15 dezembro 2013

Fichas de Leitura

Quase-quase a fechar leituras de 2013, aqui fica o registo cronológico, para recordar, referenciar e recomendar.












Autor – Lídia Jorge
Ano de edição - 2011 
Leitura em – Março/Maio 2013 







Lídia Jorge é uma das minhas referências de leitura há dezenas de anos. Leio todos os livros, guardo um ou outro, mais antigo, para ler... sempre em breve. O ritmo de escrita, feito de um coro de vozes que nos acompanham, junto ao ouvido, é uma das marcas com nome próprio. Este livro, mais uma vez, deixa comigo personagens que parecem minhas, de gente que vive ao meu lado.

"Mas nada iria passar-se como eu imaginava. Ao lado da expectativa, a realidade criava o seu próprio programa, há muito que eu sabia que assim era. Também sabia que a parte que nos decepciona pode ser recompensada pela parte que nos surpreende."













Autor – Cândida Pinto
Ano de edição - 2011 
Leitura em – Junho 2013 







A figura de Snu há vários anos que me fascina. Li este livro em poucos fôlegos, fascinada por uma mulher forte e determinada, que se deixou vencer por um grande amor. Este é um daqueles livros que, enquanto se lê, se tem de partilhar com quem temos ao lado, relatando factos e trocando passagens, mostrando fotos e tirando dúvidas. Emocionou-me e espicaçou-me, ao falar também de um mundo que é muito o meu: a edição e os livros.

"E a cada esguicho de lama que saltava do charco agitado pela pedrada de um amor inconsentido, Francisco respondia: Tudo com ela. Nada sem ela. E foi assim até à morte. Morreram ambos na flor da paixão, enlaçados num abraço de chamas." (Palavras de Natália Correia)













Autor – Miguel Sousa Tavares
Ano de edição - 2013
Leitura em – Julho 2013 







Não resisto a um novo livro de Miguel Sousa Tavares e daí ter lido este logo que surgiu nas livrarias. Começa bem... muito bem. Cheio de emoção e de algum mistério. Tem a escrita fluente do autor, lê-se com vício e curiosidade.

"Essa foi a primeira lição que aprendi: o pecado depende do sujeito, não do predicado."















Autor – Ana Zanatti
Ano de edição - 2013
Leitura em – Julho 2013 






Foi a minha estreia com Ana Zanatti. E não será o primeiro e último livro a ler! Confissões de gente com histórias e memórias, com dramas e marcas, com questões e soluções. Uma conversa a várias vozes. Onde também há espaço para a nossa.

"De tanto silêncio, acabámos por dizer tudo. O silêncio é a melhor forma de dizer tudo sem gastar palavras."
















Autor – Nuno Camarneiro
Ano de edição - 2013
Leitura em – Agosto 2013 





 Sempre complicado afirmar tal coisa, mas... arrisco dizer que foi o melhor livro que li em 2013. Primeira vez de Nuno Camarneiro nas minhas leituras e uma história feita das histórias de todos os habitantes de um prédio. O prédio que pode ser de qualquer um, em qualquer ponto do país, em qualquer ano que começa ou que acaba. Gostei mesmo muito. Mesmo.

"Somos todos uns sentimentais e por isso demoramos no que nos dói. Temos choro fácil que dá ou não dá em lágrimas, guardamos as dores cheias de pormenor enquanto as felicidades ficam por ali, confusas, com algumas caras, alguns sons, incertas e vagas. Lembramos os sapatos que calçávamos quando alguém morreu, a hora da notícia, o programa que passava nesse instante e até as vergonhas que pensámos. Folheemos as páginas do riso e pouco encontraremos, algumas frases, momentos caricatos, elementos de uma paisagem. Pouco e mal contado, estávamos distraídos, demasiado ocupados na felicidade para lhe fazermos o retrato. Somos tolos e sentimentais, temos arcas cheias de mágoas que não esquecemos e que abrimos a todo o momento para ver se ainda nos doem, e doem sempre. Descuramos o arquivo do bem que apesar de tudo nos vai acontecendo, somos tolos de lágrimas."















Autor – Kitty Fitzgerald
Ano de edição - 2008
Leitura em – Agosto/Setembro 2013 






Este livro faz parte das minhas "wishlists" há muito tempo e, uma promoção de 2 ou 3 euros, fê-lo voltar comigo para casa e passar para o cimo da pilha de livros para ler. A história, profundamente dramática e negra, toca em feridas profundas de uma sociedade que marginaliza e rotula, quase sem regras.

