08 dezembro 2013
06 dezembro 2013
Por acaso
Por acaso adoro surpresas.
E tenho ideias fantásticas para surpresas que me podiam fazer.
Desde sempre que apelo a festas de anos surpresa, daquelas que saem pessoas de dentro de bolos, confetes coloridos por todo o lado e uma banda a tocar os "parabéns a você" com um coro de gospel.
Por acaso estou a exagerar. Mas adoro ser surpreendida. Mesmo numa altura, ou numa idade, em que até parece que já nada nos surpreende.
Por acaso, como todas as crianças, também vivi aquela fase de procurar as prendas de Natal lá por casa, mal disfarçadas no roupeiro ou debaixo da cama, e espreitar... só um pouquinho, até ver tudo.
Por acaso, o problema disto são as expectativas. Ao esperar-se ser surpreendido, pouca coisa, realmente, nos surpreende. E isso não deve ser nada por acaso.
E tenho ideias fantásticas para surpresas que me podiam fazer.
Desde sempre que apelo a festas de anos surpresa, daquelas que saem pessoas de dentro de bolos, confetes coloridos por todo o lado e uma banda a tocar os "parabéns a você" com um coro de gospel.
Por acaso estou a exagerar. Mas adoro ser surpreendida. Mesmo numa altura, ou numa idade, em que até parece que já nada nos surpreende.
Por acaso, como todas as crianças, também vivi aquela fase de procurar as prendas de Natal lá por casa, mal disfarçadas no roupeiro ou debaixo da cama, e espreitar... só um pouquinho, até ver tudo.
Por acaso, o problema disto são as expectativas. Ao esperar-se ser surpreendido, pouca coisa, realmente, nos surpreende. E isso não deve ser nada por acaso.
05 dezembro 2013
Uma carta para... #5
a minha Sobrinha
Maria,
No dia em que tu nasceste eu estava longe e mesmo os telefonemas constantes não me fizeram deixar de sentir a distância. Na verdade, acho que naquele dia – como nunca – senti isso mesmo: a distância. Uma lonjura física, geográfica, capaz de se tornar emocional e quase saber a solidão.
Conheci-te e descobri-te nas nossas cumplicidades: nos amigos imaginários que partilhas comigo, quando era eu que tinha a tua idade e passava horas a brincar com pessoas transparentes. Vejo-me nos teus jogos de menina, feitos de cozinhas em miniatura, de roupas de bonecas que se vestem ao contrário, dos cabelos de plástico que se cortam muito tortos, acabando com as franjas numa tesourada. Lembro-me nas aulas que dás: tu a professora e as bonecas a turma, a aprenderem letras e números, a fazerem testes fictícios, com certos e errados, elogios e raspanetes.
Criei contigo, nestes 6 anos de tia e sobrinha, rituais que preservamos tão nossos: as pipocas à noite nas férias de verão no Algarve; a tua mão pequenina, de dedos muito fininhos, enlaçada na minha quando vamos com o balde buscar água ao mar; o açúcar da bola de berlim a encher-te a cara, a misturar-se com a areia, a colar-se às bochechas, às mãos, às pernas, ao corpo todo; o modo como ris, em gargalhadas soluçadas e dizes "ai... ai..." no final.
Tornei-me tia depois de ser mãe, certa de que sabia bem de que era feita tal coisa, de ser algo para alguém nosso, do nosso sangue, a parte melhor do melhor que tenho, a minha irmã. Só depois percebi, e aprendi, que ser tua tia, que tu seres a minha única sobrinha, é outra coisa. Entre nós duas há, apenas, espaço para estar tudo bem, para sermos ambas meninas e ambas tranquilas, sonhadoras e imaginativas, perdidas em brincadeiras solitárias de famílias que inventamos e de histórias que quase vivemos, como nossas.
Tu, do alto dos teus 6 anos, especialmente quando usas os teus sapatos de salto, que fazem barulho como as senhoras grandes, pintas a cara com brilhantes e usas a tua coroa de princesa, ensinaste-me a pertencer. A pertencer sem pedirem nada em troca, sem testes, sem ser esperado ou expectável que te ensine alguma coisa, que te molde, que te guie. Contigo, não preciso de estar “à altura”, por eu ser adulta e tu criança, para poder ficar, simplesmente, à tua altura. Ser pequena como dantes, fechada no quarto sozinha, a viver muitos dias diferentes lá dentro, ou antes, com tantas ideias dispersas dentro da cabeça a borbulhar e os olhos bem abertos para saber o que se passa, quase sem falar.
