04 novembro 2013

Se eu fosse

um Comunicado à Imprensa

Os “Refúgios de Felicidade” comemoraram há 3 meses 8 anos de existência. Ao longo deste tempo houve alturas de grande produtividade e de algumas paragens. Passaram-se por épocas tranquilas e por períodos bem negros. Dicotomias e diversidades que sempre pautaram a minha escrita e os meus textos, por aqui.

Este blogue é feito mais da minha imaginação do que da minha vida, confundindo-se uma com a outra e vice-versa. Apesar disso, aqui nunca faltou verdade e mesmo dentro das metáfora existe sempre um pedaço do que sou ou do que mostro ou do que quero ser ou do que tento diariamente. Nunca, em tempo algum, usei este endereço para outro fim que não a escrita simples e despreocupada, numa espécie de compromisso comigo de não deixar de mexer nas palavras e nas ideias. Nunca em tempo algum me escondi, usei máscaras ou disfarces. Arrisco que muito mais de metade dos que me leiam sabem quem sou, mesmo nos tempos em que assinava como Beguinha em vez de AR, iniciais do meu verdadeiro nome. Nunca foi, nem nunca será, minha preocupação esconder a minha identidade ou abafá-la, porque nunca este sítio serviu para ofender alguém, atacar alguém, levantar suspeições sobre alguém. Aqui sempre se falou de tudo encabeçado pelo “eu”, num assumir franco das minhas fragilidades e dos refúgios mais simples da minha felicidade.

Para estes Refúgios tenho sempre muitas ideias, muita vontade e pouca concentração. O tempo a mais ou os dias a menos dispersam-me...
Na história do blogue junta-se a história de vida do meu filho, aos olhos do que sou e do que me tornei. Este espaço será sempre dele e para ele, um diário de bordo, um esconderijo de memórias. Por isso é que continua. Sempre a merecer mais, melhor. Sempre a perguntar quando volto, quando despejo da pasta de rascunhos tantos textos, à primeira vez, impublicáveis. Sem promessas, quase sem regras, sem datas nem horários, sem prazos nem contagens...
Continuamos a cruzar-nos aqui.

08 agosto 2013

06 agosto 2013

Coisas das saudades



As saudades cheiram a espuma do banho. Têm a cor da tua pele, da marca dos calções da praia a meio da coxa. Sabem a bolachas com pepitas de chocolate espalhadas no sofá, entre as almofadas da sala, nas juntas dos mosaicos do chão.

As minhas saudades são feitas de abraços, de beijos lambuzados pelas tuas bochechas e pelas tuas mãos - pequeninas, redondas, morenas. As saudades cantarolam comigo os genéricos dos programas que vês no teu canal da tv.
Fazem-me rir com algumas frases disparatadas. Apertam o peito numa falta sem fim. Lembram momentos maus, de confitos e ralhetes, de birras e choros.

As saudades tornam-me refém dos castigos, das palavras erradas nos momentos incertos. As saudades chegam e minam tudo ao redor. Pesam no silêncio. Nos ombros ou no colo. Falam baixinho junto ao ouvido. Fazem cócegas no pescoço. Ficam.

As saudades de hoje querem-te bem. A aproveitar os dias como se fossem únicos. A viajar comigo mesmo longe, deste lado do mar.
As saudades amanhã serão piores. Falarão mais alto, soprando-me nos cabelos e abrindo-me os olhos à força.

Não há nada pior do que temer as saudades. Não as deixar chegar... não as dizer.
Depois, quando voares, quando voltares, as saudades serão lembrança e as saudades serão vontade... de as matar.


Ilustração

29 julho 2013

O meu filho em 8 pontos
a escassas semanas de ter 8 anos



1. Ao final da tarde, entre a escola e casa, digo-lhe no carro: “Tive saudades tuas durante o dia” e ele diz: “Eu não. Ainda esta manhã te vi!”