"Explico-lhe como pensar no cérebro como se ele existisse dentro de uma grande sala, que tem muitos armários e prateleiras e caixas. E o trabalho é escolher uma caixa, ou prateleira, num lugar distante, e pôr aí todas as preocupações e lembranças. Depois cola-se uma etiqueta de memória nesse sítio, que é dos tempos passados, e que é só para ser aberto por motivos especiais."
















Autor – Fernanda Serrano
Ano de edição - 2013
Leitura em – Setembro 2013 







Li o livro em duas noites e ele nunca mais parou na minha estante. Tem andado de casa em casa, de pessoa em pessoa, de leitura em leitor. Tem tanto de duro como de positivo, tem tanto de emotivo como de feliz, que deve mesmo ser lido.


""Nada é mais importante do que o riso. A tragédia é a coisa mais ridícula que o homem tem, e tenho a certeza de que por mais que os animais sofram eles nunca exibem a sua dor em teatros abertos." São palavras dela (Frida Kahlo), mas podiam ser minhas. É exactamente assim que eu penso. É assim que vivo e foi assim que encarei a doença: sofri, sim, mas rejeitei expor as minhas feridas ao mundo. Não preciso disso. Acho que ninguém precisa."













Autor – Valter Hugo Mãe
Ano de edição - 2011
Leitura em – Setembro/Outubro 2013 









Valter Hugo Mãe é para ser lido depuradamente, sorvendo cada capítulo ou cada palavra. Este livro é uma cruzada pela felicidade, por aquilo que é simples e eterno, que é nosso e para ficar. A paternidade e o amor desprendido ganha, nestas páginas, a sensibilidade do talento de um dos meus autores.


"Quem tem menos medo de sofrer, tem maiores possibilidades de ser feliz."










Autor – David Machado
Ano de edição - 2013
Leitura em – Outubro 2013 










Conhecia David Machado de livros infantis mas aqui a sua escrita ganha nova dimensão. Daniel, a personagem principal, tem um plano de vida, mas as curvas e os contratempos acabam por vencer os objetivos ou, então, alterá-los. Uma história sobre a força que trazemos connosco e que colocamos, ao serviço da nossa felicidade, quando realmente é preciso. Os olhos têm dificuldade em seguir cada linha, querendo avançar tão rápido como as ideias e como as melhores vontades. Gostei muito!

"E, por causa de instantes como estes, o mundo encrava sucessivamente. As pessoas arrastam para todo o lado os seus protocolos pessoais apurados até ao limite do absurdo, os seus hábitos enraizados, as suas personalidades enviesadas, viciadas nas suas próprias lógicas, e ninguém está disposto a dar um passo ao lado, ceder espaço a outras formas de olhar as coisas para depois continuar em frente, mesmo quando a realidade o exige, mesmo quando não existem alternativas, as pessoas preferem ficar paradas só para não terem de dar esse passo ao lado. Imagina onde já podíamos estar. Imagina a humanidade a avançar, como uma onda, sem nunca esmorecer. Imagina."

















Autor - Sándor Márai
Ano de edição - 2012
Leitura em – Novembro 2013 






De Sándor Márai tinha lido o sobejamente aplaudido "As velas ardem até ao fim". "A ilha" é um relato obscuro e intrincado sobre a necessidade de um homem que, aos 50 anos, põe tudo em questão. Assim, procura na solidão o melhor cenário para repensar.


"Começou a compreender que a felicidade não se podia considerar uma propriedade privada que se adquire de um momento para o outro, como uma herança da qual, posteriormente, só é preciso cuidar e evitar que seja roubada ou perca o seu valor. Tinha que a descobrir em cada meia hora, em cada minuto; manifestava-se sem aviso e, em termos gerais, era mais cansativa e irritante do que agradável e tranquilizadora."


