04 fevereiro 2006

Sabores do regresso


À minha Mãe,
porque há coisas que não se agradecem


A palavra regresso sempre teve, para mim, um sabor açucarado. Da minha boca já saiu inúmeras vezes a frase: "Gosto muito de viajar, mas adoro regressar a casa." Agora, regressada ao trabalho, conheci o outro lado de uma mesma palavra, um lado mais cinzento, feito de um sabor mais azedo.

O fim de um tempo sem exemplo preencheu-se com alguns sustos e muitos imprevistos. Ao cabo de cinco meses, o Tigy adoeceu. Uma virose comum, diz a pediatra, composta de febre, diarreia e vómitos. Tudo misturado com constipação e dentes a nascer. Um estado que se estendeu aos restantes membros da família, eu incluída, e que agitou os meus últimos dias por casa. A algumas horas de um primeiro dia de trabalho, de um regresso, de uma obrigação, o veredicto de que não havia creche até passarem todos os sintomas, derrubou uma réstea de optimismo que pairava em mim, por causa do tal regresso.
Soube ali, naquele momento, que não sou tão forte como supõe a palavra "mãe", que não sou tão decidida como supõe a palavra "adulto", mas que sou suficientemente apoiada e acarinhada como supõe a palavra "filha". Obrigada à minha Mãe pela viagem madrugadora, pelos dias ao lado do Tigy e por ter tornado este meu regresso um pouco mais leve, um pouco mais condimentado.

A frase: "0 que não nos mata torna-nos mais fortes" traduz-se, aqui, numa semana complicada, que tornou a transição - entre dias cheios de tempo para dias com falta dele - mais tempestuosa, mas mostrou-me que daqui para a frente assim será: horas de trabalho, horas de regresso a casa, horas de Tigy, horas para os meus refúgios. Ou antes pedaços de horas para um pouco de tudo.
Recomposto, cheio da energia que tem e transborda, o Tigy é agora o meu melhor regresso, quando acaba o trabalho e começa a vida, quando se cumpre a obrigação e começa o prazer.

23 janeiro 2006

A culpa e as desculpas



Há um silêncio na casa que a televisão, a música, a máquina que lava a roupa e os carros que passam na rua, mesmo juntos, não conseguem romper. É um silêncio de solidão, um silêncio de ausência.
Os brinquedos espalhados pelo chão, as mantas de lã dobradas, a cadeira vazia, são marcas de uma saudade, que se reflecte até na inércia dos meus braços e na leveza do meu colo.
Acima de qualquer outro sentimento, hoje fiquei com a culpa. É ela que me segreda o quão é injusto não o ter aqui, o quanto é penoso não saber que pensará ele desta distância, feita da minha ausência. Fixada nas horas, remoendo justificações e obrigações, fico eu neste vazio de um dia tão comprido e frio.

Entre a porta da creche e o carro, seguro-o com força nos meus braços e digo-lhe, muitas vezes, ao ouvido: "Desculpa". Mas que desculpas são estas que se repetem, que não se evitam e que, especialmente hoje, apenas carregam a minha tristeza?

18 janeiro 2006

Hoje falo de mim


Gosto de gostar e gosto de quem gosta de mim. Não gosto de fazer de conta, de parecer bem e não gosto ainda de mostrar que gosto do que não gosto. Gosto mesmo é de repetir que “não gosto de fazer fretes”.

Gosto de livros, de cadernos, de revistas e até de folhas em branco. Gosto de escrever, de acreditar que ainda sei como fazê-lo. Não gosto de conversas inacabadas, de histórias redondas, de frases cortadas por silêncios de receio. Gosto de criticar. Não gosto que me digam que estou sempre a criticar.

Gosto de coisas simples: de bolachas molhadas em café, de bolo de chocolate recheado com chocolate e coberto de chocolate. Gosto de arroz com atum, de coca-cola (muito, muito) e de refeições no sofá em frente à televisão. Tenho pena de não gostar de leite, de receitas inovadoras e de gastronomia elaborada. Mas, no fundo, não tenho pena nenhuma.

Não gosto de pessoas invejosas e muito menos das que vivem ao ritmo das vidas dos outros. Gosto de pessoas cheias de histórias, de ideias, de talentos, de mistérios. Não gosto é de quem diz gostar de toda a gente. Não gosto de perder as minhas pessoas. Gosto da minha família. Gosto dos meus cães. Mas não gosto da distância, dos quilómetros. Não. Não gosto mesmo.

Gosto de estar em casa. De ficar em casa. De permanecer em casa. Não gosto de limpar a casa. De arrumar a casa. Mas do que eu não gosto mesmo é da casa suja, é da casa desarrumada. Gosto de andar de carro. Gosto quando a rádio dá uma música diferente. Não gosto de filas, de estacionar longe, de pôr gasolina.

