28 fevereiro 2006

De 4 em 4


De blog em blog, de resposta em resposta, de passado em passado, esta moda dos desafios ainda nos vai fazendo pensar, recordar, perspectivar... mas, acima de tudo, ajuda-nos a conhecer as vidas alheias e a mostrar um pouco das nossas.

Quatro empregos que já tive na vida (pelo que vi em vários blogs esta pergunta faz parte do original, apesar de quem me passou a ter ignorado):
1. estudante, do Colégio para o liceu e deste para a Universidade;
2. locutora de rádio - que saudades;
3. jornalista, quando ainda alimentava ambições;
4. redactora de textos - o presente.

Quatro filmes que posso ver vezes sem conta:
1. "O clube dos poetas mortos" e choro sempre no grande final;
2. "Aeroplano" e rio sempre com os mesmo pormenores;
3. "Ocean's eleven" e entusiasmo-me sempre com a genialidade do plano;
4. "O casamento do meu melhor amigo" e tenho sempre esperança que a Julia Roberts case com ele no final.

Quatro sítios onde vivi:
1. Na minha terra, onde será sempre a minha casa;
2. Numa residência universitária feminina (Lisboa) - um ano apenas e milhares de histórias;
3. Na zona do Marquês de Pombal (Lisboa), sete anos a dividir tudo com 6 amigas e como costumo repetir "há casamentos que não duram tanto";
4. A minha casinha das bonecas, numa das mais típicas zonas de Lisboa, onde sou feliz com o meu marido e o meu bebé.

Quatro séries televisivas que não perco:
1. "O sexo e a cidade" e ainda estou para perceber que encontrei eu de mim na vida daquelas quatro malucas;
2. "Morangos com açúcar" - posso perder de quando em vez, porque a TVI repete muitas e vastas vezes;
3. "Beverly Hills" - bons tempos;
4. "Britcom" - quando era aos sábados à noite: venha que série vier vale sempre a pena.

Quatro sítios onde estive de férias:
1. Palma de Maiorca, deixa cá ver... sim é isso: 5 vezes que já lá estive e volto sempre com a mesma alegria;
2. Costa Nova: as ondas enormes, o vento, os dias em que a bandeira estava verde, os hambúrgueres do bar da praia, a bolacha americana, a companhia. Recordações felizes;
3. O Algarve, não sou grande apreciadora mas português que se preze já passou férias no sul;
4. Outros Verões, outras viagens: Bélgica aos 14 anos, Malta aos 15, Inglaterra aos 17, Brasil em 2004, etc, etc.

Quatro dos meus pratos preferidos:
1. Lasanha e quase tudo o que faz parte da comida italiana;
2. Bacalhau de mil maneiras;
3. Arroz com atum - complicadíssimo mas uma iguaria;
4. Mousse de chocolate, para qualquer ocasião.

Quatro Websites que visito diariamente:
1. Os blogs dos meus amigos, conhecidos e de alguns desconhecidos também;
2. Os meus mails;
3. O SAPO, para saber coisas do mundo, em poucas palavras;
4. O GOOGLE - há sempre qualquer coisa para pesquisar.

Quatro sítios onde gostaria de estar agora:
1. Num qualquer resort, junto à piscina, com um livro nas mãos, ultrapassada a viagem de ida de avião e com a de regresso bem distante;
2. Num concerto, na plateia de um teatro ou até sentada no cinema - porque tenho saudades;
3. Sentada numa mesa de uma pastelaria, porque estou a ficar com fome;
4. Em casa, sentada no sofá à média luz, vendo o meu bebé dormir, ou seja, onde estou agora. E está-se aqui bem!

Quatro bloggers que desafio a fazer este questionário:
1. Blueangel, que está sempre pronta a dizer que sim;
2. Formiguinha, que tem sempre qualquer coisa a dizer;
3. Fadista, a ver se anima o blog;
4. E, claro, o meu Beguinho - pensavas que escapavas?

