixo. Ter filhos pode ser uma decisão, um acaso, uma benção, pode ser até a ordem natural da vida. Mas, a partir daquele dia, ainda vive ele dentro da nossa barriga, tudo o que gira com o mundo gira, incontornavelmente, à volta dele.


Há outras verdades acerca de outros amores. São verdades inabaláveis que falam de tempo que passa, de dias sucessivos muito iguais uns aos outros, de problemas, de banalidades, de dores de cabeça, de um deixa estar ou de um nem penses nisso. Li várias vezes, em vários lugares, revestido em muitas palavras diferentes, que o tempo mata a paixão, dilui o desejo, diminui a pressa para a substituir por conformação ou qualquer coisa assim. Senti, em vários momentos, que há sempre algo a fazer para mudar rumos que não queremos e que tentar, agir, conseguir, depende unicamente de nós e da força que temos perante o resto. O resto que são as partes cinzentas dos dias, diluídas em tudo o que eles têm de mais insonso e desgastante.


Então, a grande verdade acerca do amor está nos presentes e nos recados que a vida nos entrega, de quando em vez. Cá em casa, na minha, que é afinal a nossa, tenho um presente constante feito das descobertas do Tigy. Há sempre laços e papel a desembrulhar: uma palavra nova, uma expressão bem dita, as brincadeiras que inventa, as reacções, o simples movimento ou um beijo dado na minha bochecha, assim sentido, na minha pele, pela primeira vez. E cá em casa, na minha, dentro da nossa, os recados são gritos de alerta, sustos ou apenas um sopro para que à força de viver os dias eu não me esqueça que há coisas que escolhemos para nós e que precisam de ser escolhidas e escolhidas e escolhidas... diariamente.


Beguinho, se eu soubesse, seria eu quem te responderia, quando estampas no cimo de um blog:



Mas eu só saberei responder com mais perguntas e com a minha verdade. A nossa.