11 dezembro 2013

Equilíbrio

Por um lado,
deito o Tiago às 10h20 e lemos na cama dele, uma página a cada um, duas para mim e meia para ele, conforme o cansaço da minha voz ou o peso das pálpebras dele. Lemos dois livros, quando segundo os padrões dele são "pequenos". Lemos 3 ou 4 capítulos de livros maiores, já de gente mais crescida, que deixamos guardado com um marcador para o dia seguinte. Uma rotina diária desde que ele era bebé e queria todas as noites a mesma história do "Boa noite, Ursinho". Agora, na noite de hoje, ficou roído de curiosidade - e ousou mesmo folhear umas páginas de olhar excitado - para saber se o Charlie da Fábrica de Chocolate consegue um bilhete dourado, ou não, para ir conhecer o Willie Wonka.

Por outro lado,
deito-me eu lá para as 11h40 e leio na minha cama, os meus livros. Dois ou três capítulos quando gelam os braços e as pontas dos dedos; oito, nove ou dez, nos dias de menos sono, de menos frio, de um melhor livro ou de um maior vício. Leio livros grandes, os que mais adoro. Leio livros pequenos que guardo durante meses à espera de uma oportunidade. Leio livros bons, dos que deixam saudades. Leio livros "mais-ou-menos", que fluem apressadamente, aspirando o próximo. Agora, na hora de ir deitar, estou como o Tiago adormeceu hoje: roída de curiosidade para saber o que andam a fazer os "homenzinhos" do Millás.


06 dezembro 2013

Por acaso

Por acaso adoro surpresas.
E tenho ideias fantásticas para surpresas que me podiam fazer.

Desde sempre que apelo a festas de anos surpresa, daquelas que saem pessoas de dentro de bolos, confetes coloridos por todo o lado e uma banda a tocar os "parabéns a você" com um coro de gospel.
Por acaso estou a exagerar. Mas adoro ser surpreendida. Mesmo numa altura, ou numa idade, em que até parece que já nada nos surpreende.

Por acaso, como todas as crianças, também vivi aquela fase de procurar as prendas de Natal lá por casa, mal disfarçadas no roupeiro ou debaixo da cama, e espreitar... só um pouquinho, até ver tudo.

Por acaso, o problema disto são as expectativas. Ao esperar-se ser surpreendido, pouca coisa, realmente, nos surpreende. E isso não deve ser nada por acaso.

05 dezembro 2013

Uma carta para... #5


a minha Sobrinha


Maria,

No dia em que tu nasceste eu estava longe e mesmo os telefonemas constantes não me fizeram deixar de sentir a distância. Na verdade, acho que naquele dia – como nunca – senti isso mesmo: a distância. Uma lonjura física, geográfica, capaz de se tornar emocional e quase saber a solidão. 

Conheci-te e descobri-te nas nossas cumplicidades: nos amigos imaginários que partilhas comigo, quando era eu que tinha a tua idade e passava horas a brincar com pessoas transparentes. Vejo-me nos teus jogos de menina, feitos de cozinhas em miniatura, de roupas de bonecas que se vestem ao contrário, dos cabelos de plástico que se cortam muito tortos, acabando com as franjas numa tesourada. Lembro-me nas aulas que dás: tu a professora e as bonecas a turma, a aprenderem letras e números, a fazerem testes fictícios, com certos e errados, elogios e raspanetes. 

Criei contigo, nestes 6 anos de tia e sobrinha, rituais que preservamos tão nossos: as pipocas à noite nas férias de verão no Algarve; a tua mão pequenina, de dedos muito fininhos, enlaçada na minha quando vamos com o balde buscar água ao mar; o açúcar da bola de berlim a encher-te a cara, a misturar-se com a areia, a colar-se às bochechas, às mãos, às pernas, ao corpo todo; o modo como ris, em gargalhadas soluçadas e dizes "ai... ai..." no final.

Tornei-me tia depois de ser mãe, certa de que sabia bem de que era feita tal coisa, de ser algo para alguém nosso, do nosso sangue, a parte melhor do melhor que tenho, a minha irmã. Só depois percebi, e aprendi, que ser tua tia, que tu seres a minha única sobrinha, é outra coisa. Entre nós duas há, apenas, espaço para estar tudo bem, para sermos ambas meninas e ambas tranquilas, sonhadoras e imaginativas, perdidas em brincadeiras solitárias de famílias que inventamos e de histórias que quase vivemos, como nossas. 

