03 fevereiro 2013

Conversas com ele

I

- Mãe, sabes que há animais que sabem que vão ser mortos?
- Hã?! Sabem?
- Sim, então, por exemplo, os patos, para fazer arroz de pato... e as galinhas também para fazer comida.
- Hummm.
- Só as vacas é que não.
- Não sabem?!
- Não. Não são mortas. Senão não davam leite.

II

A ver uns desenhos animados:
- Mãe, eles falam na avó mas a cara da avó nunca aparece...
Eu olho para o ecrã e ele acrescenta:
- Ah! Já sei. Deve estar mal desenhada... então não mostram...

III

- Mãe, quando é tu fazes anos que eu já não me lembro?
- 1 de setembro.
- Ah! Então quer dizer: fazias anos e ias logo para a escola? Era essa a prenda que os teus pais te davam?!

04 janeiro 2013

20 coisas que eu quero que o meu filho
saiba até ao Natal até ao final do ano sempre

#15


Para o Tiago eu sou má porque não lhe dou pacotes inteiros de esparguete cru para ele comer antes do jantar. Sou má porque ganhei ao Uno em vez dele. Sou má porque mudei o canal de televisão após quase 4 horas seguidas de Disney. Sou má porque não lhe compro qualquer coisa que ele definitivamente não precisa. Sou má porque são horas de dormir e só li duas histórias em vez do livro inteiro.

Ontem, ao final da tarde, a história repetida e cansativa do “És má”, como resposta a todos os meus nãos e aos mais variados contratempos que lhe acontecem, esteja eu ou não envolvida, deu lugar a uma conversa séria entre nós dois, colados à lareira ainda a fazer as primeiras brasas.

Na sua maneira muito própria de dialogar, o Tiago manteve-se imperscrutável, fixado no ecrã da televisão, ouvindo-me como se eu não falasse, entendendo-me como se não me ouvisse. Expliquei-lhe, de diversas formas, que ele passar os dias a chamar-me má me deixava muito triste e que, ainda por cima, era muito injusto, porque o tratava bem e fazia tudo para ele estar bem disposto e ele, simplesmente, maltratava-me. Usei de palavras diferentes para dizer sempre o mesmo, exagerando em alguns termos e expressões, repetindo-me exaustivamente. Tudo no mesmo tom calmo e compassado, soletrando as palavras com cuidado para que se tornassem mais fortes, mais percetíveis.
Depois, mostrando no rosto como me sentia ferida e cansada, fui fazer o jantar e mantive-me calada na cozinha, a mexer o tacho do arroz.

Minutos depois o Tiago chamou-me e disse: “Mãe, desculpa. Desculpas?”, insistindo muitas vezes na pergunta, quase a choramingar, enquanto eu o enchia de beijinhos e dizia “Sim. Desculpo sim, claro!”.

O Tiago, no seu modo de ser arisco e inquieto, também para para pensar sobre as coisas que lhe dizem. Pode nem sempre cumprir, pode nem sempre admitir, mas o Tiago tem 7 anos e sabe pedir desculpa, sabe distinguir o que faz de bem e de mal, mesmo quando um lhe convém mais do que o outro. Eu lembro com ele como voltar atrás são passos em frente. Eu aprendo com ele como admitir não é ser vencido. Eu ensino-lhe a ele...


*




* Tem cuidado com as tuas palavras, uma vez ditas, elas apenas podem ser perdoadas, nunca esquecidas.

01 janeiro 2013

20 coisas que eu quero que o meu filho
saiba até ao Natal até ao final do ano sempre

#14


Se há coisa que mesmo aqueles que me conhecem pouco, ou mal, sabem sobre mim é que sou muito calma. A calma nem sempre é uma qualidade. Explodir e extravasar deve ser algo eficaz em certas situações da vida. Eu, para chegar a um limite, percorro muitos caminhos alternativos. Gasto nas tentativas diárias todas as possibilidades. Compreendo quase tudo. Tento, só mais uma vez. Calo-me. Deixo passar.
Tudo inebriada por essa calma, pela minha calma.

Uso-a até à última réstia nas teimosias do Tiago. Até parece que, de vez em quando, o ajudo a esticar a corda em vez de a cortar, de vez. O truque, antes da combustão, é não ouvir. É desviar. Mas por vezes é ceder. Só daquela vez. E de outra ainda. Fazendo de conta, para mim própria, que desconheço a importância do "não" ou a falta que ele lhe faz, para crescer.