24 fevereiro 2006

O momento deles




Soa a chave na porta e o "bac" que a fecha adivinha mudanças no rosto do Tigy. Chega o pai e há um sorriso aberto e profundo que lhe inunda a cara, chegando a arranhar a garganta e a fazer rugas nas bochechas. Os olhos ficam pequeninos e rasgados e os gritinhos de alegria ecoam na sala. O pai, de rosto condizente, abraça-o e beija-o, solta gritinhos semelhantes e enceta um rol de teatrinhos e mimos.
Eu, no canto do sofá, disfarço algum embevecimento ao assistir aquele momento, fingindo-me distraída ou mesmo ausente. Aquele é o momento deles. O meu é, talvez, aquele em que o trago no carro no fim de mais um dia; aquele em que entramos em casa e a encontramos de janela fechada e cheia de silêncio; aquele em que nos sentamos no sofá e, mesmo sem ele pedir, nos abrigamos, muito juntos - enquanto o Tigy mama, eu redescubro os traços do seu perfil e o desenho das suas mãos. Naquele instante, o dia passado assemelha-se gigante e há um misto de saudade e nostalgia que intensifica o sossego e o aperto do colo.

Ali, no momento que é só deles, há uma magia especial feita de cumplicidade, entregas e recompensas. O Tigy do pai não quer leite, nem abraços de silêncio; quer antes canções e gargalhadas, danças e passeios pela casa, voos e conversas. Em troca, tem para ele, aquele sorriso enorme, aberto por uma alegria sincera, que me humedece os olhos e me faz sair, despercebidamente.

Ouve-se a chave. E enquanto a porta não fecha, reolho o bebé atento ao ruído. Está prestes a começar o tal momento. O deles.

15 fevereiro 2006

O desafio das manias


O desafio chega de muitos lados e, depois de pensar variadas vezes que não conseguiria responder porque nem tenho manias, cheguei à conclusão que andava enganada a meu respeito. Depois de uma noite de insónias, com tosse à mistura, consegui encontrar, em mim, muitas mais do que cinco manias das esquisitas. Ficam as melhores. E as regras:

"Cada bloguista participante tem de enunciar cinco manias suas, hábitos muito pessoais que os diferenciem do comum dos mortais. E além de dar ao público conhecimento dessas particularidades, tem de escolher cinco outros bloguistas para entrarem, igualmente, no jogo, não se esquecendo de deixar nos respectivos blogues aviso do "recrutamento". Ademais, cada participante deve reproduzir este "regulamento" no seu blogue."

Tenho a mania de...

ler sempre a última frase de um livro novo

ler revistas e jornais de trás para a frente

ter saudades do que foi e não volta a ser

analisar minuciosamente a colher de café antes de a colocar na chávena

inventar jogos complicados, cheio de regras que só eu entendo, para jogar na cama quando não consigo adormecer

Desafio...

o meu Beguinho, que conhece bem as minhas manias;

a Formiguinha, que também tem das dela;

o Heartbreaker, cujas manias davam um livro cómico-trágico;

a SombrArredia, porque as suas manias me fascinam;

e a Anacrónios, que quero conhecer melhor.

Desafio cumprido, passo o testemunho.

14 fevereiro 2006

Vice-versa


O meu bebé teve dores de barriga, vómitos e falta de apetite. Passados uns dias, a mãe sofreu do mesmo mal.
O meu bebé tem febre, tosse, dores de garganta e nariz entupido. A mãe está em casa a convalescer de igual doença.
A maternidade é ainda isto: as minhas doenças também são as tuas, e vice-versa.

04 fevereiro 2006

Sabores do regresso


À minha Mãe,
porque há coisas que não se agradecem


A palavra regresso sempre teve, para mim, um sabor açucarado. Da minha boca já saiu inúmeras vezes a frase: "Gosto muito de viajar, mas adoro regressar a casa." Agora, regressada ao trabalho, conheci o outro lado de uma mesma palavra, um lado mais cinzento, feito de um sabor mais azedo.

O fim de um tempo sem exemplo preencheu-se com alguns sustos e muitos imprevistos. Ao cabo de cinco meses, o Tigy adoeceu. Uma virose comum, diz a pediatra, composta de febre, diarreia e vómitos. Tudo misturado com constipação e dentes a nascer. Um estado que se estendeu aos restantes membros da família, eu incluída, e que agitou os meus últimos dias por casa. A algumas horas de um primeiro dia de trabalho, de um regresso, de uma obrigação, o veredicto de que não havia creche até passarem todos os sintomas, derrubou uma réstea de optimismo que pairava em mim, por causa do tal regresso.
Soube ali, naquele momento, que não sou tão forte como supõe a palavra "mãe", que não sou tão decidida como supõe a palavra "adulto", mas que sou suficientemente apoiada e acarinhada como supõe a palavra "filha". Obrigada à minha Mãe pela viagem madrugadora, pelos dias ao lado do Tigy e por ter tornado este meu regresso um pouco mais leve, um pouco mais condimentado.