Tu, do alto dos teus 6 anos, especialmente quando usas os teus sapatos de salto, que fazem barulho como as senhoras grandes, pintas a cara com brilhantes e usas a tua coroa de princesa, ensinaste-me a pertencer. A pertencer sem pedirem nada em troca, sem testes, sem ser esperado ou expectável que te ensine alguma coisa, que te molde, que te guie. Contigo, não preciso de estar “à altura”, por eu ser adulta e tu criança, para poder ficar, simplesmente, à tua altura. Ser pequena como dantes, fechada no quarto sozinha, a viver muitos dias diferentes lá dentro, ou antes, com tantas ideias dispersas dentro da cabeça a borbulhar e os olhos bem abertos para saber o que se passa, quase sem falar. 

Tu danças. Giras sobre ti própria como eu fazia. Tu apresentas espetáculos frente ao sofá da sala. Seguras o microfone, abres os braços e cantas. Como eu fiz. 
Penso muitas vezes, numa atitude talvez infantil, que à medida que vais crescendo te vais parecendo mais comigo. Imagino que vais gostar de livros, de escrever, de ver filmes e séries, de inventar histórias e ficar dentro delas, inconsequentemente. E penso até que as coisas que não fiz e que me escaparam, em alguma idade, podem vir a ser tuas. Numa tentativa egoísta de colocar nas tuas pernas, no teu futuro, o que poderia ter sido e não fui. 

Mas, na verdade, o que eu quero é isto: quando cresceres, quando mudares, gostes do que gostares, sejas o que quiseres, não deixes que a tua imaginação mande mais do que a verdade, não deixes que aquilo que viveres, com gente transparente, nas histórias da tua cabeça, te arranhe a pele, te fira por dentro.  
E que eu, um dia, ou dia a dia, ou de idade em idade, saiba estar “à altura” de te explicar em que momento as ilusões ganham um “de” antes de tudo. Que eu, adulta e tu criança, adolescente, jovem, mulher, te saiba mostrar o melhor dos sonhos que somos, sabendo bem até onde podem eles crescer, até onde os podemos deixar permanecer, antes de se transformarem nas marcas que trazemos na vida.

Parabéns Maria.

Da tua tia.

03 dezembro 2013

2/3 do meu cérebro são letras de canções

"Minha alegria, minha amargura / Minha coragem de correr contra a ternura / Minha ousadia, minha aventura / Minha coragem de correr contra a ternura"

02 dezembro 2013

29 novembro 2013

Há 3 coisas que...

adoro nas sextas-feiras:

1. aquela sensação que o fim-de-semana é infinito e nele vai caber tudo o que planeamos e muito mais
2. aquele pensamento manhoso que tudo o que não conseguimos fazer na semana que acaba não virá mal ao mundo que passe para a semana seguinte
3. e porque é o dia perfeito para ouvir e partilhar esta música deliciosa do maravilhoso Cícero Lins

28 novembro 2013

Coisas da tolerância



O auge da irracionalidade aparece quando começa um jogo de futebol, ou se calhar quando acaba. Especialmente, quando perdemos. Ou pior ainda: quando os outros, os inimigos, a cor adversária, o centro de todas as nossas frustrações, ganham. Aí sim! A irracionalidade aparece. Serve-se do nosso corpo e dos nossos argumentos para se fazer ouvir.

Vivi durante muito tempo o poder da irracionalidade futebolística, habituada a ser de um clube que ganha muito, e centrando raivas num outro mais unânime. Até nisso o Tiago me tornou mais tolerante. Quando olho para ele, “benfiquista até morrer”, sempre a sofrer, a elogiar os jogadores dos outros, os treinadores dos outros, as vitórias dos outros, mas a saborear tudo o que é seu, vejo, ali, em metro e pouco de gente, uma grande ironia da vida.
Como se tudo o que mais desejássemos acontecesse, precisamente, no seu contrário, num despique metafórico entre o que o mundo nos dá e até onde conseguimos ir.

Porque ser mãe é muito voltar atrás e repensar tudo outra vez, é deixar as certezas absolutas por tentativas diárias e acertos constantes, é trocar obrigações por cedências, é dizer “pronto, desta vez pode ser” mas o “desta vez” ser um “quase sempre”.