Quando se vai a calma, se esgota a última réstia de um depósito extra, quando a corda rebenta e não há espaço para uma última cedência... eu grito. Os gritos doem-me na garganta e cansam-me no final de um dia. O Tiago definitivamente ouve-os. Nós dois, juntos, misturamos o regresso à minha calma com as desculpas dele e prometemos, um ao outro, com juras do coração, da próxima vez cumprirmos o pacto: eu não grito e ele não me faz gritar ou ele obedece e fim de história.

Contudo, nada está previamente escrito, ensaiado e perspetivado. Ser Mãe - como ser Filho - também se faz de tudo isso: de não ouvir e de falar mais alto, de não obedecer e de ser obrigado a tal.

Numa das muitas tentativas de contagiar o Tiago com a minha calma comprámos juntos o livro "Quando a Mãe grita...", uma história amorosa de um Pinguim que se parte em pedaços quando a Mãe grita com ele, fazendo com que ela vá pouco a pouco juntando-lhe as partes e reconstruindo-o.

Sinceramente, não sei quem se desfaz em pedaços mais pequenos quando eu grito: eu ou o Tiago. Mas sei que, quando acontece, corro a buscar o livro e leio-o. Na verdade, o que está acordado é ele fazer parte da leitura de antes de dormir num dia em que a nossa relação de Mãe e Filho não foi das mais bem sucedidas.

Então, o blogue "Mum's the boss" lançou um novo desafio para este janeiro: "Berra-me baixo", parte das suas ideias de parentalidade positiva que eu sigo, admiro e tento cumprir diariamente. O objetivo é esse mesmo: durante um mês treinar o auto-controlo, a voz e a firmeza.

A minha missão começa amanhã, com o regresso do Tiago e prestes a voltar a rotina do escola - trabalho - escola - casa. Um mês inteiro a berrar... baixinho, a apertar laços de uma relação sem ano, sem limites, sem barreiras.

Tiago: cumpre a tua parte.
Eu já estou dentro da minha.





À parte:
Feliz 2013 para todos os que me leem, os mesmos que me enviam mails e comentários por aí pedindo para escrever sempre, para escrever mais. Obrigada por terem ajudado a fazer de 2012 um dos anos mais bem sucedidos dos Refúgios de Felicidade.



29 dezembro 2012

20 coisas que eu quero que o meu filho
saiba até ao Natal até ao final do ano

#13

Há pouco tempo atrás o meu ex-marido e pai do Tiago publicou numa rede social um texto sobre mim, ou para mim. Uma espécie de agradecimento ou de reconhecimento por ter tentado - ou conseguido - ajudá-lo numa dificuldade que passava - ou numa das dificuldades rotativas do dia-a-dia de todos nós. O texto foi muito comentado, "gostado" e aprovado e desde pessoas minhas amigas a pessoas nossas amigas muitos foram os que me falaram daquelas palavras, acrescentando a comoção que lhes tinha causado e como ficavam felizes por as coisas serem como são.
A mim, o texto completamente inesperado, apenas reforçou aquilo que de mais genuíno penso acerca de ser Pai e Mãe de um filho sem se ser um casal. Coisa que só se pode saber depois de o ser.
O Tiago diz, orgulhosamente, que o Pai e a Mãe são amigos e a criança feliz e extrovertida que todos conhecem começa nessa certeza para acabar na forma natural como ele, desde sempre, convive com as idas para casa do Pai e as vindas para casa da Mãe, e vice-versa.
O Tiago com certeza adivinha as conversas de meias-horas que o Pai e a Mãe têm ao telefone, trocando histórias que se passam com ele, rindo das suas "tiradas" engraçadas ou inventando estratégias para lidar com as coisas mais complicadas.
O Tiago sabe que eu sou bem-vinda a qualquer hora a casa do Pai como ele é bem-vindo na minha, até porque ambas são casas dele.

Num dia destes durante o banho matinal o Tiago disse-me: "Mãe, tenho tantas saudades do Pai..." e pouca coisa me fez sentir melhor na vida do que dizer-lhe "Mas hoje é dia de ires para o Pai!" numa entoação animada que acompanhou a forma como ele abriu os olhos e confirmou: "A sério?".