A frase: "0 que não nos mata torna-nos mais fortes" traduz-se, aqui, numa semana complicada, que tornou a transição - entre dias cheios de tempo para dias com falta dele - mais tempestuosa, mas mostrou-me que daqui para a frente assim será: horas de trabalho, horas de regresso a casa, horas de Tigy, horas para os meus refúgios. Ou antes pedaços de horas para um pouco de tudo.
Recomposto, cheio da energia que tem e transborda, o Tigy é agora o meu melhor regresso, quando acaba o trabalho e começa a vida, quando se cumpre a obrigação e começa o prazer.

23 janeiro 2006

A culpa e as desculpas



Há um silêncio na casa que a televisão, a música, a máquina que lava a roupa e os carros que passam na rua, mesmo juntos, não conseguem romper. É um silêncio de solidão, um silêncio de ausência.
Os brinquedos espalhados pelo chão, as mantas de lã dobradas, a cadeira vazia, são marcas de uma saudade, que se reflecte até na inércia dos meus braços e na leveza do meu colo.
Acima de qualquer outro sentimento, hoje fiquei com a culpa. É ela que me segreda o quão é injusto não o ter aqui, o quanto é penoso não saber que pensará ele desta distância, feita da minha ausência. Fixada nas horas, remoendo justificações e obrigações, fico eu neste vazio de um dia tão comprido e frio.

Entre a porta da creche e o carro, seguro-o com força nos meus braços e digo-lhe, muitas vezes, ao ouvido: "Desculpa". Mas que desculpas são estas que se repetem, que não se evitam e que, especialmente hoje, apenas carregam a minha tristeza?

18 janeiro 2006

Hoje falo de mim


Gosto de gostar e gosto de quem gosta de mim. Não gosto de fazer de conta, de parecer bem e não gosto ainda de mostrar que gosto do que não gosto. Gosto mesmo é de repetir que “não gosto de fazer fretes”.

Gosto de livros, de cadernos, de revistas e até de folhas em branco. Gosto de escrever, de acreditar que ainda sei como fazê-lo. Não gosto de conversas inacabadas, de histórias redondas, de frases cortadas por silêncios de receio. Gosto de criticar. Não gosto que me digam que estou sempre a criticar.

Gosto de coisas simples: de bolachas molhadas em café, de bolo de chocolate recheado com chocolate e coberto de chocolate. Gosto de arroz com atum, de coca-cola (muito, muito) e de refeições no sofá em frente à televisão. Tenho pena de não gostar de leite, de receitas inovadoras e de gastronomia elaborada. Mas, no fundo, não tenho pena nenhuma.

Não gosto de pessoas invejosas e muito menos das que vivem ao ritmo das vidas dos outros. Gosto de pessoas cheias de histórias, de ideias, de talentos, de mistérios. Não gosto é de quem diz gostar de toda a gente. Não gosto de perder as minhas pessoas. Gosto da minha família. Gosto dos meus cães. Mas não gosto da distância, dos quilómetros. Não. Não gosto mesmo.

Gosto de estar em casa. De ficar em casa. De permanecer em casa. Não gosto de limpar a casa. De arrumar a casa. Mas do que eu não gosto mesmo é da casa suja, é da casa desarrumada. Gosto de andar de carro. Gosto quando a rádio dá uma música diferente. Não gosto de filas, de estacionar longe, de pôr gasolina.

Gosto de música com palavras. Mas palavras cheias de sentido. Não gosto de grande parte dos grupos e cantores que aqueles da minha idade gostam. Normalmente nem sei quem são. Gosto é da Mafalda Veiga e da Mariza; da Adriana Calcanhotto e da Marisa Monte. Gosto mais de música no feminino. Não sei é porquê.

Gosto de gente da televisão. Adoro actores, actrizes, realizadores, encenadores. Não gosto de lembrar que não sou um deles. Não gosto de maus actores, de maus textos, de maus finais. Mas gosto de palcos, de câmaras, de microfones. E gostava de um dia andar por aí.