Ser mãe tornou-me ainda mais descrente do “é assim porque é assim e será sempre assim”, para me fazer uma seguidora fiel do “hoje tentamos desta maneira”.
Educar – e que dificuldade tenho em dizer que faço isso, que sou capaz disso - é um jogo de equilíbrios e não um jogo de forças. É um constante apelo à capacidade de negociação. É um combate intenso com mais tréguas que assaltos. Mas é, acima de tudo, uma relação de iguais e de respeito.
Porque, na vida, como no futebol, lá por eu ser do Porto e o Tiago do Benfica, os meus gostos não têm de estar refletidos nas convicções dele. Lá por não marcarmos na mesma baliza, não quer dizer que não joguemos para o mesmo lado e que não festejemos juntos. Entre mim, a mãe, e ele, o filho, há dois papéis mas não tem de haver dois lados.

Portanto, há 8 anos, não acreditaria que iria à loja da Adidas escolher camisolas oficiais do Benfica para oferecer ao Tiago, que iria sorrir (por dentro) quando ele grita “golo”, que iria levá-lo uma semana inteira ao Estádio da Luz para o campo de férias e ainda responder, com um sorriso, às “saudações benfiquistas” dos monitores. E fazer tudo isso, agora, não me faz menos adepta do clube a que pertenço, nem menos convicta do que acredito, nem mais fraca enquanto pessoa ou sequer mais forte enquanto mãe. Faz-me apenas real. Real e mais tolerante. Certa de que o Tiago, por ser meu filho, não tem de ser a minha cópia, nem o meu reflexo. Tem de ser como é. Porque é tudo isso que eu admiro nele: o meu contrário, o meu melhor. Mesmo torcendo pelos outros.


Ilustração

27 novembro 2013

Equilíbrio

Por um lado, 
num puro ato do acaso ou do azar, deixei cair o telemóvel na casa-de-banho, onde numa pirueta acrobática mergulhou num resto de água que descia do bidé para o cano do esgoto. Sim. Morreu. E era o objetozinho-dos-meus-olhos-e-do-meu coração!

Por outro lado, 
hoje tive – até ao momento – 852 visitas a estes refúgios, onde a felicidade está, fica, se guarda e se renova, onde cada um a vê.

25 novembro 2013

20 coisas que eu quero que o meu filho
saiba até ao Natal até ao final do ano sempre

#18

Nunca fui aluna de 5's nem de 100%. Era aluna dos 4, um ou outro 3 e um ou outro 5. Sempre estudei, fiz os trabalhos de casa, tinha os cadernos impecáveis, com sublinhados a várias cores e a letra muito redondinha. Nunca os meus pais foram chamados ao colégio porque me portei mal ou não cumpri as regras. Nunca nenhum professor me pôs de castigo ou escreveu recado para casa. Na comparação direta com a mana, cinco anos mais velha, ela era a rebelde que tirava 5 com facilidade, eu era a certinha que estudava e, por isso, tinha boas notas.
No 9º ano saí do colégio para a escola secundária, onde vivi três dos melhores anos da minha vida. Nunca irei esquecer a turma, os professores, as histórias dos intervalos, a adolescência ao rubro e uma escola grande de mais para uma menina do colégio, que acabou por crescer ali e fazer-se igual aos demais. Estão condensadas naqueles três anos algumas das aprendizagens mais fortes que tenho, das que ficam para sempre, das que ainda fazem rir e chorar quando se lembram. Estão guardadas, naquele lugar, algumas das amizades fundamentais para me fazer hoje como sou, mesmo que muitas delas se tenham diluído com as coisas da vida.

Apesar da idade, da mudança para uma escola onde quase tudo era permitido, mantive-me sempre a tentar o melhor, que por ser o melhor de mim podia não ser o melhor de todos.

Porque esta coisa de ser o melhor é uma das inquietudes presentes lá por casa, num tempo em que o Tiago no 3º ano tem testes durante duas semanas, com listas infindáveis de matéria para estudar e onde o ranking das notas é assunto falado, discutido, pisado e repisado pelos pais no recreio ou no lado de fora do portão, e pelos filhos na sala de aula, à mesa do refeitório ou no carro de volta a casa.

Ontem, enquanto jogava o Fifa14 na PSP, o Tiago disse: “Mãe, tenho medo dos testes”.
Respondi-lhe que, com certeza, nenhum teste lhe ia morder, mas guardei o assunto comigo, visto à luz da minha história, quando era eu que tinha 8 anos, andava no 3º ano e tinha teste na manhã seguinte.
O descomprometimento total face a tamanho desafio está marcado na minha história, enquanto na história do Tiago estão tabelas gigantes de determinantes para memorizar e ainda saber, afinal, se são determinantes artigo, possessivos ou demonstrativos.