Tu danças. Giras sobre ti própria como eu fazia. Tu apresentas espetáculos frente ao sofá da sala. Seguras o microfone, abres os braços e cantas. Como eu fiz.
Penso muitas vezes, numa atitude talvez infantil, que à medida que vais crescendo te vais parecendo mais comigo. Imagino que vais gostar de livros, de escrever, de ver filmes e séries, de inventar histórias e ficar dentro delas, inconsequentemente. E penso até que as coisas que não fiz e que me escaparam, em alguma idade, podem vir a ser tuas. Numa tentativa egoísta de colocar nas tuas pernas, no teu futuro, o que poderia ter sido e não fui.
Mas, na verdade, o que eu quero é isto: quando cresceres, quando mudares, gostes do que gostares, sejas o que quiseres, não deixes que a tua imaginação mande mais do que a verdade, não deixes que aquilo que viveres, com gente transparente, nas histórias da tua cabeça, te arranhe a pele, te fira por dentro.
E que eu, um dia, ou dia a dia, ou de idade em idade, saiba estar “à altura” de te explicar em que momento as ilusões ganham um “de” antes de tudo. Que eu, adulta e tu criança, adolescente, jovem, mulher, te saiba mostrar o melhor dos sonhos que somos, sabendo bem até onde podem eles crescer, até onde os podemos deixar permanecer, antes de se transformarem nas marcas que trazemos na vida.
Parabéns Maria.
Da tua tia.
03 dezembro 2013
2/3 do meu cérebro são letras de canções
"Minha alegria, minha amargura / Minha coragem de correr contra a ternura / Minha ousadia, minha aventura / Minha coragem de correr contra a ternura"
02 dezembro 2013
29 novembro 2013
Há 3 coisas que...
adoro nas sextas-feiras:
1. aquela sensação que o fim-de-semana é infinito e nele vai caber tudo o que planeamos e muito mais
2. aquele pensamento manhoso que tudo o que não conseguimos fazer na semana que acaba não virá mal ao mundo que passe para a semana seguinte
3. e porque é o dia perfeito para ouvir e partilhar esta música deliciosa do maravilhoso Cícero Lins
1. aquela sensação que o fim-de-semana é infinito e nele vai caber tudo o que planeamos e muito mais
2. aquele pensamento manhoso que tudo o que não conseguimos fazer na semana que acaba não virá mal ao mundo que passe para a semana seguinte
3. e porque é o dia perfeito para ouvir e partilhar esta música deliciosa do maravilhoso Cícero Lins
28 novembro 2013
Coisas da tolerância
O auge da irracionalidade aparece quando começa um jogo de futebol, ou se calhar quando acaba. Especialmente, quando perdemos. Ou pior ainda: quando os outros, os inimigos, a cor adversária, o centro de todas as nossas frustrações, ganham. Aí sim! A irracionalidade aparece. Serve-se do nosso corpo e dos nossos argumentos para se fazer ouvir.
Vivi durante muito tempo o poder da irracionalidade futebolística, habituada a ser de um clube que ganha muito, e centrando raivas num outro mais unânime. Até nisso o Tiago me tornou mais tolerante. Quando olho para ele, “benfiquista até morrer”, sempre a sofrer, a elogiar os jogadores dos outros, os treinadores dos outros, as vitórias dos outros, mas a saborear tudo o que é seu, vejo, ali, em metro e pouco de gente, uma grande ironia da vida.
Como se tudo o que mais desejássemos acontecesse, precisamente, no seu contrário, num despique metafórico entre o que o mundo nos dá e até onde conseguimos ir.
Porque ser mãe é muito voltar atrás e repensar tudo outra vez, é deixar as certezas absolutas por tentativas diárias e acertos constantes, é trocar obrigações por cedências, é dizer “pronto, desta vez pode ser” mas o “desta vez” ser um “quase sempre”.
Ser mãe tornou-me ainda mais descrente do “é assim porque é assim e será sempre assim”, para me fazer uma seguidora fiel do “hoje tentamos desta maneira”.
Educar – e que dificuldade tenho em dizer que faço isso, que sou capaz disso - é um jogo de equilíbrios e não um jogo de forças. É um constante apelo à capacidade de negociação. É um combate intenso com mais tréguas que assaltos. Mas é, acima de tudo, uma relação de iguais e de respeito.