O Tiago aprendeu a ser feliz sem ter o Pai e a Mãe na mesma casa. E nós dois aprendemos a sermos amigos, arrumando o passado onde ele deve estar e reconstruindo-nos enquanto Pai e Mãe de um mesmo filho. Como toda a gente sabe, um filho não faz parte de um casamento, faz sim parte de uma família. E, quando essa família se altera porque um casamento acaba, mudam sentimentos, moradas, estados, rotinas, mas não muda a falta que cada um faz, com a sua personalidade, com os seus trunfos e com as suas fragilidades.

As saudades que o Tiago traz minhas quando chega da casa do Pai são proporcionais às saudades que leva dele quando daqui sai. Tal e qual como a atenção, a admiração e o amor incondicional que recebe dos dois lados, das duas pessoas mais importantes que ele tem no Mundo e que coloca sempre no mesmo degrau, lembrando-nos ele, tão naturalmente, onde está o verdadeiro sentido de ser e viver em família.











28 dezembro 2012

20 coisas que eu quero que o meu filho
saiba até ao Natal até ao final do ano

#12





há sempre um sítio pra fugir, se queres saber
um sítio onde podes descansar.
há sempre alguém pra te agarrar,
pra te esconder.
se vais cair eu vou-te ver antes da dança,
antes da fuga, eu sei-te ver.
antes do tempo te mudar eu vou saber,
antes da névoa te vestir e te levar,
há um sítio onde o escuro não chegou pra onde podes ir,
um rio pra libertar.
 há sempre alguém pra te salvar,
se queres saber, se queres sentir a todo o gás.
há sempre alguém pra te dizer
se vais cair pra te travar e adormecer.
antes do dia, antes da luta, eu sei-te ver.
antes da noite te sarar eu vou saber,
antes da chuva te romper e te lavar,
há um sítio onde a estrada te deixou
por onde tens que ir
se te queres libertar.
 e tudo o que for por bem,
tudo o que der razão pelo ponto vai ligar.
tudo te vai unir,
tudo se faz canção,
no caminho de voltar, no caminho de voltar.
 há sempre paz noutro lugar, entre nuvens,
um sítio onde podes perceber que há sempre alguém para te ver,
em segredo, te descobrir e renovar, e renovar.
te descobrir e renovar.
te descobrir e renovar.
te descobrir e renovar.

(Tiago Bettencourt)

22 dezembro 2012

20 coisas que eu quero que o meu filho saiba até ao Natal

#11



(CLICAR NA IMAGEM PARA LER)


*
Do maravilhoso livro (como todos) da Editora Planeta Tangerina: "Coração de Mãe" escrito por Isabel Minhós Martins e ilustrado por Bernardo Carvalho.

21 dezembro 2012

20 coisas que eu quero que o meu filho saiba até ao Natal

#10


O Tiago desde muito cedo que adormece sozinho, no seu quarto, acompanhado de alguns peluches e do candeeiro aceso. Já aconteceu por diversas vezes ir espreitá-lo, uma hora depois, e ele estar deitado, a olhar para o teto, mas sossegadinho, lá com os seus pensamentos.

Nas noites mais complicadas chama-me algumas vezes e há muito tempo que lhe digo isto:
"O segredo para adormecer é fechar os olhos e pensar em coisas boas".
Ele acha sempre graça e desmente o meu truque infalível com “Não é nada, Mãe”.
Mas eu acho que ele, a seguir, põe em prática o meu plano.

Nos últimos anos arranjei um outro truque só meu, não para a hora de deitar mas sim para aquele instante em que, a custo, empurro as pernas para fora da cama.
Nesse instante murmuro sempre, para mim, que algo maravilhoso pode acontecer naquele dia.
E não é que, de quando em vez, acontece mesmo?

Partindo daquele pressuposto de que pensamentos bons atraem coisas boas e que pensamentos maus atraem coisas piores, não há impulso matinal mais positivo do que imaginar que aquele pode ser “o” dia, que mais tarde, quando ali voltarmos para dormir, tudo pode estar diferente, tudo pode estar ainda melhor.

É isso que vou ensinar agora ao Tiago, o truque da manhã que diz:





* Acredita sempre que algo maravilhoso está prestes a acontecer