31 março 2014

Não sei mesmo



O meu filho diz que eu respondo muitas vezes “não sei”. O meu “não sei” vale para problemas de matemática com casas decimais e frações, datas de nascimento de jogadores de futebol e para perguntas feitas de madrugada como “Mãe, como é que eu venço os meus medos?”.

O “não sei” muito mais do que uma resposta é uma não-resposta, é um “que pergunta essa agora!” ou um sussurrar comigo de “e agora que digo eu?”.
Quando o “não sei” é, efetivamente, “n-ã-o-s-e-i” não vale nada, não significa nada, não se ouve sequer. Porque a Mãe tem de saber tudo: a que horas chegamos, a que horas vamos, quem ganha a quem, em que canto da baliza entrou a bola, o que vai ser o jantar e o almoço da semana que vem, quando vai a chuva e vem o sol, quanto é 8x7 e o que fez Diogo Cão em 1482.

“Não sei” não é resposta, tal e qual como “porque sim” e “porque não”, “porque tem de ser” e “porque não dá”.

A primeira vez que o Tiago me disse “estás sempre a responder não sei” guardei o assunto para depois. Fiz-me polícia das minhas próprias palavras e, a cada “não sei”, questionava-me: seria um “não sei” verdadeiro ou falso?
A pressa com que, tantas vezes, enchemos os finais de dias tornam as respostas vazias.
Então, decidi pensar sempre mais um pouco antes de responder... “não sei”, assegurando-me que não sei mesmo.
Assim, fizemos trabalhos de casa de matemática e descobri que “não sei mesmo” o que raio são os “gráficos caule folha”.
Treinámos si-lá-sol na flauta para o teste de música e confirmei que “não sei mesmo” porque razão, estando os dedinhos do Tiago a taparem os buraquinhos certos, o sol sai desafinado.
Lemos alto uma composição em inglês para ele apresentar na aula e atestei que não sei mesmo dizer algumas palavras com a pronúncia perfeita, tais como “also” ou “tomato”.
Vimos o jogo do Benfica e jurei que “não sei mesmo” em que clubes jogou o Funes Mori antes de ali chegar.
Analisámos juntos uma borbulha que o Tiago tem na perna e repeti-lhe que “não sei mesmo” como apareceu ela por ali e porque o chateia tanto.
Lemos juntos antes de dormir e, no final do capítulo, expliquei-lhe que não sabia como acabava o livro porque nunca o li antes.

Naquela noite, o Tiago não conseguia adormecer. Chamou-me dezenas de vezes. Ouvia barulhos nas escadas, nas paredes, na rua, dentro da cabeça. Levantava-se e deitava-se. Foi fazer vários chichis e pediu água. Despiu as meias e pediu outras. Tirou um edredão e pediu mais um cobertor. Apagou e ligou luzes sem parar.
Adormeci e acordei umas quantas vezes mantendo-se ele de olhos abertos, saltitando da cama dele para a minha com perguntas, dúvidas e medos.
Lá pela uma da manhã voltei a despertar de um sono fraquinho com a voz dele, encostado à minha cara, dizendo: “Mãe, como é que eu faço para ultrapassar os meus medos?”.
Cansada, irritada, desfalecida... respondi “não sei”.

Em frente aos olhos turvados pelo sono, vi gráficos de caule e folhas cheios de dezenas e unidades, vi notas musicais desafinadas por flautas mágicas, ouvi palavras em inglês na mais brilhante das pronúncias, enchi-me de borbulhas pequeninas e adivinhei o final da história do Capitão Cuecas.
E chorei.
Não de sono, nem de irritação, nem de cansaço.
Chorei por não saber como se vencem medos. Do escuro, dos ladrões, dos barulhos ou dos pesadelos. Chorei por tudo o que não sei. Pelos medos do Tiago espelhados nos meus. Pelo tempo que se perde. Pela angústia que se prende. Pelas perguntas que se calam. Pelas certezas que se perdem.
Chorei por não saber tanto, por não saber nada.
Chorei porque não sei. Não sei mesmo.



Ilustração

2 comentários:

Pedro Corrêa disse...

Escrevendo, porque não? Nomeando-os. Dizendo-os. Extraordinariamente bem escrito, este texto. Sobretudo. Que é o que ia dizer...

ddm disse...

Gosto tanto da maneira como escreves angústias que também são tão minhas.
Fica bem. :)