15 março 2009

Crises de Domingo




Ao Domingo era dia de missa e de almoço em casa dos avós. Ao Domingo havia o pequeno-almoço na pastelaria do costume e o café à saída da igreja com as caras de sempre. Ao Domingo as tardes eram compridas com filmes repetidos na tv e anoitecia muito mais depressa do que se desejava.

Dos domingos da minha infância e adolescência trouxe, para o resto da vida, esta estranha sensação de finitude que acorda comigo, a qualquer que seja a hora, e me vai minando o dia por muito bom, por muito cheio, por muito especial, que ele seja. Porque os Domingos têm qualquer coisa de estranho, que os torna os dias mais pequenos da semana e os mais fugazes também... quanto mais os queremos agarrar mais se conseguem escapar.

Lembro bem os finais dos Domigos: os trabalhos de casa mal feitos para refazer; todos os planos desenhados à Sexta alinhados numa nova lista para o fim-de-semana seguinte; e a busca ingrata de razões e soluções para saltar da cama na manhã de Segunda.

Os Domingos de agora começam quando o Tigy começa também. Têm desenhos animados a manhã inteira, alguns que a mamã até já gosta. Têm uma bica do Beguinho que sabe especialmente bem neste dia. Têm uma preguiça saborososa de demorar mais o pijama no corpo, de prolongar mais a água a correr no banho, de hesitar mais na roupa a vestir para a rua. Têm almoços mais demorados, nos avós do Tigy, por casa ou na rua, como se a comida precisasse de ser mais mastigada ou melhor saboreada por ser Domingo. Têm passeios há muito imaginados e que se desejam estender por mais uns quantos dias, como se a um Domingo se sucedesse outro Domingo, e outro, e outro ainda.

E quando anoitece, ao Domingo, o dia parece que não existiu, que foram apenas alguns minutos, um ou outro instante. Até parece que não houve acordar, que não se viram desenhos animados. Chega mesmo a duvidar-se se tomámos a bica da manhã. Por vezes até se cheira o corpo procurando provas do olfacto que denunciem o banho prolongado dos Domingos. E quanto mais anoitece, mais ainda se intensifica a ideia que não houve almoço... esquecemo-nos mesmo de almoçar?! Depois, acreditamos que renunciámos a qualquer passeio! Tantos passeios para dar e hoje, Domingo, não demos passeio nenhum?! Assim, chega a hora de deitar. E é Domingo. E sabe tudo a uma angústia estúpida que o tempo passou e que não se fez nada dele. Então, deita-se a cabeça na almofada, apaga-se a luz do quarto e aí, temos a certeza, mas a certeza absoluta, que nem sequer houve Domingo. E adormeço desconfiada que é só amanhã.


Ilustração - Neal Layton

3 comentários:

ML disse...

Como te entendo, como detesto os domingos...

Anónimo disse...

como eu te entendo...ha imenso tempo que nao tenho tempo para saborear o tempo a passar,...como nos veroes do alentejo. beijinhos
rita

O Leão da Montanha disse...

Esse flog está muito legal. Gostaria que você seguisse o meu blog, ficaria muito honrado.

Beijos e fique com Deus