Porque, na vida, como no futebol, lá por eu ser do Porto e o Tiago do Benfica, os meus gostos não têm de estar refletidos nas convicções dele. Lá por não marcarmos na mesma baliza, não quer dizer que não joguemos para o mesmo lado e que não festejemos juntos. Entre mim, a mãe, e ele, o filho, há dois papéis mas não tem de haver dois lados.
Portanto, há 8 anos, não acreditaria que iria à loja da Adidas escolher camisolas oficiais do Benfica para oferecer ao Tiago, que iria sorrir (por dentro) quando ele grita “golo”, que iria levá-lo uma semana inteira ao Estádio da Luz para o campo de férias e ainda responder, com um sorriso, às “saudações benfiquistas” dos monitores. E fazer tudo isso, agora, não me faz menos adepta do clube a que pertenço, nem menos convicta do que acredito, nem mais fraca enquanto pessoa ou sequer mais forte enquanto mãe. Faz-me apenas real. Real e mais tolerante. Certa de que o Tiago, por ser meu filho, não tem de ser a minha cópia, nem o meu reflexo. Tem de ser como é. Porque é tudo isso que eu admiro nele: o meu contrário, o meu melhor. Mesmo torcendo pelos outros.
Ilustração
27 novembro 2013
Equilíbrio
Por um lado,
num puro ato do acaso ou do azar, deixei cair o telemóvel na casa-de-banho, onde numa pirueta acrobática mergulhou num resto de água que descia do bidé para o cano do esgoto. Sim. Morreu. E era o objetozinho-dos-meus-olhos-e-do-meu coração!
Por outro lado,
hoje tive – até ao momento – 852 visitas a estes refúgios, onde a felicidade está, fica, se guarda e se renova, onde cada um a vê.
num puro ato do acaso ou do azar, deixei cair o telemóvel na casa-de-banho, onde numa pirueta acrobática mergulhou num resto de água que descia do bidé para o cano do esgoto. Sim. Morreu. E era o objetozinho-dos-meus-olhos-e-do-meu coração!
Por outro lado,
hoje tive – até ao momento – 852 visitas a estes refúgios, onde a felicidade está, fica, se guarda e se renova, onde cada um a vê.
25 novembro 2013
20 coisas que eu quero que o meu filho
saiba até ao Natal até ao final do ano sempre
#18
Nunca fui aluna de 5's nem de 100%. Era aluna dos 4, um ou outro 3 e um ou outro 5. Sempre estudei, fiz os trabalhos de casa, tinha os cadernos impecáveis, com sublinhados a várias cores e a letra muito redondinha. Nunca os meus pais foram chamados ao colégio porque me portei mal ou não cumpri as regras. Nunca nenhum professor me pôs de castigo ou escreveu recado para casa. Na comparação direta com a mana, cinco anos mais velha, ela era a rebelde que tirava 5 com facilidade, eu era a certinha que estudava e, por isso, tinha boas notas.
No 9º ano saí do colégio para a escola secundária, onde vivi três dos melhores anos da minha vida. Nunca irei esquecer a turma, os professores, as histórias dos intervalos, a adolescência ao rubro e uma escola grande de mais para uma menina do colégio, que acabou por crescer ali e fazer-se igual aos demais. Estão condensadas naqueles três anos algumas das aprendizagens mais fortes que tenho, das que ficam para sempre, das que ainda fazem rir e chorar quando se lembram. Estão guardadas, naquele lugar, algumas das amizades fundamentais para me fazer hoje como sou, mesmo que muitas delas se tenham diluído com as coisas da vida.
Apesar da idade, da mudança para uma escola onde quase tudo era permitido, mantive-me sempre a tentar o melhor, que por ser o melhor de mim podia não ser o melhor de todos.
Porque esta coisa de ser o melhor é uma das inquietudes presentes lá por casa, num tempo em que o Tiago no 3º ano tem testes durante duas semanas, com listas infindáveis de matéria para estudar e onde o ranking das notas é assunto falado, discutido, pisado e repisado pelos pais no recreio ou no lado de fora do portão, e pelos filhos na sala de aula, à mesa do refeitório ou no carro de volta a casa.
Ontem, enquanto jogava o Fifa14 na PSP, o Tiago disse: “Mãe, tenho medo dos testes”.
Respondi-lhe que, com certeza, nenhum teste lhe ia morder, mas guardei o assunto comigo, visto à luz da minha história, quando era eu que tinha 8 anos, andava no 3º ano e tinha teste na manhã seguinte.