Num mundo em que todos querem ser os melhores, o Tiago sente-se frustrado por ter “muito bom” e não ter “excelente” e chegou a chorar, há poucas semanas, por “só” ter tido 96% a Língua Portuguesa.

Num mundo em que todos vemos coartados os sonhos que guardamos anos a fio, o Tiago ouve falar dos números do desemprego no telejornal e diz-me que “quando chegar à minha altura eu acho que também não vou ter emprego...”.

Num mundo em que tudo é apressado, roubado, esticado, condensado, a competição começa com as notas dos testes aos 8 anos e termina onde? E termina como?

Hoje, para o meu filho, tenho mais perguntas que respostas, tenho mais temores das minhas próprias frustrações do que certezas, mas tenho uma ideia clara do que quero que ele saiba e como quero que ele veja uma nota, um teste, um futuro, uma vida:



* Faz o melhor que podes até saberes melhor. Depois, quando souberes melhor, faz melhor.

14 novembro 2013

Conversas com ele


I
- Ah! Mãe! Já demos o sistema reprodutor.
- Ai sim? Então e o que explicou a professora?
- Disse que as meninas têm faringe...


II
- Mãe, tenho dificuldade nas palavras da família em inglês.
- Ah! Então?! É fácil! “Aunt” é tia, “uncle” é tio, “cousin” é primo...
- Oh! Já sei. Vou escrever na mão.
- Ó Tiago. Não podes fazer isso. A professora vê e anula-te o teste.
- Achas?! Copio, depois peço para ir à casa-de-banho e lavo...


III
- Mãe, dás-me 2 euros para comprar um porta-chaves lá na escola?
- Na escola? Mas estão a vender lá coisas?
- Sim, estão lá umas barraquinhas. Hoje até comprei uma bandoleta para a Mariana. Custou 1 euro.
- 1 euro? Mas como é que arranjaste o dinheiro?
- Olha vendi cromos do futebol repetidos a 15 cêntimos...

13 novembro 2013

Olha

Quando me perguntares
“O que queres que te dê pelo Natal?”
não acredites no “não sei...”
e, muito menos, no “nada”.
Não ouças sequer aquilo que disser e repetir,
deixando a frase vaga,
imaginando-a pendurada em montras de lojas, estantes, caixas, sacos de papel ou outras embalagens brilhantes, de tamanhos diversos.
Faz a pergunta outra vez. Não perguntes o que quero ter.
Tenho tudo.
Quero só ser sempre mais. Mais feliz.

07 novembro 2013

De mim comigo

Os anos passam. Da adolescência para os 20, dos 20 para os 30. De miúda a mãe, de estudante a empregada por conta de outrem, dos diários aos blogues, de Aveiro para Lisboa, de uma vida para outra melhor. Muda-se. Mudam-nos. Mas, sempre que isto acontece, o meu dia deixa de ser dia e é coisa estranha, intensa, antiga, que dá cabo de mim. A cidade fora do lugar. A estação do ano no mês errado. O mundo em contramão.

05 novembro 2013

20 coisas que eu quero que o meu filho
saiba até ao Natal até ao final do ano sempre

#17


O meu avô Júlio fez 90 anos. É o único avô que tenho, apesar de às vezes me parecer que ainda ontem tinha os 4. Tenho um pensamento muito presente, muito recente, de conversar na escola com as amigas e dizer, orgulhosamente, que tinha os 4 avós comigo. Devia ter perto de 10 anos, porque foi nessa idade que perdi o meu avô Manuel, pai da minha mãe, de quem guardo memórias muito intensas mas tão triviais.
O meu avô Manuel era pescador e caçador, um homem alto e rigoroso, que não admitia conversas durante a hora do telejornal, que era sagrada. Uma vez o meu avô preparava as canas, linhas e anzóis para mais uma manhã de pesca e não sei como – a minha memória não chega a esse detalhe – um anzol prendeu-se no meu dedo. Às vezes olho para o meu indicador direito e quase juro que vejo lá uma pintinha, a marca desse momento, apesar de já nem saber, na verdade, qual foi o dedo acidentado.
O meu avô tinha muitos cães de caça que soltava ao domingo, já de espingarda no ombro. Os cães do meu avô tinham nomes que eram números, mais precisamente do dia em que tinham nascido ou chegado lá a casa. Havia o 31, o 13... O meu avô morreu muito novo, numa doença tão rápida, que entre aparecer e desaparecer, pareceu um instante, como se ninguém tivesse tido tempo sequer de reagir.