Gosto daquelas coisas que todos gostam de dizer que não gostam: telenovelas, baladas do momento, centros comerciais. Gosto realmente é de dias de chuva, de tardes escuras à lareira, de manhãs na cama, de casacos e camisolas de gola alta. Gosto de lembrar quando gostava de ir à praia. E gosto de frisar: verão, areia, bikini e mar não me fazem falta nenhuma. Ou quase.

Não gosto de deixar tanto por dizer. Gosto de ter gostos. De duvidar deles. De os contrariar. De os ver mudar com a idade, com as surpresas dos dias, com a rotina, comigo. Não gosto de desgostos. Mas gosto de saber que foram os maiores desgostos da minha vida que me deram todo este gosto de viver.

Gosto de ser mãe.
E basta dizer isso para dizer quase tudo sobre mim.

12 janeiro 2006

O corredor


O corredor é longo e recto. Parece desenhado de propósito, para que a "Sala dos Bebés" fique no seu final e as mamãs, de coração apertado e garganta seca, possam testar os seus próprios limites: cada manhã conseguem ir mais além sem virar a cabeça para trás... cada dia está lá, mais ao longe, o bebé ao colo da educadora. Cada dia mais longe.

Cumprida quase uma semana de creche o Tigy, segundo uma das educadoras, tem fortes probabilidades de passar de ano. Eu, a mãe, confesso que fiquei feliz com tal prognóstico e, por instantes, até esqueci como tem sido estranho andar na rua, entrar nas lojas, conduzir, estacionar, sem a companhia dele.

Na noite anterior ao primeiro dia dormi pouco e mal. Sentia-me mais ansiosa do que triste, talvez mais curiosa do que medrosa... No meio das insónias, revivi as noites mal dormidas de quando era criança e, no dia a seguir, havia vacinas ou análises. Qual menina com medo da agulha, levei a tralha, o marido, o bebé e aquelas duas primeiras horas do Tigy na creche foram compridas e insossas. À medida que se sucedem os dias, sinto o tempo a voltar ao ritmo certo, a ameaçar travar nos cinco minutos que me separam de casa à creche e a saltar incontroladamente quando voltamos, os dois, para a nossa sala, para as nossas coisas, para o nosso Refúgio de Felicidade.

Sim. Tem corrido bem. Ele come a sopa toda. Não tem ficado a gritar. Não o tenho encontrado a chorar. Sim. Tem corrido bem. Vem com a fralda lavada. Vejo-o receber beijinhos. A sala está quente. As pessoas são simpáticas. Sim. É verdade. Tem corrido mesmo bem. Mas trocava este "bem" por mais uns dias da vida que tínhamos.

05 janeiro 2006

Sobra amanhã


Amanhã é o nosso último dia juntos, a sós. O último da nossa rotina destes meses, desde que nos conhecemos. Uma rotina que contruímos à escala do nosso conhecimento, ao pulsar do teu crescimento, à medida das minhas próprias rotinas. Amanhã termina um ciclo que teve tanto de bonito como de feliz e é por isso que custa encerrá-lo.
Não quero descrever de que banalidades terei saudades... do nosso acordar a partilhar a cama, dos meus almoços de queijo, banana e goibada e das cólicas que tiveste depois, da ginástica que fazes com os braços e as pernas mesmo quando estás prestes a adormecer, dos primeiros sorrisos, das actuais gargalhadas, da chegada do carteiro, das idas ao supermercado, à lavandaria, à farmácia, aos correios, da hora dos Morangos com Açúcar e das danças ao colo ao som dos DZRT, da chegada do pai... não. Não quero lembrar. Terei muito tempo para isso. Na próxima semana. Na seguinte. Nas outras todas também.
Sei que estes foram dos meses mais bem passados que tive, quem sabe que terei... Sei que ter-te, trazer-te, descobrir-te, tem sido uma experiência saboreada e intensa. Sei que dentro dos nossos dias um pouco iguais existiram sempre momentos singulares, feito do inesperado da tua presença. Sei que nada mudará no que sinto por ti, sei que nada mudará no que sentes por mim... Só não sei como é que te vou deixar lá sem ficar também...