2. É doente pelo Benfica. Sabe nomes completos, peso e altura de jogadores da 3ª divisão distrital. Insiste que o golo do Moutinho estava fora de jogo e, com a mania que é o Gabriel Alves da era moderna, diz enquanto joga psp: “Grande auto-golo!”

3. Pergunta-me muitas vezes porque é que de vez em quando tem a pilinha mole e outras vezes... nem por isso.

4. Acha que a Clara de Sousa, no Jornal da Noite, é que determina o tempo que vai estar no dia seguinte, quando “coloca” no mapa sol, chuva, nuvens, etc.

5. Descobriu o youtube e ouve charadas ao governo e canções com piadas futebolísticas, para além de Tony Carreira, José Cid e Tonicha.

6. Dorme rodeado de uns 8 ou 9 bonecos, colocados em redor do corpo e da cabeça, preocupando-se se estão tapados e confortáveis.

7. É mais conhecido no bairro onde vivemos do que o Padre, falando com toda a gente como se fossem velhos amigos.

8. É cada dia mais crescido, mais bonito, mais divertido, mais inesperado e mais meu.



Ilustração

21 junho 2013

Conversas com ele

Tiago joga à bola na sala enquanto faz o relato de cada jogada em altos berros:

- Goooooooooooooolllllllloooooooooooooo do Beeeeeeennnficaaaaaaaaaaaaa!
- Tiago, por favor fala mais baixo. Estou a ficar com dores de cabeça.
- Ah, pois. Se fosse do Porto já não te importavas.

02 maio 2013

Conversas com ele

I
- Sabes Mãe, já não namoro com a Mariana. Acabei tudo. 
- Ai sim?! Então mas como é que lhe disseste?
- Oh! Como não tinha coragem, pedi ao António.
- A sério? Mas devias falar com ela... explicar-lhe. Porque é que já não queres namorar com ela?
- Porque já não gosto dela. Agora quero é ser um homem solteiro e ter tempo para os amigos.

II
- Então, Tiago, agora que já não tens namorada, todos os teus amigos também estão solteiros?
- Não, o António namora com a Mafalda.
- E o Pedro?
- Ah o Pedro não namora com ninguém. Nós achamos que ele é perfeito para a Lara, mas eles têm muitas divergências...

III
- Hoje ao almoço na escola vomitei a alface.
- Então porquê?
- Oh! Estava cheia de marmelada.
- Marmelada?! Acho isso muito estranho... era de que cor?
- Era assim aquele molho branco ou amarelo. Sabes?
- Tiago, não seria maionese?

IV
Na auto-estrada a caminho da casa dos avós:
- Mãe, ainda falta muito?
- Um bocadinho.
- Mãe, ainda falta muito? São quantos quilómetros?
- Ó Tiago falta o que faltar... sei lá... não sou eu que faço as estradas.
- Olha mas devias, que isso de fazer livros não dá dinheiro nenhum.

V
- Mãe, há um menino lá na escola muito estranho...
- Estranho como?
- Bateu na cabeça da Leonor e empurrou a Constança.
- Mas é da tua turma?
- Não, é muito mais velho.
- E porque é que ele fez isso?
- Porque não gosta de ouvir a palavra “chiu”.
- Hã?! Não gosta que o mandem calar?
- Oh sabes o que é?! A professora já nos explicou. Não podemos ligar, porque ele está a passar por uma fase complicada, que é a adolescência.

VI
- Mãe, vamos jogar à verdade ou “concuência”?
- Verdade ou consequência, sim. Onde é que aprendeste isso?
- Vi na televisão. Vá, eu começo. Queres verdade ou “concuência?”
- Verdade.
- Se não namorasses com este barbudo, quem é que escolhias?

09 abril 2013

Conversas com ele

Sei que o meu filho é mesmo melhor a matemática do que a língua portuguesa quando, por exemplo, temos conversas como esta:

- Mãe, fizemos duas fichas de matemática. Em 18 contas adivinha quantas errei?

- 18?! - digo eu a provocá-lo.

- Oh! Achas? Só errei uma.

- Boa! E eram contas de quê?

- Umas eram para subtrair e outras para "aditir".