Lembro muito bem da última vez que o vi, no hospital, extremamente magro e debilitado. Lembro de não querer ver, como se soubesse, nos meus 10 anos, que aqueles minutos me iriam marcar para sempre. Como se pedisse à minha memória para não guardar aquela imagem, como se fosse possível substituí-la por outra imagem qualquer, por aquela do anzol preso no meu dedo, por exemplo. Ou pelos passeios de domingo à tarde: os quatro netos no carro do avô e o avô a acelerar nas lombas para dar aquela impressão esquisita no estômago que todos adorávamos. Ou quando o avô dizia que o piquenique para o passeio ia dentro do bolso. Ou quando fomos almoçar fora e todos recebemos os pratos pedidos e a comida do avô nunca chegou a aparecer. Ou quando era inverno e, na hora de deitar, o avô dobrava três ou quatro cobertores muito grossos e nos tapava com eles, quase nos sufocando de tanto peso e tanto calor. Ou mesmo quando o avô ralhava connosco e mostrava o cinto das calças numa tentativa frustrada de ser ameaçador.
Ou, então, substituir aquela imagem pela do baloiço que o avô uma vez fez no pátio, com uma tábua de madeira e duas cordas. Ou pelo cheiro das sopas de leite com pão que o avô jantava muitas vezes. Ou pelos passeios de cicloturismo lá da terra em que o avô ia sempre na sua bicicleta de corrida. Ou pelo som da sua voz que ainda reconheço. Ou, até, pelo carro de capota de plástico que o avô comprou para passear com os netos e fez com ele tão poucos quilómetros... Ou, ainda melhor, pelas notas de 100 escudos azuis com o Bocage a que eu chamava “o homem do telefone” por me parecer que a sua mão, a segurar a cabeça, era de quem falava ao telefone. Notas que não trocava por nenhuma outra que o avô me oferecesse, com o dobro ou o triplo do valor.
Ou trocar aquela imagem por uma outra qualquer, de um qualquer dia, tempo, momento, verdadeiro ou deturpado pela memória, toda e qualquer coisa, menos aquela, do avô no hospital, tão magro, tão fraco, tão pouco o meu avô. Todas as memórias em vez daquela do avô a morrer.

Ontem telefonei ao meu avô Júlio, a dar os parabéns pelos seus 90 anos. Quando desliguei o telemóvel, depois da breve conversa com ele, o Tiago perguntou “O Avô Júlio tem facebook?”. Eu soltei, de imediato, uma gargalhada e o meu filho explicou: “Era para eu lhe dar os parabéns...”.

O meu Avô Júlio, com os seus 90 anos, tem telemóvel, sport tv, ainda conduz de quando em vez, vive sozinho, lê o jornal de notícias todos os dias, tem a caligrafia mais bonita que alguma vez vi e nunca se esquece de dar os parabéns à família, mesmo que este ano até me tenha telefonado um dia antes do meu aniversário. O meu avô tem 90 anos e uma vida cheia de trabalho, mas também de viagens, de vitórias do seu/nosso clube do coração, de histórias e de amigos. E não, não tem facebook. Talvez para o ano o Tiago já lhe escreva os Parabéns no mural, entretanto o que eu quero que o Tiago saiba é que:




* Os netos são a ligação dos avós com o futuro. Os avós são a ligação dos netos com o passado.

04 novembro 2013

Se eu fosse

um Comunicado à Imprensa

Os “Refúgios de Felicidade” comemoraram há 3 meses 8 anos de existência. Ao longo deste tempo houve alturas de grande produtividade e de algumas paragens. Passaram-se por épocas tranquilas e por períodos bem negros. Dicotomias e diversidades que sempre pautaram a minha escrita e os meus textos, por aqui.

