28 dezembro 2012

20 coisas que eu quero que o meu filho
saiba até ao Natal até ao final do ano

#12





há sempre um sítio pra fugir, se queres saber
um sítio onde podes descansar.
há sempre alguém pra te agarrar,
pra te esconder.
se vais cair eu vou-te ver antes da dança,
antes da fuga, eu sei-te ver.
antes do tempo te mudar eu vou saber,
antes da névoa te vestir e te levar,
há um sítio onde o escuro não chegou pra onde podes ir,
um rio pra libertar.
 há sempre alguém pra te salvar,
se queres saber, se queres sentir a todo o gás.
há sempre alguém pra te dizer
se vais cair pra te travar e adormecer.
antes do dia, antes da luta, eu sei-te ver.
antes da noite te sarar eu vou saber,
antes da chuva te romper e te lavar,
há um sítio onde a estrada te deixou
por onde tens que ir
se te queres libertar.
 e tudo o que for por bem,
tudo o que der razão pelo ponto vai ligar.
tudo te vai unir,
tudo se faz canção,
no caminho de voltar, no caminho de voltar.
 há sempre paz noutro lugar, entre nuvens,
um sítio onde podes perceber que há sempre alguém para te ver,
em segredo, te descobrir e renovar, e renovar.
te descobrir e renovar.
te descobrir e renovar.
te descobrir e renovar.

(Tiago Bettencourt)

22 dezembro 2012

20 coisas que eu quero que o meu filho saiba até ao Natal

#11



(CLICAR NA IMAGEM PARA LER)


*
Do maravilhoso livro (como todos) da Editora Planeta Tangerina: "Coração de Mãe" escrito por Isabel Minhós Martins e ilustrado por Bernardo Carvalho.

21 dezembro 2012

20 coisas que eu quero que o meu filho saiba até ao Natal

#10


O Tiago desde muito cedo que adormece sozinho, no seu quarto, acompanhado de alguns peluches e do candeeiro aceso. Já aconteceu por diversas vezes ir espreitá-lo, uma hora depois, e ele estar deitado, a olhar para o teto, mas sossegadinho, lá com os seus pensamentos.

Nas noites mais complicadas chama-me algumas vezes e há muito tempo que lhe digo isto:
"O segredo para adormecer é fechar os olhos e pensar em coisas boas".
Ele acha sempre graça e desmente o meu truque infalível com “Não é nada, Mãe”.
Mas eu acho que ele, a seguir, põe em prática o meu plano.

Nos últimos anos arranjei um outro truque só meu, não para a hora de deitar mas sim para aquele instante em que, a custo, empurro as pernas para fora da cama.
Nesse instante murmuro sempre, para mim, que algo maravilhoso pode acontecer naquele dia.
E não é que, de quando em vez, acontece mesmo?

Partindo daquele pressuposto de que pensamentos bons atraem coisas boas e que pensamentos maus atraem coisas piores, não há impulso matinal mais positivo do que imaginar que aquele pode ser “o” dia, que mais tarde, quando ali voltarmos para dormir, tudo pode estar diferente, tudo pode estar ainda melhor.

É isso que vou ensinar agora ao Tiago, o truque da manhã que diz:





* Acredita sempre que algo maravilhoso está prestes a acontecer

20 dezembro 2012

20 coisas que eu quero que o meu filho saiba até ao Natal

#9

Ontem, depois da reunião de final do trimestre do Tiago - com boas notas e bons prenúncios para o resto do ano - fui até uma Instituição de Solidariedade Social passar algum tempo com as crianças, numa iniciativa natalícia que se espera repetida por 2013 adiante.

As crianças, as instalações, as pessoas, nada têm a ver com a escola onde o Tiago anda: escassos 4 ou 5 quilómetros de distância conseguem transformar-se em centenas em diferenças sociais e culturais.
Há na mesma cidade escolas diferentes para crianças que se querem iguais.

Ali, crianças que mal completaram uma dezena de anos de vida, rodeiam as suas conversas de considerações adultas e tudo o que dizem começa e acaba em conotações sexuais, sobre as façanhas da escola ou a orientação dos colegas. A desvalorização do ser criança é algo que, ultimamente, me tem ocupado o pensamento, em coisas que vejo, que ouço, que sinto. Cada vez as crianças são crianças menos tempo e deixam de o ser mais cedo, num apressar do tempo que não volta mesmo. Como se, para elas, ser criança fosse uma ofensa, fosse um desprestígio.

O Tiago, hoje, não sabe o que é ser g-a-i (como ontem soletrava uma das crianças da escola a que fui, apontando o dedo a um menino do lado), mas com certeza saberá em breve. E, conviva-se bem ou mal com isso, usar uma etiqueta para colar no rosto dos outros não deverá ser a melhor das resoluções futuras.
O Tiago, hoje, também não usa a palavra “sexo” em todos os contextos (numa tentativa triste de parecerem o que não são, dentro de corpos pequenos que se agigantam perante a palavra), como vi ontem, naquelas crianças, mas pode vir a usar.

A inocência que vejo diariamente no Tiago – uma autêntica criança de 7 anos como tantas que conheço da escola dele – contrasta com o diálogo malicioso e provocador dos meninos que ontem conheci. Os mesmos que nunca saberão o tempo maravilhoso que perderam imbuídos no melhor que tem a ingenuidade, o “não saber”, o estar simplesmente a ser e a viver como criança. E tudo isso não volta mesmo: o tempo, a inocência, a liberdade, bens vitais que não deviam estar vincados a um bairro, a uma família, a uma escola.