O descomprometimento total face a tamanho desafio está marcado na minha história, enquanto na história do Tiago estão tabelas gigantes de determinantes para memorizar e ainda saber, afinal, se são determinantes artigo, possessivos ou demonstrativos.
Num mundo em que todos querem ser os melhores, o Tiago sente-se frustrado por ter “muito bom” e não ter “excelente” e chegou a chorar, há poucas semanas, por “só” ter tido 96% a Língua Portuguesa.
Num mundo em que todos vemos coartados os sonhos que guardamos anos a fio, o Tiago ouve falar dos números do desemprego no telejornal e diz-me que “quando chegar à minha altura eu acho que também não vou ter emprego...”.
Num mundo em que tudo é apressado, roubado, esticado, condensado, a competição começa com as notas dos testes aos 8 anos e termina onde? E termina como?
Hoje, para o meu filho, tenho mais perguntas que respostas, tenho mais temores das minhas próprias frustrações do que certezas, mas tenho uma ideia clara do que quero que ele saiba e como quero que ele veja uma nota, um teste, um futuro, uma vida:
Nunca fui aluna de 5's nem de 100%. Era aluna dos 4, um ou outro 3 e um ou outro 5. Sempre estudei, fiz os trabalhos de casa, tinha os cadernos impecáveis, com sublinhados a várias cores e a letra muito redondinha. Nunca os meus pais foram chamados ao colégio porque me portei mal ou não cumpri as regras. Nunca nenhum professor me pôs de castigo ou escreveu recado para casa. Na comparação direta com a mana, cinco anos mais velha, ela era a rebelde que tirava 5 com facilidade, eu era a certinha que estudava e, por isso, tinha boas notas.
No 9º ano saí do colégio para a escola secundária, onde vivi três dos melhores anos da minha vida. Nunca irei esquecer a turma, os professores, as histórias dos intervalos, a adolescência ao rubro e uma escola grande de mais para uma menina do colégio, que acabou por crescer ali e fazer-se igual aos demais. Estão condensadas naqueles três anos algumas das aprendizagens mais fortes que tenho, das que ficam para sempre, das que ainda fazem rir e chorar quando se lembram. Estão guardadas, naquele lugar, algumas das amizades fundamentais para me fazer hoje como sou, mesmo que muitas delas se tenham diluído com as coisas da vida.
Apesar da idade, da mudança para uma escola onde quase tudo era permitido, mantive-me sempre a tentar o melhor, que por ser o melhor de mim podia não ser o melhor de todos.
Porque esta coisa de ser o melhor é uma das inquietudes presentes lá por casa, num tempo em que o Tiago no 3º ano tem testes durante duas semanas, com listas infindáveis de matéria para estudar e onde o ranking das notas é assunto falado, discutido, pisado e repisado pelos pais no recreio ou no lado de fora do portão, e pelos filhos na sala de aula, à mesa do refeitório ou no carro de volta a casa.
Ontem, enquanto jogava o Fifa14 na PSP, o Tiago disse: “Mãe, tenho medo dos testes”.
Respondi-lhe que, com certeza, nenhum teste lhe ia morder, mas guardei o assunto comigo, visto à luz da minha história, quando era eu que tinha 8 anos, andava no 3º ano e tinha teste na manhã seguinte.
O descomprometimento total face a tamanho desafio está marcado na minha história, enquanto na história do Tiago estão tabelas gigantes de determinantes para memorizar e ainda saber, afinal, se são determinantes artigo, possessivos ou demonstrativos.
Num mundo em que todos querem ser os melhores, o Tiago sente-se frustrado por ter “muito bom” e não ter “excelente” e chegou a chorar, há poucas semanas, por “só” ter tido 96% a Língua Portuguesa.
Num mundo em que todos vemos coartados os sonhos que guardamos anos a fio, o Tiago ouve falar dos números do desemprego no telejornal e diz-me que “quando chegar à minha altura eu acho que também não vou ter emprego...”.
Num mundo em que tudo é apressado, roubado, esticado, condensado, a competição começa com as notas dos testes aos 8 anos e termina onde? E termina como?
Hoje, para o meu filho, tenho mais perguntas que respostas, tenho mais temores das minhas próprias frustrações do que certezas, mas tenho uma ideia clara do que quero que ele saiba e como quero que ele veja uma nota, um teste, um futuro, uma vida:
* Faz o melhor que podes até saberes melhor. Depois, quando souberes melhor, faz melhor.
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