Este blogue é feito mais da minha imaginação do que da minha vida, confundindo-se uma com a outra e vice-versa. Apesar disso, aqui nunca faltou verdade e mesmo dentro das metáfora existe sempre um pedaço do que sou ou do que mostro ou do que quero ser ou do que tento diariamente. Nunca, em tempo algum, usei este endereço para outro fim que não a escrita simples e despreocupada, numa espécie de compromisso comigo de não deixar de mexer nas palavras e nas ideias. Nunca em tempo algum me escondi, usei máscaras ou disfarces. Arrisco que muito mais de metade dos que me leiam sabem quem sou, mesmo nos tempos em que assinava como Beguinha em vez de AR, iniciais do meu verdadeiro nome. Nunca foi, nem nunca será, minha preocupação esconder a minha identidade ou abafá-la, porque nunca este sítio serviu para ofender alguém, atacar alguém, levantar suspeições sobre alguém. Aqui sempre se falou de tudo encabeçado pelo “eu”, num assumir franco das minhas fragilidades e dos refúgios mais simples da minha felicidade.

Para estes Refúgios tenho sempre muitas ideias, muita vontade e pouca concentração. O tempo a mais ou os dias a menos dispersam-me...
Na história do blogue junta-se a história de vida do meu filho, aos olhos do que sou e do que me tornei. Este espaço será sempre dele e para ele, um diário de bordo, um esconderijo de memórias. Por isso é que continua. Sempre a merecer mais, melhor. Sempre a perguntar quando volto, quando despejo da pasta de rascunhos tantos textos, à primeira vez, impublicáveis. Sem promessas, quase sem regras, sem datas nem horários, sem prazos nem contagens...
Continuamos a cruzar-nos aqui.

08 agosto 2013

06 agosto 2013

Coisas das saudades



As saudades cheiram a espuma do banho. Têm a cor da tua pele, da marca dos calções da praia a meio da coxa. Sabem a bolachas com pepitas de chocolate espalhadas no sofá, entre as almofadas da sala, nas juntas dos mosaicos do chão.

As minhas saudades são feitas de abraços, de beijos lambuzados pelas tuas bochechas e pelas tuas mãos - pequeninas, redondas, morenas. As saudades cantarolam comigo os genéricos dos programas que vês no teu canal da tv.
Fazem-me rir com algumas frases disparatadas. Apertam o peito numa falta sem fim. Lembram momentos maus, de confitos e ralhetes, de birras e choros.

As saudades tornam-me refém dos castigos, das palavras erradas nos momentos incertos. As saudades chegam e minam tudo ao redor. Pesam no silêncio. Nos ombros ou no colo. Falam baixinho junto ao ouvido. Fazem cócegas no pescoço. Ficam.

As saudades de hoje querem-te bem. A aproveitar os dias como se fossem únicos. A viajar comigo mesmo longe, deste lado do mar.
As saudades amanhã serão piores. Falarão mais alto, soprando-me nos cabelos e abrindo-me os olhos à força.

Não há nada pior do que temer as saudades. Não as deixar chegar... não as dizer.
Depois, quando voares, quando voltares, as saudades serão lembrança e as saudades serão vontade... de as matar.


Ilustração

29 julho 2013

O meu filho em 8 pontos
a escassas semanas de ter 8 anos



1. Ao final da tarde, entre a escola e casa, digo-lhe no carro: “Tive saudades tuas durante o dia” e ele diz: “Eu não. Ainda esta manhã te vi!”

2. É doente pelo Benfica. Sabe nomes completos, peso e altura de jogadores da 3ª divisão distrital. Insiste que o golo do Moutinho estava fora de jogo e, com a mania que é o Gabriel Alves da era moderna, diz enquanto joga psp: “Grande auto-golo!”

3. Pergunta-me muitas vezes porque é que de vez em quando tem a pilinha mole e outras vezes... nem por isso.

4. Acha que a Clara de Sousa, no Jornal da Noite, é que determina o tempo que vai estar no dia seguinte, quando “coloca” no mapa sol, chuva, nuvens, etc.

5. Descobriu o youtube e ouve charadas ao governo e canções com piadas futebolísticas, para além de Tony Carreira, José Cid e Tonicha.

6. Dorme rodeado de uns 8 ou 9 bonecos, colocados em redor do corpo e da cabeça, preocupando-se se estão tapados e confortáveis.

7. É mais conhecido no bairro onde vivemos do que o Padre, falando com toda a gente como se fossem velhos amigos.

8. É cada dia mais crescido, mais bonito, mais divertido, mais inesperado e mais meu.



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