Gosto de música com palavras. Mas palavras cheias de sentido. Não gosto de grande parte dos grupos e cantores que aqueles da minha idade gostam. Normalmente nem sei quem são. Gosto é da Mafalda Veiga e da Mariza; da Adriana Calcanhotto e da Marisa Monte. Gosto mais de música no feminino. Não sei é porquê.

Gosto de gente da televisão. Adoro actores, actrizes, realizadores, encenadores. Não gosto de lembrar que não sou um deles. Não gosto de maus actores, de maus textos, de maus finais. Mas gosto de palcos, de câmaras, de microfones. E gostava de um dia andar por aí.

Gosto daquelas coisas que todos gostam de dizer que não gostam: telenovelas, baladas do momento, centros comerciais. Gosto realmente é de dias de chuva, de tardes escuras à lareira, de manhãs na cama, de casacos e camisolas de gola alta. Gosto de lembrar quando gostava de ir à praia. E gosto de frisar: verão, areia, bikini e mar não me fazem falta nenhuma. Ou quase.

Não gosto de deixar tanto por dizer. Gosto de ter gostos. De duvidar deles. De os contrariar. De os ver mudar com a idade, com as surpresas dos dias, com a rotina, comigo. Não gosto de desgostos. Mas gosto de saber que foram os maiores desgostos da minha vida que me deram todo este gosto de viver.

Gosto de ser mãe.
E basta dizer isso para dizer quase tudo sobre mim.

12 janeiro 2006

O corredor


O corredor é longo e recto. Parece desenhado de propósito, para que a "Sala dos Bebés" fique no seu final e as mamãs, de coração apertado e garganta seca, possam testar os seus próprios limites: cada manhã conseguem ir mais além sem virar a cabeça para trás... cada dia está lá, mais ao longe, o bebé ao colo da educadora. Cada dia mais longe.

Cumprida quase uma semana de creche o Tigy, segundo uma das educadoras, tem fortes probabilidades de passar de ano. Eu, a mãe, confesso que fiquei feliz com tal prognóstico e, por instantes, até esqueci como tem sido estranho andar na rua, entrar nas lojas, conduzir, estacionar, sem a companhia dele.

Na noite anterior ao primeiro dia dormi pouco e mal. Sentia-me mais ansiosa do que triste, talvez mais curiosa do que medrosa... No meio das insónias, revivi as noites mal dormidas de quando era criança e, no dia a seguir, havia vacinas ou análises. Qual menina com medo da agulha, levei a tralha, o marido, o bebé e aquelas duas primeiras horas do Tigy na creche foram compridas e insossas. À medida que se sucedem os dias, sinto o tempo a voltar ao ritmo certo, a ameaçar travar nos cinco minutos que me separam de casa à creche e a saltar incontroladamente quando voltamos, os dois, para a nossa sala, para as nossas coisas, para o nosso Refúgio de Felicidade.

Sim. Tem corrido bem. Ele come a sopa toda. Não tem ficado a gritar. Não o tenho encontrado a chorar. Sim. Tem corrido bem. Vem com a fralda lavada. Vejo-o receber beijinhos. A sala está quente. As pessoas são simpáticas. Sim. É verdade. Tem corrido mesmo bem. Mas trocava este "bem" por mais uns dias da vida que tínhamos.

05 janeiro 2006

Sobra amanhã


Amanhã é o nosso último dia juntos, a sós. O último da nossa rotina destes meses, desde que nos conhecemos. Uma rotina que contruímos à escala do nosso conhecimento, ao pulsar do teu crescimento, à medida das minhas próprias rotinas. Amanhã termina um ciclo que teve tanto de bonito como de feliz e é por isso que custa encerrá-lo.
Não quero descrever de que banalidades terei saudades... do nosso acordar a partilhar a cama, dos meus almoços de queijo, banana e goibada e das cólicas que tiveste depois, da ginástica que fazes com os braços e as pernas mesmo quando estás prestes a adormecer, dos primeiros sorrisos, das actuais gargalhadas, da chegada do carteiro, das idas ao supermercado, à lavandaria, à farmácia, aos correios, da hora dos Morangos com Açúcar e das danças ao colo ao som dos DZRT, da chegada do pai... não. Não quero lembrar. Terei muito tempo para isso. Na próxima semana. Na seguinte. Nas outras todas também.
Sei que estes foram dos meses mais bem passados que tive, quem sabe que terei... Sei que ter-te, trazer-te, descobrir-te, tem sido uma experiência saboreada e intensa. Sei que dentro dos nossos dias um pouco iguais existiram sempre momentos singulares, feito do inesperado da tua presença. Sei que nada mudará no que sinto por ti, sei que nada mudará no que sentes por mim... Só não sei como é que te vou deixar lá sem ficar também...

31 dezembro 2005

Um ano CHEIO


Último dia do ano. Bebé ainda dorme. Marido perdido entre fumo, jornais e canais de notícias da tv. Bom momento para ouvir o Chico Buarque e para pensar em 2005!