O Tiago, fã convicto desde sempre da história do Peter Pan, entenderá, mais tarde, porque não queria ele crescer, quando recordar com saudade o tempo em que foi criança, em que viveu como criança, em que foi simplesmente pequeno. Todos nós, adultos, perante as contas, as dificuldades, os atritos, as dores de cabeça da rotina, o entendemos também.
Eu, mãe do Tiago, tudo faço para lhe prolongar a infância. Eu, enquanto estranha naquela escola de ontem, apenas posso sorrir enquanto juntos fazemos jardinagem ou jogamos às cartas. E sei que este “apenas” pode ser bastante, pode ser quase tudo. Para que um dia também eles entendam melhor o segredo do Peter Pan.





* Agora entendes porque o Peter Pan não queria crescer.

19 dezembro 2012

20 coisas que eu quero que o meu filho saiba até ao Natal

#8

O Tiago levanta-se de manhã com os meus beijinhos e festinhas no rosto e abre os olhos quando começo a tirar-lhe as calças do pijama, por debaixo do edredão.
Até à hora da saída, sempre a correr para chegar a horas à escola, há banho para tomar, o cabelo para secar, a roupa para vestir, o leite para beber e as bolachas para trincar, num pequeno-almoço apressado a imitar o da Mãe.
Pasmado a olhar para a televisão, o Tiago calça os sapatos, come, procura o casaco e, depois, arrasta-se para o carro. Eu, mesmo atrás dele, enfio-lhe cada manga do casaco em seu braço, carregando-lhe a mochila, o lanche, o saco do judo, a minha mala, o meu almoço, as chaves do carro, da casa, o telemóvel... e, invariavelmente, quando saio do carro junto à escola, reparo que não levei o meu próprio casaco.

Na escola fico a acenar-lhe e a mandar beijinhos, vendo-o subir as escadas em direção à sala, sempre sorridente. E naqueles escassos segundos de volta ao carro já morro de saudades dele.

Ao final do dia, corro do trabalho para a escola, onde o procuro pelo recreio para depois, os dois, encontrarmos a mochila e o casaco que, habitualmente, não estão juntos no mesmo lugar.
No carro ele pergunta coisas do meu dia e eu pergunto coisas do dele, que diariamente incluem ele já não lembrar o que almoçou e eu ter trabalhado muito.
Em casa, quando eu ainda nem pousei a tralha da manhã agora transformada em tralha da tarde, já ele ligou a televisão e se descalçou, atirando o casaco para cima do sofá e pedindo, de imediato, as bolachas do momento.
Até à hora de ir para a cama o Tiago pede o jantar, quer ajuda – ou companhia - com os trabalhos de casa, quer jogar um jogo ou a palavra-passe no computador, quer uma fruta descascada, maçã ou laranja, pera ou banana, e outra logo que eu acabo de me sentar no sofá, quer saber onde está o comando, quer ficar sempre mais 5 minutos depois da hora combinada.

Na cama, por estes dias, quer a botija de água quente junto aos pés e duas histórias lidas e... devagar.

Antes de o deixar deitado, trocamos muitos abraços e deito uns minutos ao seu lado, mas raras são as noites que, antes de dormir, não pede um copinho de água.

Mais tarde, quando o olho tranquilamente adormecido, rodeado de peluches, passa-me frente aos olhos o dia inteiro, em particular todos os raspanetes, insistências, ordens e repetições da mesma frase.
O meu corpo reclama silêncio, sossego, uns minutos apenas.


Amanhã tudo será igual... ou quase.
Se estou cansada? Não. Apenas morro de saudades quando ele não está.

18 dezembro 2012

20 coisas que eu quero que o meu filho saiba até ao Natal

#7


...
Fazer migalhas de oreos no sofá à chegada da escola
Novo episódio do Boa Sorte Charlie
Um cromo novo quando faltam menos de 10 para acabar a caderneta
Uma ida ao Mac Donald's
Fim de semana de sol em casa dos avós
A primeira ida à praia de um verão
Ganhar no Monopólio
Um brinquedo novo
Brincar com o Pai aos castelos, reis e outros heróis
Dormir cedo com a Mãe
Castanhas assadas
Cantar com a Mãe no carro o cd inteiro do Phineas e do Ferb
Ir jogar futebol para o parque
Massa com peixe
Água com picos
Insufláveis
Duas pastilhas elásticas de seguida
Ir ao cinema
Nadar na piscina
Boas notas nos testes
Festas de anos dos amigos da escola
Nova cor no cinto de judo
Banhos de banheira cheia
...

16 dezembro 2012

Conversas com ele

I

- O que estás a fazer Mãe?
- Estou a escrever num site que a mãe tem para ti.
- A sério?
- Sim, não sabias? A mãe já te tinha dito. A mãe escreve coisas para ti há muito tempo, quando ainda estavas na minha barriga...

Depois de um minuto ou dois de silêncio:

- Mãe, mas como é que escrevias para mim se ainda nem sabias quem eu era?

II

A copiar os enunciados dos problemas de Matemática:

- Tiago, essa letra está horrível e deixa ver... isto está cheio de erros. Roseira é com “o” e falta aqui um acento... e isto também está errado...
- Ó Mãe! Isso não interessa! Isto é Matemática não é Língua Portuguesa.

III

- Tiago, queres que escreva um bilhete ou dás tu o recado ao professor de judo?
- Eu digo...
- Então, diz lá como é que vais dizer. Faz de conta que eu sou o professor de judo...
- Ah! Ah! Ah! Isso era giro! Tu nem cinto branco tens, quanto mais...