Há anos assim em que acontece tudo e em que, às páginas tantas, nem sabemos bem do que gostámos mais, do que queremos eternizar, do que nos marcou definitivamente... e apetece viver tudo outra vez.

O ano começou com um formigueiro na barriga que fez tremer, que fez desabar tudo o que são prioridades e planos, tudo o que são metas e etapas... e, no fim, nada disso tinha qualquer importância! O formigueiro chama-se Tiago e veio revolucionar, por completo, o que eu era e o que queria para mim. Várias pessoas me diziam que só se sabe o que é amar depois de ter um filho. Eu duvidei. Eu angustiei-me por não ter sentido um-não-sei-o-quê novo logo na primeira noite de maternidade. Eu assustei-me quando dei por isto dentro do peito, que se alastra pela cabeça, pelos ouvidos, pela boca, pelas pernas, pelas mãos... pelo corpo todo. E confesso: é um amor que sufoca por ser tão grande, por se querer ser tão perfeito e estar tão junto que acaba a doer!

2005 era o meu ano de noiva. Mas de noiva passei a grávida, de grávida a recém-casada, de recém-casada a mãe! No meio de tanto título acabei por não saber bem como fiquei eu... a Beguinha do Beguinho, a filhinha dos papás, a mana mais nova da mana melhor do mundo, a colega dos colegas, a amiga dos amigos. Sei-o agora. Ao terminar o ano. O meu ano. Fiquei melhor, mais completa, mais terra-a-terra, mais apaixonada, mais feliz!

Um ano assim é uma vida inteira em 12 meses. E, a partir de agora, até parece que tudo o que importa aconteceu em 2005. Com uma barriga a crescer, com um casamento fresquinho, com uma barriga vazia e um bebé no colo, com um filho a crescer, com a vida a ganhar novas rotinas - 2005 fez-se de surpresas, fez-se de felicitações, fez-se de pessoas. Pessoas como o Beguinho que é perfeito todos os dias em todos os papéis, como os pais que me dão provas todos os dias do tal sentimento diferente que têm com eles, por também terem filhos, dos amigos que todos os dias querem saber notícias, estar presentes, ser parte de tudo e da mana que esteve comigo em cada dia deste ano tão grande.

Este não pode ser o ano de ninguém, porque ganhei o Tigy, porque ganho o Beguinho constantemente, porque ganho provas de todos os lados, como se elas fossem precisas... Mas se este pudesse ser o ano de alguém seria o ano dela, da minha mana, da minha melhor amiga.

Para 2006 não preciso de um ano tão cheio, não preciso de um ano tão bom... preciso das minhas pessoas e do meu bebé feliz!

22 dezembro 2005

Querido Super Pai Natal



Este ano não te peço nada para mim. Mas peço-te muito para o meu bebé.
Sei que vai ter imensas prendas, vindas da família e dos amigos... Nós - os pais - tivemos até algumas dificuldades em escolher presentes para ele...
Sei que vai ficar com o roupeiro a abarrotar de roupa nova, para não ter de sair à rua despido e reclamar do frio.
Sei que os brinquedos novos vão ser muitos e variados, cheios de músicas repetitivas, de muitas cores e formatos.
Sei que vai receber objectos úteis e outros que nem por isso, sei que vai adormecer a meio do desembrulhar das prendas e sei, também, que não irá saber que é o verdadeiro rei deste Natal.
Entre tantas prendas, o que te peço, a ti Super Pai Natal, é que o meu bebé seja sempre feliz, tenha sempre saúde e um sorriso para mim. E em Natal nenhum te pedi um presente tão valioso!

16 dezembro 2005

Um instante qualquer


Quando não se encontram as palavras do que está por dizer,
quando não se desata o fio dos pensamentos,
quando fica silêncio entre os sons de palavras baralhadas...
Mas - mesmo assim - se quer deixar por escrito
essa turbulência das ideias, procuram-se as frases dos outros,
como neste "INSTANTE" de Sophia de Mello Breyner Andresen.

«Deixai-me limpo
O ar dos quartos
E liso
O branco das paredes
Deixai-me com as coisas
Fundadas no silêncio»


... no dia dos 4 meses do meu Tigy...

08 dezembro 2005

À Distância


Às vezes o mundo parece ainda maior, ainda mais injusto, ainda mais angustiante.
Às vezes a vida ganha traços mais trágicos, mais duros, mais tristes.
Porque as rotinas de uns são a dor de outros. Porque as nossas alegrias não chegam para atenuar as diferenças. Porque as tristezas são sempre deles, dos outros, da distância, da indiferença.

AQUI, nestas simples imagens, estão terríveis verdades, que teimamos em ignorar, em afastar dos nossos dias, dos nossos hábitos, dos nossos Natais! Contra mim falo.